Deolinda Bebiana de Almeida é uma vencedora da luta pelo desenvolvimento de Angola. O seu empenho e dedicação junto às amigas e as senhoras da Missão Metodista de Luanda, levou a representá-las em Addis Abeba.
A sua liberdade de pensamento e ousadia leva o império colonial a persegui-la, provocando a fuga organizada para os Estados Unidos de América, onde reside, estuda , constitui família e trabalha até a Revolução dos Cravos em 2025. O Governo angolano faz dela uma das primeiras angolanas diplomata junto ao PNUD. Após a reforma, abraçar incondicionalmente a grande luta dos países africanos do séc. XXI, a luta pelo desenvolvimento. Desafiadoramente, procura e encontra a pobreza urbana mais complexa e imprópria para a sobrevivência do ser humano, onde o assistencialismo se choca com o desenvolvimento, confirma afirma, os antigos residentes da Lixeira do Golfe viviam no e do lixo. Viver numa lixeira é uma questão assistencial e viver da lixeira pode ser a chave para seu morador se desenvolver, e a antiga companheira de Deolinda Rodrigues encontrou esta chave, criou uma equipa e conseguiu. O sucesso é um caso de estudo bem sucedido.
Bebiana de Almeida como é mais conhecida, representa a geração 30-40 de pan-africanistas que lutou, e. ganhou a liberdade de África os direitos da mulher, da criança e faz parte das veteranas angolanas com projetos de desenvolvimento ativos, ao lado de muitas outras, algumas das quais depositaram parte da sua memória imaterial na plataforma História Social de Angola, entre as quais Irene Webba, Conceição Caposso, a primeira sua companheira na inquebrantável vontade pelo desenvolvimento social de Angola. Outra dimensão comum entre estas e outras depoentes cujas memórias são repletas de feitos de história é serem cristas protestantes.
A integração e a diversificação de memória imaterial aceleram a inclusão da base de dados História Social de Angola. Anot Santos recordou-nos “e a memória da Bebiana de Almeida’’. Alguns dias depois, estávamos no pátio de uma residência ecológica, a conversar sobre alguém que trata de quem vive no lixo, registo da memória imaterial foi seguido da exibição da memória material, o documentário a Inquebrantável Vontade de Vencer.
INTRODUÇÃO
Eu chamo-me Deolinda Bebiana de Almeida, nasci em uma pequena aldeia. Eu vivi nessa aldeia de Calomboloca até aos seis anos. Filha de pais muito simples, o meu pai era pastor de aldeia, formou-se mais tarde.
Depois o meu pai esteve envolvido em outros trabalhos de enfermagem e com esse trabalho do meu pai a família girou com ele. Passamos por N’Dalatando e depois em Luanda. Nesse domínio de enfermagem o meu pai foi apoiado por um português que era médico, o Bruno Mesquita que simpatizou com o meu pai pela dinâmica dele.
De Calum Bunze o meu pai lembro-me era cobrador de comboios mas, já no âmbito da enfermagem passamos por Ndalatando, foi transferido para a área do Pango Aluquem nós os filhos tivemos de ficar em Luanda. As mesmas tiveram de viver no bairro Indígena. Era um bairro muito difícil do nosso país, naqueles anos de 1950-60, mesmo hoje em dia é um bairro diminuído do nosso país.
Quando o meu pai saiu de Ndalatando para Luanda foi quando toda a família saiu do Bairro Indígena para o Cruzeiro. A forma de viver passa daquela vida de bairro muito diminuído, muito rural para uma área já mais dignificada que era o bairro do Cruzeiro, onde crescemos doze.
Temos agora sete. a irmã mais velha a Ermengarda. de Almeida Sebastião que ainda vive, o Sílvio Paulo de Almeida já faleceu mais uma irmã, somos sete. Não há dúvida que a nossa vida melhorou e seguimos muita coisa.
Eu sou socióloga, mestranda em sociologia nos Estados Unidos. Fiz a licenciatura em economia também nos Estados Unidos. Eu sou socióloga, mas voltada para o ramo de desenvolvimento, devido a minha carreira, em termos literários é sociologia.
