Por ocasião da comemoração do Dia Internacional dos Museus, a 18 de Maio de 2023, o Governo Provincial do Namibe convidou a História Social de Angola (HSA) a participar nas actividades comemorativas, que tiveram início com uma visita ao Museu do Namibe. Nesta visita foram registados dados sobre as culturas mucubal e imba, com destaque para a arte Mbali gravada em campas funerárias, bem como para a memória material colonial. Procedeu-se ainda à recolha de memória colectiva de três monumentos identitários da paisagem urbana da cidade: a Fortaleza de São Fernando, actual sede da Marinha Nacional, a Igreja de Santo Adrião e o Cine Estúdio. Esta recolha baseou-se na memória oral do sociólogo Ildeberto Gaspar Madeira, com a participação do Dr. Vladmir e de oficiais da Marinha de Guerra.
Este depoimento teve origem num encontro realizado no dia anterior, na residência do depoente. Desde a chegada, impressionou-nos a relevância histórica da casa e das peças de arte expostas na varanda. Antes de iniciarmos formalmente a recolha da memória colectiva da cidade do Namibe, convidámo-lo e agendámos a entrevista para o dia seguinte.
No final, o depoente sugeriu a recolha da memória oral do seu amigo e contemporâneo Sidónio Gaspar, junto de quem se registaram descrições de factos semelhantes, nomeadamente sobre o racismo exercido pelo império colonial e as suas especificidades no Namibe em comparação com outras cidades do centro-sul de Angola. Ambos partilham uma preocupação central relacionada com a transcoloneidade expressa na toponímia da cidade. O exemplo mais significativo é o regresso da designação Moçâmedes para a capital da província do Namibe, nome associado a um representante do império colonial com ligações ao comércio esclavagista numa das maiores rotas de escravos do actual território angolano. Reivindicam a angolanidade e o respeito pela memória das pessoas escravizadas enclausuradas nas duas celas da antiga Fortaleza de São Fernando, situada no monte da Ponta Negra, na Baía dos Negros, onde se localiza o porto da cidade, e defendem a reposição do nome original da povoação: Mussundo Bitoto.
Sempre que possível, a HSA realiza a recolha de memória oral no local de residência do depoente. Neste caso, a recolha decorreu na casa do herdeiro do último proprietário da maior empresa de pescas da província, situada numa região que alberga o deserto mais antigo do mundo, também alvo de investigação paleontológica sobre dinossauros. Esta residência e o seu espólio constituem, por si só, um dos mais relevantes arquivos históricos da cidade. Foi igualmente residência do proprietário da maior empresa de exportação de conservas para países da actual África Austral e para Moçambique, onde Ildeberto Gaspar Madeira passou parte do período de transição para a independência, a gerir a filial da indústria pesqueira herdada. Testemunhou a chegada da FRELIMO a Maputo e contrariou ordens contrárias à independência, defendendo os seus trabalhadores para garantir a continuidade do abastecimento alimentar.
Este namibense de gema conheceu a palavra independência aos nove anos de idade e defende de forma firme os direitos humanos e a liberdade de expressão, incluindo os direitos dos povos nómadas do sul de Angola, considerando-os indispensáveis ao desenvolvimento nacional, em especial à preservação da cultura, da memória e da história. Nesse contexto, ofereceu um exemplar da sua tese, permitindo uma melhor compreensão do seu pensamento nos anos 1940, confiando à cofundadora da HSA, também socióloga, Sónia Cançado, a divulgação da sua primeira contribuição científica ao país. Disponibilizou ainda imagens e fotografias, que foram devidamente historiografadas. Por fim, identificou outro filho ilustre da terra que partilha a mesma preocupação com a fragilidade da memória próxima, sobretudo após os 70 anos de idade.
Por este exercício de cidadania, agradecemos a ambos a riqueza das memórias partilhadas e ao Governo Provincial do Namibe pela primeira parceria estabelecida com um governo provincial.
Introdução
Sou um angolano, natural do Namibe, nasci em 1943, fruto do amor dos meus pais, o Gaspar e a Elzira, o meu pai era algarvio, veio para o Namibe com 17 anos e a minha mãe nasceu aqui em Moçâmedes, conheceram-se, amaram-se e fizeram a mim e as minhas três irmãs e a partir daí é o avolumar de lembranças neste espaço tão bonito que o meu pai e a minha mãe me ensinaram a amar. Nasci no bairro da Facada em casa do Júlio Inácio e depois fui vivendo aqui muito feliz até ao final da escola primária.
Ouvir falar da independência na infância, 1959
O meu pai ensinou-me o que era a independência quando eu tinha nove anos, no aeroporto de Benguela. O meu pai pertencia a um grupinho pequeno de pessoas empresárias de uma certa dimensão, angolanos e outros portugueses que eram contra Salazar, não eram da União Nacional de Salazar. Quando ia fazer as suas viagens de negócio levava-me com ele e depois encontrava-se com os amigos que eram de Luanda e uma vez vindo de Luanda para Moçâmedes o avião aterrou em Benguela, viemos naqueles aviões Dakota, antigos que ainda andavam assim (gesto com a mão) com a cauda quase no chão e então enquanto esperávamos que eles fizessem manutenção e a mudança de combustível ele foi falar com o Senhor que se me lembro se chamava Leitão, era de Benguela porque Benguela sempre foi uma terra incadescendente do lado da revolução do lado da independência.
Então, tinha aquele amigo que o esperava e estavam a conversar, eu tinha oito-nove anos e falam a palavra “independência” e eu digo, “oh pai, o que é isso da independência?” e ele diz-me ”eu depois explico-te em casa, agora estou a falar aqui com este senhor, a conversar”, pegou-me por baixo do braço dele e disse “este gajo vai ouvir tudo aquilo que nós temos de falar aqui hoje”. Então minha senhora, eu ouvi o que nunca tinha ouvido, palavras tão feias, ditas ao Salazar e aos amigos dele, e fiquei a partir deste tempo a saber o que não sabia que era, sabendo o que era. O meu pai sai dali, com aquele senhor a falar daquela coisa séria, de uma coisa importante.
E sempre que ele ia a Luanda e estava com os amigos dele, um escritor e outro advogado que esteve aqui em Moçâmedes e tinha sido enviado por Salazar de castigo e depois, tinham pegado nele e mandado para Luanda. E uma vez estão eles no escritório de advogados deste senhor que era por cima da Bicker, “sabe onde é a Bicker? A cervejaria, é muito antiga, ainda funciona?!” Eram sete horas da noite, estavam a fazer uma lista quando a secretaria bate a porta (imitando o toque, bate duas vezes no tampo da secretária), abre e diz “a PIDE está aí”, então, o meu pai olha para mim e diz “sabes o que é que o Senhor Manuel fez? Pegou os papéis todos, meteu-os na boca e engoliu-os, todos eles e quando a PIDE entrou ele estava a mastigar e a engolir”. O meu pai diz-me assim “eu não sei se ele conseguiu ir ao quarto de banho e engolir”. A PIDE olhou para aquilo, não encontrou números, documentos, não encontrou nada, mas desconfiou.
O meu pai andava na linha daqueles que eram contra Salazar, dos que queriam a independência, o Salazar daqui para fora porque queriam isto independente, não era o tipo da independência que nós tivemos, era mais uma independência económica.
E a partir daí o meu pai sempre me levava em viagens, quando ia a Porto Alexandre, actual Tombwa e sempre me dizia “olha ali é o rio Curoca, ali é a Welwitschia, os Três Irmãos, o Pinda” e cada vez que fosse com ele repetia as coisas “cuidado ali é, olha aqui”. E eu “então, pai, porque que me estás a dizer sempre a mesma coisa?” e o meu pai, “olha para tu meteres bem dentro da cabeça que isto aqui é a tua terra e tens de conhecer bem isto tudo, estás a ouvir?” e eu sem entender bem isso tudo “Ok, isto é a minha terra, tenho de conhecer bem isso, tenho os meus amigos, jogo a bola, é aqui que vou a praia” Mas, a questão da independência entre os meus oito a nove anos ainda mexia um bocadito, eu reparava que havia certas coisas que não eram normais!
