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Memórias de uma Estudante Universitária em Lisboa, Suzana Sivuca David Cachota

O depoimento inicia com uma das perdas de identidade provocadas pelo império colonial português, nunca lhe tendo sido explicada a razão dos apelidos diferentes entre irmãos nem a ausência do apelido materno.

Oriunda de famílias do Huambo, nasceu no Moxico, uma das províncias para onde os pais foram transferidos. Conhece o Huambo quando a família regressa no início do conflito armado.

Estudante do Liceu do Huambo em 1983, inicia os estudos da Licenciatura em Farmácia, em Lisboa, com uma bolsa das Igrejas Protestantes. Na época, não eram frequentes bolsas para países ocidentais; a maioria dos estudantes seguia para faculdades dos países de Leste, onde o ensino era centrado no Marxismo-Leninismo.

Este depoimento distingue-se pela memória da adaptação de uma estudante do Liceu do Huambo ao meio universitário em Lisboa, quase uma década após a independência de Angola, e pela descrição de um lugar e sítio de memória dos estudantes universitários angolanos desde 1958: o Lar da Liga Evangélica de Acção Missionária e Educacional de Lisboa.

Esta memória confirma e complementa outras fontes sobre este lugar e sítio de memória e sobre a influência dos missionários e das Igrejas na formação superior de angolanos em Portugal, no período de 1958 a 1983.

Refere ainda as últimas bolsas provenientes do Canadá e de outros países e a existência, a curto prazo, de um outro lugar, o n.º 173 da Praça do Chile, onde residiam apenas estudantes do sexo masculino.

Recorda a existência de casamentos entre estudantes africanos, bem como entre estes e cidadãos de outros países, com alguns casais a fixarem residência noutros países europeus, como o caso de Libindo, residente na Suíça, exemplo da preservação de laços sociais forjados naquele lugar de memória pelos bolseiros protestantes dos então PALOP.

Dirigindo-se às novas gerações de Angola, esta mãe angolana, criada no seio da Igreja Evangélica, actual IECA, recomenda a aproximação à Igreja, a valorização dos factos sociais narrados pelas gerações mais antigas e apela aos pais para que sejam perseverantes.

INTRODUÇÃO

O meu nome completo é Suzana Sivuca David Cachota. O meu pai chama-se David Cachota. Nunca ninguém me soube explicar, em Angola há casais em que os filhos uns têm o apelido do pai outros têm outro. Por exemplo, somos dez irmãos, uns têm o apelido “Cachota, outros têm David. No meu caso, tenho David. O meu pai foi enfermeiro dos Caminhos de Ferro em Angola. Apesar de ter o apelido David, todos os meus  familiares tratam-me Cachota porque conheceram o meu pai. Não levei o apelido da minha mãe, e o sistema prevê termos o apelido do pai e da mãe. O meu avô paterno chamava-se Daniel Carlos Pedro e a minha mãe não levou o apelido do pai, ela chamava-se Luísa Violeta. Sou filha de David Cachota, mas não levei o apelido.

ENSINO PRIMÁRIO E LICEU

Eu saí do Luau quando era bebé, viemos viver no Moxico. A minha mãe era professora primária e o meu pai era enfermeiro do caminho de ferro, então tínhamos uma vida de classe média. Em casa tínhamos empregada, cozinheiro, a menina que tratava do bébes a Adriana, tínhamos lavadeira, tínhamos o trabalhador da horta, por isso não me posso queixar da minha vida na era colonial, estudamos, tínhamos uma vida normalíssima. Eu nasci em Teixeira de Sousa e com a guerra viemos para o Huambo, antiga Nova Lisboa. Quando fomos para Nova Lisboa a cidade ainda não tinha esse nome tradicional. Apanhamos o último comboio, estava cheio de pessoal que estava a recuar. Mas no Moxico foi extraordinário, íamos à escola, íamos à igreja. Passamos bem. Estudei na Escola Preparatória Gonçalves Crespo.