RELAÇÃO COM OS PAIS E IRMÃOS
Havia muito boa relação, os pais eram muito voltados à educação dos seus filhos. Estudar não se poderia negociar, portanto, foram sempre muito determinados em verem os seus filhos a estudar e a terem bons resultados. A minha mãe era aquela que visitava os nossos professores pelo menos uma vez de dois em dois meses para saber como é que os filhos estão e se recebesse informações não satisfatórias, ela vinha. era o nosso pai que chefiava o grupo (familiar), mas o pai tinha um sentimento mais, aquele sentimento de pai, então ele fazia o esforço para vir bater-nos: punha-nos em fila, aqueles que reprovasse e depois mandava vir a palmatória. A minha mãe era aquela que estava à espera de ver a palmada e como o meu pai não conseguia chegar porque tinha aquele coração, a minha mãe saltava do outro lado e vinha, pegava nessa palmatória e tau-tau. Mas, era só para ver a importância que esses pais davam a educação. Então, nós vivemos nesse ambiente saudável, aquilo que eu sou e todos somos. Sim senhora, levava (referindo-se as palmatoadas) e hoje sou o que sou. e uma relação muito positiva entre irmãos, filhos e pais. Portanto, não posso negar, agradeço tudo o que tenho aos meus pais, em particular a minha mãe, que era… “não brincava’’ em relação aos estudos.
ENSINO
Então, eu fui uma aluna agraciada por Deus, não conheci reprovação. Estudava, eu gostava de estudar, então, fiz a minha escola primária de uma maneira muito aceitável, eu estudei na escola Sete, aquela escola que fica junto ao Governo de Luanda. Eu e outras irmãs, a Guida , as mais velhas foram alunas do Colégio das Beiras.
Depois da quarta classe feita, tive de fazer aquela admissão aos liceu porque era necessário para ser admitida aos liceus, Essa admissão era feita no liceu, tinha de ser feita no Liceu, hoje Mutu ya Kevela, passei, faço o primeiro ano de liceu no Salvador Correia e depois abriu o Liceu feminino, aquele liceu que foi criado junto ao atual Ministério da Defesa. Fiz o Liceu feminino até ao 5º Ano. tive uma professora que ficou um pouco aborrecida comigo a Alice Ugarda , fazia tudo para passar as outras cadeiras e ali se tivesse apenas uma cadeira ainda se poderia passar para o ano seguinte.
Isso aconteceu com a disciplina em Português, a Alice Uganda transformava aquilo em muito sério, sabia que eu não ia passar, mas eu passava as outras cadeiras. Conseguia passar para o ano seguinte. E era aquela professora que se chateava se tivéssemos o dedo no ar.
Isso é só para dizer o quadro que as alunas negras tinham nesse tempo colonial. As pretas viviam nessas escolas oficiais, escolas portuguesas. Era o período colonial, muito difícil, para o preto ou preta vencer tinham de passar pelos outros. Lá consegui e foi então nesse ano, 5º, depois de feito o 5º ano, nos anos 60, como eu era também activa na Igreja Metodista, havia várias igrejas e nós sempre fomos protestantes, meu pai era pastor na igreja metodista.
A igreja Metodista em Angola foi convidada a participar em uma reunião para mulheres nas Nações Unidas. E eu como era muito ativa na igreja, gostava muito de ajudar a minha mãe, onde a minha mãe estivesse eu lá estava, gostava muito de estar envolvida em actividades da igreja, actividades sociais. Então, a igreja diz:
– fomos convidados para ir a reunião da Igreja, a Addis Abeba, mas nenhuma de nós senhora conhece a língua francesa ou inglês, quem de nós, senhoras, pode ir representar-nos?
– A nossa filha Bibiana que está sempre connosco, ajuda-nos sempre em tudo, então vamos pô-la, vai representar a sociedade de senhoras da nossa igreja a Addis Abeba.
A JOVEM REPRESENTANTE DAS MULHERES METODISTAS DE ANGOLA, ADDIS ABEBA, DEZ 1960
Então, eu começo uma vida, uma carreira diferente. De estudante do 5º ano, no fim do ano vou para essa conferência. Foi uma luta conseguir o passaporte, negra não tinha passaporte, mas o Bispo Emílio de Carvalho e o Dodge trabalharam e fizeram muito para que eu conseguisse o passaporte. Explicaram aos portugueses que eu era jovem, tinha dezasseis anos e eu não iria fazer nada de perigoso a Angola ou aos portugueses, foi assim que eu saio de Angola.