Racismo em Moçâmedes| Os passeios para brancos, 1930
Um dia o meu pai chega a casa para almoçar e naquela altura nós esperávamos o meu pai para almoçar, estávamos todos a mesa, eu, as minhas três irmãs e a minha mãe, e o meu pai telefonava e dizia “olha, estou a chegar”, a minha mãe preparava as coisas e quando o meu pai se sentou, vi que estava nervoso, o meu pai começou a chorar e a minha viu que havia qualquer coisa que não estava bem, pegou no meu pai e levou-o para o quarto. Eles nunca discutiram à nossa frente, quando tinham discussões era sempre aparte e havia ali qualquer coisa que não estava bem, ficaram lá um bocadito e nós miúdos olhamos uns para os outros “o que é que se passa, o que é que não se passa?”, os criados também a perguntarem “o que é que se passa com o Sr. Gaspar, o que é que se passa?” Então, lá vieram os dois e o meu pai explicou, sempre com a lágrima no olho “hoje aconteceu uma coisa muito triste. Eu estava ali, a passar a frente dos Correios e vi um homem branco a bater num preto e estava-lhe a bater com cinto. Depois vim a saber que foi porque ele estava a andar descalço em cima do passeio[1]”.
Esse branco não admitiu porque nos passeios andam os brancos e os pretos andam na rua e ofendeu-lhe a vista. Houve outras passantes que passaram e defenderam, houve outros que diziam que sim e então lá pegaram no homem e levaram-no para o hospital, mas o homem parece que teria ficado com um problema grave na vista. Então, o meu pai ficou emocionado com aquela situação. Ele era um homem de muito apetite, mas nesse dia não comeu bem, lacrimoso e disse-nos “os homens não podem fazer isto a outros homens.”
E então, como eu perguntava a mim porquê? Tinha amigos braços, mestiços, negros que jogaram a bola comigo, jogavamos a bola na rua que não eram ainda asfaltada e brincavamos ali e nunca tivemos problemas de descriminaçao de raças e uma vez perguntei-lhe no caminho para Porto Alexandre “porque é que tu és assim?”, o meu pai era algarvio, tinha a pele muito morena, talvez a descendência dos árabes quando houve a invasão da Península Ibérica.
E perguntei-lhe, estávamos na fábrica de farinha, do meu pai e do sócio. A fábrica de farinhas naquela altura não era mecânica, era muito artesanal, misturava-se o peixe e punha-se a secar na eira, ao sol e aquilo atraia muitas baratas e muitos ratos, havia um cheiro característico em Porto Alexandre. Estávamos sentados e eu perguntava ao meu pai:
-Porquê que aquele senhor que está ali a trabalhar é preto e o pai é assim e eu sou assim, porquê?
E o meu pai chamou o senhor e disse-lhe assim:
– “ põe aqui a tua mão” e ele pôs e disse-me “põe aqui a tua mão” e pôs a mão dele também ao lado
E perguntou-me:
- a minha mão não é igual a tua, eu sou mais escuro que tu e sou teu pai?”
- é
E virou-se para o Senhor que estava à frente, o contratado e pergunta-me:
- e a pele deste senhor também é mais escura que a minha e a tua, não é?
– é
– mas, não tem cinco dedos como tu? não tens olhos e nariz como esse senhor?
– tenho
e ele perguntou ao trabalhador:
- Ouve lá, quando vais urinar como é que tu fazes?”
e ele, fala lá que eu estou a dar a ordem para falares , e ele:
– tenho que abrir os botões e depois pôr a coisa para fora, e…
e o meu pai olhou para mim e diz-me:
- e tu como é que fazes?
- eu também faço assim.
Estás a ver, somos iguais .
…“e tu só a estudar, não és trabalhador”. E foi assim que eu fui conhecendo a humanidade. A minha mãe e o meu pai ensinaram-me, tal como os cristãos pensam que “Deus é Pai, Filho, Espírito Santo em um”, a Alzira e o Gaspar foram os meus melhores professores, o meu pai de um lado e a minha mãe do outro, a eles devo tudo. Tenho ali fotografias para poder mostrar-lhe um destes dias. Por isso, é que aqui me chamam Gaspar Madeira, não me chamam Ildeberto, por ser o nome do meu pai. Ele criou um armazém, depois a fábrica, também criou muitas inimizades porque era contra o Salazar.
A União Nacional e o Papel de Humberto Delgado
Por exemplo, quando o Humberto Delgado criou aquela campanha contra Salazar o meu pai foi para Luanda e participou em todos os comícios do Humberto Delgado, na mesa do Humberto Delgado, penso que ele não veio a Moçâmedes mas tinha representantes aqui e o meu pai estava ao lado dele e foi muito criticado aqui. Mas, o meu pai estava-se marimbando porque não pertencia à União Nacional, foi muito independente. Então os meus pais ensinaram-me muito e houve muitas situações que eu soube depois porque o meu pai tinha a sua atitude, mas não gostava que se soubesse, quer dizer, eu faço e fica entre mim e eles “eu não digo nada porque quero fazer assim” e era um ser excepcional.
Estou a contar isso porque eu sou aquilo que ele me ensinou a ser por isso, sou Gaspar Madeira, somos diferentes em muitos aspectos, mas há situações de comportamento que eu não é bem dizer imitar, mas interpretar dentro de uma nova situação, é isso que eu faço.
A Mãe
E a minha mãe era uma senhora (…), havia um compadre meu que lhe beijava sempre a mão e quando lhe perguntei a última vez ( ao pai do meu filho) e eu “oh Zé Luís, você dá sempre beijo na mão da minha mãe, seja onde estiver, no restaurante, em casa, porque é que você beija sempre a mão da minha mãe?” Ele disse-me “porque a tua mãe é uma santa” e disse-lhe “as santas estão na igreja”, “a sua mãe não precisa de ser uma santa”, nunca me disse o porquê, mas também reparei que o pai desse miúdo só aceitava críticas da minha mãe.
Os Caminhos Marítimos
Foi assim que fui passando a minha juventude com muitos amigos e feliz nesta cidade de Moçâmedes, em um outro contexto, em brincadeiras, futebol, praia, os caminhos marítimos que era uma situação que havia ali na Damba dos Fortes, sabe o que é uma Damba? É uma depressão onde no fundo existe água e chamam a isso Damba. A Damba do Forte, a Damba Santa Rita tinha uma geografia muito engraçada, não sei se foi feita pelo homem ou pela natureza, nós aproveitávamos brincar com as nossas bicicletas e como aquilo era comprido, andávamos como se fosse nas ondas do mar e chamavam aquele lugar de caminhos marítimos, brincamos nos caminhos marítimos.
Transição do Liceu de Moçâmedes para o Liceu Salvador Correia, anos 50
Quando se tratou de passar para o liceu criaram um liceu experimental no qual participaram talvez uma vintena de pessoas, não correu bem. No ano seguinte, apanhamos o comboio e subimos a Serra da Chela onde havia um internato dos Irmãos Maristas e que tomavam conta dos rapazes, as meninas iam para o São José do Cluny e os rapazes para o internato dos Maristas.
Depois mais tarde, os meus pais mudaram para Luanda, o meu pai queria ter os filhos todos a volta dele, já estavamos crescidos, havia controle, tinha de ser maior e fui para o Liceu Salvador Correia onde tive dias muito felizes e fui colega de pessoas muito importantes, fui colega do José Eduardo dos Santos, era o Zé Dú na altura e do Belly Bello, do Catela, do Rocha, do Simões, do João Abel das Neves que depois foi Governador Adjunto do BNA e pertenceu também ao Governo de Transição. Andei com muitos deles, com o Roberto de Almeida, Ismael Martins e o José Eduardo que era um “gajo fixe”.
Licenciatura em Bruxelas, 1961
Naquela altura, não havia universidade em Angola e houve um grupo de miúdos como eu,com dezasseis anos, fiz dezoito anos na Bélgica, que se lembrou de ir ao consulado da Bélgica perguntar as condições das universidades, éramos amigos, tínhamos um grupo de amigos e falamos com os pais contando a nossa ideia, arranjamos um grupinho de seis pessoas e a partir do Consulado da Bélgica construímos um itinerário, com os documentos entregues aqui e fomos.
Passamos por Portugal, onde fui ver a minha família que nunca conheci, tinha ido a Lisboa mas, o pai era algarvio, era miúdo tinha três anos. Fui dar-lhes um abraço ao Algarve, a Alte, um sítio muito bonito próximo a Loulé, onde mesmo no tempo de Salazar se festejou sempre o 1º de Maio como o dia do trabalhador, a PIDE sabia mas não podia fazer nada porque eles festejavam o dia do trabalhador camuflado pelo dia da Fonte Grande que era no mesmo dia e festejando o dia da Fonte Grande, havia quem soubesse que era o dia do trabalhador, festejam também este dia. Parece ter sido a única localidade de Portugal onde isso se passou. O meu primo mais velho que nessa altura já andava na universidade em Coimbra, era também um opositor grande ao Salazar.