PERÍODO DE TRANSIÇÃO 74-75

Eu vivia no bairro do Mandembe, um bairro muito conhecido no Moxico. O meu irmão mais velho era amigo das gêmeas, Milocas e e a Xica, ambas já foram ministras, conheço as irmãs delas, a Bebiana e a Letinha, éramos todos do mesmo bairro. Em 1975, com a guerra nos dispersamos, uns foram para o Bié, outros foram para Luanda, Lubango e nós como éramos de Huambo, fomos para o Huambo. Lembro-me do meu pai a apanhar o último comboio do Moxico para o Huambo.

TEMPOS LIVRES

Os domingos eram passados na igreja. De manhã íamos à igreja e depois do culto evangélico da Igreja Congregacional almoçávamos e à tarde íamos outra vez a igreja, há Juventude, onde passávamos o tempo na brincadeira com as nossas professoras.

ESTUDOS UNIVERSITÁRIOS, 1983-1992

Fui para o Lar 122 da Liga Evangélica para continuar os estudos e ao invés de entrar para Medicina entrei em Farmácia, a minha nota dava para entrar neste curso. No Lar, estive com muitos estudantes de diferentes países que eu não conhecia. Uns vieram da Guiné, o meu marido é da Guiné e conheci-o no Lar. Havia moçambicanos, conheci perfeitamente a Ruth Machabe, tirou o curso. Havia também outros moçambicanos no seminário a tirarem o curso de seminaristas para serem pastores. Havia também açorianos, madeirenses e portugueses.

Além desses, havia também pessoas vindas do estrangeiro, de passagem, uns vinham aprender o português e outros para o seminário. A Liga Evangélica tinha também o apoio de missionários do Canadá e de outros países. E eles por vezes vinham passar as férias, porque muitos missionários que foram para Angola também passaram pelo 122. Vamos supor, vinham dos Estados Unidos, ficavam no Lar e depois avançavam para África, nomeadamente Angola. Outros, vinham do Canadá e da Suíça. Também era uma casa de passagem.

A GESTÃO E OS FUNCIONÁRIOS DO LAR 122

Tínhamos a Maria Alice Evangelista, tutora do lar, ela e os pais viviam no lar. A cozinheira era a Fátima, a Céu fazia a limpeza, a Dona Natália também cozinhava e às vezes ajudava o Céu a fazer a limpeza. O Pastor Salvador era o responsável máximo da Liga.

Havia o administrativo e também tesoureiro porque nós quando recebemos as nossas bolsas era ele a fazer o pagamento, era o Sr. Silva, falecido.

Trabalhava no escritório. Como o senhor Silva já era velho, quando não fosse trabalhar quem fazia o trabalho dele era o primogênito do Pastor Salvador, o Pedro. Eu lembro-me também de haver pessoas que viviam fora do Lar e no final do mês iam buscar a bolsa, como o Senhor Ibrahim, o 122 foi prestável a muita gente.

A Dona Alice Moreira vinha do Porto, ela também fazia parte da direção do 122 (Lar), a distância, porque ela tinha uma comunicação constante com os missionários. Ela trabalhou muitos anos em Angola, no Dondi, e manteve uma ligação com os missionários, então, ela era uma das representantes deles na direcção.

AS GOVERNANTA DO LAR, A MARIA ALICE EVANGELISTA

A Maria Alice Evangelista era filha única, solteira, dedicou a sua vida ao Lar. Tratou dos pais, da Dona Agripina e do Senhor Evangelista,  que residiam no Lar nos últimos anos das suas vidas. Foi uma experiência muito bonita porque ela conversava connosco, dava-nos conselhos.

Foi a primeira Governanta e quando se reforma a Dona Fernanda foi a segunda governante. Trabalhou muito para o Lar, quando adoeceu praticamente passou a ser a Governanta do Lar.

Quando estava de férias, era substituída pela Dona Carmem. Geralmente, estava lá com a Maria Alice, ou quando a Maria Alice fosse passar férias a sua terra, a Figueira da Foz ela vinha fazer a vez dela. Vivia em Sintra e vinha ficar no Lar durante as férias da Maria Alice. Ela tinha as chaves todas, da dispensa, do escritório, tinha acesso a tudo. Qualquer coisa que nós precisássemos, tudo que tínhamos a tratar com a Maria Alice ela respondia por isso.

