Abílio Pinto da Cruz centra a sua partilha de memória no desporto nacional, em particular no andebol angolano no período pós-independência. Atleta internacional de andebol, jogou no Futebol Clube do Porto nos últimos anos do império português, fruto do seu empenho e das oportunidades proporcionadas pelo desporto escolar no período colonial.
Naquela época, a educação física incentivava a valorização da prática desportiva e a integração obrigatória nos escoteiros ou na Mocidade Portuguesa, permitindo a participação em campeonatos escolares. Alguns alunos realizaram actividades no exterior do país. No seu caso, foi enviado para Portugal para praticar desporto federado e frequentar o ensino propedêutico.
Após a independência, regressou ao país e integrou a primeira selecção nacional de andebol, defendendo títulos com o patriotismo característico dos primórdios da independência. Recorda as amizades e a camaradagem entre adversários desportivos e destaca jogadores marcantes como Paulo Gunze, Fragata e o saudoso Dinis, mais velho, mas do mesmo clube europeu.
Relata ainda como escapou ao serviço militar obrigatório da época e a forma como os desportistas eram protegidos. Poderia ter seguido a carreira de piloto, mas já trabalhava na aviação civil. Optou pela carreira profissional aeronáutica quando a idade já não permitia continuar na formação de atletas. Foi treinador das primeiras jogadoras de andebol ainda no período colonial e aponta Palmira Barbosa como a guardiã do andebol feminino, destacando o seu humanismo e simplicidade.
Introdução
Eu sou o Abílio Pinto da Cruz, no mundo do desporto todos me conhecem como Bilha. tive uma carreira desportista antes da independência e terminou muito anos depois da independência. No desporto fui atleta, treinador e dirigente.
Aproveitando as minhas capacidades técnicas e desportivas tive a felicidade de ir para Portugal estudar e jogar. Como tinha estudado até ao 6º Ano no Colégio dos Maristas, em Luanda, aproveitei para fazer o Propedêutico em Portugal. Foi o meu primeiro objectivo para vir jogar no Futebol Clube do Porto. A intenção era jogar futebol, eu era menor de idade, a minha tia estava no Porto foi lá onde estudei.
25 de Abril,1974
Saíamos de uma visita de estudo e alguém disse-nos “em Lisboa havia um problema muito grande, as pessoas estão a oferecer cravos vermelhos aos militares e eles parecem muito zangados”. Fiquei mais à vontade quando alguém explicou a situação. Para nós era algo inédito ouvirmos falar de um golpe de estado e nem sequer tínhamos noção do que era um golpe de estado.
Independência, 11 Novembro 1975
Eu passei o período da independência em Portugal a estudar o Ano Propedêutico e a minha mãe e outros familiares acharam que eu deveria terminar essa parte da minha vida acadêmica. Passei o dia 11 de Novembro em uma actividade do partido comunista português, em uma célula. Depois do 25 de Abril membros do PCP iam lavando a nossa memória ensinando-nos princípios comunistas, entusiasmados, acabamos por participar em algumas actividades.
Ouvi falar pela primeira vez no MPLA em uma actividade realizada no Palácio de Cristal no dia 1 de Maio, hoje chamasse Rosa Mota. Na realidade foi um comício realizado alguns dias depois do 25 de Abril. António Jacinto disse “ estou aqui, represento o Movimento Popular de Libertação de Angola -M.P.L.A., o partido veio pedir a independência imediata e completa”, foi uma grande admiração. Foram bons tempos porque eu tinha grande atividade estudantil e acadêmica.
O Andebol em Angola
Depois, nós tínhamos de pensar em voltar para Angola. Voltei, morava no Bairro Azul em Luanda e neste bairro mesmo no período colonial havia uma forte actividade desportiva, principalmente no Andebol. Encontrei o andebol bem organizado, aqueles jovens aproveitaram todo o movimento desportivo estudantil que já havia no período colonial, como os jogos inter escolas e continuaram a fazer esse processo.
Também, depois da independência, não havia muito coisa para se fazer, era uma oportunidade para os jovens praticarem desporto e moralizar a sociedade, saberem notícias uns dos outros e todos sob controle porque se sabia onde cada um estava.
Mas, quando eu voltei encontrei os mesmo métodos de treinamento antes da independência porque os próprios treinadores eram inteligentes e seguiam alguns métodos. Quando eu cheguei a Portugal o FCP já tinha um jogador jugoslavo, o melhor da Europa na época, o Buldizer, e eu convivi muito com ele porque eu era alto e calçava o mesmo número que ele , calçava quarenta e seis e as botas que tinham de comprar para ele também compravam para mim e senti-me privilegiado estar a ser comparado a ele por usarmos botas iguais. Quando cheguei a Angola trouxe a experiência da Técnica da Atracção, usada em Angola até hoje. Era um sistema de treinamento diferente e eu me tornei treinador e criamos o sistema Atração. Os treinadores que ainda encontrei em Angola usavam a técnica Dois Contra Um e eu trouxe esta técnica que resumidamente “o mesmo jogador ao atacar atraia dois jogadores”. Foi uma inovação.
O Torneio Fidel Castro
No entretanto, conseguimos movimentar toda a província de Luanda e organizamos o 1º Torneio Nacional de Andebol depois da independência e o meu clube acabou por vencer o torneio. Eram os Jovens da Samba, nome dado aos antigos belenenses, o torneio Fidel Castro deu uma maior visibilidade ao andebol logo a seguir à independência, porque o andebol era praticado no asfalto e na periferia e o torneio deu oportunidade ao início do entrosamento e divulgação da prática de andebol.
Festival Mundial da Juventude e Estudantes em Espanha
Logo a seguir, houve o Festival Mundial da Juventude e Estudantes em Espanha e fomos convidados a participar. Algo marcante na minha vida enquanto jovem angolano depois da independência foi que apesar de sermos jogadores de andebol mandaram-nos fazer um estágio de formação política. Os cubanos tinham terminado de construir escolas e fomos para uma daquelas escolas. Foi um facto engraçado. As trezentas pessoas que iriam representar Angola eram maioritariamente do sector da cultura. Às seis da manhã tínhamos de acordar, íamos treinar e no regresso às sete horas, tínhamos de nos enfileirar, eram 15 filas, cada uma com 15 pessoas. O treinamento político era dado por comissários políticos, jovens dinamizadores. Sem megafone chegava a cada fila e dizia “ Estamos aqui , esta é a ala dos desportistas, a dos músicos, a dos cantores. para representar Angola e vamos ao festival por esta razão”, e ele repetia aquilo de cinco em cinco filas, ficavam enfileirados cerca de uma hora, com frio, mosquitos e com fome. Mas o brio patriotico incentivava-nos.