Depois fomos para Bruxelas, Bélgica, onde encontramos tudo novo, tudo era novo para nós, os contactos, o relacionamento entre rapazes e raparigas, a maneira de conversar, inúmeras nacionalidades, aquilo era uma sociedade livre quer dizer não havia barreiras na nossa expressão, claro sempre com boa educação. E eu assisti a muitas palestras, a muitos encontros, naquela altura eram os anos das independências, anos 60, conversamos muito e aí aprendi muito mais sobre aquilo que o meu pai me ensinou.
Nós tínhamos uma equipa de futebol com os amigos africanos na faculdade e há um dia em que, ainda me lembro dos nomes o Alphonse, o Sebastian e o Figueiredo (filho de uma senhora congolesa e de um português) dizem “queremos que jogos futebol na equipa africana, connosco” e eu disse “como vou jogar futebol na equipa africana se vocês já estão independentes, vai causar problemas entre vocês, ou não vai?”. Sinto sempre uma emoção quando falo nisso porque eles aproximaram-se de mim e abraçaram-me e dizem “ tu nasceste aonde, Angola onde é?”, eu “Angola é lá em baixo em África” , então abraçaram-me os três e disseram-me “tu és africanos como nós” e fiquei muito emocionado.
Joguei na equipa africana de futebol e até fizemos um feito porque foi a primeira vez nesse ano que a equipa de educação física perdeu a taça da universidade, fomos nós que ganhamos a taça pela universidade. Trouxe uma medalha e como o meu filho também é futebolista ofereci-lhe a medalha que me tinham dado em 1964-65. Essa medalha significa a ligação que nós tínhamos com a África porque nós não conhecíamos nada de Portugal porque dávamos na escola geografia e história portuguesa, não dávamos nada sobre Angola em história. Então, continuei a fazer os meus estudos universitários (políticos e sociológicos) com os meus amigos todos, por acaso já falecidos a excepção de um que está no Brasil. Quando acabei a universidade tinha-me apaixonado por uma belga que veio comigo, faleceu aqui e está enterrada aqui no cemitério.
Transitar para a Bélgica, foi um salto muito bom, positivo, estava sozinho, tive que me desenrascar, tive de escolher, tinha de saber fazer, dividir, o dinheiro tinha de ser bem controlado e tive aquela alegria de ser abraçado por africanos e dizerem-me que eu também era africano, foi uma das grandes alegrias em Bruxelas.
Agora, entre os momentos que falei das histórias que passei com o meu pai e a luta que temos pela mudança do nome desta capital provincial, eu vivi. Estudei aqui, joguei futebol, basquete no Lubango e em Luanda, era muito bom, era fantástico, estávamos com aquela liberdade, andávamos à vontade.
Memórias de Luanda
Conheci o Periquito, o Eng.º Guimarães que dirigia aqui os Correios, era um camarada baixo, mas tinha mais de 1,70m, um grande jogador de basquete, recordo o Xavier Belém que fazia brincadeiras com a bola de basquete. Tive boas memórias, íamos para para Ilha conversar, fomos falar com uma senhora que tinha um restaurante e tinha amigos marinheiros que nos traziam as leituras que estavam proibidas pela PIDE então vamos ler ali a comer mexilhão.
Exército Português
Depois vim para aqui, integrei-me no exército português fazendo parte das colunas dos “M”, movimento de viaturas que entregavam os víveres e outras coisas, onde tive muitas discussões, muitos problemas, mas também momentos muito bons. Iniciei a minha carreira, fiz o exército português porque era obrigado a fazer, era oficial dos transportes, andava a distribuir as mercadorias pelas diferentes unidades, por todas que havia no país, eu conheci Angola inteira! Por vezes, há cinco km a hora, em zonas perigosas, inconfortável, mas conheci muita coisa, muitos homens muito bons e conheci outros muito malandros. Geralmente, os senhores que andavam connosco eram carros civis mas militarizados e estavam militarizados até voltarmos da viagem, quer dizer íamos carregados com gêneros e mesmo que regressassem vazios a Luanda eles não podiam carregar nada porque já estavam pagos a ida e a volta, mas muitos militares faziam corrupção, os produtores de café negociavam e pagavam aos condutores, era mais barato, eu nunca fiz isso porque não dou e nem recebo, nao quero corrupções.
Apenas, não conheço Cabinda porque havia um rio. Conheci o Cuando Cubango e tive muitas altercações com oficiais superiores que queriam mandar e nós não aceitemos, diziam os senhores das colunas “não gostamos de andar com vocês que nasceram em Angola, gostamos de andar com aqueles que vieram do Puto[2]” Vocês compreendem-nos, eles não nos compreendem e daí muitas coisas , feias, feias que não dá para contar porque senão vou chorar. Portanto, foi um período de guerra entre os Tugas e os revolucionários angolanos, houve muita coisa muito feia, muito feia!
Fazíamos coisas, seja por ordem superior, mas também havia coisas bonitas e acabada a minha tropa vim para aqui, os meus pais estavam aqui, as minhas irmãs tinham casado e comecei a trabalhar com o meu pai, na parte social, com os trabalhadores até que veio a independência.
Período de Transição em Moçambique, 1974-1975
No período de transição fui a Moçambique, o meu pai tinha lá um armazém que recebia peixe congelado e peixe seco de Moçâmedes para vender lá e ser transportado para o Zimbabwe. Então, fiquei seis meses substituindo o gerente que tinha ido para Portugal passar férias. E assisti à entrada da FRELIMO na Beira, o prazer de assistir “orgulhosos, mal vestidos, alguns descalços, mas o semblante era já lá para cima”.
Também, assisti aquela luta que houve, daquela contrarrevolução que não queria a independência, era aquele movimento “aportuguesado” igual ao do Ian Smith na Rodésia do Sul. E estava lá, no armazém quando chegaram as carrinhas com bandeiras portuguesas a dar ordem:
- fechem tudo isso, os senhores hoje não trabalham!
- fechar porquê?
- Isto não vai ser assim, vai ser assim…
- Não fecho, não estou de acordo com vocês.
E então, os meus trabalhadores moçambicanos puseram-se todos ao meu lado, mas tremiam, cheios de medo, ficaram ali em fila e esses bandidos partiram o portão, mas eu não fechei o portão.
E assim passamos daquela fase, gostei muito da Beira, de Moçambique e depois voltei e entramos no período independentista de Angola. O período vivido com muitos problemas, muitas incompreensões, mas muita com alegria também. E estou aqui para servir mais dez, quinze anos.
Os Retornados de Angola, 1974-1975
Qual é a diferença entre os motivos da partida dos “retornados”, entre os que conheciam Portugal Continental, os que tinham familiares em Portugal e os funcionários públicos que não conheciam a sede do império Português? Que noção do risco os retornados tiveram e os que cá ficaram?
Era complicado porque “alguns não diziam a verdade porque se iam embora”, alguns “não queriam mesmo ser governados por pretos”, outros iam porque tinham medo, pelos filhos, talvez não por eles, mas pelos filhos e outros iam porque tinham um familiar que lhes dizia “epá, vem-te embora porque aí vai haver guerra”. Cada um tem a sua vivência dentro da sociedade e cada um sente não só a sua vivência, mas a vivência dos outros em relação a eles.
Hoje, mas esse pensamento já me vem desde há um tempo, tenho a viva sensação que eles teriam gostado mais, se nós fossemos mais submissos, do gênero “vais fazer isso porque o partido manda, vais fazer porque o governo provincial manda”, se o assim o fizéssemos estaríamos dentro de um grupo, mas como manifestamos a nossa independência intelectual, eles não gostaram, digo-lhe abertamente.
Uma pessoa sente quando está dentro de um grupo de alguém que não nos suporta, nós sentimos isso. Temos aquela situação das pessoas que quando nós passamos se afastam, não me toquem. Houve muitos casos, mês a mês, ano a ano, tive de marcar a minha posição.