Não suspendi o ensino no liceu porque a conferência era por uma semana. o liceu deu-me a autorização de saída, a questão era obter o passaporte. Saí. Portanto, deram-me a autorização para sair e passo por Luanda, Maputo, Salisbury, hoje Zimbabwe, Addis Abeba, passando também por Nairobi. Assisti à reunião.
Mas eu cá sendo metodista, já estávamos, nós os metodistas envolvidos em muitas coisas, em termos de em trabalhos sociais, lembro-me que com a Deolinda Rodrigues o nosso trabalho era trabalhar com as mulheres do bairro, com as comunidades. E a Deolinda Rodrigues era aquela muito voltada aos jovens. Então, nós tínhamos os diferentes grupos na Igreja Metodista e através do nosso grupo, eu era do Grupo X, a Deolinda já era do Esquadrão da Cruz de um grupo superior, mas estávamos todos envolvidos em fazermos o melhor para estudar bem, insistirem em não reprovar , quer dizer aquelas ideias todas que nós tínhamos na nossa igreja Metodista, era próprio das nossas atividades de jovens metodistas.
Então, em Addis Abeba, tinham as várias sessões nessa conferência, eu falava sobre Angola, sobre outras dificuldades que tínhamos em Angola, das diferenças em que existiam entre os cidadãos: tínhamos o cidadão branco, entre o preto e o branco era mestiço, entre o mestiço e o branco era o cabrito e entre o mestiço e o preto era o preto fulo. Essa estratificação toda em termos raciais entre os portugueses estava presente. E depois havia o assimilado, e quanto os pais são assimilados os filhos automaticamente são assimilados, depois está o indigenato, estavam os indígenas, os do mato. Então, havia esta estratificação toda e eu nessa reunião falava como éramos tratados.
O facto de naquela altura, não sei se vocês sabiam, havia um autocarro só para pretos. O preto que quisesse entrar no autocarro tinha de mostrar o cartão de assimilado “tudo bem, podes entrar’’, porque senão era o muihungo, um autocarro marginalizado, apenas tinha acesso ao Muíhungo. Pronto, era o colonialismo, o período colonial.
Mas, tivemos aquela resiliência de aguentar, nós os jovens no liceu ou fora, os adultos era a vida que tínhamos e tínhamos de fazer o melhor.
Em Addis Abeba tive a oportunidade de falar um pouco e o que eu não sabia é que estava a ser acompanhada por uma senhora que era da PIDE. Conhecem a PIDE? A PIDE é a organização que os portugueses tinham para poder liderar e ver quem e que estaria contra a política portuguesa, quem estaria a querer fazer revolução.
Esqueci-me, bem não me esqueci, eu estava um pouco inocente, eu não sabia que estava a ser acompanhada por uma Senhora a Ferronha que estava ali para me acompanhar. Eu, portanto, falei aquilo que teria de falar, expliquei como é que se vivia neste país e tento regressar como estava previsto, pela mesma via.
Em Salisbúria fiquei um tempo com o Bispo Dodge, que era o Bispo para a região sul de África (era Angola, Moçambique, África do Sul, etc). Fiquei um tempo com ele e depois regressei para Angola. Eu saí de Angola em meados de Dezembro de 1960 e regressei a Luanda a 31 de janeiro de 1961.
4 DE FEVEREIRO, 1961
Um mês depois, há o 4 de Fevereiro de 1961. Então, os portugueses ficaram frustrados e mesmo muito, muito aborrecidos com essa situação do 4 de Fevereiro. Eles procuram ver de onde isto tudo vem e está sempre nisso tudo a Igreja Evangélica, está no centro disso é o exemplo mais concreto era a Deolinda Bebiana de Almeida que tinha acabado de sair para fora, esteve em Addis Abeba, onde esteve a dizer muita coisa contra os portugueses, então temos de ver, agarrar essa Deolinda Bebiana de Almeida. Eu era jovem, na altura voltei para o liceu, era estudante, o meu nome sai pela rádio.