A maioria dos desportistas residiam na cidade e eram chamados para qualquer actividade, mas na maioria das vezes não jogamos, era para outras actividades, quer dizer, havia uma actividade cultural e chamavam os desportistas. A maioria das pessoas não sabia o que ia fazer naquelas actividades. Naquela época, nós tínhamos na equipa elementos principiantes em inglês e francês e por isso convinha participar nas actividades no exterior do país.
Torneio em Cuba, Havana
Havia as festas e o que acontecia? As seis da manhã recebíamos uma notícia “ vocês hoje tem jogo contra uma seleção de Cuba”, vindos de uma grande festa, tínhamos dançado a noite toda, espantados com a notícia. dissemos “ não há problema, os cubanos também não sabem jogar andebol, vamos comer e depois seguimos para o local do jogo”. Entretanto, colocaram-nos no SINDER (Instituto Desportivo Revolucionário) em Havana. Olhamos para aqueles estádios, era tudo bem organizado. Os atletas eram de alta competição, encontramos pessoas mais altas do que nós, extremamente musculosas, olhávamos para eles pensando serem halterofilistas ou praticantes de boxe . De repente, fomos para o campo e chegaram aqueles atletas. Cuba estava muito mais evoluída, como era a primeira vez a jogarmos fora de Angola, nem imaginamos o nível desportivo de Cuba!
Jogos Universitários, Quénia
Logo a seguir, tivemos a primeira participação de Angola nos Jogos Universitários, foi no Quénia, em Angola não havia desporto universitário, os alunos todos foram representar Angola neste campeonato. E por vezes, antes do início do jogo eles queriam fazer uma troca de informação, mas nós apenas falamos francês aprendido na escola, acabamos por participar somente nos jogos.
Outra situação caricata, foi a festa de independência do Quénia, convidaram-nos a uma gala e comparecemos vestidos com os fatos de treino e eles estavam trajados a rigor, sentimo-nos mal, ficamos em um canto e acabamos por estar apenas quatro atletas.
Jogos da África Central, Camarões
A vida desportiva tinha situações em que os dirigentes eram sábios por serem antigos praticantes, viajavam com os dirigentes, mas não falavam nenhuma língua internacional. Os jogos da África Central nos Camarões falar francês foi um elemento importante para se organizar a nossa participação, na época não havia relações diplomáticas entre os dois países. A TAAG fez uma escala em Camarões com destino a São Tomé e Príncipe.
Chegamos e não havia condições de hospedagem, o hotel estava em construção, pagamos adiantado para comprarem colchões de palha e material de construção. Acabamos por permanecer em Yaoundé mais vinte e dois dias por falta de voo, os atletas deles regressaram às aulas e cederam o lugar onde estavam alojados. Aproveitamos para aprender mais palavras em francês.
Verificamos que os camaroneses eram independentes há muito tempo, mas viviam zonas sem asfalto, isolados, sem meios, e íamos comentando, até ao dia em que o motorista para o autocarro e pergunta-nos:
- voces são de onde?
- somos de Angola
- onde fica?
- mas vocês estão em guerra?
- sim
- são independentes há pouco tempo
- sim, há quatro anos
- Então, vamos ter essa conversa dentro de quinze anos, venham ter essa conversa comigo.
Hoje não vale a pena falarmos mais, dentro de quinze anos venham a fazer as mesmas perguntas!
Como não tinhamos condições de alojamento, estávamos todos muito zangados com aquele dirigente. No primeiro jogo, a equipa camaronesa fez claque a favor de Angola, no intervalo o dirigente “já viram o trabalho que eu fiz”, acreditamos ter sido trabalho dele, não era verdade foi porque a outra equipa era a rival.
O Desporto e a Amizade
A camaradagem estava acima de tudo, todos continuam a ser meus amigos, chegando a ter relações de compadrio. Ainda mantenho contacto com elementos da primeiras delegações com quem joguei no Quênia, Camarões e Cuba, continuo a relacionar-me com essas pessoas. As redes sociais vieram incentivar.
O desporto foi uma fase boa na minha vida, de descobrimento, passamos a ver África de outra maneira e como também viajávamos para os países do leste, fomos conhecendo uma outra parte do mundo. Este conhecimento também trazia incertezas, não havia liberdade, não se podia abrir a boca nos países comunistas, não se fazia perguntas e quando pensamos que alguém nos pudesse responder, por serem mais velhos e saberem, diziam-nos “ não fala política, fala de desporto”. Não havia ninguém que nos ensinasse. que desse explicações sobre certos fenômenos com que nos íamos deparando, das outras sociedades.
Outra questão, eram as ajudas de custo, eram ínfimas, cerca de 10-15 USD dólares por dia e havia o hábito de trazer recordações para os familiares, vizinhos e amigos. Trazíamos pequenas lembranças para todos e bens como aparelhos de música. Éramos felizes com muito pouco!
Depois, começou haver uma melhor organização do desporto nacional, mas esta época coincidiu com a guerra, fazendo com que os jogos e os treinamentos mudassem de ritmo. Mas, os residentes nas cidades não foram afectados grandemente.
Havia vantagens quando fossemos jogar no interior. Na casa do desportista comíamos todos os dias peixe frito com arroz. Nos últimos dias diziam que iria chegar um boi do Sumbe, nunca chegou e por isso disseram-nos que iríamos ter uma refeição especial, ao invés de ser peixe frito com arroz, era peixe frito com massa. Perguntavam se queríamos repetir? Sim, mas era apenas arroz ou massa, sem peixe.
Era um espírito de bairrista profundo. No airro Azul organizamos o campeonato de bairro e este era quase tão forte como o campeonato nacional porque a nata do andebol residia maioritariamente neste bairro de Luanda.
A Aeronáutica
O desporto deu-me a oportunidade de conhecer países, sua cultura e apreender outras formas de pensamento e acima de tudo ganhar a paixão pela aeronáutica. Ia muito ao aeroporto apenas para ver o aeroporto e os aviões. Anos depois, a SONANGOL criou a oportunidade de formação em França. Fui o melhor classificado para este projecto e depois não me deixaram porque já frequentava o curso de controlador de tráfego aéreo. Aquele trabalho representava uma vantagem para não se alistar ao exército, tinha o argumento que podia ser desportista e trabalhar neste ramo da aeronáutica. O clube desportivo atesta a minha requisição de atleta de competição e o serviço fazia o mesmo. Foi a tática para não vestir a farda, conciliar o desporto, a vida profissional e momento sócio político do país.