A Dona Fernanda  ainda continuou depois de 1992 até  reformar-se e ficou no Lar a Dona Amélia e quem tomava conta dela era o Céu. Quando, nós saímos do Lar entra o David Valente na Direção da Liga. Era do nosso tempo, vivia no mesmo quarto com o meu marido, com o Zé Paula. Actualmente, penso que ainda vou fazer parte da direção, com a Sitanela, a Ernestina e o Pastor Salvador.

O CASAL HENDERSON

As missionárias quando viessem passar as suas férias ou quando estivessem de passagem também conversavam muito connosco, sobretudo, o Reverendo Henderson e a Dona Kay. Eles vinham muito a Liga (Lar) e viviam em Carcavelos, mas tinham uma ligação muito forte com todos os missionários que faziam parte da Liga Evangélica.

Os missionários tinham uma boa ligação com os estudantes. O relacionamento deles comparado aos dos portugueses era diferente porque estiveram em África. Os Hendersons estiveram no Dondi, na Chissamba e em Elende, era uma boa relação. Ofereciam coisas, traziam-nos frutas e outros bens. Eram aqui os nossos pais. Conversavam, davam conselhos, perguntavam como andavam as aulas.

E depois os países deles em relação a Portugal, são países muito evoluídos, a mentalidade é outra. Por exemplo, não acontecia com a Alice Moreira, ela não ajudava.

ALICE MOREIRA

A Alice Moreira não dizia’’ eles têm dificuldades, como os vamos ajudar?”. Ela dava-se ao trabalho de ir à faculdade saber a nota dos alunos, para nos controlar. Ninguém voltou ou perdeu a bolsa. Estudavam e trabalhavam para pagar o aluguel.O casal Henderson e a Alice Evangelista estavam acima dela.

As nossas bolsas vinham do Canadá. Psicologicamente os alunos já estavam neste país sozinhos, tinham a responsabilidade da faculdade, por vezes não conseguiam dinheiro a tempo e horas para comprar os apontamentos, tinham de fazer um esforço.

E entretanto, eles aconselhavam “façam assim, tentem estudar’’. Por um lado, ela tinha razão. Os estudantes vindos de África, vinham consciente da sua missão, estudar, estudavam, o objetivo era acabar o curso.

A LIGA EVANGÉLICA DE AÇÃO MISSIONÁRIA E EDUCACIONAL DE LISBOA

Falar da Liga, foi um trabalho muito bem feito, bem pensado porque a Liga  ajudou a formar muita gente, apoiou muita gente. Por exemplo, o meu marido vem da Guiné para Portugal praticamente por causa da política. O pai dele foi um dos fundadores do PAIGC, foi preso muitas vezes e era muito perseguido. O pai na cadeia chama o filho e aconselha que ele tinha de vir porque dentro de pouco tempo podia haver o golpe de estado e ele vem, sem bolsa, sem nada, vem “a Deus dará’’.

Então, quando chega fica em casa de pessoas amigas, mas depois foi para o Lar, conseguiu uma vaga e lá esteve. Às tantas, o Pastor Salvador e outros decidiram dar-lhe uma ajuda, uma bolsa e com aquela ajuda ela apenas conseguia pagar o Lar. Depois, trabalhava para se sustentar a si próprio.

OS TRABALHOS DURANTE AS FÉRIAS E AOS FINS DE SEMANA

Aos domingos nós não tínhamos comida, tínhamos de cozinhar e era daquela pequenina bolsa que nós tínhamos de fazer as compras. Tanto mais que para quem não tinha mesmo condições só com aquela bolsa, pagar a faculdade, as senhoras comprarem os produtos de higiene mensais, era muito complicado porque a bolsa era pequenina. Então o que nós fazíamos? Os alunos ao fim de semana arranjavam emprego, mesmo domésticos, muitos de nós íamos trabalhar e nas férias trabalhávamos as férias todas.