Pós Independência
A Independência, 11 de Novembro 1975
O mais marcante da minha vida foi ter nascido do meu pai e da minha mãe e a seguir foi o dia da nossa independência. Fui assistir aqui (apontando para o actual Palácio do Governo da Província). Estava aqui, em Moçâmedes, ocupada, estava aqui a UNITA que baixou a bandeira portuguesa ali no Palácio do Governo. Eu fui com um amigo português todo MPLA que apanhou chapadas da UNITA por rejeitar tirar a bandeira do M.P.L.A. do carro, ainda está por cá, este meu irmão. Mas, assistimos ao baixar da bandeira portuguesa, o senhor Secretário do Distrito de Moçâmedes, português tinha ficado aqui e assim que a bandeira portuguesa baixou eu e ele viemos embora. Outros, meteram-se no cortejo automóvel e foram com estes indivíduos todos da UNITA bater palmas.
Quando a população saiu à rua para comemorar, era de felicidade pela independência?
Na psicologia das multidões há esses casos, mas há e houve pessoas que tinham consciência e levantavam o braço como Agostinho Neto fez e diziam “o mais importante é…” era um político fervoroso e importante e claro que nós tínhamos esperança naquela altura de haver ligação entre certos partidos. Mas depois, não aconteceu, havia muito jogo sujo, não só dentro do governo de transição como em Portugal. Nas reuniões que tiveram lugar em Moçambique, em Lusaka e por aí fora, cada um queria “a parte do leão”. E do conhecimento que eu tive do MPLA lá fora e também cá com os meus colegas e amigos do Salvador Correia como o Belly Bello, conheci aquele MPLA, conversei acerca daquele MPLA, não me meti na política, mas conversei e confesso vendo a actuação ao longo do tempo.
A Parceria com a Embaixada da França em Angola, anos 80
O Adido Cultural da França Bernard Sex esteve em Moçâmedes quando a França teve um problema cá no Porto de Moçâmedes, um barco francês avaria numa das trocas da moeda nos anos 90, prenderam-nos com dois elementos da segurança no barco deles como ainda não havia segurança, eu protegi-os da forma possível e o contacto com a Embaixada era feito com o Bernard Sex.
Ele veio cá uma vez e andei a dar uma voltas com ele e viu o cinema “que coisa tão bonita” e eu disse-lhe que era do meu pai e os sócios, que o mandaram fazer ele deu uma volta ao cinema e disse “tu ajudaste-nos eu vou ajudar-te a recuperar este cinema”. Como havia um grupo de franceses que estavam a arranjar o instituto na parte que dava energia à cidade, havia um grupo que a fundo perdido estava a investir cerca de trinta milhões de dólares… ele continua a visitar a cidade, disse-me “isto interessa-me, vou ajudar-te a fornecer material escolar para quatro escolas, enquanto eu estiver na embaixada vais ter esta ajuda”. Depois “aquele é Banco de Portugal Ultramarino”, vamos lá ver aquilo, estava completamente partido e ele disse “vou recuperar aquilo e vou instalar uma Alliance Française”, como a parte de cima era apartamentos de trabalhadores, disse “vou restaurar e os professores ficam a residir aqui”. Ele fez a carta da Embaixada, enviou-me e depois fiz o contacto com o governo provincial da província, mas o problema é que eu não dou comissões a ninguém, cortem-me o que quiserem, eu nao dou comissões a ninguém e isto foi o que me criou antagonismos, não dou comissões a ninguém minha senhora! Aprendi isso com o meu pai.
A Ressurreição do Barão de Moçâmedes
São lembranças muito boas de Moçâmedes daquela altura e também tenho lembranças muito boas do pós independência e também tenho lembranças muito más e uma delas é o retorno do nome “Moçâmedes”, não entendo, não compreendo se foi um erro eles que reconheçam este erro, a mim dá-me a impressão que há um trabalho de equipa na nossa Angola em que há uma acção para esconder. Acho que deveria ser ao contrário, deveriam ouvir as pessoas que fazem crítica histórica, aquilo que foi verdade porque nós voltamos a nomes coloniais e se se enganaram, acontece, peçam desculpa. Porque se de facto o senhor Governador aceitou as minhas críticas, aceitou as minhas cartas, de facto por vezes fui um bocado ríspido demais, mas parece-me que houve uma concertação, uma ordem, uma vontade de não dizer quem foi. Sabemos que o processo deveria incluir consultas dentro do governo provincial em concertação com Luanda, telefono a conhecidos e depois deixam de atender o telefone.
Agora como é que vamos fazer? Quando veio uma senhora da dimensão da Rosa Cruz e Silva e declarou em termos académicos que efectivamente era um erro porque voltamos às memórias coloniais. Nós estamos em Angola, temos a nossa alegria de termos nomes angolanos, que digam respeito a nossa história, agora tirar “Namibe” e repor “Moçâmedes?”, podem se desculpar por não sabiam o porquê? Então vão a história, esta diz que o nome foi dado em homenagem ao senhor que foi governador geral de Angola e vão ver quem foi este governador e toda a gente sabe que foi um escravista. Conforme disse o meu filho, sociólogo “ele mandou e ganhou com isso, mandou milhares de angolanos como escravos”[3].
Penso que isto deve ser feito o mais rápido possível porque a cada dia que passa é um prego que se crava na responsabilidade e no respeito que temos de ter pela memória desses escravos, não podemos aguardar muito mais tempo”,. De minha vontade (sorrindo) era directamente por uma ordem de rádio, como em tempos de revolução “A partir de hoje ninguém, não se escreve mais este nome nos documentos” e depois iam retificar isso, no parlamento iriam justificar perante o Senhor Presidente, no qual tem uma dimensão política e que certamente sabe daquilo do que se está a passar aqui.
Até que não seria mal dar esta ideia, não seria eu a dar ordens ao Presidente da República, mas elaborar um decreto a dizer “hoje deixa-se de usar o nome Moçâmedes aqui em Angola”, e não sei se reparou se formos contar o número de vezes que se escreve o nome de Moçâmedes nos documentos, são milhares de vezes por dia e agora quem ressuscitou o Barão de Moçâmedes que o enterre”, tem de o vir enterrar e tem de dizer publicamente eu errei.
Eu não vou aceitar que se esconda, é demasiado grave, mesmo que fosse uma pessoa, mesmo que fosse um escravo que tivesse morrido porque a maioria das pessoas que estão aqui nesta nossa Angola não têm consciência da gravidade que é, gravidade moral, ética, política, desrespeitar a memória desses senhores e dessas senhoras que morreram, muitos lançando-se para fora da borda dos barcos porque as condições eram tão más que eles preferiram morrer comidos pelos tubarões. Agora, isto tem que ser corrigido, nunca vai ser completamente corrigido porque há-de ficar uma mancha, porque nós somos a única cidade em Angola ,quiçá de África que voltou as memórias coloniais e sobretudo a memória de alguém que fez tanto mal aos africanos, porque ele não os mandou somente, ele beneficiou. Andou com os senhores que faziam os transportes, os dos navios negreiros.
E há mesmo um discurso que tenho aí em qualquer sítio, de um senhor Coronel em Coimbra, Vicente Ferreira que deu o nome a escola comercial em Luanda, a Escola Comercial Vicente Ferreira, e fez um discurso nos anos 30 e na qual disse efectivamente que o Barão de Moçâmedes (escreveu o seu longo nome) e disse que ele beneficiou com isso, avisava e pressionava o governo português dos benefícios que o comércio de escravos lhe dava, portanto ele não fez isso sem saber o que fazia, sabia exactamente o que fazia.
Infelizmente, temos de dizer que a igreja andava ao lado dele, a igreja sabia disso porque baptizava todas as pessoas que entravam acorrentadas, com boca tapada ou não eram todos batizados nos barcos, agora nao sei se era para pedir desculpa a Deus ou se era obrigatório fazer isso porque o bispo ia lá baixá-los creio que no espaço onde está o museu da escravatura.
Agora porque temos o museu da escravatura? Porque soubemos que havia escravos e então se sabemos que havia escravos e que foi no momento em que este senhor foi governador durante seis a sete anos, vindo de Goiás, Brasil, veio para aqui. Se sabíamos, tínhamos de ir a história e fazer as nossas críticas históricas, mesmo julgando que não era verdade era obrigatório ir a história, era obrigatório visitar a história, o MAT pecou, o nosso Governo Provincial, a nossa Administração Municipal e durante este tempo estamos a homenagear este bandido milhões de vezes, todos nós pecamos! E aqueles que sabem que não fizeram nada também pecaram, aí estou despido, estou de espírito limpo.