A certa altura, alguém no Ministério do Interior comunicou a intenção de ser criada uma equipa de andebol femenino e convidou-me para ser o treinador. Foi uma fase engraçada , porque viramos treinadores sem curso. Comprávamos livros, líamos e colocamos em prática, éramos os antigos jogadores, fomos tentando transmitir.
Mais tarde, decidi refriar a dedicação ao andebol, havia forte competição e aproximava-se dos trinta anos de idade, era o momento de optar por uma das duas carreiras, ou a aeronáutica ou o desporto. Estava a ser difícil, havia uma rápida expansão da aeronáutica, era uma enorme oportunidade, mas a formação era feita no exterior e isto muitas vezes baralhava o sistema de treinamento.
O Desporto e a Pátria
Por outro lado, tentei baixar o meu ímpeto, mas depois colegas, amigos e treinadores incentivaram-me a jogar com mais pujança. Dei o meu melhor nos últimos seis anos e aos trinta e seis anos terminei a minha carreira profissional como treinador e campeão nacional pelo Inter Clube.
Quer dizer, neste último ano a Direcção da Federação não desejava que nós voltássemos a ganhar. Então, arranjaram argumentos que o nosso clube tinha um jogador mal inscrito e durante o processo de verificação conclui-se que todos os jogadores estavam mal inscritos. Ficamos aborrecidos porque esse jogador jogou apenas quatro minutos, estávamos a ganhar e era para ele “molhar a camisola”, foi o meu último campeonato!
Tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, até hoje os meus melhores amigos estiveram ligados ao andebol. Dentro do campo éramos adversários, acabava o jogo, éramos amigos, e somos amigos. Temos grupos do início do andebol, falamos, brincamos e convivemos.
O desporto fez com que levássemos a nossa bandeira. Aprendemos a cantar o hino nacional com toda a força e patriotismo. Quando o cantávamos, nós chorávamos e perguntavam-nos, vocês são assim tão patriotas? Era a época da revolução socialista, éramos muito jovens.
E também era uma satisfação às nossas famílias por estarmos na selecção era uma enorme alegria os colegas de serviço dos nossos familiares saberem disto. Uma vez o meu tio disse-me “ tens de ir visitar-me ao meu trabalho para saberem que eu também tenho um sobrinho na selecção de Angola”. Neste dia, quando o fui visitar, fizeram uma festa para me receber.
Era uma altura em que todos nós nos conhecíamos, apesar de não haver os meios de comunicação que há hoje e nem a visibilidade que se dá hoje aos desportistas, todos por “boca a boca” se sabia quem era quem e era uma honra estar na selecção nacional e acima de tudo éramos valorizados pela sociedade!
Expansão do Andebol, 1992
Depois, com a melhor organização e com mais clubes, principalmente após a primeira eleição, houve a expansão a nível nacional do andebol e começou também a expansão do andebol femenino. Nesta época, fui dirigente e consegui criar uma equipa que conseguir ter todas atletas na selecção nacional, criamos competitividade. Foram anos gloriosos, de muito trabalho. Ainda hoje, somos todos amigos, criamos grupos no whatsapp e conversamos quase todos os dias. Frequentemente encontro antigos atletas, é sempre gratificante.
A importância das Casas de Desportistas
Realmente ainda fui do tempo da velha casa desportista. Eu estive alojado na Casa de Desportista no período Colonial, éramos da Mocidade Portuguesa e quando houvesse jogos interescolares ficávamos todos o estágio na Casa Desportista de Luanda (CD).
A nova fase foi construída logo a seguir à independência por ocasião dos Jogos da África Austral em Luanda. Não há dúvidas que as condições da nova CD eram melhores, também fomos muitas vezes alojados na Casa Desportista do Lubango, bem gerida onde se comia melhor.
As pessoas que geriam a CD não tinham conhecimento. Os gerentes eram responsáveis mas não tinham prática de gestão destas unidades desportivas. Passamos por muitas dificuldades alimentares, a alimentação não era adequada. Comparando as casas de desportistas nos países do leste como na Roménia e Bulgária. Víamos as condições dos atletas naqueles países, as calorias eram controladas. Os desportistas angolano , nós enchemos o prato e eles tinham as calorias marcadas, eram atletas de alta competição, alguns campeões mundiais. Foi uma pena, as casas de desportista, depois não tiverem a qualidade necessária, percebiam que era a falta de gestão hoteleira desportiva.
Mais tarde, fomos ouvindo falar de um processo de privatização, foi um processo dúbio, era uma instituição estatal, gerida por uma entidade privada. até hoje não sei bem como ocorreu o processo, mas já não serve o desporto. Fui dirigente pelo menos até dez anos atrás e não conseguimos estagiar naquele local por não haver condições para os desportistas.
Certa vez o Professor Vitorino Cunha falava sobre a forma de contornar a alimentação dos desportistas, havia carência alimentar e Angolana somou vitórias em basquetebol e andebol?
Entramos para o andebol africano numa altura em que o desporto africano entrava em declínio, havia o desinvestimento naqueles países porquê? Porque o futebol tornou-se uma arma política. Os governos investiram quase tudo no futebol, esse desporto dava visibilidade e foi nesta altura que começámos a competir internacionalmente com vantagem. Começamos a receber treinadores de países que estavam a um nível de competição mundial elevado, vindos de Cuba e da União Soviética, RDA e da Bulgária e isto veio dar novos conceitos de treinamento. Recordo-me de um treinador bulgaro, treinador da seleção e do clube. A sua primeira acção foi medir o índice de massa corporal dos atletas e nós não tínhamos a noção desses índices, os movimentos, a estrutura dos braços, começaram a fazer medições e fomos um mês para o Dundo fazer um estágio baseado na alimentação porque a ENDIAMA oferece boas condições alimentares. Fomos para lá para comer para atingirmos individualmente a sua massa corporal. Foi quando os professores Mário Palma e Vitorino Cunha e os estrangeiros começaram a verificar estes factores para melhorar a massa muscular dos atletas.Os jogadores de basquete foram enviados a estagiar nos EUA com base em um convênio e regressaram com uma estrutura física mais sólida. Também tivemos a mesma situação com um treinador da RDA.
Outra vantagem era que por serem estrangeiros, quando vinham treinar os atletas tinham comida e bastava ser o treinador angolano responsável os atletas tinham de compreender a qualidade inapropriada da alimentação, portanto também havia essa dicotomia. Por isso, é que nós os atletas muitas vezes tínhamos preferência pelos treinadores estrangeiros porque a alimentação era mais apropriada, não que os treinadores nacionais não tivessem igual competência ou até fossem melhores, mas era uma questão de termos uma melhor alimentação. As condições de trabalho apareciam sempre que o treinador fosse estrangeiro. As condições de trabalho e de treino eram melhoradas, por exemplo haver autocarro para nos levarem aos treinos, o campo de treinamento já era limpo, os balneários melhoravam e quando fosse com os treinadores angolanos as condições mudaram, não havia a mesma vontade de oferecer condições idênticas e como eram angolanos, eram mentalizados “estamos a sofrer todos, então vamos aguentar”. Isto aconteceu e tornou-se uma cultura que foi sendo incutida aos atletas e as equipas.
