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Um Testemunho sobre Educação, Igreja e Sociedade, Ruben Anastácio Sicato

Rúben Anastácio Sicato foi bolseiro das Igrejas Protestantes nos anos 80 e residiu no histórico Lar da Liga de Acção Missionária e Evangélica de Lisboa. Ele e Susana David são os dois estudantes universitários que testemunham factos sociais associados a este lugar de memória e a outros ligados à formação social de quadros nacionais no sul de Angola e em Portugal.

Aceitou juntar a sua voz com a condição de ser o próprio a escrever o testemunho. Em voz directa, descreve a sociedade angolana numa vertente quase política, provavelmente inerente à sua trajectória social.

Do ponto de vista metodológico, esta experiência permite perspectivar a abrangência da metodologia da Plataforma História Social de Angola junto de cidadãos que desempenharam altas funções governamentais e cargos de direcção em partidos políticos no período pós-independência.

Ainda do ponto de vista metodológico, trata-se de um testemunho e não de um depoimento, uma vez que a maioria dos depoimentos se caracteriza pela interacção entre pessoas.

O DIA DA INDEPENDÊNCIA

Passei o dia 11 de Novembro de 1975 na Cidade do Huambo, então chamada Nova Lisboa. Foi um dia de alegria, mas uma alegria muito contida. Não era assim que eu gostaria de ver o meu país a ascender à independência. A guerra se tinha instalado por quase todo o país e lá onde não havia batalhas, reinava uma enorme confusão sociopolítica. Constatava-se uma desilusão na generalidade das pessoas com quem se contactasse. Embora contida, essa alegria vinha-me do facto de que o nosso país estava a ascender à independência. Isso significava que o destino de Angola estava a ficar nas nossas mãos. Mas, pensando bem, que destino seria esse que estava à nossa frente? Que futuro teríamos, se estávamos a enfrentar uma guerra em todo o país? E no fim de tudo, terminada essa guerra, como chegaríamos a uma paz sustentada?

Para mim, a persistência da guerra entre a UNITA e o MPLA era uma verdadeira desilusão. Nós tínhamos visto o Presidente da UNITA a bater-se pelo fim das escaramuças militares, de modo a não acabarmos numa guerra civil. Afinal, como foi possível chegar a essa situação de guerra? Para que é que tinham servido todas aquelas reuniões tendentes a acabar com a instabilidade militar?

FACTOS MARCANTES

Antes da independência de Angola, pude perceber que o país não era independente, pois estava sob o jugo colonial português. As notícias que ia ouvindo sobre alguns dos outros países africanos espicaçavam o meu interior e me instigavam a participar nesse esforço de luta pela independência nacional.

Muitos dos meus parentes diretos, tanto os da parte do meu pai, como os da parte da minha mãe, tinham emigrado para os países vizinhos, em particular para o Zaire, atual RDC, e para a Zâmbia, e ouvia dizer que eles se tinham juntado aos movimentos de libertação. Um dos primos da minha mãe, chamado Gaspar Agostinho, era dos que mais falava connosco e várias vezes, quando houvesse uma contrariedade que envolvesse os portugueses, ele nos repetia que um dia se iria juntar aos turras. Os turras era o nome pejorativo que os portugueses davam aos membros dos movimentos de libertação. Eles consideravam que eles eram terroristas porque atacavam civis.

Bem se esforçavam as autoridades portuguesas para, em Angola, os negros esbaterem os seus sentimentos a favor da independência. Mas, surgiam sempre vários elementos que lhes demonstravam que essa luta não estava a ser bem-sucedida, nem seria. Nas Nações Unidas, tinham sido passadas várias resoluções que apelavam pelo abandono de Portugal das suas colónias, as quais mereciam ter um poder de maioria negra, já que nessas colónias, a maioria da população era de raça negra.

As emissoras portuguesas de Angola passavam com frequência um hino designado Angola é nossa. Nesse hino, proclamava-se que Angola era dos portugueses! Mas nós tínhamos plena consciência de que não éramos portugueses, por isso aquele hino não era para nós, pois encerrava uma flagrante contradição. O hino estava a dizer que Angola não era dos angolanos. Era dos portugueses! Como assim? Não aceitávamos isso, mas não o podíamos dizer em voz alta, pois a PIDE poderia ouvir-nos. Não havia liberdade de expressão e pensamento.

Muitas vezes, no início da noite, aí pelas 19H00, ouvíamos um programa radiofónico do MPLA, emitido a partir de Brazzaville, capital da então República Popular do Congo, chamado Angola Combatente. Embora com menor frequência, ouvíamos também um programa da FNLA que, se não me engano, se chamava Angola Livre. Os dois programas passavam notícias sobre a guerra de libertação vigente no nosso país, rumo à independência. Ouvi esses programas desde os meus 10 anos de idade, quando estava no Huambo, porque eu tinha tios lá em casa que os ouviam com frequência e então ouvíamos juntos.

Mais tarde, a partir dos 13 anos de idade, já na Binga, uma localidade ao longo do Caminho de Ferro de Benguela, ouvíamos esses programas subversivos na companhia dos meus irmãos. Aí, já nos sentíamos grandes e, por isso, os dávamos ao luxo de pensar pela nossa própria cabeça, ouvindo esses programas mobilizadores, sempre que nos apetecesse, baixinho, como convinha. Percebemos bem que precisávamos de ser independentes e aqueles programas nos estimulavam e alimentavam esse desejo.