Eu critiquei, há miúdos, há jovens que também criticaram. Agora, vem dizer que foi uma fase da história, não podemos esquecer, esta fase da história existiu, mas não a ponhamos agora aqui, a frente de nós, a dizer que este indivíduo foi um indivíduo bom e agora vamos todos os dias escrever o seu nome e se calhar até vamos acender uma velinha ali em Santo Adrião e aliás, eu tenho que falar com o senhor que quer ressuscitar o Barão de Moçâmedes porque tenho amigos que também gostaria de os ressuscitar para saber como é que eles fizeram, tem algum truque especial, mas eu quero ir ver o enterro. Mostrem-me o enterro em papel, uma ordem, tenho de ver isso . Eu digo, fui muito feliz naquela altura, agora estou muito mal chateado.
Empresariado
Veio a guerra e muita gente fugiu, quase toda a gente fugiu, as pessoas que podiam ter ficado para repor o comboio em cima da linha, podiam ter ajudado, ficou muito pouca gente, ninguém as pode culpar. O meu pai foi o único nesta área, empresário de dimensão que ficou com os seus sócios, a minha mãe também era sócia. E no entanto, o poder em exercício não nos tratou bem, porque nós sempre dissemos “vamos trabalhar, vamos colaborar, vamos desenvolver”, mas dizer-nos que “nós somos obrigados a fazer porque vocês mandam, não o fazemos, vamos conversar, vamos discutir”. Era faz e tínhamos que fazer e eles não gostaram e é por isso que eu tenho a forte impressão que houve quem não gostasse de termos ficado e vamos nos aguentar e eu aguento-me aqui até hoje.
Houve um alto dirigente que tratou muito mal o meu pai, disse-lhe coisas que ele não merecia e o meu pai ficou destroçado, e o médico da missão cubana que estava aqui disse a minha mãe “vá com o seu marido para Portugal porque se ele fica aqui ele vai morrer”, chegado lá houve umas certas complicações e ele ja nao pude voltar, mas vê “ele não fugiu, ele ficou e não deveria ter sido tratado como alguém que tivesse fugido” porque quando eles precisavam de apoio vinham buscá-lo ao Gaspar Madeira, apoio em todos sentidos.
Coordenador dos Direitos Humanos
Ainda hoje, quando precisam de apoio na parte social e cultural, eu estou lá, nunca disse que não a uma solicitação vinda lá de cima e nunca cobrei um centavo. Por exemplo, fui nomeado para a Procuradoria da República, devidamente autorizado pelo nosso governo, como coordenador dos direitos humanos nesta província, nunca me deram orçamento, espaço para trabalhar e no dia que me disseram vais ser tu, eu respondi-lhe “ eu vou aceitar, mas depois nao se queixem porque eu não vou olhar para a posição das pessoas, vou olhar para a Declaração Universal dos Direitos Humanos” e queixaram-se. Tudo o que eu fiz, menos os papéis e máquinas de escrever, saiu do meu bolso e saiu bem, gostei daquilo que fiz, se calhar avancei directo de mais para o ambiente político que tínhamos na altura e condenavam alguém da dimensão que fazia qualquer coisa. E sem praticamente ser avisado, criaram uma coordenação e deram-me um “pontapé na bunda”, mas quando foram construir a equipa para trabalhar, vieram me buscar porque sabiam que eu fazia qualquer coisa e trabalhei, eles sabem disso.
Mesmo assim, isso não chega de vez em quando em quando faziam-me umas maldades, mas eu também, tentei me libertar, quando conseguia, conseguia e quando não… e quando fazia protestos a nível nacional os processos desapareciam todos, mas vou recomeçar, vou aproveitar as palavras de ordem do Senhor Presidente da República “Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”.
Por exemplo, aquela ponte cais não pode ficar assim tem de ser arranjada, vou batendo na tecla e eles sabem ali em cima (apontando para o Governo Provincial), eu não sou ninguém imprescindível, ninguém é insubstituível, mas há certos espaços, há certas áreas que eu tenho a percepção que precisam de mim e eu quero fazer! Esta varandinha que está aqui, já recebeu muitos angolanos e angolanas em conversas acadêmicas e instrutivas para teses que elaboraram, que faziam para os cursos, tenho feito qualquer coisa.
A Empresa pesqueira do Namibe| Privatizações na Época do Socialismo
Mesmo fazendo o que fizeram, fecharam-me a empresa, anularam o alvará devido a situações que hoje os estrangeiros que têm o comércio nas mãos não as respeitam, no meu caso estas serviram para anularem o alvará. Mas, eles estão a fazê-las e ninguém vai travá-las porque há outras ligações a nível superior digamos assim e se calhar também vem lá de fora e é isso que eu quero combater e é isso que eu vou tentando fazer. E fui levado várias vezes para a investigação criminal, fui acusado de ser agente da CIA, estou a dizer isso a si publicamente pela primeira vez (alguns amigos sabem), fui acusado de vender liamba e de outras coisas para chatearem. Mas, eu gosto tanto da minha terra, o meu umbigo está enterrado ali embaixo no Bairro da Facada, de maneira que isto é mais forte do que tudo, a mãe e o meu pai fizeram-me aqui.
Bairro da Facada do Namibe
Conheço pouco o bairro porque lembro-me apenas do pouco tempo que lá vivi, porque não me lembro dos primeiros anos da minha vida. Mas, sei que a minha mãe e o meu pai mudaram dali para uma casa mais longe, mas brincávamos ali com os amigos. E o bairro da Facada é carismático, é um dos mais importantes da Província, bairro histórico com o são outros, como o Bairro Forte Santa Rita, como é o Bairro da Torre do Tombo, tudo isto tem que ser conversado e não pode ser alterado.
Há situações aí que a senhora entra em um quintal e hoje são corredores com quartinhos, com pessoas a morar lá dentro e sem espaço para viver. Quer dizer, nós estamos a criar situações que não nos dignificam. Estamos a fazer centralidades que devem ser em princípio para pessoas que não tem casas. Vão morar para lá, mas tem casas, há situações de pessoas que tem casa no centro da cidade, alugam a casa e conseguem arranjar casa nas centralidades. Então, devem deixar as casas para quem não tem casas, eles tinham casa, como é que as autoridades autorizaram isso? como ouvi dizer que há pessoas de Luanda e de Benguela que tem quatro a cinco casas, como? É normal? Ou, será que tudo isto está dentro daquele estudo que estão a fazer das causas e dos problemas da corrupção? O que muita gente me diz é que a corrupção existe em todo mundo, é verdade sim senhora, mas vamos admitir aquela que se passa aqui na nossa terra, não podemos tentar controlar, ou vamos baixar a cabeça?
Adaptação do Comércio as Necessidades dos Mucubais
Há alguns anos atrás nós tivemos situações, a comercialização no campo era feita por zonas das comunidades pastoris onde não havia energia eléctrica em que se importavam máquinas de lavar, importam-se geleiras, arcas frigoríficas, sapatos de salto alto, meias de nylon , para as senhoras mucubais? O que se passava, fingiam que ia para lá, mas era vendido aqui e isto se passava em outros cantos de Angola.
E houve uma altura, em que protestei tão energicamente no Cine Impala, numa ocasião em que veio cá o Senhor Primeiro Ministro e disse-me que eu estava dizer coisas sérias demais, olhei para ele “então, estão aqui estes senhores todos, que venham aqui ao microfone dizer que o que estou a dizer é mentira”, esperei dois minutos e não veio ninguém. Então, disse-lhe “Senhor Primeiro Ministro não é evidente?”. Na época do Primeiro Ministro Marcolino Moco mandou fazer um inquérito porque as pessoas que eu mencionei o nome estavam presentes. No final, mandou o secretário ter comigo para eu ir ter com ele ao aeroporto e quando lá cheguei, o sítio onde ele se encontrava estava rodeado de soldados armados e não me deixaram entrar. E o secretário veio me dizer “olha, o Primeiro Ministro não o pode receber agora” e eu “mas, foi ele que me mandou chamar, não vim por vontade própria”, ele manda dizer “para lhe entregar aquilo que falou”, e eu “nao entrego” e não entreguei, vá lá ter, e entreguei a uma pessoa do parlamento que lhe entregou.
Mas, o inquérito nunca foi feito porque veio aqui uma equipa de advogados para resolver a situação. Depois da sua exoneração, Marcolino Moco veio fazer o lançamento de um livro, a Cultura convidou-me e eu fui e estava um amigo meu ao meu lado e perguntei-lhe “aquele não é o Marcolino Moco” e eu estava tão chateado, entreguei o livro e sem ele olhar para mim “Como se chama” e eu “Olhe para mim, não se lembra daquele dia em Fevereiro no Cine Impala em que o Senhor disse que ia mandar fazer um inquérito, onde está o inquérito?”, depois arrependi-me, a ira apanhou-me , na primeira ocasião vou pedir desculpa.