Mas, também há outro aspecto, nós como atletas comparando a RDA, observamos que os atletas da RDA tinham sempre a sua tabela de alimentação quando fossem fazer as refeições ” olhavam para a tabela e apenas comiam o que devia lá estar escrito”; nós não conhecíamos estas regras básicas, enchemos os pratos, nunca me irei esquecer de um episódio caricato: a primeira vez em que fomos a RDA chegamos a noite, tínhamos comido apenas no voo, não jantamos e acordamos cedo para tomar o pequeno almoço, havia um buffet repleto e as calorias estavam escritas. Era a primeira vez, não comemos tão bem há muitos anos, enchemos os pratos de tal maneira que não conseguimos acabar. E como era um sistema de self service tínhamos de arrumar os pratos e deitamos enormes quantidades de comida para o lixo e aconteceu o inédito, o balde naquele dia encheu e de repente formou-se uma fila de atletas para limparem os pratos e arrumá-los. Nós não percebemos uma palavra de alemão e a responsável veio falar connosco e nós dissemos ao intérprete:
- nós não percebemos nada do que a senhora nós diz
e ele traduziu
- limpem o prato com uma papel e arrumem ali o prato
- mas, o balde está cheio
e a senhora exclama:
- isto não é possível, trabalho há anos aqui e isto nunca aconteceu e vem confirmar o que tinha ouvido.
Eu nunca me esqueci da palavra kartoffel e todo o pessoal do andebol que lá esteve, o significado de batata em alemão, apenas percebíamos uma palavra “kartoffel, kartoffel”, ela dizia que o balde do lixo estava cheio de batatas.
Nós não estávamos habituados a comer batatas ao pequeno almoço e fomos deitando para o balde e eles serviam exatamente aquele que tinham de comer. Era aquela ânsia pela comida. Hoje os nossos atletas têm este conhecimento. As atletas no andebol não apresentam condições de excesso de peso, elas têm incentivos, algumas jogam fora do país, são bem pagas, economicamente estão equilibradas. Tem um bom ritmo, são profissionais e por conseguinte têm o controle da alimentação. A selecção de andebol tem conquistado medalhas , sobretudo em África. Nunca ninguém nos tinha ensinado como comer.
Quando cheguei ao Futebol Clube do Porto fizeram testes e análises parecia que iria dar baixa em uma unidade hospitalar. A partir daquela data eu comia o que eles ditavam. Na escola onde eu estudava havia o refeitório e eu só comia alguns pratos.
Nos últimos vinte anos é que os atletas angolanos foram adquirindo esta cultura. Até a dez anos geralmente comiam todos os alimentos. Tudo passa pela gestão desportiva, ter formação e treinamento desportivo. recordo-me do treinador paulo roberto, foi treinador do 1º de Agosto, ele recorria a psicologia desportiva, fazia os jogadores acreditarem, também admiro o treinador Vellasco pela capacidade de mentalizar os atletas a tornaram-se melhor e obteve bons resultados com a psicologia desportiva. O desporto é uma área do desenvolvimento desportivo, os atletas têm de ser bem formados e os gestores devem conhecer as razões do nível de cada atleta. Portanto, se nós tivermos formadores bem formados e haver uma linha desportiva determinada o que acontecerá? observei uma extraordinária jogadora moçambicana a fazer a refeição, ela apontou a sua alimentação e perguntava a composição dos alimentos, não sei se os nosso atletas já alcançaram este nível.
Factos Marcantes – Lendas do Andebol Angolano
Eu tive oportunidade de fazer boas amizades porque também sou de trato fácil. Tenho duas pessoas com quem gostei de conviver por serem amigas e desafiantes. Uma delas foi o Paulo Gunze, fomos muito amigos e nunca jogamos no mesmo clube. Jogavamos juntos quando eu fosse reforçar o 1º de Agosto, eu joguei no Interclube ou na selecção. O Paulo Gunze era uma pessoa com um coração enorme, apesar de ser um extraordinário jogador de futebol como todos os seus amigos jogavam andebol ele deixou de jogar futebol e foi jogar andebol e mesmo na selecção de andebol comentava-se que ele deveria jogar futebol. o meu caso é semelhante, era jogador de basquetebol, mas como os meus amigos jogavam andebol mudei de desporto.
A outra, é o Cuco Velasco, quer como jogador quer com o treinador é sempre um motivador. Mesmo quando ficasse na bancada, dos dezasseis jogadores, apenas doze podiam estar no campo, e por vezes acontecia a ele e dali ele mobiliza o público, é um incentivador.
Uma terceira pessoa, que foi muito perspicaz no andebol, de trato fácil é o Joaquim Cunha “Inguila”, era o capitão da equipa, sempre disponível, sempre atento às várias situações. Era um pouco mais velho em relação aos outros jogadores, ele percebia o problema de cada um e tentava sempre orientar.
Nós tivemos sempre pessoas que marcaram e elas abriram sempre o caminho para os outros.
No andebol femenino, a Palmira Barbosa, para além de ser uma jogadora extraordinária, tem um sentido humano muito elevado.
Também, convivi desde tenra idade com o Maló, o Fernando Maló que para além de ser um jogador extraordinário era um jogador desafiador, estava sempre a desafiar. Por exemplo, chegava ao lado de mim e dizia-me “ oh Bilha eu faço essa finta melhor que tu”. e chegava ao lado de outro e dizia “ eu jogo melhor que tu”, estava sempre a desafiar-nos.
É muito difícil muitas vezes distinguir os atletas, ao invés de distingui-los pela parte técnica, eu opto por distingui-los pela influência que eles tiveram e na motivação que traziam. Houve jogadores extraordinários, eu joguei com mais de cem jogadores e fica muito difícil comparar. Eu não vou mais pela parte técnica, mas sim pelo caráter, pela influência e pela motivação.