E lembro-me quando acontece o 4 de Fevereiro, no dia 5 de Fevereiro de 1965, estou a ir para o liceu, estou a descer para aquela na do Tristão para o liceu feminino, havia um alvoroço, alguma coisa havia acontecido, no dia 5 de Fevereiro.
Estou acompanhada pela minha amiga Amélia Mingas e naquela rampa a descida do Tristão estavam os nossos patrícios a dizer “miúdas, voltem, voltem, onde vocês vão, voltar, voltar, está ali a polícia portuguesa a apanhar todo mundo. Então, é assim que eu e essa minha colega voltamos e fomos esconder-nos ali onde era o Kinaxixi, a praça, enquanto a tropa portuguesa passava naquela área toda a prender aquelas pessoas.
Quando o perigo cessou era já tarde, eu e a Amélia Mingas saímos para voltarmos para o nosso bairro porque ela vivia também no Cruzeiro. dali vamos e apanho uma boa surra do meu pai, ele dizia “mas minha filha, mas o que te faz estar envolvida nessas coisas). porque e eu era daquelas filhas que se o meu pai não me acordasse as quatro da manhã para eu escutar a rádio Moscovo ou a rádio Pequim, eu ficava zangadíssima com ele, chorava e perguntava “por que o papá não me deixou ouvir a Rádio Pequim e a Rádio Moscovo?”. Pelas quatro da manhã, o meu pai também as seguia.
Há uma grande rusga. Nós estamos no Bairro Cruzeiro, a minha casa ficava na Rua da Índia, era a rua que ficava de frente para o Bairro Operário. E todo patrício que passasse a descer do Bairro Operário para Baixa, que ia trabalhar, isso dia 5 e dia 6 e que não tivesse o Bilhete de Identidade, e era operário, era abatido imediatamente. Então, eu vi isso, assisti isso. Ver o nosso patrício, o nosso angolano que saia do bairro operário e descia para baixa “Bilhete de Identidade, quem não tivesse, pá (gesto a simular um disparo de arma de fogo). era mesmo, não imagina, assistimos, eu e a nossa família da nossa janela. Mas essas são memórias amargas, difíceis do 4 de fevereiro e do massacre que assisti pessoalmente , eu, as minhas irmãs todas, meu pai, minha mãe e outros.
Então eu voltei e tive de ir ao esconderijo porque estavam à procura da Bebiana de Almeida. O meu pai pôs-me numa casa escondida no Rangel, portanto eles procuravam a Bebiana de Almeida em uma casa enquanto eles procuravam a Bebiana de Almeida.
A Igreja Metodista movimentou-se novamente, o Bispo Dodge que estava em Salisbury teve de vir para ver essa situação com os portugueses e dizia-lhes “mas ela é uma miúda, tem dezassete anos, portanto não é nada dessa revolução, desta euforia que se está passando por aí, dizendo que os angolanos também estão a fazer tudo para… que está passando por aí”. O Bispo Dodge e Emílio de Carvalho tiveram novamente de entrar na cena, explicar aos portugueses que eu era miúda.
Eles queriam, eu tinha de sair de Luanda, deixar Angola e ir para Portugal, ir para onde os outros estavam, o nosso Agostinho Neto e outros que estavam em Portugal, onde estavam todos que não podiam estar em Angola. Quer dizer, a negociação é aceite, o Bispo Dodge e o Emílio de Carvalho e então aceitam enviarem-me para Portugal. Mas, como tinha havido aquela trama toda na negociação, os Bispos pediram para eu passar por Salisbury e depois continuar, a fim de relaxar um bocadinho, sair desse todo problema que vivi.
Então, aceitam, faço a mesma via, por Salisbúria. Em Salisbury os portugueses prendem o passaporte, não me deixam, dizem que eu podia sair sim, estar um tempo com o Bispo Dodge, mas que o passaporte tinha de continuar permanecer na embaixada portuguesa, é assim que o meu passaporte fica retido.
