Sebastião Ventura de Azevedo foi indicado e entrevistado pela Muki Produções para a base de dados História Social de Angola disponibilizar a trajetória de um jornalista, realizador de cinema e da Televisão Pública de Angola. Este Luandense descreve o seu cotidiano, a infância no período colonial e o cotidiano dos jovens luandenses nos dois primeiros anos da independência.
Trata-se de uma transcrição audiovisual, complementada por memória documental.
INTRODUÇÃO
Eu chamo-me Sebastião António Ventura de Azevedo, tenho sessenta e um anos de idade, nasci no dia de 1963, no Rangel, sou jornalista, realizador de cinema e de televisão. também sou escritor. Neste momento dedico-me essencialmente à escrita. Não estou ligado a nenhuma cadeia de televisão ou de rádio e nem a nenhum jornal ou revista. Portanto, sou livre. Eu nasci no Rangel, na rua do Diamantino, uma rua circundante a Estrada da Abrigada. Sou o caçula da minha mãe, ela teve oito filhos.
ENSINO
Na Cabunga fui matriculado na escola da Ginguba; no Bairro Indígena, estudei até a terceira classe; na Escola 283; em 1973/74 fui para outra escola onde estudei a terceira classe.
Em 1974, chegou a revolução de Abril e essa revolução afetou de sobremaneira a vivência em Luanda e de um modo geral em toda Angola. As fábricas foram invadidas também. Portanto, houve um obstáculo geral em quase toda a vida econômica e social do País. Isso afetou de tal modo a educação e o ensino que nós tivemos de fazer provas de recuperação para fazermos a quarta classe.
Eu estudei a quarta classe na Precol. A Precol é uma cooperativa habitacional no Bairro do Rangel. Ali estudei a quarta classe com o falecido professor Zeca, que se formou na URSS,.
Depois, fui estudar no NGola NZinga. Fui aluno da Sara Fialho, agora deputada. Essa professora incentivava os alunos à leitura. Eu acho que me tornei realizador do cinema por gostar de Teatro, de cinema e de mostrar a minha performance aos outros. Nós, enquanto estudávamos a quinta classe, ensaiamos as Aventuras de Ngunga, um livro do escritor Pepetela, não sabendo que um dia haveria de me tornar escritor. Depois, fui para a escola NGola Kiluange onde, por sorte, o professor de língua portuguesa da sétima classe no fim de cada aula ele resumia a lição. Tinha passagens, se posso assim dizer, exóticas para nós naquela altura. Por exemplo a passagem: “ e carne entre carne, ambos emergiram para … “e nós, nos intervalos das aulas perguntávamos: “e carne entre carne…”, como é possível? “carne entre carne emergirem”? Ficávamos ali a tentar explorar o texto.
O PROFESSOR CUBANO LAZARO BÚRIAS, 1987
Depois do Ensino Médio em 1987, eu estava no Laboratório Nacional do Cinema onde fiz o Curso de Cinema e de Vídeo e Televisão. Enquanto estava neste curso fui para o Huambo com um professor cubano de realização, professor Lázaro Búrias.
Este professor apesar de ter vindo de Cuba era um professor muito fora da ideologia de Fidel Castro. Ele trazia argumentos de defesa que em nada se alinhavam com aquela filosofia marxista leninista. nós pensamos que todos os que vinham de Cuba tivessem- porque durante o curso de realização no Laboratório Nacional de Cinema nós fomos cerca de cento e vinte e quatro candidatos, apenas dezasseis foram admitidos para fazer Realização. Eu fiz Realização, Câmera, Cinema e Televisão. Dos dezasseis, apenas passaram quatro alunos, eu, o José António Silvestre, José Trajano Nancova e o David Diogo.
Quando a Perestroika ocorreu na Europa do Leste deu-nos a liberdade que temos hoje. Nós estávamos num regime que nos obrigava a estar limitados àquele regime. Não tínhamos nada. Eu já disse que um professor de realização cubano veio desconstruir aquilo que eu pensava ser a ideologia de quem viesse de Cuba.