Mas o maior, com quem quis ter sempre ao lado para jogar foi o Fragata. Ele era um jogador que em nenhum minuto, mesmo na derrota, os jogadores saiam do campo tristes. Ele tinha essa capacidade de perdemos o jogo e sairmos do campo feliz. Ele entrava para o jogo e falava, estava sempre a falar, a gozar com os outros dentro do campo sempre a gozar! Nunca esquecerei da maior dele:
“O 1º de Agosto estava a jogar com o Interclube em um jogo do campeonato nacional, e o 1º de Agosto tinha estado a estagiar na URSS e em outro país do leste durante muito tempo e chegou para o Campeonato Nacional. Entretanto, o treinador daquele clube a um dado momento para desmoralizar a nossa equipa, diz-nos: Bem, agora vamos aplicar o 3-2+1. Nós nunca tínhamos ouvido falar desta estratégia, incluindo o Fragata, e começamos a perguntar que tática é essa, como será isso? Entramos em pânico! Eles tinham chegado do exterior, cheios de charme, com equipamento novo… O Fragata vai para junto do banco do 1º de Agosto e virasse para nós dizendo: Olha, se o 1º de Agosto jogar 3-2+1, nós hoje vamos golear o 1º de Agosto”. Então, o treinador ficou a saber que o tínhamos ouvido e decidiu não aplicar aquela tática.”
Eles não aplicaram a tática e ganhamos o jogo. No andebol há um termo que se usa, “ils sont déjà panique”. Ele tinha sempre a perspicácia de no exacto momento elevar a moral. outra vez vira-se para o árbitro e diz-lhe: este indivíduo está com as mãos sujas e ele não pode sujar o meu equipamento, que custou muito caro” e o jogador adversário deixou de atacar o Fragata devido a esse comentário. Sem dúvida, foi o jogador com o qual tive o maior prazer de estar dentro e fora do campo.
É muito difícil falar de outras pessoas, falo de atletas com quem joguei e convivi de facto com outros, do basquete, tênis e boxe, em jogos universitários onde participam várias modalidades, nós tínhamos mais convívio dentro da nossa modalidade, clube e com os jogadores do mesmo bairro. Mas, foram estes atletas que me marcaram, na fase embrionária no pós independência , em que eram conhecidas.
O desporto escolar era muito forte, jogo de andebol ou de basquete entre escolas, por exemplo entre o Liceu N`Gola Kiluange e o Makarenko, eram jogos tão fortes como os das equipas porque eram os mesmos jogadores dos clubes, os mesmos jogadores das escolas eram o federados, eram jogos fortíssimos! Todos estávamos motivados, estávamos todos envolvidos, até houve casamentos.
Havia guerra e as dificuldades inerentes, mas havia algo que nos motivava, que nos levantava, que nos dava a vontade de irmos para o campo, irmos trabalhar, encontrarmo-nos, essa camaradagem foi muito boa e nesse sentido a independência criou esta união e motivação. Tivemos uma maior identidade.
Tivemos a oportunidade de conhecer o campeonato africano, desconhecido no período colonial, viajamos por muitos países africanos e do leste, jogamos em Cuba.
A prática do desporto era obrigatória, elitista, havia clubes constituídos apenas por angolanos, a massificação do desporto foi um ganho depois da independência. Qual a influência do desaparecimento da cadeira de educação física do sistema de educação?
Uma das maiores diferenças entre a prática do desporto no período colonial e no pós independência foi a massificação desportiva. Eu recordo-me que aos oito anos estudava na escola sete e tínhamos educação física na quarta feira à tarde e aos sábados. Nesta idade comecei a praticar mini basquete e participava no campeonato dos Bambis, os dos 8-9 anos pertenciam ao escalão dos Galos, Estes dois escalões permitiam aos alunos participarem nestes dois campeonatos, o dos Bambis e o dos Galitos , entre as escolas primárias.
O Ensino e o Desporto
Durante o exame de admissão à escola técnica ou ao liceu fazíamos o exame da 4ª Classe e quem quisesse prosseguir os estudos fazia o Exame de Admissão ao Liceu e caso não passasse fazia o exame para a escola técnica e acedia ao ensino médio escola comercial ou a escola industrial e os finalistas destas escolas faziam o Exame de Admissão para o Ensino Complementar, por um período de dois anos se frequentavam 6º e o 7º ano.
Eu nasci e cresci na baixa, morei na Avenida Marginal, frequentei o Ensino Primário na escola em frente ao actual Governo Provincial de Luanda, na Escola 7. Para quem morava naquela zona da baixa da cidade havia um ou outro africano, recordo sermos cerca de cinco alunos nesta escola, recordo-me dos irmãos Sambo e Craveiro. Nós tínhamos alguns angolanos naquela área.
Quando fui para o Ensino Secundário, estudei nos Maristas e antes frequentei um trimestre no antigo Liceu Salvador Correia. Naquela altura, começava a haver mais estudantes dos bairros periféricos nas escolas do centro de Luanda, lá havia uma comunidade africana considerável, na minha turma éramos cerca de dez por cento.
No Maristas apenas convivi com africanos porque a maioria dos seminaristas eram africanos. Eles praticavam os mesmos desportos, havia muitos treinos, massificação. quer dizer, desde muitos jovens participavam de festivais e campeonatos desportivos. Lembro-me que era muito jovem quando participei no Campeonato em Silva Porto e no Bié, Bailundo, na antiga Vila Teixeira da Silva. Então, havia massificação porque todos alunos e estudantes eram obrigados a praticar desporto. Havia os campeonatos das Escolas Primárias, das Secundárias e para quem frequentava o 4º e 5º ano participava nos campeonatos da Mocidade Portuguesa porque era obrigatório fazer parte da Mocidade Portuguesa. Além da parte desportiva havia a parte lúdica, aprendia-se outras coisas para além do desporto, também fui escoteiro marítimo.
Nessa fase, havia muita massificação que ocupava os nossos tempos livres. Os jovens eram muito dedicados à ocupação de tempo livres e isso evitava que fossemos para a droga e outros males.
E essa acho que essa foi uma das perspectivas do desporto que se perdeu depois da independência, também houve a guerra, as pessoas foram deslocadas para outros sítios, em ambientes nos quais provavelmente não se habituaram. Por exemplo, famílias residentes em vivendas com quintal passaram a residir em prédios. Foi uma mudança radical no sistema.No entanto, quem não fosse para a tropa ia praticar desporto.
O Ensino e o Desporto – Pós Independência
Muito mais tarde, formaram-se os clubes 1º de Agosto ligado ao Ministério da Defesa, o IFGA ligado a Segurança de Estado, o Interclube ligado ao Ministério do Interior, o Petro ligado ao Ministério dos Petróleos, antigo Benfica. Portanto, o Sporting sempre manteve a sua linha. Todos os alunos na Escola Primária praticavam desporto, mas era com menos intensidade, foi diminuindo, devido a falta de equipamento desportivo para treinar.