Então eu estou a viver com o Bispo Dodge, mas continuavam a minha procura mesmo em Salisbúria. Então, tive de viver no escritório da residência do Bispo Dodge enquanto ele negociava com os Estados Unidos. Porque os portugueses esperavam que eu voltasse à embaixada para apanhar o passaporte e seguir para Portugal e prenderem-me.
É assim, que passava o G. Mennen Williams , Secretário para África e ele telefona ao John F. Kennedy, ele compreendia os problemas que se viviam em Angola e o Kenedy disse que aceitaria que eu fosse para os Estados Unidos sem passaporte, assim que o carro do Bispo Dodge teve de vir até ao escritório e entrar no carro porque eu não podia pisar o solo. Desta porta, entrou para o carro diplomático e vou para o aeroporto e subo a escada, ali estou no avião da British Airways em território britânico e não piso mais o território Salisbury e deste avião parto para os Estados Unidos, com uma paragem de londres washington onde estava a Missionária Rose Thomas a minha espera.
Nos Estados Unidos, estava em território americano em liberdade, Rosie Thomas recebeu-me e foi então que eu me refugiei nas mãos dos portugueses. A ideia era mandarem-me para Portugal. Isso aconteceu em 1962.
Ali, fico até a Revolução de Cravos em 1974 porque era refugiada a estudar em Michigan. Fiz a minha licenciatura em Economia, depois, em Minnesota, fiz o meu mestrado. Casei nos EUA, tive os meus filhos e fico nos Estados Unidos até a revolução dos cravos. Vemos a possibilidade de visitar o nosso país. Venho para ver a minha família com os meus dois filhos, o meu marido ainda ficou por lá porque ele trabalhava.
25 de Abril, 1974
Venho em 25 de Abril e envolvo-me imediatamente na política. Enquanto nos EUA fui sempre militante, lutei, foi ali onde nós nos encontrávamos, Deolinda Rodrigues já formada, voltou para Angola, para a revolução. Ela encorajou-nos a continuarmos a estudar e então quando chego envolve-me na política. Envolver-me em que sentido? Em ajudar a população, que eu sempre gostei, foi sempre a minha área, então ajudar aquele cidadão que precisasse do meu conselho.
Foi nesse quadro que o governo de transição que o camarada Lopo de Nascimento mandou me juntar ao PNUD no quadro nacional porque o PNUD tinha muitos quadros da UNITA e da FNLA, então o MPLA precisa de quadro, até a independência.
11 DE NOVEMBRO, 1975
O que eu estou a fazer no dia 10 de Novembro de 1975? Estou no Largo 1 º de Maio, com outras senhoras. Na altura, não era da OMA, éramos mulheres do MPLA. Estou a cavar buracos para poder meter as nossas bandeiras a volta do 1 º de Maio. Então, a 10 de Novembro, por volta da meia noite estamos ali todos nós, ali à volta. Neto proclama a independência. Estão, os grandes os voos cubanos a sobrevoarem aquele largo da independência (imita o ruído dos aviões) a passarem para Cabo Ledo para poderem travar a UNITA, os três movimentos queriam estar em Luanda, que vinha do Sul, a FNLA do norte, e esses voos sobrevoaram aquela área para irem para Cabo ledo bombardear aqueles soldados a volta de Cabo Ledo. Neto declara a independência de Angola perante África e o Mundo. E depois dessa declaração a meia noite, com aqueles bombardeamentos a norte, em Kifangondo, mas nós ali, com toda aquela coragem e aquela força, vamos todos marchamos, correndo para o Palácio do Povo, fomos todos para o Palácio do Povo para onde o próprio Neto se dirigiu.
E estávamos nós independentes. No dia seguinte, Angola era a nossa Angola independente e mãos à obra. Estavam vários dirigentes nossos, entre eles o Mendes de Carvalho. Eu que vinha apenas para visitar a família e ter algum tempo e depois regressar para os EUA, decidi já não regressar mais. “E assim fico, já não regresso”. Houve a reorganização do nosso governo , o estabelecimento do nosso governo. E é nesse ambiente onde eu me junto ao Ministério das Relações Exteriores e trabalho um tempo com a Olga Lima que era a Diretora para a Política, mas o que eu mais gostava era da Área Económica e então fico para as relações econômicas e fico a trabalhar já nesse governo constituído. Eu estou no Ministério das Relações Exteriores e depois do 27 de maio. Garcia Neto morreu nesta luta do 27 de maio e eu fui nomeada em 1977 para acompanhar a direção e substituir Garcia Neto onde trabalho como Diretora da Cooperação em 1977, onde trabalho como diretora.