Desconstruiu aquela história. Eu dava-lhe a ler o que eu escrevia e nessa altura eu já tinha muita influência mais progressista dos que me circulavam, filosofias que me eram dadas para ver, ouvir e a acreditar. O professor Lázaro Búrias ao me ter aprovado para a candidatura a realizador e camarógrafo, fez com que eu mudasse a minha ideia em relação às pessoas. As pessoas não são aquilo que nós pensamos que elas são. Não são, nunca foram e nunca serão. As pessoas são o que são, ponto. Em 1993, eu fui para a Namíbia e de lá para Johannesburg, África do Sul. Eu fui para emigrar e depois vir buscar a família. Mas, as circunstâncias da vida levaram-me a encontrar-me com Louis Peter, um professor de Cinema e Artes da Universidade de Peter Whats Rand.
Ele dava aulas lá, falava bem português e albergou-me na sua residência. Fiquei lá esses anos todos na África do Sul. Ele também não parava muito ali em Cape Town, ia também a Johannesburg para dar aulas e eu praticamente tomava conta do apartamento. Mas quando ele tinha aulas, levava-me para as aulas dele. Assim tive aulas de Cinema e de Artes Cinematográficas com esse professor. Foi onde pude aprender algo a nível superior, li muitos livros dele e vi muito do que ele escreveu. Não há nada que justifique a minha passagem por aquela Universidade, mas eu frequentei as aulas dele. Ia como um estudante ilegal. Frequentei a biblioteca, lugar onde eu encontrei mais livros de Fernando Pessoa.
FAMÍLIA
Eu sou o caçula da minha mãe. Quando o meu pai encontra a minha mãe ela vinha de uma relação com sete filhos. O meu padrasto foi morto em 1961 porque fazia parte da clandestinidade do MPLA, quero dizer desaparecido. Dizem que ele foi levado da Companhia de Açúcar onde ele trabalhava como motorista de viaturas ligeiras e pesados. Como a minha mãe gostava de sublinhar, ele foi levado para a Fortaleza de São Pedro da Barra.
Muitas das pessoas que lá estiveram foram “levadas”. Eu acredito não terem sido levadas, mas atiradas ao mar porque até agora muitas dessas pessoas com quem o meu falecido padrasto viajou para Luanda foram para a cadeia de São Nicolau no Namibe, mas não o viram lá e, para além dele muita gente também não voltou a ser vista. Sou o oitavo filho da minha mãe.
Em termos de simpatia, não tive do meu pai, porquê? Porque talvez o meu pai nessa altura já tivesse mais duas esposas, a minha mãe foi a terceira esposa do meu pai. O meu pai era policial, ele não tinha muito afeto aos filhos. Que eu saiba, ele teve vinte e um filhos. Segundo as madrastas, minhas irmãs e meus irmãos ainda teve mais dois filhos, no Congo. Ele fez a tropa em Cabinda, mas pulou a fronteira para Ponta Negra. Eu tenho lá uma irmã, ainda nos visitamos. Com os meus outros irmãos, a relação, mesmo com os não filhos da minha mãe, foi sempre muito cordial.
Enquanto o meu pai estava vivo não havia diferença de quem era filho de quem. O meu pai impunha respeito em todos nós, quer fossem seus filhos ou enteados. Naquele tempo, como um bocado agora não temos enteados, não faz muito sentido.
A relação com os meus irmãos é saudável, eu lido bem com todos eles. Não seria genuíno da minha parte dizer que não existem quezílias. É normal existirem entre os irmãos, mas essas quezílias são familiares, são quezílias que passam, até esquecemo-nos, depois de um dia esquecemos que no dia anterior andamos zangados. O que eu quero é que haja mais empatia entre nós. Sei que a vida em si afeta a nossa relação, o trabalho, enfim, mas isso não impede que voltemos a ser aqueles irmãos que nós éramos antes, a ter o mesmo espírito de irmandade e de ajuda mútua entre nós. É isso que eu tenho a desejar que haja entre nós.
BRINCADEIRAS E TEMPOS LIVRES
Durante a minha infância, não tenho muita memória do Rangel, Eu lembro-me no Marçal, de brincar com o capim, fazia cadeiras, mesas e outros bonecos com capim. Lembro-me da minha jante de bicicleta , vinha com um freio, nós dizíamos “frenho”. Eu estava sempre atrás da minha jante, quando me mandassem para a cantina, a tia Maria das cabeçadas, era uma tia amiga da minha mãe. Uma senhora de muito punho lá no Marçal, eu ia sempre com a minha jante a frente. Então depois mudamo-nos do Marçal e fomos para o reordenamento do Rangel. Lembro-me que andávamos com os amigos e íamos para o outro lado da linha férrea para apanharmos piteiras. Íamos com os carros que nós fazíamos de lata e íamos para ali só para brincar, atirar as nossas fisgas, matarmos pássaros.