Distribuição de bens aos trabalhadores das empresas
No momento do ano em que havia distribuição de bens aos trabalhadores das empresas, fazia-se uma requisição “precisamos de tantos bens, de tantos sapatos” e mandava-se para o comércio e o comércio assinava. Acontece que a minha empresa nunca foi contemplada, dizia-se sempre “não há, acabou” e um dia eu chateei-me e vou ao comércio, até conhecia a senhora que estava a tomar conta daquilo e um dia disse-lhe “ouve lá, a minha empresa não é igual as outras, então cada vez que tem bens industriais, não recebemos, as senhoras que trabalham comigo também estão chateadas e se calhar pensam que sou eu que fico com as coisas” e ela respondeu “ tu não choras, não mamas”, “o quê? tenho de vir pedir?”.
Fui buscar as trabalhadoras todas, levei-as para o Comércio, meti-as no corredor e disse-lhes “eu vou ficar ali, vou fazer o sinal, quando eu fizer assim (gesto) vocês choraram, em voz alta, mas chorem mesmo e vão olhando para mim, enquanto eu não fizer o sinal vocês não param”. Quando eu me lembro disso (sorrisos), começaram em um berreiro infernal e as portas começaram a abrir-se:
- que é que se passa?
- não sei
- oh minhas senhoras parem
Elas olhavam para mim a espera do sinal e eles:
– oh minhas senhoras
Até que a responsável apareceu:
- olha lá o que isto?
- então, não disseste que “quem não chora não mama”, então estou a chorar, agora querem mamar, a minha requisição não está aí, assina e elas deixam de chorar
- ah, oh não!
E eu “chorem”! Aquilo durou entre quinze a vinte minutos, um berreiro infernal, ninguém podia trabalhar até que às tantas ela disse “vem, anda cá, assinou, tomem, parem” e fui buscar os bens industriais. E não podiam me dar porquê? Porque eu pertencia a um alto grupo, eu não estava dentro do grupo deles, dos que faziam aquilo que lhes mandavam.
As Lojas dos Responsáveis
Um dia, criaram as lojas dos responsáveis destinada aos membros do governo, professores , médicos, etc. Havia o grupo I dos membros do partido, o II dos membros do governo e o III dos técnicos superiores e o último grupo era o IV o dos técnicos básicos. Por algum motivo tive de ir a Luanda, deixei os papéis com o meu amigo Zé Luís, quando voltei encontrei-o no aeroporto com os papéis na mão e diz-me “Oh, compadre, o melhor é o compadre lá ir porque eles não lhe querem dar nada”, “mas porquê”, “vá só lá” e eu fui. O homem que era responsável daquilo estava ocupado com um senhor de Luanda, esperei, passou de uma hora e eu disse-lhe “vá lá ver”, olhe foi lá e disse “espere mais um bocado” e eu “não espero nada”, abri a porta e entrei:
– eu venho lhe perguntar porque razão o senhor me classifica como técnico básico se tenho uma licenciatura?
– porque o senhor não sabe usar o seu diploma
– oiça lá porquê?, o senhor está a insultar-me!
– não, o Senhor é que me está a perguntar
– e volto a perguntar se pedem a si, ao varredor de rua ou vêm pedir a mim?
O senhor ao lado estava a ouvir a conversa, era dos recursos humanos e disse “deixe ficar aqui os documentos que a gente já vai resolver”. Dois dias depois eu tinha o meu lugar no sítio certo e depois fiquei a saber que tinha sido ordem do (…) para me esforçar, para “empurraram-me contra a parede”.
Eu faço aquilo que eles querem quando eu entender que é também o que eu quero, se eu entender que está bem feito, se não entender assim, eu discuto, pergunto, não baixo a cabeça.
A Alimentação e a Solidariedade
Uma coisa bonita que se passou comigo depois da independência naquela fase em que em Luanda apenas se servia arroz com peixe frito, uma vez vou com a minha falecida mulher e estávamos a passear na Ilha de Luanda quando vemos uma tabuleta de restaurante “Temos gambas” e a Bety diz-me assim “para já o carro”, oito dias a comermos peixe frito com massa, então paramos e pedimos gambas e cerveja e o senhor respondeu “a cerveja vou arranjar, mas as gambas já estão todas encomendadas”, “opá, vamos só beber uma cerveja e vamos embora”. De repente, a uma voz que vem dali e diz “o meu prato de gambas é para este casal” e o outro daqui “ o meu prato de gambas também é para este casal”, o meu também. Ficamos com a mesa cheia e eu tive que dizer “ parem lá com isso que eu não consigo comer mais gambas”, comemos, conversamos e ficamos muito satisfeitos por nos verem ali.
Eu estava a falar francês com a Bety e quando souberam que eu também era angolanos mais satisfeitos ficaram e na hora de partir:
- minha senhora, quanto é que eu devo?
- o senhor aqui não paga nada!
- mas…
- não, não e pode vir todos os dias porque nós estamos aqui!
Foi uma coisa que me caiu bem, uma atitude daquelas foi bonita, sai dali com umas seis cervejas no bucho, foi na Ilha de Luanda, o restaurante já lá não está. Era daqueles restaurantes pequeninos, feitos com aquele material que podia ser tirado e colocado, coisa bonita!
A Ocupação da UNITA e Sul Africana de Moçâmedes
Enfim, passaram-se tantas coisas aqui que quando isto ficou sob ocupação sul africana e da UNITA eu ia sendo fuzilando duas vezes pela UNITA, só fui salvo devido a intervenção de dois amigos meus que eram da UNITA. Uma vez, foi aqui à frente do Palácio e outra vez foi no Porto “faltou isso”, aqui foi o João Vaikeny que me salvou, foram a correr avisá-lo e ele chegou, pegou na arma, tirou-a do major que queria liquidar-me e disse fuja! Claro, fugi logo. A outra vez, foi ali embaixo e o senhor que me salvou já morreu, estava o meu pai e eu preparados para sermos arrumados e ele conseguiu salvá-los, o Senhor Chirulo, bom homem, salvou-nos. São cenas que muita gente não conhece. Mas, não lamento ter ficado, gostei de ter ficado porque vejo que ainda poderemos fazer qualquer coisa.
Porque quando Angola ficou independente, eu pensava que íamos ser um país diferente em África, que não chegaríamos a aqueles erros todos cometidos em outros países, aqueles erros que a gente conhece, todos conhecemos , mas enganei-me e estamos a fazer pior. Nos anos 1990, em Angola fez-se igual, mas ainda podemos corrigir, já não podemos pegar naqueles que sofreram e trazê-los ao nosso convívio. Era por isso que eu queria saber qual era o truque que eles fizeram para trazer os meus amigos de volta, Brincadeira, se fosse possível seria bom.
E agora, estou eu aqui na luta, no meu lugar de reserva, mas uma reserva activa e não me metem medo porque nós andamos nos Liceus Diogo Cão e Salvador Correia, eu via aquela pancadaria entre os jovens e dizíamos assim “Bater, não bates, ralhar não doí, portanto eu vou avançar” e aqui é a mesma coisa “Bater não me batem porque as marcas ficam”, agora ralhar “podem ralhar a vontade” eu respondo-os, penso ter capacidade suficiente.
Nós fazemos sempre parte de um grupo de pessoas, nem que sejam pequenas, em sociologia, eu pertencia a muitos grupos, há muitas sociedades, mas também fui de outras classes. Podia dizer que havia uma espécie de amor e ódio ao mesmo tempo, quando não precisavam de mim xingavam-me , quando precisassem vinham-me buscar. Mas ,eu estou a falar aqui em xingar com o significa do que nós usamos aqui “dizer mal de”; mas, quando aplico a palavra nas conversas que tenho com alguns amigos e digo “ vou mesmo xingar o governo” é utilizando uma arma mítica que eu li em qualquer sítio, que eu creio ocorrer lá para a Índia em que eles levavam a “Chinga” que era uma arma mítica para usar contra os inimigos. Eu uso essa arma mítica, não se vê, mas ouve-se e sente-se, não me metem medo “medo porquê? porque ter medo?” Não sei o que é ter medo? Se é aquilo que eu senti quando vi os homens a apontarem as armas, aí tive medo!