FUNCIONÁRIA DO PNUD, 1988
Nos anos 80, o governo quis ter quadros nas Nações Unidas para melhor representarmos Angola na NU e sugerem o meu nome. Fomos três as sugeridas, para sermos encaminhadas e podermos ser encaminhadas e podermos entrar no PNUD, meu nome, Olga Lima e o Ismael Martins. O PNUD decide escolher o meu nome e assim que eu entro para as NU.
Recrutada pela PNUD, já a nível internacional, fui escolhida como representante do PNUD no Mali, fico um ano, transferem-me para o Botswana, fico cinco anos a trabalhar, tinha colaboradores.
Depois, sou transferida para Madagascar e já no Botswana era Representante Adjunta do PNUD, ficou quatro anos, depois transferida para a República Centro Africana e ali vou já como Coordenadora do PNUD, a coordenar o sistema das NU, coordenadora de todas essas agências, onde também fiquei cinco anos e no final para o período da minha reforma.
Memórias marcantes.
O PROGRAMA DA POBREZA EXTREMA, LIXEIRA DO GOLFE, ANOS 2000
Regresso ao meu país, mas um tanto quanto decepcionada porque no fundo tentei fazer o melhor em termos de desenvolvido, mas nada vi, não vi o desenvolvimento a acontecer e eu no Botswana, em Madagascar (nos países por onde coordenou programas do PNUD). Então, ao regressar o meu presidente e os meus colegas” camarada Bebiana depois dessa experiência toda vai representar-nos na sede das NU para ser nossa Embaixadora’’ e eu disse: muita agradecida o que eu gostaria mesmo de fazer era levar a cabo um programa de estudo experimental de combate a pobreza. E essa pobreza não seria uma pobreza qualquer.
E, na altura, o Ministro era João Miranda e Francisco Romão, Vice-Ministro. Roguei-lhes que eu continuasse no quadro das Relações Exteriores, teria o meu salário. É nesse quadro que eu ao tentar procurar a pobreza verdadeira, a pobreza extrema porque eu não queria qualquer pobreza, encontro a lixeira , termina no lixo, portanto esta história da Dra. Beniana, da Coordenadora do PNUD, termina na grande lixeira do Golfe II, onde termina a Dra. Bebiana de Almeida, eu tenho pen drive, prefiro passar a pen para vocês verem e nesse quadro escrevo o livro “A inquebrantável Vontade de Vencer’’, verem o documentário e verem a continuidade da minha vida profissional.
BRINCADEIRAS DE INFÂNCIA
Nós éramos todas meninas porque o irmão era pequenino, o Nino, era o penúltimo. Na nossa família, somos nove, apenas dois rapazes, o Sílvio de Almeida e a última é a Nina porque é que é Nina porque o Sílvio – João Neto, chamavam-no Nino. Depois da carrada de meninas, somos nove, a primeira é uma menina e depois um rapaz, a seguir meninas … do quinto ao sétimo meninas. Então, o meu pai com esse Nino, era o meu menino, o Nino, o Nino tinha tudo.
Depois mais uma vez vem outra menina, o meu pai chateado já nem ligou, a minha mãe aborrecida, o que vamos fazer, se Deus quer, então decidimos já que tínhamos o nosso Nino esta seria a Nina, seriam o Nino e a Nina, ela tem o nome do irmão, e do cunhado Adriano Sebastião, ela, a caçula tem o nome dos três homens na família;, chamasse Sílvia Adriana de Almeida.
Também, guerreavam os e lutamos. Em termos de trabalhos de casa tínhamos as nossas responsabilidades, cuidava da limpeza da casa, a Arminda Ana era a que gostava de cozinhar e eu era a costureira, cozia a roupa das nossas irmãs.