Naquele tempo, naquela rua, agora Tunga NGó, havia animais, havia lebres, pássaros e pelo menos duas vezes por semana passava bois, vindos da Sapú, não sei para onde e nós chamávamos “Tori, tori”.
Durante a época chuvosa, tínhamos por brincadeira dirigir as pessoas que passavam para ir à Estação do Caminho de Ferro. Quando o comboio chegasse de Malange muitos comerciantes iam com as suas carrinhas. Nós dirigimos os brancos que também moravam naquele bairro, chamávamos eles de”biacos”. Se ali houvesse buraco e ele estivesse a passar por onde não tivesse buracos nós os dirigíamos para o sítio errado, para onde estavam os buracos. E ganhávamos gorjetas. Conseguíamos gorjetas por empurrarmos o carro. Dali saía uma gorjeta. Dividíamos entre nós e íamos comprar uma ngonguenha ou uma gasosa.
Naquele tempo, as gasosas eram champanitos, laranjada, coco, maçã, ou então comprávamos bolo. Havia o bolo rocha e o bolo chapada. Havia o torresmos. Comprávamos ngonguenha com cinco tostões. Quer dizer, o branco tinha a santa paciência ou a diabólica paciência, porque eles vieram para nos aldrabar, de dividir o açúcar. Com cinco tostões ele dividia o açúcar e a farinha. Quer dizer ele dava-nos separado ou junto. Na rua tínhamos o Soeiro. Eu vivia na rua 24, a minha casa era a da ponta e dava para o Soeiro.
Também nessa altura brincávamos de tropa, os mais adultos empossavam os outros. Depois, tínhamos também a brincadeira de jogar , por exemplo ao meco, tu atiras uma pedra de uma ponta para a outra e se ela bate naquela ponta tens pontos. Jogávamos com rolhas de refrigerantes ou de cervejas. Aquecíamos a cortiça para ficar abaulada e fazíamos de jogadores. Também fazíamos com esses jogadores corridas de fórmula 1. Brincávamos também a macaca, ao ficou e ao abeiçate”.
A AVÓ ROSA BOAVENTURA LEMOS
Eu lembro-me da minha avó Rosa, no Marçal. A velha Rosa Boaventura de Lemos, era irmã mais velha da minha falecida avó. Aquela senhora não gostava de ouvir pela rádio a palavra Estado, porque António de Oliveira Salazar. Quando ouvisse essa palavra ela respondia em quimbundo “ nessa terra não há estado, não é dos brancos”. Ela dizia isso para o senhor Carvalho. Ele era branco.
Quem conheceu bem o Marçal, aquele edifício onde está agora a JMPLA era dessa minha avó. Ela vendeu-o a um branco. E ela mandava-me várias vezes à loja do Sr. Carvalho e eu gostava, porque? Porque a minha avó mimava-me de que maneira! Sobretudo nas férias, eu ia com ela à Igreja de Fátima, próximo da Avenida Brasil, mais conhecida por Igreja de São Domingos. E eu lembro-me que aos domingos davam apenas uma hóstia. Tu punhas a língua fora e o padre ou a mãe punha-nos a hóstia na língua.
Mas eu depois, na ora do matabicho, a minha avó punha-nos um monte de hóstias e eu perguntava-me como é possível eu agora ter aqui tantas hóstias para comer se na igreja apenas dão uma? Eu tentava perguntar. Uma vez atrevo-me a perguntar e ela diz-me Dia Ngo, significa “apenas come”. Ela olhava-me e depois dizia só isso.
Com relação a minha infância, a pessoa que mais me influenciou foi a avó Rosa Boaventura de Lemos. Influenciou-me muito porque ela deu-me mostras que ela era rebelde. Ela não gostava dos brancos porque eu vejo na minha personalidade que eu sou um rebelde tanto como era a minha avó. Ela não gostava de restrições. Os brancos naquela altura já estavam na terra deles e eu perguntava-me a mim porquê que a avó não gostava dos brancos? Mais tarde, fui dando resposta às perguntas que eu fazia a mim mesmo.