Profissões
Fui convidado para ser Delegado das Pescas no Princípio da independência, mas como eu era dono de uma empresa de pescas era incompatível, tinha de sair de uma ou entrar na outra, responderam-me assim “o senhor faz aquilo que o Partido manda” e acabou e eu olhei para eles e disse, “não acabou porque eu não faço nada que o Partido manda, eu faço aquilo que eu entendo que deva fazer.”
Agora, se vocês quiserem me nomear para a educação ou para cultuar, eu posso aceitar, arranjar maneira de me desembaraçar e trabalhar com vocês, não há problemas nenhum. Uns dias depois, vem um amigo o Brasão “nós reunimos e achamos que tu é que deves ser o delegado da educação”, eu disse “vou aceitar”, três dias depois, veio dizer-me que eu não era de confiança, disse “ok , se não sou de confiança, tenho mais liberdade de trabalhar aqui”. Na semana seguinte, apresentaram-me um Diário da República, com o meu nome, sem me ter sido pedida a autorização “…nomeado Director Provincial do Ensino Secundário”. Fui a Secretaria da Educação, “você está nomeado”, e eu “então passe-me uma guia para eu ir a Luanda” e …, “então, sou funcionário público, pago a minha passagem” e fui a Luanda”, pedi uma audiência e o Ministro e ou o Vice Ministro não me receberam, pedi uma folha de 25 linhas e pedi admissão dirigida ao Secretário Provincial, ele lê e disse “você não pode fazer isto”, eu disse, “mas já fiz”. Mas, quando precisavam eu ia, em quarenta anos de independência nunca disse que não, trabalho gratuitamente.
As palestras em Luanda eram pagas, eu nunca cobrei, nunca recebi um centavo porque acho que estava a cumprir a minha missão de pessoa que tem algum conhecimento e quer passar este conhecimento, mas quando passo conhecimento passo com verdade e não com mentiras, alguns não gostavam, a culpa é deles não é minha. O meu pai disse sempre “enquanto tu tiveres a verdade contigo, olha nos olhos das pessoas com educação, respeito e discussão”. A minha Constituição diz que eu tenho liberdade de expressão.
In Group e Out Group
Uma vez, alguém que não vou dizer o nome, proibiu toda a comunicação social de entrevistar quatro ou cinco pessoas daqui e eu olhei para um amigo que me disse “não acredito”, e ele “ é verdade, podes ter a certeza”. Falei com um compadre jornalista e disse-me “é verdade”, vocês os quatro estão na lista vermelha. Como eu era membro do Conselho de Auscultação, na reunião seguinte, quando o senhor Governador disse “ a reunião acabou”, no final da reunião disse-lhe “a pouco o senhor violou a constituição, que eu tinha liberdade de expressão, você cortou a minha palavra, mandou nota ao senhor Presidente ou o senhor Presidente enviou-lhe nota para alterar a constituição? Você ao invés de dizer aqui que eu sou antigoverno”, “pode falar”, “não você não precisa de me autorizar a falar”. Peguei na minha constituição e disse-lhe “isto é que me dá a liberdade de falar”.
Cá fora no pátio encontrei aqueles que estavam lá dentro, menos dois ou três daqueles que também falavam qualquer coisa, disseram-me “é assim mesmo”. Vieram fazer-me festinhas nas costas e eu disse-lhes “tirem as mãos das costas porque eu queria que dissessem isso lá dentro”. É assim que as coisas se passam, quem não faz as coisas como eles querem é out group e eu sou out group, mas também in group, tenho sido prejudicado muitas vezes.
A Memórias Mais Marcante
Aqui há uma revolução da mentalidade que tem que ser feita. Não pode continuar a haver festas destas, com fome e sabem que ali dentro há comida para comer “as crianças têm fome”.
Uma vez, aqui nesta rua estavam três crianças de doze a treze anos “caiu uma castanha e andaram à pancada por causa da castanha”, isso há meses. Agora, é o período das figueiras que dão a castanha do Pará, quando era miúdo gostava de comer esta castanha, mas parece que usam para fazer bolos, é uma espécie de amêndoa. As crianças umas apanham porque gostam, outras vão vendê-las no bairro e outras porque têm fome comem. Ver três meninas porque têm fome à pancada por causa de uma castanha, isto é constrangedor.
Conselhos ás novas gerações
O primeiro conselho é que leiam muito e tenham como livro de cabeceira a nossa Constituição, tenham um livro de Darwin e leiam a Bíbliaporque a Bíblia é um bom livro, mas tem de ser interpretada, não pode ser “temos de fazer assim porque a Bíblia diz…”, a bíblia foi escrita pelo homem, é um excelente livro. Havia professores universitários que diziam “o melhor livro que tinham lido era mesmo a Bíblia”, mas também me diziam “nós não podemos ser cegos e fazer tudo aquilo que a bíblia diz, temos de a interpretar”.
Eles têm que ler, não acredito que todos angolanos que saibam ler tenham segurado na nossa Constituição assim (gesto de leitura), têm de a abrir, têm de ler, têm de a conversar e exercer a liberdade de Constituição com lealdade, com sinceridade e com respeito e têm de exigir a liberdade de imprensa senão não há democracia.
É grave, eu costumo dizer, faço críticas ao governo provincial porque governar é difícil, é muito difícil e é difícil porque é complicado em um país como o nosso sub desenvolvido, com tantos problemas. Por isso, muitas das acções feitas pelo governo que a gente às vezes cataloga de más, advém desta situação da grande dificuldade de bem governar. O grande problema é que dentro desta dificuldade de bem governar alguns governantes ainda arranjam maneiras de se aproveitarem.
Protecção à Criança
É difícil governar tentando equilibrar as coisas, como é o caso da alimentação, crianças sem terem uma alimentação equilibrada o seu crescimento não funciona, tanto o crescimento biológico como o crescimento cerebral. Vamos encontrar crianças com dezesseis ou dezessete anos, mas com capacidade cerebral de uma criança de dez ou treze anos. Estamos a hipotecar o futuro de Angola e isto tem que ser visto.
E agora, com o problema dos desastres climáticos que há em todo mundo, vai ser cada vez mais complicado. Portanto, eu penso que uma das aéreas que deve ser efetivamente prioritária é aquela que vai olhar para a criança desde que ela nasce até que ela fique efectivamente em posição biológica e cerebral de começar a fazer qualquer coisa, tem que ser protegida abertamente.
A área social tem de ser apoiada pelas outras áreas, como já disse quando as criancinhas têm fome e vão bater no vidro do restaurante e pedem um pão, estão a chatear? A resposta é “ não chateem”, mas se tivessem na condição deles não chateariam.
O Planeamento familiar
Outro problema que existe é não haver capacidade suficiente para avançar com força para o planeamento familiar. Nós temos de avançar para o planeamento familiar com toda a força, as mulheres angolanas não podem continuar a ter, dez, onze, doze filhos. E depois entramos em mentalidades que apontam sempre para cima “ A culpa é dele, ele é que nos faz os filhos” ainda noutro dia, em uma conversa com senhoras da igreja católica que vão rezar todos os dias, conversamos sobre senhoras que tem treze a catorze filhos e elas disseram que elas respondem “que Deus quer assim” e eu perguntei-lhes “ o melhor é ir perguntar-lhes o que elas fazem na cama a noite com o marido ”, se Deus quer assim então quer dizer que o marido nao tem nada a ver com o nascimento das crianças . É esta mentalidade de protecção, de desculpa, dizendo que …
Acredito em Deus, naqueles que acreditam em Deus de forma saudável e não naqueles que exageram na crença em Deus. As igrejas fazem um trabalho muito útil do ponto de vista social.
A Ética do Sucesso
Eles tem que ler muito, conhecer aquilo que se passa, ir para o espírito de crítica. Mas a sério, não é como o que actualmente se lê e se ouve nas redes sociais. E quando se sabe que há professores a receberem dinheiro para fazer teses. O que há-de mal neste país é que “todos querem ter a ética do sucesso e este sucesso é aquele em que cada um chega ao seu objectivo seja de que maneira for” e é essa ética do sucesso que está a comandar (…). Houve alguém que disse há muito tempo porque estavam a fazer um palácio onde se fazem as reuniões do parlamento com aquelas dimensões, quando há países mais desenvolvidos que o nosso em que os deputados alugam casas e vão para o trabalho em bicicleta? E houve um dos nossos dirigentes que quando perguntado “eu passei fui a um país importante e como eles fazem, nós também temos de ter e como eles fazem, nós também temos de ter” e eu pergunto “mas, também fazem hospitais melhores, também tem melhores universidades, as crianças vão para a escola com um copo de leite e um pão no bucho e aqui não, porque que na copiamos estas coisas, invés de copiarmos o palácio do parlamento? Só copiamos as coisas luxuosas! Reformular e adequar a linguagem social.