Eu tive trabalhos durante as férias arranjados pela tia Judite Chimuma. Ela também ajudou muita gente, ela foi uma senhora, não tenho palavras para a classificar, trabalhadora, guerreira, veio para Lisboa com os filhos, lutou para os sustentar e no entanto, conhecia muita gente. Lutava para me arranjar trabalho. Lembro-me de um dos trabalhos que  me arranjou ter sido na Parede. E assim nós ganhamos e dava para ajudar na nossa pequenina bolsa que recebíamos. E isso era muito bom, servia para os apontamentos. Porque às vezes estávamos na faculdade e precisávamos de apontamento e o dinheiro não chegava. Então, como trabalhávamos às vezes ao fim de semana e nas férias, tirávamos e dava para comprar os apontamentos na faculdade. Por isso, eu digo que a Liga ajudou-nos muito, sobretudo naquela bolsa para pagarmos o Lar e para o resto tínhamos de “esticar a corda’’. Mas, ajudou muita gente, muita gente que passou por lá.

ALIMENTAÇÃO

Aos fins de semana, ao sábado tínhamos o almoço e ao jantar a Fátima embrulhava-o no jornal para não arrefecer e a noite servimo-nos. No domingo nós tínhamos de fazer as refeições. Os colegas que não queriam cozinhar guardavam as sobras do jantar de sábado num tupperware e comiam no Domingo. Nós as angolanas normalmente fazíamos o funje ao domingo. Consoante a afinidade fazíamos comida para duas a quatro pessoas. Íamos a igreja. quando chegamos éramos recomendados para a Febo Moniz, a Igreja Presbiteriana nos Anjos. E depois, íamos para a casa almoçar. Quem tivesse convites ia almoçar ou jantar fora. No Natal não tinham aonde ir. A Maria Alice mandava a Fátima fazer sonhos, rissóis, bolo rei. Não me esqueço disso, era triste.

CASA PRAÇA DO CHILE 173, ANOS 80

Lembra-me também, depois vieram muitos estudantes de Angola e já não havia lugar no Lar. Então, arranjavam quartos. Mas, houve uma altura em que a direção decidiu arranjar uma casa na Praça do Chile, era a 173, assim eles a chamavam, onde vivia o grupo de rapazes bolseiros. No final do mês iam à tesouraria buscar a sua bolsa. Mas, o controle naquela casa não era tão rigoroso como o que havia no Lar. Nós tínhamos a Maria Alice que ficava connosco vinte quatro horas sob vinte e quatro horas. Eles no início não tinham esse controle, tanto mais que a igreja depois viu que muitos não tinham aproveitamento, era uma das funções do Pastor Sá Maria. E ele estava sempre em contacto com o Pastor Salvador e também com a Pastora Sitanela. Porque ela era a mais velha, com muita experiência, veio para cá muito cedo e dava-nos muitos conselhos, uns aceitam, outros não. Os que não aceitaram os conselhos, alguns ficaram pelo caminho, não fizeram nada, até hoje estão a ver que realmente a “brincadeira saiu-lhes cara’’. Eu lembro-me inclusivamente, a mana Sitanela nos ter contado ter se dirigido a jovens e a resposta foi: nós quando viemos de Angola apenas trouxemos as nossas malas, não trouxemos polícia. E essas pessoas a quem ela tentou aconselhar, uma delas desapareceu na Espanha. Eram muito poucos aqueles que queriam ouvir conselhos.

MISSIONÁRIOS EM FÉRIAS

Os missionários vinham passar férias, hospedavam-se no quarto das visitas e faziam as refeições no lar. A Dona Margarida Childs falava português e umbundo, no Lar havia pessoas que falavam umbundo e ela gostava de falar quimbundo. Ela sempre viveu nos EUA e vinha passar férias. Por ano, ela podia vir duas a três vezes passar férias. E a Dona Margarida Childs também conversava muito connosco, contava-nos sobre os tempos passados.

O LUGAR DE MEMÓRIA

Em baixo eram os quartos dos rapazes em andar superior os das meninas. No último andar era o quarto da Maria Alice e ao lado era o quarto. quem viesse passar férias ficava naquele quarto.

O Lar tinha um jardim muito bonito e um quintal grande, havia árvores de frutos, duas ameixoeiras, pessegueiros e videiras. No verão comemos esta fruta à sobremesa. A Maria do Céu plantava couves na horta.

As pessoas conheciam o Lar, diziam  ser um lar onde viviam alunos. Em termos de limpeza é muito mais fácil por ser mais pequeno, a Céu já não precisa de subir e descer, agora consegue fazer a limpeza facilmente em relação ao tempo passado.