O EXPLICADOR XICO QUIBELA
No quintal da Avó Rosa viviam inquilinos, pois, para além da casa principal, havia mais espaço e um dos espaços era ocupado por um professor. Penso ser um reformado chamado por Xico Quibela U. Esse senhor andava bem vestido, de fato e gravata e dava explicações. Aquela explicação foi frequentada por muita gente conhecida do Marçal.
Eu ficava a matar as moscas para colocar ali na senda das formigas , e um dia, não havia muito barulho, fiquei ouvindo o ditado da explicação dada pelo tio Xico. Eu ficava ali e um dia destes, havia histórias dos livros, penso da terceira e da quarta classe, havia a história de alguém que apanhou uma carteira com moedas, suspirou e foi devolvê-la. Havia a história dos cães: são galgos, são perdigueiros … e um dia eu gritei e o tio Chico chega a porta e fica olhando-me e eu cabisbaixo. Depois ele pôs-se a rir como quem diz: “seu malandro.”
O meu irmão Nelito já estudava na escola onde estudei, a Cabunga. Acho que ele trouxe o DNA do pai porque na escola, quando chegássemos das festas davam-nos rebuçados e eu lembro-me dele recusar receber oito rebuçados, pois ele só teria direito a receber metade por ser indisciplinado. Mas ele não aceitou receber os oito. a professora, branca ficou vermelha: “como não aceitas?” Eu fui receber e ela disse-me: “Sebastião, vem receber os rebuçados do teu irmão.” Estávamos em 1972, o meu irmão vinha com ideias…. Eu ia sempre com ele apanhar ferragens. Naquele tempo chamávamos a essa atividade “apanhar diolo”. Era essencialmente alumínio. Íamos apanhar bocados de alumínio nas lixeiras para levar ao branco. Ele o pesava e dava-nos algum dinheiro. Mas não fugávamos (fugimos) da escola para fazer o ídolo.
Aos domingos íamos à Igreja de São Domingos, uma igreja para onde ia muita gente aos domingos, porque a igreja de São Domingos era uma igreja que não tinha problema nenhum em apresentar filmes, nem parecia ser um cinema ligado a igreja. Filmes que não passavam em outros cinemas ali eram passados.
Eu seguia o Nelito, mesmo roubando mangas eu ia atrás do Nelito. Ele teve um problema… (risos). Naquele tempos, os três escudos que eu trazia no bolso para naquele dia apanhar o machimbombo para a Petrangol. .. Íamos para a Maria Escraquenha[1] apanhar o 14 (referindo-se ao autocarro nº 14) para a Petrangol, e ele dizia-me: “Sião não gastes esse dinheiro”.
E nós saíamos da Comissão do Rangel, passávamos pela CIPAL, íamos pelo caminho de ferro, onde o comboio faz a curva à esquerda e nós fazíamos à direita para irmos à Petrangol a pé. Eu acho que esses meus pés para além de terem andado atrás da jante da bicicleta com o freio, também andaram muito.
EDUCAÇÃO EM CASA
Dentro de casa, a minha mãe a Luzia Ventura Bartolomeu foi uma excelente mãe porque ela ensinou a todos nós, independente do género tudo que uma pessoa deve saber, todos sabiam o que uma pessoa deve saber, todos elevavam roupa, todos engomavam, escamar o peixe, descascava a batata, não havia discriminação de sexo, de idade tanto é que eu aprendi isso com a minha mãe. tanto é que na adolescência eu vivi com os meus sobrinhos, alguns eram órfãos de mãe e pai, vivamos com a minha mãe e eu fiz um horário de trabalho com as tarefa diárias: quem lavava a loiça na segunda feira, cada um sabia o que ia fazer, colado na porta da cozinha. tudo isso aprendido com a minha mãe.
A relação de trabalho da mãe com os “Brancos” Minha mãe foi uma senhora reta que até onde ela trabalhava, por cima da Sonilândia em frente da empresa PAMEL, a padaria PAMEL na rua Francisco Newton, a minha mãe trabalhava no apartamento por cima da Sonilândia e eu sei que as patroas tinham muito respeito por ela, chamavam-na Maria, até o Jacó a chamava por Maria. Mas a mim o papagaio não me chamava Russo, eu tinha o cabelo russo, acho que não era por problema de nutrição era por andar muito ao sol.