Os tempos livro, sei lá! Era tentar subir às árvores, jogar pedras. Não havia grandes …
OS NAMOROS PURITANOS
Eu fui sempre, falo de mim e de outras, o namoro era aceitável, não há dúvidas que nós namoramos e tínhamos amigos, mas eram da missão protestante. Nada se fazia namoro não se fazia abertamente, os rapazes vinham ter connosco. era mais como amigos, comíamos os nossos lanches, na idade de treze catorze anos.
Eu não sei como é o namoro hoje, mas naquela altura, éramos amigos, brincávamos e cantávamos, estávamos no coro da igreja. Eu tinha fãs, lembro-me que um dos fãs era o Pedro Filipe (porque aparece no seu livro), eu lembro-me que quando tentou beijar-me, beijou-me assim (gesto) na boca e eu “ai meu Deus e agora vou ter de me casar com esse senhor’’, estão a ver, era puritanismo que da gente que vinha da Missão. Mas quem não queria se casar com alguém da missão, os católicos gostavam da conduta da mulher da missão, era muito puritana. Namorávamos, noivávamos e casávamos, mas era dentro de um quadro muito rígido.
Nos EUA estive no internato e a própria igreja também reunia todos os estudantes, encontramo-nos com os angolanos e com os outros. Acabei por casar com Diarra Boubacar, um muçulmano, uma pessoa muito séria. Eram Jovens protestantes angolanos, ou fugidos ou de bolsas mas estavam em diferentes cidades, estava eu em Michigan, a Maria Martins e a Arminda Ana estava em Buffalo, estávamos em diferentes estados, encontrávamos por vezes e eram angolanos apoiados aqui pela Igreja Metodista , uma igreja americana. Conhecemo-nos todos cá em Luanda.
ALIMENTAÇÃO
Comíamos um bom funje de milho ou de bombó com bagre ou com carne, Muambas de carne. O meu pai já era assimilado e com assimilado comíamos arroz, caldeiradas, essas comidas portuguesas. no mato comia-se o funge e o feijão de óleo de palma as que hoje existem. Naquela altura, comíamos as nossas comidas, os tradicionais bagre, o feijão de óleo de palma e com o’assimilado tínhamos arroz, a caldeirada e a sopa…
FACTOS MARCANTES
A pessoa impactante enquanto criança foi o meu pai e a minha mãe. Como jovem estou na universidade, são os meus professores da faculdade e diria a missionária Rosa Thomas, ela acaba a missão aqui e estive com ela nos Estados Unidos. E depois já estou numa relação de jovem que tem o seu namorado e essa pessoa impacta a minha vida e eu a dele, casada e depois separamo-nos. mas que tem mesmo impacto são os meus pais.
Nesses momentos em que sou estudante do Liceu, há o 4 de Fevereiro e a gente sente o impacto do angolano que tenta libertar os nossos. Depois entro nessa revolução. Mas quem foi o meu mentor na altura, 4 de Fevereiro, era a Deolinda Rodrigues, igualmente Maria António, cidadão português. Estávamos na escola da missão, ele tinha também aquelas ideias revolucionárias. Os pais, colegas e a amiga Amélia. Eu fui marcada pelo desejo de ver Angola independente, portanto, toda e qualquer pessoa que tentasse fazer o bem para Angola eu ficava logo ligada a essa pessoa. Enquanto estive fora nós EU não pude fazer muita coisa, estava atada ao movimento Civil Rights dos EU, de Luther King. Eu não entrava muito nisso porque eu era estrangeira e não queria ser acusada. Aquilo também foi uma luta, então eu simpatizava muito com esta causa mas tinha de ficar calada. E como sentir-me livre, libertada deste jugo, seja colonial ou seja o racismo foi o que me fez regressar. Vinha visitar os meus irmãos, a mãe já não estava viva, ô meu pai. Regressei para cumprimentar e voltar, fico atada, fico e já não volto, estou atada a revolução, isso é que agarra e ali era mesmo para fazer alguma coisa. E não era necessariamente ir ao maqui , era estando dentro de Luanda.