Eu fico satisfeita por Deus me dar a oportunidade de conhecer muitos estudantes do tempo passado. Eu não conhecia uns irmãos da minha igreja, a Eunice e o John Foreid, membros da Igreja Baptista em Santo António dos Cavaleiros, fiquei feliz, assim como o Gaspar de Almeida também esteve no Lar, naquele tempo, eu depois cheguei a conhecer outras pessoas.

As pessoas depois de saírem do Lar sempre que viessem a Lisboa faziam visitas, quer dizer reconhecem o que o Lar foi para eles.

Eu cheguei a propor ao meu marido passar férias no Lar, mas depois o Lar mudou e já não havia piada para vivermos e os nossos filhos conhecerem onde nós vivemos, os nossos filhos o David e ainda chegaram a conhecer o antigo Lar, eu mostrava-lhes e contava-lhes sobre o nosso passado. Como foi demolido o antigo Lar este sonho ficou sem efeito.

Agora o Lar mudou, já não é o Lar 122, agora são dois edifícios, o edifício da traz alberga o Lar, mas apenas com um número reduzido de alunos, muito diferente do nosso 122 (Lar). Era extraordinário e passou o tempo. É muita pena isto ter acabado, já não é o 122 (Lar) que era. Há famílias em que várias gerações passaram pelo Lar, um exemplo concreto da família Chipesse, os pais, a filha e os seus filhos estiveram no lar. O Compadre Chipesse esteve no Seminário de Carcavelos.

Os estudantes viveram no Lar apenas durante o curso. Alguns precisamos de fazer cadeiras. No meu caso, tive de fazer em cadeiras para equivalências. Quando acabar o curso sai. Ninguém ficava no Lar depois do fim do curso.

FACTOS MARCANTES – ESTUDAR EM PORTUGAL, 1983-1992

O clima, as saudades e o racismo na faculdade foram os factos mais marcantes da minha vida universitária em Portugal. A adaptação ao clima foi horrível, em Angola não há inverno. As saudades dos pais, dos irmãos e dos familiares.

Na faculdade havia racismo, o factor “cor”. Eu já estive numa prova prática de laboratório, eu e minha colegas moçambicanas e cabo-verdiana entramos para a sala, não nos dividiram.

Era na faculdade onde notei mais racismo. A professora passa em cada bancada pergunta:

–             és da onde?

–             de Angola

–             de Moçambique

–             de São Tomé

–             de Cabo Verde

pois é, são vocês que vem cá tirar lugar aos outros, porque é que vocês não ficaram na vossa terra.

Era assim, era horrível. Quando a professora desse um trabalho em grupo, eles escolhiam-se entre eles e nós os negros também tínhamos de nos escolher, não aceitavam trabalhar connosco. Foi horrível.

Tivemos um professor, toda a parte do texto correu bem e nós pensamos vamos mesmo passar. Eles escolhiam pelas fotografias, esse professor ela daqueles que fazia um sinal na fotografia. Outros, pelo nome diziam logo esse é africano, do meu nome Muvuca, dizem que é africano.

Agora os que não tinham um nome identitariamente africano como por exemplo Nisia Teixeira Amado, não tem nome nenhum que a identifique como africana. O que eles faziam? Punham um sinal na fotografia. Saímos daquela prova “correu bem”, estávamos juntas “respondemos bem às perguntas que o professor fez”. Quando fomos ver a pauta a contar com uma boa nota, foi uma admiração “temos de ir reclamar’’. Lembro-me termos ido reclamar:

–             professor Carriço o exame correu-nos bem

–             o vosso problema é a letra e o Português.

Passamos muito mal na faculdade. No caso de nos esquecermos do cartão quando fossemos à cantina, o Senhor Francisco não nos deixava entrar, mas eles entravam. Socialmente a faculdade foi horrível, trataram-nos muito mal.

Tivemos colegas a fazerem o curso de medicina dentária depois de terminarem passaram muito mal nos empregos, havia muitos portugueses a dizerem: você não pega na minha boca.