Agora, dizem que o cabelo russo é por desnutrição, naquele tempo não havia problemas de desnutrição. No tempo do colono não vi ninguém a morrer de fome. Então, chamavam-me Russo.
Eu era uma pessoa muito querida. às sextas feiras, ao sábado ou ao domingo, elas pediam para ficar e dormir lá, a minha mãe às vezes levava-me para o serviço dela. ia com as patroas dela ao Mussulo e a praia, uma vez puseram-me em um barco insuflável e depois a corda, eu parecia um animal de estimação na Praia do Sol, era depois da Fortaleza de são Miguel, eu estava a distanciar-me (risos), meteram-me ali preso. Mas elas respeitavam muito.
Eu quando estivesse em casa dos brancos e eles não estivessem eu fazia necessidades maiores no quarto de banho deles, a francesa, a vontade, tens o autoclismos, havia o papel higiênico. Mas quando eles estivessem eu ia fazer na arrecadação. A minha mãe metia jornais no chão e eu fazia, mas para além disso, eles respeitavam a minha mãe.
Na juventude, a professora Vitória, minha professora da terceira classe era muito bonita, esbelta. mas a que eu gostava dele era a perfeição que ela tinha de poder influencia os alunos. era uma escola ligada a igreja católica, espero que ainda esteja em vida, eu fui a procura dela a Terra Nova para oferecer-lhe um dos meus livros, já não a encontrei. A professora Vitória me influenciou muito.
Hoje, sou o que sou devido a professora Sara Fialho. era muito jovem, acho que foi a professora mais jovem do NGola NZinga, nos anos 1975/76. Não sei o que ela é hoje, mas sempre foi recta, sempre esteve dentro dos carris. Não falo pela posição dela ou do partido que ela defende é por hoje eu ser a pessoa que sou. Só gostei e sou realizador de cinema por ensaiamos com ela as Aventuras de NGunga, ela fez uma adaptação ao teatro. ela agora é minha amiga, fez a apresentação do meu primeiro livro, sei que não gostou muito podia ter sido ela a revisar, houve erros, ela puxou-me a orelha, conversamos muito e ainda é uma grande pessoa.
Buda influenciou-me, leio muita filosofia, Buda é o absoluto, eu e tu somos só um, todas as coisas à volta de nós somos um ser. Não vou entrar em detalhes. Graças a filosofia budista, o Zen, o yoga em todas as suas vertentes. nos últimos três anos de vida estou ligado a filosofia da yoga e ao budismo. eu defendo até naquilo que eu faço e como, não sou totalmente vegetariano mas sigo muito a filosofia, o modus vivendi budista, de forma especial, e asiáticos, de forma geral. Agora não sigo o cristianismo, desde que eu soube que o Imperador Constantino mexeu na bíblia, eu já sabia que antes da bíblia existiram outras filosofias e outros livros. No meu tempo de estudante foi mais quando eu estudava no N’Gola Kiluange, para além do professor de língua portuguesa, lembro-me agora do professor de língua francesa, o número sete, não se pronuncia o “p” e acabaram por me chamar por sete.
RUSGAS PARA O SERVIÇO MILITAR
No ensino médio, tivesses os documentos que tivesses tinhas mesmo de fugir das rusgas. Aonde fores apanhado levavam-te, primeiro era adido, depois ias para a frente de combate já com a arma na mão. havia uma colega, mulata (desculpem se afetar alguém, também tenho brancos e mulatos na família) a Fátima foi uma colega que me acompanhou do Garcia Neto, ela morava na Precol e eu na Comissão do rangel, ela acompanhou-me nos estudos, fomos parar até ao Bairro Operário e fomos até a Cuca para chegarmos ao rangel porque a rusga estava no mercado do Kinaxixi. todo aquele perímetro estava cercado pela Serviço de Tropa. Fátima onde quer que estejas estou muito grato por me teres acompanhado.
INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA
Quando cheguei a independência no dia 11 de Novembro eu estava a morar na Comissão de Rangel. Quando chegam cá os efeito do 25 de Abril eu vivia na Petrangol, assustei-me o nosso quintal era vasto, já havia sacos de açúcar e rebuçados no meu quintal, inclusive eu apanhei um saco com cintos de couro , as forças armadas também circulavam por Luanda quase toda. quando eu acordei já não havia aloja, as lojas todas já tinham sido arrombadas. em minha casa encontrei chapas de zinco e material que a minha irmã e o meu irmão Nelito tinham trazido. Lembro-me de tomar chá açucarado com rebuçados, o pão ja era burro. Eu estava no Rangel, ouvi os tiroteios de um vindos de Kifangondo e aquelas salvas da proclamação do 11 de Novembro, mas ouvisse mais barulho do lado vindo de Kifangondo, a FNLA ajudadas pelo forças de Mobutu Sesse Seko estavam empenhadas em proclamar a independência. Eu estava a sair de uma malária, tinha o corpo todo banhado de fuba de bombo, estava no quintal. estava no quintal devido aos obuses saindo de Kifangondo.
27 DE MAIO
Depois da independência marcou-me também o dia 27 de Maio. nesse dia eu saí de bicicleta até ao NGola NZinga, atrás da Liga Africana. Eu quando tivesse de bicicleta ia de bicicleta, andei muito de bicicleta, mas nesse dia eu saio a pé, não vi o machimbombo e fui andando e só chegando ao Ngola NZinga dei conta que ninguém estava a dar aulas, mas não sabia porquê. as salas as moscas, nem as moscas vi que era supostamente encontrar no sítio onde as senhoras vendiam micates e outras guloseimas. E eu, mas o que é que se passa? Quando eu ia para a escola olhei para rua da Dona Amália e vi o blindado, esse blindado que está por aí nas fotos, nos arquivos eu vi com os meus olhos. O blindado estava do lado esquerdo para quem vai, com o cano apontado para lá, não havia autocarro, muita gente apeada. só depois é que eu soube que naquele dia houve uma tentativa de golpe de estado, li nos jornais que o país não estava bem. Depois, as repercussões que nos vimos surgirem. Saidy Mingas que é uma pessoa que eu tinha como um grande ídolo.
Muito antes dos portugueses terem abandonado o nosso país a minha mãe já dizia que ouvia a patroa dela a dizer: o dia que nós sairmos daqui a vossa comida só vai ser azeite de óleo de palma com folha de mandioqueira, quer dizer já ela falava isso. e depois eu fiquei a refletir, a minha dizia isso já antes dos brancos terem saído.
HABITAÇÃO
A minha mãe herdou aquela casa e outras onde ela prestava serviço, mas, eu não vi a minha mãe preocupada em ir ocupar aqueles espaços que tinham deixado e nem de outros como em Alvalade. A minha mãe prestava serviços a uma casa ao lado de onde foi a Embaixada de Cabo Verde, mas não foi para lá.
Havia aqueles tais senhores, o Sr. Carvalho, o Senhor Zé, eu via a forma como eles tratavam, como os brancos tratavam os negros. Quando o meu irmão mais velho, o Zé João, mandasse comprar ¼ de vinho eles serviam em uma taça duralex, ou em uma garrafa que o meu irmão tinha, eles despejaram com um funil. E eu as vezes ficava por ali e via o branco tirar o vasilhame par a meter onde o negro ja tinha a garrafa vazia, na Odigo que foram todos, mas ele sujou a sua raça.
O PÃO
Uma vez saímos do Comboio e voltamos a pé, para comprarmos pão a Viana em uma padaria em frente a estação e nesse dia o comboio não voltou e saímos de Viana até ao Rangel a pé e não havia caminhos fiotes, tivemos de seguir a linha férrea naquele tempo o matabicho não era caldeirada era pão com café a mesa, se não comesses isso, não tinhas matabichar, se a mãe aparece e te perguntasse, já comeste, dizer não ainda não comi, só comi a caldeirada que sobrou. o nosso matabicho era pão. Lembro-me de sair de manhã e comprar o pão e tirava o umbigo do pão, era uns enroladinhos na ponta do pão, deixava uns para justificar que tinham caído, os outros estavam na minha barriga. No cinema havia pessoas a comprarem bilhetes para “mil pessoas”. Os bilhetes acabavam, não sei se havia intimidade entre o tipo que finge lutar e o bilhete.