A África tinha de se desenvolver e quando eu faço esses países todos que já estavam independentes e que não vi nenhum desenvolvimento, venho e não quis novamente ir para um gabinete e ser diretora ou embaixadora porque me queriam mandar novamente, mas eu queria testar se realmente essa pobreza extrema poderia ser eliminada ou pelo menos reduzida. Então, foi por isso que de altos níveis em que me encontrava, disse não, vou mesmo para a lixeira dali fui mesmo para a lixeira. E conseguimos, também não gosto “do consegui”, nada é feito só, foi com outros angolanos conseguimos fazer alguma coisa que ajudou aquele nosso cidadão que vivia no lixo e do lixo. Então, se há alguma coisa que impacta o meu ser e a minha maneira de ser foi a extrema pobreza.
O racismo que se vivia no quadro das instituições portuguesas, aquela que eu vive no Liceu Guiomar de Lencastre com essa professora e ele pergunta-me: “mas, oh rapariga eu sou a única que te reprovo?”, Ninguém mais? Era necessário reprovar as duas disciplinas e eu reprovava só a dela e por isso passava, mas tinha de continuar com ela, a fazer a cadeira dela.
E aquela marcante de ela fazer uma pergunta, todos nós levantarmos as mãos e ela vai para todos. primeiro as brancas, depois as mestiças e quando ninguém mais tem resposta, então é que vem a preta e a resposta era a certa. quer dizer, isso é marcante.
Eu vivia isso e é por isso mesmo que nós lutamos contra o colonialismo: Tu és branco tens um tratamento, és mestiça tem um tratamento desfavorável mas era melhor que ao preto.
CONSELHO ÀS FUTURAS GERAÇÕES
Há situações muito positivas que os mais velhos têm de transmitir aos jovens. E o desejo de ter algo positivo para o seu país, o país é nosso e temos de ter esse desejo de não pensar que é o outro que vem de fora, o cooperante, o investidor estrangeiro é que deve fazer e ele sozinho. Eu não estou a negar a presença do investidor estrangeiro, mas o que estou a dizer é que o angolano tem de se fazer dono do seu próprio país . nós querendo trazer o bom do empresário estrangeiro, queremos as boas experiências trazidas ao nosso país, querendo o bom senso do angolano estrangeiro porque Angola é do angolano e quem deve desenvolver Angola é o angolano. esta é a grande mensagem que eu tenho: O angolano não se deve pôr de parte porque “ele” já está a fazer, não! nós os Angolanos temos de fazer e nós temos de assumir o nosso próprio desenvolvimento”.
O desenvolvimento não é assistencialismo, não é dar pão e banana, e estamos satisfeitos, já fizemos a nossa parte! Assistencialismo é muito diferente de desenvolvimento é capacitar, e empoderar o ser humano, a pessoa sentir-se dono de si própria, poder fazer coisas para se, partilhar com outros, considerar a vida e o bem estar do outro, isso é que é desenvolvimento, isso é que é empoderamento.
Engajem-se em querer vocês próprios desenvolverem o vosso país, não deixar o vosso país na mão dos outros. O país é nosso e nós temos a capacidade de desenvolver.
QUAL A IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA ORAL?
A memória oral é muito importante para poder enriquecer a memória escrita. O escrito só aparece se haver memória oral. havendo memória oral eu posso transmitir esse pensamento, esse saber e alguém outro poderá escrever e estando isto escrito passa de geração a geração. Portanto, a memória oral é muito importante porque ela enriquece o escrito e escrito vai de geração em geração.
Morro do Moca, Ponto Mais Alto de Angola, 2660m de altitude e 1510 m de proeminência topográfica
A população em particular da Aldeia do Kajonde se mostra disponível em cooperar com quaisquer iniciativas que visem diminuir a pressão sobre os recursos florestais da região e são unânimes em afirmar que a este ritmo as florestas e matas da escarpa podem mesmo vir a desaparecer num período de tempo relativamente mais curto, contrariamente às nossas previsões iniciais que estimavam entre quatro a cinco anos.https: / /www.mountmoco.org/ downloads/MocoMaiato.pdf
Este depoimento foi realizado em Luanda, em Mmarço de 2025.
Entrevistadora e transcrição: Marinela Cerqueira
Audiovisual: Muki produções
Edição:: Elivulu
Plavras Chave: Igreja Metodista| BIspo Ralph Dodge|Nações Unidas|Aldeia de Kajonde