Recordo a oferta de dois mil patins pela Espanha, os números eram pequenos porque o objectivo era a massificação , houve uma época, as escolas foram adequando os campos ao hóquei e todos os jovens começaram a praticar hóquei. Angola criou a base para a prática do hóquei, formou equipes e uma seleção e tornou-se forte em Hóquei porque os miúdos todos sabiam patinar, foram ganhando a técnica e também foram formados treinadores angolanos. Penso que a classe infantil foi mais privilegiada.
Houve um tempo em que se fazia muita educação física, mais virada aos quadros humanos. O desporto escolar foi perdendo a qualidade porque os campos começaram a ser invadidos. Os balneários foram-se degradando, começou a haver falta de água para se tomar banho depois dos treinos. A prática desportiva foi uma atividade onde sentimos uma quebra enorme. A maioria dos campos em que treinamos não tinham condições para tomarmos banho e também havia dificuldade de água em casa, estas condições enfraqueceram a massificação.
É preciso perceber dois factos. O sistema colonial desportivo estava muito bem estruturado em relação a massificação desportiva. Eles já tinham olheiros e sabiam como ocupar as pessoas e os sistemas eram idênticos.
Na Escola Primária praticamente convivi com os meus colegas por isso nao posso comentar muito mais, mas quando fui para a equipa do Sporting já tinha onze anos, era nos Coqueiros, já éramos cerca de cinco africanos, um morava no bairro Operário, um no Kinaxixe, outro no Bairro Popular e eu na Marginal, isto ainda na época colonial.
No tempo colonial, ainda estudante nos Maristas, eu treinava uma equipa feminina de andebol, a Dra. Lucia Covilhã fez parte desta equipa, era uma excelente jogadora de futebol, ela morava no Bairro Operário. Então, percebia já haver muitos africanos integrados no desporto, sobretudo na faixa 12-13 anos, porque o desporto já não era alimentado somente pelas escolas de cada bairro, havia os dos liceus e das escolas técnicas e percebia haver muitos africanos a praticar desporto. Lembro-me que próximo a Macambira, havia a Escola Técnica Emidio Navarro, eu tinha um primo que vivia naquele bairro e eu visitava-o e reparava haver atletas do Marçal, da Precol e do Bairro Popular estudantes daquela escola
Massificação Desportiva, 1975
Mas depois da independência, percebi não haver massificação, mas os jovens que já tinham praticado desporto tornaram-se treinadores como o Joca, o Maló, o Jeco, o meu irmão Catito que moravam no Bairro Azul e como estudavam no Liceu N`Gola Kiluange mobilizaram aqueles estudantes para a prática do andebol.
Não há dúvida que depois da independência, muitas pessoas estavam deslocadas, com dificuldades de água e de energia, as pessoas chegavam cansadas do trabalho e não iam treinar, quem treinava eram os mais jovens.
Porém, acredito que após a independência houve algo não existente no período colonial, foi a massificação para os quadros humanos. Angola tinha professores cubanos, coreanos e um peruano. Fizemos muitos quadros humanos, as escolas estavam muito motivadas e treinadas. Depois, começou a parte da colectividade, as pessoas tornaram-se mais amigas. Eu recordo quando jogava no período colonial , aos 13-14 anos , apesar de ser o único africano, o Jorge Gonçalves e eu éramos os melhores jogadores. Era difícil saber quem era o melhor, mas eu marcava mais golos, também eu era mais alto, mas ele tecnicamente era muito melhor. E naquela equipa de treze jogadores, eu só lidava com dois ou três porque muitos meninos eram filhos de papais ricos, eles acabavam o treino e tinham um motorista ou levavam-nos logo para casa. E eu não, nós tomávamos banho no clube e ficavamos mais um pouco na escola, apenas fiz amizade com um ou outro que tomava banho no clube.
A minha família depois foi residir no Bairro Azul e não posso falar profundamente das áreas periféricas. Mas, falando no andebol houve uma grande massificação no Bairro Popular e no Bungo devido ao Clube Ferroviário, houve uma grande massificação junto aos moradores daquela zona de Luanda, os moradores do Bairro Operário também “desciam” para o Clube Ferroviário.
Portanto, era uma necessidade que nós tínhamos, muitas vezes íamos treinar porque teríamos uma camisola nova, um par de sapatos e quando recebessem um par de tênis novos para jogar, no dia seguinte calçamos e íamos para a escola era uma “banga”, como dizíamos naquele tempo.
A independência apesar de todas as dificuldades trouxe-nos uma dignidade desportiva. Trouxe-nos mais equilíbrio nas relações sociais, entre nós, entre os angolanos oriundas de famílias mais favorecidas e as desfavorecidas, a conviverem e até entrelaçar-se, o que era muito mais difícil noutros tempos. Recordo-me disso, graças ao meu caráter eu entrei em todas as casas, havia atletas do Sporting cujos pais pertenciam à classe dos mais ricos de Angola, eram situações que eu também fui sempre bem recebido.
Atleta do Futebol Clube do Porto
Quando joguei em Portugal também fui bem recebido, o director era o Pinto Magalhães, proprietário do Banco Pinto Magalhães, o Pinto da Costa era o chefe da secção de hóquei, o Vice Presidente, Reinaldo Teles era o chefe do Andebol.
O Dinis “Brinca na Areia” jogava no Futebol Clube do Porto na altura em que eu jogava andebol. Havia um jogador peruano , o Cubillas , toda a cidade do Porto, quando recebiam o salário faziam depósitos nos bares para contribuírem para o salário desse jogador. Havia um nível de organização nos clubes, toda a cidade para ter aquele jogador no clube depositava dinheiro aqueles cofres, depositavam 1$oo escudo , 2$50 escudos, o mais importante era contribuir, os cofres estavam distribuídos pela cidade e ninguém ia lá tirar ou roubar, geralmente estavam junto aos bares , local onde se discutia mais o futebol.
Eu vi o Dinis jogar, havia um outro jogador africano, o Arcanjo, estava no final da carreira devido a idade. Eu convivi com o filho dele, eu frequentava o sétimo ano e o filho dele no sexto ano, éramos os únicos homens numa escola feminina, no Liceu Carolina Michaelis, éramos os únicos rapazes, um filho de um jogador e um jogador do FCP. No ano seguinte estudei no Liceu António Nobre por ser mais próximo ao campo. Portanto, estive em ambiente que mesmo hostil conseguia posicionar-me e também porque as estruturas preparavam-nos para isso.
Os Clubes Federados e o Desporto Corporativo
E eu penso que em Angola fomos perdendo, as pessoas começaram a deixar de pensar no colectivo, começaram a fechar-se e pensar mais em si e apesar de continuarmos todos amigos, percebemos que a massificação a certa altura entrou em declínio, as escolas não tinham condições.