Falando no Cine NGola, quando eu estudava a cabunga (ano de iniciação do ensino primário), um dia fui a escola, a bata era curta ou o calção era comprido, eu não tinha vestido as cuecas, chegamos ao descampado em frente ao NGola Cine e o meu irmão vê que os meus escrotos estavam fora, ele arranjou um arame e ficou a tentar coser o meu calção. Muitos dos estudantes antes de chegarem à Escola Micate ou à Ginguba[2] entravam no mercado para comprarem micates às senhoras congolesas. Chamo-as de senhoras congolesas, mas eram provenientes do norte de Angola, ambrizetanas. Elas faziam o micate. Havia também broa, comprávamos uma broa e quitaba. Punhas a quitaba dentro da broa quente, aquilo desfazia-se e com uma quissangua era uma delícia.
Conheci o Simao Kibango numa daquelas casas, ela ficava sentado, onde a Igreja Kibango fazia os seus cultos, em uma daquelas ruas aos domingos e ao meio da semana. Conheci o senhor ali, quando parava cumprimentava o Senhor Simão Quibungo.
Eu fiquei a lamentar e o meu irmão teve de trocar a bata comigo, mas com os meus escrotos sempre fora, eu não sabia o que era , mas fiquei à vontade nesse dia porque a minha mãe já não tinha tanto tempo para olhar pela nossa roupa. Eu estava habituado a sair de manhã e ver os kafucafuca vêm. Quanto mais apanhaste metais na caixa de fósforo e depois ias mostrar aos concorrentes para sermos quem apanhou mais kafucafuca. Eu era um bandido e guardava em buraco no capim e eles viviam até o dia seguinte. Havia as joaninhas e os escaravelhos, um bichinho que faz enrolados com as fezes e nós íamos até lá fazer necessidades maiores. Ficávamos a apreciar o escaravelho.
Os Hinos dos Movimentos de Libertação
Os movimentos que vieram para Luanda em 1974, primeiro a FNLA, MPLA e depois a UNITA afectaram a população do ponto de vista familiar porque as nossas famílias tiveram pessoas que aderiram, estando na mesma família aderiram a movimentos diferentes, podia ser do MPLA, da FNLA ou da UNITA. Ouve uma história que o meu primo pertenceu a FNLA, isso é política mas tem importância porque do ponto de vista da interação familiar ele era da FNLA e eu do MPLA, fomos convidados na Escola 8 e lembro-me que nesse dia houve um convívio e ofereceram-nos umas garrafas de gasosa e eu fui surpreendido quando perguntaram de que movimentos éramos. Eu disse que era do MPLA e ele da FNLA, pediram para cantar o hino da FNLA. Eu não sabia a patavina do hino da FNLA, no final recebemos uma salva de palmas.
PRIMEIRO EMPREGO, ENCIB 1981
Comecei a trabalhar aos dezassete anos de idade, o meu primeiro empregador foi na ENCIB, Empresa de Construção de Infraestruturas básicas, na Boavista. Em 1981, era uma grande empresa. Comecei a trabalhar como Auxiliar de Estatística de 3ª classe. Naquela época, qualquer funcionário que fosse para trabalhar. Nessa idade isso exigia que os pais fizessem uma autorização para os filhos trabalharem, a minha mãe fez a declaração. Antes fiquei três meses a aprender o funcionamento da máquina, eu tinha em casa um manual de dactilografia do Quéssua[3]. Este manual pertencia ao meu cunhado, fiquei com o manual e fui seguindo as instruções, depois de um mês eu já não precisava de olhar para o teclado.
Eu quando fui trabalhar para a ENCIB os funcionários ficavam admirados com eu trabalhava sem olhar para as teclas e a falar a vontade. não eram máquinas electrónicas, eram manuais eu teclava a conversar com as pessoas e raramente eu errava. Então, fui um puto que progrediu muito rápido dado a mestria em datilografar os documentos. Passei para o secretário privado do diretor geral, quando houvesse o conselho da empresa era chamado para datilografar.
E isso não tem nada haver com o ensino de agora e nem com a mentalidade que as pessoas têm.
Depois, subi para o grau de escriturário de segunda classe, recebia 8.600,00 KZ, era muito dinheiro para mim eu lembro que fui ao BPC, que era o Banco de Poupança de Angola e não pude abrir a conta porque faltavam alguns meses para eu completar 18 anos. Então, dava o dinheiro a minha mãe para ela guardar. E claro ainda vivia com ela, tirava uma parte para ajudá-la e outra para mim para cobrir o material pedagógico ou didático. Depois, a sede da ENCIB passou para onde está agora a SONANGOL Produção. Nós estávamos no segundo ou terceiro andar. A empresa baixou a produção e depois o governo reactivou-a.