A ESPERANÇA PROVENIENTE DO 25 DE ABRIL

Para mim, o surgimento da Revolução dos Cravos de 1974, em Portugal, foi um acto que me encheu de imensa alegria. Afinal, a tão sonhada independência, pela qual várias gerações de angolanos tinham lutado, parecia vir a ser uma realidade. O próprio comunicado do Movimento das Forças Armadas começava a justificação da sua existência justamente com a guerra colonial: “Considerando que ao fim de 13 anos de luta em terras do Ultramar, o sistema político vigente não conseguiu definir concreta e objetivamente uma política ultramarina que conduza à Paz entre os portugueses de todas as raças e credos…”

Foi inevitável o sentimento de que a independência estava às portas. A guerra anticolonial tinha sido um dos fatores que tinha provocado esse Movimento das Forças Armadas e agora, para haver paz, teríamos de ascender à independência. Não víamos outra saída.

Quando aconteceu o 25 de Abril, eu vivia num Lar de Estudantes, que era próximo da Escola Comercial e Industrial e do Liceu. Naquela altura, o centro de todas as cidades, também chamado por asfalto, era predominantemente habitado por cidadãos de origem europeia. Em contrapartida, as pessoas que viviam nos bairros periféricos eram quase todas de raça negra. No 25 de Abril de 1974, eu tinha 17 anos, idade mais que suficiente para entender que, de si só, uns residirem aqui e outros aí, significava que a sociedade estava dividida. Os turras, aqueles que andavam nas matas a guerrear a presença portuguesa em Angola, lutavam contra essa desigualdade e prometiam instaurar um regime de maior justiça. A narrativa dos portugueses dizia que esses ditos movimentos de libertação só existiam porque sofriam manipulação por parte dos estrangeiros que metiam nas cabeças deles a vontade de serem independentes de Portugal. A potência colonial argumentava que isso não fazia sentido, pois Portugal era um país pluricontinental e multirracial, e todas as pessoas, do Minho a Timor, eram portuguesas.

E assim, para Portugal, a guerra contra os movimentos de libertação materializada pelas Forças Armadas Portuguesas, pela PIDE e por outros organismos do regime, era plenamente justificada. Tendo surgido o 25 de Abril, como não apoiarmos os objetivos do Movimento das Forças Armadas?

Com o decorrer do tempo, fomos vivendo altos e baixos. Consolidou-se a ideia da aquisição da independência, mas o caminho para lá chegar foi-se tornando cada vez mais tortuoso e mais confuso, coisa em que nunca antes eu tinha pensado. Um dia desses, no início de 1975, depois das aulas, a minha professora de Física do Liceu de Benguela, Dra. Elsa Marques, decidiu falar comigo a sós e ajudou-me a aguçar o meu entendimento sobre os perigos que pairavam diante de Angola.

Ela disse bem alto para mim: “com tantos exércitos que temos cá – tropas portuguesas, tropas do MPLA, tropas de Daniel Chipenda, tropas da FNLA, tropas da UNITA, tropas dos katangueses e tropas da FLEC – quando a guerra começar em Angola, nunca mais acabará!” E naquela altura quase ninguém falava de guerra, mas ela conseguiu profetizar e bem o que estava para vir.

GURN

O mais marcante de tudo isso foi a simpatia com que desfrutei do então Presidente da República José Eduardo dos Santos, situação que deu nas vistas de muita gente. Assim, por volta do quarto mês depois da tomada de posse, veio ter comigo o seu Assessor para os Assuntos Sociais, o Sr. Justino Fernandes, para debater comigo uma agenda vinda do Senhor Presidente. Terminada a conversa, ele foi claro em dizer-me que o Presidente da República estava a apreciar bastante o meu trabalho e encorajava-me a continuar a trabalhar na mesma direcção. De facto, na gestão dos diversos dossiers do Ministério da Saúde, eu procurava primar por uma isenção político-partidária e procurava servir, valorizando os critérios da justiça e da equidade.

Além disso, havia outros membros do MPLA com os quais desenvolvi boas relações de trabalho. Vou apenas citar o caso do então Ministro do Plano, o falecido Dr. Emanuel Moreira Carneiro que era de uma abertura sem limites para comigo.

CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES

Da minha experiência de vida e, particularmente, da minha vivência política, a lição mais importante que gostaria de deixar aos mais novos é a de que todos os dias temos a obrigação de fazer renascer a esperança para todos os angolanos. A generalidade dos angolanos não concorda com aqueles que pensam que no nosso país uns cidadãos são de primeira e outros são cidadãos de segunda ou mesmo de terceira classe.

O mais grave é que essas pessoas acham que os que não são cidadãos de primeira devem aceitar essa condição, tratando os outros como sendo cidadãos de primeira classe e nunca reclamar por direitos iguais. Consagrar isso na prática não é aceitar que alguns angolanos devem ser tratados como estrangeiros na sua própria terra? Julgo que o nosso trabalho tem de ser no sentido de mostrar que todos os dias nos vamos aproximando de uma Angola verdadeiramente livre, democrática, desenvolvida e igual para todos. Temos de aceitar que como país, conseguimos ter 50 anos de desgovernação e isso deve mudar. Que os próximos 50 anos venham a ser melhores do que esses primeiros 50 anos.

Este depoimento foi escrito por Anastácio Ruben Sicato, em Luanda, verão de 2025.

Palavras Chaves: GURN|25 de Abril|Programa Angola Combatente| 11 de Novembro de 1975 no Huambo