Nos últimos quatro anos começamos a observar o retorno do desporto escolar, há eventos, por exemplo, neste ano em Malange. Já se consegue organizar campeonatos provinciais, já se consegue fazer jogos escolares em todas as províncias com muita competitividade, porém os atletas depois quando saem do desporto escolar não encontram clubes federados e há uma elite.
Os portugueses no período colonial, um atleta que acabasse a carreira activa de andebol, ou já não tinha nível para jogar, entrava para o campeonato de desporto corporativo, pertencentes a empresas. As várias associações fomentavam o surgimento de um clube, iam as empresas do seu sector verificar onde havia atletas. Normalmente, criaram a sociedade de cimentos, e incentivaram o desporto corporativo, quer dizer, as pessoas mantinham o sistema de “corpo são, mente sã”.
As pessoas mais velhas também jogavam andebol, futebol e outras modalidades, mas era mais um desporto de lazer e acima de tudo uma forma de continuidade da actividade desportiva e isto desapareceu completamente. O que fizemos hoje? Antigos atletas juntam-se em datas comemorativas, por exemplo no dia 20 de Outubro, dia internacional do andebol ,juntamo-nos, treinamos durante duas semanas e realizamos um jogo e voltamos no ano seguinte. Devíamos fazer pelo menos duas vezes por semana, funcionou por um tempo perdeu-se. Há também razões profissionais e culturais.
Em resumo a massificação foi boa, mas a estruturação devia ter sido melhor. Em relação aos quadros humanos praticamente desapareceu. Lembro-me do professor Parra. Havia muitos eventos com a participação das escolas em quadros humanos. São estes aspectos em que devíamos pensar agora que estamos a estruturar a sociedade, pensar no desporto como uma prática humana para toda a vida, que se começa a praticar na infância.
No período colonial a maioria dos angolanos eram indígenas e apenas os assimilados viajam para o exterior, apenas alguns acederam ao ensino universitário. Qual o seu olhar sobre Angola quando regressou no Pós Independência?
Encontrei uma Angola completamente diferente. O primeiro choque foi não haver água em casa. Sai de Angola a tomar banho de chuveiro. Foi quando se começou a construir tanques de água, foi feito um tanque no nosso quintal.
Outra perspectiva, no período colonial como Escoteiro da Marinha participei em um acampamento no Japão. Eu participei em campeonatos dentro de Angola, mas as melhores equipas depois participavam do campeonato entre as colônias. Tive pena de não ter ido a Moçambique porque na época coincidiu com a morte do meu pai, os Maristas tinham ganho o campeonato em Angola. E também havia atletas pertencentes aos cadetes e na época vários atletas foram selecionados para fazerem um estágio em Portugal e dois permaneceram em Portugal e mais tarde participaram em um campeonato na Inglaterra e ainda hoje estão no activo.
Alterações Estruturais no Ensino
Até ao 5º Ano praticamente havia tempo para o desporto. Os liceus tinham o 6º e o 7º ano, e as escolas comerciais e industriais tinham quatro anos, incluindo o Curso de Regente Agrícola em Tchivinguiro. A peneira maior que existia era no 5º ano, havia a duas secções de letras e ciências, se não fizessem as duas secções no mesmo ano estavam na idade da tropa e por conseguinte essas pessoas já não tinham tempo para praticar desporto.
Quem não reprovasse alcançava a patente de furriel e quem não tivesse reprovado tinha que pedir um adiamento. A grande peneira era acabar o 5º ano aos dezasseis anos. No entanto, havia o ano propedêutico, quer dizer já não havia muito tempo para o desporto, ou se fazia o o sétimo ano ainda jovem ou aos dezoito anos tínhamos de começar a trabalhar. Naquela altura, os pais diziam que estudavam à noite e trabalhavam durante o dia para participarmos no sustento familiar.
Depois da independência o ensino foi sofrendo várias alterações. Quando se introduziu o Pré Universitário (PUNIV) foi a transição entre os dois sistemas, o colonial e o pós independência. Eu recebi um pedido para dar aulas, mas como já era controlador de tráfego aéreo não fui dar aulas porque ocupava o resto do tempo na selecção de andebol.
E antigamente, quem trabalhava? Os melhores atletas eram requisitados, o clube requisitava e eu auferia do salário como se estivesse a trabalhar. Hoje não sei se esta protecção aos desportistas ainda existe, a maior parte dos jogadores actualmente são profissionais, não trabalham para terceiros, hoje ninguém chega a uma selecção nacional se não dedicar muito tempo ao treinamento.
Penso que essa relação existe ainda hoje: ou potencializamos as escolas, com condições com bons treinadores, professores de educação física e que sejam também professores de modalidades.
As federações deveriam fazer acordos entre as escolas e os clubes para formar treinadores e seriam os primeiros olheiros para pré selecionar os melhores atletas porque a massificação é caríssima. Eu assisti a tentativa de massificação do 1º de Agosto e viu-se o resultado. Por exemplo, fazer uma pré -seleção entre quinhentos atletas para selecionar dez é caro. Depois, desses dez o clube poderá obter dois jogadores de excelência e se for pré seleção feminina ainda é mais complexo, devido ao risco de gravidez e casamentos, em Angola carreiras foram terminadas por essas razões.
O desporto para ser norteado deve estar nas escolas, com material escolar e terem meios para a prática do desporto.
A Importância da Educação Física
A educação física deve ser generalizada, eu lembro-me que na escola primária nós praticamos todo tipo de ginástica, jogávamos, basquete, handebol, vôlei, nos Maristas tínhamos todos estes desportos. Então, se não tivermos esse incentivo aos professores de educação física será difícil formar atletas porque um atleta com dez anos terá muitas dificuldades, se forem meninas ainda pior porque uma atleta iniciante com seios enfrenta maiores dificuldades para correr.
Desporto com mente sã e corpo saudável, desporto para sempre! O treino em grupo é mais difícil, alguém disse “ desporto é como micro crédito”, as valências devem ser feitas em equipa, se um fraquejar o colectivo pode não ter os melhores resultados, podemos ter uma boa equipa de futebol mas se o marcador falhar as bolas todas , o resultado é o da equipa, fazendo analogia ao microcrédito. O desporto é exactamente isso, desde a infância ao desporto corporativo, não é por caminhar ao fim de semana que se terá mais saúde, não chega! O desporto deve ser uma prática contínua. Se eu for treinar apenas uma vez por semana, terei uma determinada concentração do ácido e começarei a ter dores. É melhor fazer três treinos por semana, e uma forma mais equilibrada e assim teremos saúde e o desporto tem de ser saudável.