Eu quantas vezes  a atender ao balcão da farmácia, atiravam-me a mala: você não pode estar a atender aqui, vá-se embora para a sua terra sua preta.

Eu não posso atender medicamentos sem receita médica. Aqui não se pode vender antibióticos sem receita, o INFARMED tira a carteira profissional, vais para a rua. Mas, a pessoa não entende, atira-te logo a carteira, mas fizeste o curso superior. Foi verdade.

Isto já não se passa com os nossos filhos. Eles não admitem isso. Nós, não sei se foi por termos vindo naquela época, tínhamos sempre aquele receio de responder, eles não” é tu por tu”. Falam eles também respondem e nós não. E foi assim que nós passamos.

A adaptação não foi nenhuma brincadeira, eu não contava, nem eu e nem outros colegas, nós não contamos ter esse problema. Conheci o meu marido no Lar e havia casais multiculturais constituídos por estudantes do Lar. Fiquei muito feliz porque falava-se muito do mano Libindo que agora está na Suíça, falavam muito dele. Os que estavam na Liga antes de mim, era o caso da Sitanela, da Emília e Dora Etaungo, falavam do Libindo, sobre a ajuda e da sua ligação muito forte com os missionários.

E eu estava ansiosa de o conhecer e Deus é tão bom , tive a oportunidade de o conhecer[1]  há seis anos, no casamento do meu afilhado e ele lá estava. Ele também ficou muito feliz em saber que nós tínhamos passado pela Liga Evangélica, então, conversamos e trocamos algumas ideias e realmente foi muito bom.

IMPORTÂNCIA DA PARTILHA DA MEMÓRIA

Hoje em dia, para ser sincera, há muitos jovens que não aceitam ouvir a verdade, certas histórias. Por exemplo, se a tia Judite Chimuma contar-me história eu oiço. Eu reparo que a maior parte das novas gerações dizem “isso está ultrapassado, isso não é nada, e do vosso tempo”.

Isto é muito mau, por haver coisas boas, fomos bem educados pelos mais velhos, ensinaram-nos bastante.

Eu lembro-me do Huambo, na minha juventude por vezes a minha comadre fazia costura em casa e muitas das vezes ao domingo à tarde dizíamos ‘’vamos a Juventude”, mas chegamos a Múmua, ela estava sentada a coser, ficávamos a conversar e esquecemos. O tempo de irmos à Juventude para brincar tinha passado. Quando chegássemos a casa alguém já tinha dito aos pais”. A Suzana, a Múmua, a Em, não apareceram na Juventude”

–             escolhe queres apanhar com o cinto?

–             mas o que eu fiz?

–             não foste a Juventude.

Ninguém morreu por isso, pelo contrário foi uma boa educação, educou-nos. Hoje, vejo a minha mãe a convencer os meus sobrinhos a ir à Igreja, ela chora.

Eles castigavam-nos, davam castigos.

Se não te sentasses para fazer os trabalhos, para fazer a tabuada, mandavam aprender a tabuada e depois tínhamos de a dizer.

Se fizessem algo na rua, vinha um tio e ralhava-te. Hoje, nem um teu irmão vê o teu filho a fazer uma coisa errada não o pode ralhar, a resposta é “você não é meu pai”. Eu costumo dizer aos meus filhos que apanhei dos meus pais e não estou arrependida pelos meus pais me terem batido, educou-me, aprendi. Hoje, sou como sou graça a eles e sinto saudades do meu pai por haver momentos em que ainda faço coisas erradas.

CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES

Os pais devem continuar a falar e normalmente eu aconselho sempre desde pequenino levar os filhos a igreja, ajuda a não se desviarem. Eu dizia: casa, educação dos pais, igreja, escola. Hoje em dia, nem os professores são respeitados, eu dei aulas e vejo. E falo na igreja porque há jovens na linha da Igreja desde crianças, tornam-se adolescentes, casam, mas são muito poucos.

Este depoimento foi realizado em Lisboa, em Abril 2024.

Transcrição: Marinela Cerqueira

Revisão: Judite Luvumba

Palavras Chaves:  Igreja Evangélica de Angola| Liga Evangélica de Acção missionária e educacional| lar Alameda da Linha das Torres|

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