A ISENÇÃO AO SERVIÇO MILITAR
Saio da ENCIB por estar a ser chamado para a tropa, os nascidos em 1963 estavam a ser chamados para a tropa. Enquanto estive na ENCIB, tinha prerrogativas em termos de transporte, fui fazer o curso acelerado de professores no NGola MBandi porque sabia que os professores tinham uma isenção, podiam não prestar serviço militar, tinham um adiamento e eu fui adiado depois de fazer a inspeção.
Comecei a dar aulas na Escola 211, que fica por trás da Igreja Cristo Rei na Terra Nova, também chamada de Escola Grande. Dei aulas durante três anos. Eu escusava-me de ir à escola ao sábado para a programação das aulas e era um dos professores que tinha estas faltas, sem saber que teria uma repercussão na minha vida militar. Apenas sei que o Director Daniel Paz a sua Alma, no ano seguinte quando fui validar o adiamento, fui chamado para tropa, já havia a ordem superior para eu “embarcar”. Fui fazer a tropa.
A IMPORTÂNCIA DE TRANSMITIR MEMÓRIA ORAL
A minha geração tem pessoas que vão deixar um bom legado e outros não vão deixar um bom legado. Temos de nos perguntar pelo futuro, quem nos trouxe até aqui, o que estamos a fazer e vamos para onde, essas perguntas ainda não tem resposta. Eu tenho boas referências dos meus grandes amigos, ainda vivos e falecidos. São professores, com um bom legado para o interesse do País com quem eu tenho convivido e trocado muitas impressões. O que eu deixo para os meus filhos, amigos e jovens está tudo nos meus livros, comprem e vejam os meus filmes, tenho sugestões que eu faço nas minhas páginas. Ninguém é obrigado a ser aquilo que eu sou, cada um é livre de ser o que quiser, temos o livre arbítrio de tirar a nossa própria vida, é um erro “consegues fazer um fio de teia de aranha, não o vimos a olha nu”. Nós temos a capacidade de poder deixar o que é bom, plantar. Pessoalmente, eu sinto que não deixarei grandes coisas, não porque eu não queira, mas porque não me dão essa possibilidade.
CONSELHOS ÀS FUTURAS GERAÇÕES
Instruir os mais jovens, dê livros aos mais jovens, ensine-os a ler, se não tiverem capacidade de irem para a escola, ensine a ler, a aprender, dê exemplos produtivos. Faça coisas que os outros ao verem aprendam e sigam, não cheguem e arranquem bens do estado porque estes bens não são apenas do estado, cada um de nós faz parte do estado. Não arranque um posto de energia, um posto de iluminação, não meta fogo em um contentor de plástico inflável que é em de todos. Não vá a uma biblioteca e rasgue uma folha de um livro, não faça isso. Quando nós tivemos motivos para fazer isso não fizemos, não faça agora. Aconselho a juventude a estudar e a ler.
IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA ORAL
De todas as memórias que nós temos a que mais precisa de conservação e de cuidado é a oral, a minha, as pessoas mais velhas que estejam vivas. A pessoa que procurou mais a oralidade foi o escritor Óscar Ribas, o testemunho maior é o passado de Óscar Ribas. Naquele tempo ele tinha apoio, de quem?
Não falamos as nossas línguas, eu entendo, ouço, e traduzo para português? Mas isso vai morrer, e mais fácil ver uma criança do interior a falar línguas maternas. as nossas línguas maternas estão em extinção e quando acabarem não teremos mais nada para ouvir.
Este depoimento foi realizado em Luanda, em Março de 2025.
Por: Muki Produções
Transcrição: Marinela Cerqueira
Edição: Editora Elivulu
Palavras Chaves: ENCIB|Oscár Ribas| Avó Boaventura Lemos|Explicador Chico Quebela|Professor Lazáro Búrias
[1] Maria da Escrequenha foi um centro cultural recreativo onde as pessoas se divertiam e dançavam danças tradicionais , entre as quais a Rebita, em Luanda( explicação da Depoente Maria de Fátima Rodrigues Vasconcelos)
[2] No antigo Bairro dos Correios há uma escola apelidada pelos estudantes da Escola da Ginguba.
[3] Referindo-se ao sistema de Ensino Protestante da Missão do Quéssua.