Estive no Vietnam em 2004 e fiquei admirado com o número de pessoas há treinarem em equipamentos hidráulicos, vindas do trabalho as pessoas iam caminhando e paravam e faziam desporto, estes equipamentos estavam em sítios estratégicos, para os andantes exercitarem o corpo, vestidos com roupa normal. Na Corimba e próximo ao Aeroporto 4 de fevereiro houve a dimensão do espaço , mas as pessoas praticavam excessivamente, porque esses circuitos são para espairecer e não para fazer musculação.
Os ginásios são caros e as pessoas optam por praticar desportos em sítios inapropriados como nas vias públicas onde há poluição, como nas duas marginais de Luanda, foi feito algum estudo, sobretudo os residentes destas áreas como na Ilha de Luanda?
Sim, também é verdade. Há poluição, deve haver níveis de poluição diferentes. Por acaso fiz essa pergunta a alguém que estava a pintar o chão:
- vocês estão a fazer aqui quadras desportivas onde pode haver despistes?
- queria que fizéssemos essas quadras desportivas onde, tem de ser aqui onde há trânsito e a menor risco das pessoas serem assaltadas, se fosse junto à praia, há escuridão.
Fazer desporto em circuitos de rua é um lazer.
Factos Marcantes
O facto mais marcante da minha vida, foi um dia estarmos à espera do meu pai para nos levar a uma festa e nós estávamos bem lampeiros para irmos a festa da empresa onde o meu pai trabalhava. Ele acordou muito cedo e foi a festa e mais tarde arrependeu-se em não nos ter levado, os filhos dos colegas estavam lá e no caminho a vir nos buscar teve um acidente e morre. Eu era muito jovem, tinha quinze anos, foi um choque muito grande.
O segundo foi ter um filho com necessidades especiais, com a síndrome de William. Foi uma descoberta permanente, foi entrar na mente humana, ler muita psicologia, ser pai, treinador, mestre, quase médico, enfermeiro, psicólogo, psiquiatra. estes foram os dois momentos mais marcantes da minha vida.
Concelhos as novas gerações
Tudo que aprendi foi muito inspirado na oportunidade que fui tendo e eu fui sempre atrás das oportunidades, quis sempre aprender.
E também, nós fomos educados: em respeitar os mais velhos, os professores, os vizinhos o que pertence aos outros e principalmente sobre a solidariedade.
E as novas gerações apresentam déficits e demonstram dois aspectos que nós não tivemos. Apresentam sempre o déficit do ensino de base. E não se limita às novas gerações de angolanos, observo também na Europa, ao longo dos trabalhos que fui fazendo nestes países, por exemplo licenciados em aeronáutica aparentam saber menos.
Angola está muito diferente dos outros países, até de outros países africanos. Comparo ao Senegal por ser um país que conheço muito bem. A Juventude senegalesa tem acesso a um sistema de ensino melhor e a sociedade é muito centrada na família e na educação familiar. Enquanto os nossos jovens correm sem referências e a única referência é o dinheiro, pretendem conseguir a maior quantidade de dinheiro no menor tempo possível porque não tem tempo para esperar por nada. Portanto, eles querem crescer de um dia para outro, não se querem sacrificar para aprender mais. Salvo raras excepções, hoje a maioria dos jovens abaixo dos trinta anos de idade, têm visões diferentes dos jovens do nosso tempo, há alguns casos especiais. Eles são deveras influenciados pela visibilidade imediata. São pessoas que não querem aprender, é verdade que integram uma geração que podiam pagar luvas para transitarem de ano lectivo, isto também fez com que muitas da formação académica ou pessoal. Os pedreiros e outros técnicos cuja profissão requer trabalho físico parecem ter menos pressa, porém aqueles cujas tarefas envolvem meios computadorizados parecem ter mais pressa, será consequência da rápida evolução destes meios de trabalho? Na sociedade angola acredita-se que para se ter um bom salário é preciso ser chefe, então todos querem ser chefes. É difícil dar um conselho diferente a um jovem. Já conheço a resposta de um jovem de trinta anos “vocês pensam diferente por terem cinquenta anos!”. Mas, esta não é a principal razão, porque antigamente o acesso ao telefone era limitado, mesmo para discarmos um número pensamos, hoje eles têm acesso a tudo, a telefones, vêm quem está do outro lado do mundo, tem acesso a toda informação. Na semana passada tive uma formação em Inteligência Artificial e aprendi algo que nem sequer imaginava existir. houve uma demonstração da escrita de um livro em quatro horas, escrito por quatro robots e um sistema de bibliotecas o ser humano e eles escreveram o livro naquele período recorde, incluindo um certificado. Hoje, quer no desporto quer na aeronáutica há necessidade desta inteligência. Então, hoje é muito difícil dizer a um jovem que ele tem de esperar.
Primeiro, a esperança de vida pode estar a aumentar, mas eles têm menos qualidade de vida e por isso querem viver todos os momentos. Conheço jovens na faixa dos 25-30 anos, os jovens não falam sobre livros, eles perguntam-nos se ainda lemos livros. eu perguntei a um licenciado porque ele não lê livro?
- porque essas pessoas que escreveram livros, viveram em momentos…, o que escreveram hoje está ultrapassado, porque eu trabalho em gerência informática e apenas preciso ler manuais. Daqui há quatro meses a um novo sistema e eu preciso de aprender para me actualizar e por isso não tenho tempo para outro gênero de leituras
- mas, você deve ter conhecimento de outras matérias sobre o mundo, sobre a vida, por exemplo, você não se sente alheio quando ouve falar em navios negreiros?
- navios negreiros?
- sim, sobre a escravatura, sobre o período pré independências, há escritas sobre as independências, sobre a história do momento em que viveram
- eu não estou interessado em aprender, apenas tenho interesse em aprender electrónica porque é nesta área em que ganho dinheiro.
Por isso fica muito difícil incentivar os jovens a lerem mais, a terem maior cultura geral. Eu todos os dias leio pelo menos uma hora porque recebo de uma universidade novas matérias sobre navegação aérea. Tenho a tendência de registar a s referências. Agora, comecei a interessar-me pela inteligência artificial.
Este depoimento foi realizado emLisboa, no dia 3 de Dezembro de 2024.
Entrevista, transcrição e revisão: Marinela Cerqueira
Palavras Chaves: Fragata|Paulo Gunze|Lucia Covilhã|Palmira Barbosa|Andebol|Clube Desportivo Universitário de Angola|Casas dos Desportistas| Desporto Escolar|Massificação Desportiva|Educação Fisica|Desporto Universitário|Desporto Federado|Desporto Corporativo