… Uma vez, encontrei um grupo de Nyanekas Umbi que vinham lá de cima do planalto e iam vender coisinhas, havia seca, ainda havia seca e perguntei-lhes “vocês o que vem fazer cá abaixo?” e respondem “chuva não choveu, o boi morreu, o cabrito morreu, não tem milho”, então o que é que vocês comem? A gente está aqui há três dias e só bebemos água. O que é que eu vou fazer e olhas para elas estão desnutridas, a perna delas é metade do meu pulso e as crianças andam a pé atrás das mães a venderem.
É aí que a ação social tem de se desenvolver, a dimensão cultural do desenvolvimento, leiam o Sotto Mayor que já foi Director da UNESCO que escreveu a obra “Salvar África”, leiam por favor! A importância dos debates sociais
Pergunte ao meu filho “o que falo com os amigos dele, o que falamos muitas vezes?” Falo que eles têm de avançar, com respeito e com educação, mas também com crítica, não pode ser de outra maneira. Vá lá ver em certos hemiciclos onde se discutem as políticas no estrangeiro. Os problemas que aparecem são os mesmos, mas ali temos a liberdade porque existe a habituação à discussão política. Aqui ainda não existe este espaço, temos apenas quarenta anos e não há dúvidas que é pouco tempo para habituação.
Estou entusiasmado com as minhas críticas, eu nunca disse não quando me solicitam, mas faço as minhas críticas. Ainda estou disposto, ainda tenho vivência, falta-me um pouco da audição, mas a cabeça ainda funciona.
Memória Deste Local
Esta é uma casa colonial que foi feita durante uma época em que Portugal era o mandante económico, político e social desta zona. Quando era criança vinha aqui com quando os senhores viessem de Portugal ver as coisas deles e andei por aqui dentro com as netas deles a brincar. A partir de um certo momento a casa se tornou para mim um símbolo de pertença ao espaço urbano e esta pertença ao espaço urbano se alarga e vai se alargando cada vez mais. Eu neste momento estou aqui a falar consigo, mas estou em Angola e tenho a sensação de estar em Angola e estando em Angola estou em África e estou mais em África do que no resto do mundo, porquê? Aqui é onde eu vivo, é onde eu nasci, aqui é onde eu tenho o meu umbigo enterrado.
Divulgação da Cultura Local e a Dança Quissonde
Vamos ver uma situação, este mês anda pelas televisores muita projecção sobre o reino do Congo e na sua luta para colocar como patrimônio da humanidade aquele espaço pertencente ao Reino do Congo. Mas Angola está no berço da humanidade, não é? E aquele espaço que estão a criar para ser património da humanidade tem cerca de quinhentos anos, senão me engano. E se Angola é o berço da humanidade e porque Tcitundulo também tem cerca de quinhentos anos, por que não fazem tanta projecção ao Tchitundulo quanto fazem em relação ao reino do Congo? Porque eles merecem, tem a sua acção, mas a maioria das etnias em África são migratórias.
Quando falei esta manhã e disse que vocês vieram tirar esta zona da isolação cultural, estamos mesmo em isolamento cultural, não se nota muito porque é feito discretamente, o Namibe já teve muitos governadores naturais daqui. Quando havia a feira internacional em Lisboa e levaram situações, culturais, económicas, sociais e políticas, dois meses antes, estava na empresa e uns senhores estavam a comprar algo e falavam de danças e em kimbares “estão a precisar de alguma ajuda, sou sociólogo?” Lá dei umas indicações, filmaram, tiraram as fotografias, vestiram os Kilandukilu com roupas daqui e foram apresentar “fotocópias”, porque é que não foram os dançarinos daqui? foram os kilandukilu mostrando “fotocópias”. Será que o kilandukilu que nasceu no Bengo dançam o Quissonde melhor que os povos tradicionais que dançam desde que nasceram?
Minha senhora, isto é isolamento cultural, disse-o uma vez ao Ministro Boaventura Cardoso na visita feita ao Namibe quando disseram que o Senhor Ministro estava aqui para atender aos activistas culturais, uma vez que ninguém se levantava, levantei-me e pedi a palavra e uma das coisas que lhe disse foi o que lhe disse agora, nao fui respondido, por isso existe este tipo de isolamento, nós é que não nos damos conta. Parece que houve um Banco, aberto há alguns anos, até as empregadas de limpeza vieram de Luanda. Governar é sempre muito complicado porque temos as tias e os primos que solicitam emprego. Há isolamento! Houve uma festinha que quem foi cantar foi uma banda do Lubango e eu perguntei “e o Namibe não tem banda e não é mais barato convidar uma banda de cá do que mandar vir outra do Lubango?
Quer dizer, há uma coisa complicada, mas não é muito difícil de se resolver “temos é que ir para frente e habituar os grandes a ouvir as críticas dos pequenos, têm de se calar, ouvir e responder em público”. Agora, punir e castigar porque nós dizemos a verdade? Não sei, mas se calhar estes senhores que fazem isso vão todos os dias a igreja rezar, o São Pedro não lhes vai deixar entrar no paraíso porque eles mentem. Como o Papa aboliu o purgatório, Deus criou o Paraíso, o Purgatório e o Inferno, mas governar é complicado, não queria ser Presidente da República e nem Governador Provincial. Convidaram-me em 1992 para ser membro do Parlamento, mas não aceitei, disse “Não, eu vou falar mal de vocês e vocês vão pôr-me na rua porque não vou fazer tudo que querem que eu faça”.
Penso que nas outras províncias não deve ser muito diferente, mas penso haver sempre margem para trabalhar, para conversar como estamos a fazer aqui.
Importância da Plataforma HSA
Estou a gostar muito daquilo que vocês estão a fazer e têm a minha colaboração, modesta, mas sincera e verdadeira e compreendam que a Constituição me permite a liberdade de expressão. depoimento
A Velha Desvia
A casa da Velha Desvia, é monumento nacional, mas parece que alguém já mandou vedar com chapas, quer comprar aquilo (alertando). A Velha Desvia, qual o significado do nome? Nunca me explicaram o significado do nome, foi uma senhora que fez fortuna, parece que a vender peixe frito, uma senhora de carácter rigoroso e contavam que naquela altura fazia o peixe frito em frigideiras grandes e tinha um garfo com um longo cabo usado contra alguém que a abusou e ela furou-lhe o olho. A herdeira disse-me que tinha oferecido aquele prédio ao partido, está aí o Hangula sabe disso, mas aquilo está registado na lista dos prédios históricos, não pode ser vendido.
O Depoente Sidónio Gabriel
Franck Frazão chegou quase no final da entrevista para trabalhar na sua tese com o seu padrinho a quem carinhosamente trata de pai e o recíproco acontece, pergunta-lhe:
- Já lhes falaste sobre o tio Sidónio?
- Há um mais velho que foi o primeiro negro a bater em um portugues, deu dois murros a um branco e esteve preso naquelas masmorras onde estivemos ontem, fazendo referencia as masmorras escravagistas da Ponta Negra, também conhecido por São Miguel e Fortaleza São Miguel. Ele agora está quase sempre em casa…
Neste mesmo dia contactou o seu amigo e camarada, Sidónio Gabriel e no dia seguinte confidenciou-nos “este foi um dos indivíduos que andou na clandestinidade, não oficialmente, havia grupos que iam colocar papéis embaixo das portas de noite”. No dia 19 de Maio a HSA iniciou a colecta do depoimento deste nacionalista responsável pela criação da primeira célula clandestina do MPLA em Moçâmedes.
Este depoimento foi realizado em Moçâmedes, Namibe, em Maio de 2023.
Realização, edição e transcrição: Marinela Cerqueira
Palavras Chaves: Mussundo Bitoto| A Velha Desvia|Sidónio Gaspar| Nyanekas| Mucubais| Dança Quissongue| Forte São Miguel| Fortaleza São Miguel| Bairro da Facada| Ponta Negra| Forte São Miguel| Igreja de Santo Adrião| Cemitérios para Negros| Barão de Moçâmedes| Cerveira Pereira| Retornados| Barão de Moçamedes
[1] Depoimento de Joaquim Grilo descreve a esta situação quando menciona o racismo em Moçâmedes e o depoente Sidonio xxx também descreve este caso, motivo da sua prisão em São Nicolau: Em História Social de Angola, referências a posterior após publicação destes três depoimentos

