Durante a visita de estudo à Missão do Dondi, em Março de 2025, o Pastor Fernando Catanha e a esposa, Reverenda Adelaide Catanha, foram responsáveis pelos trabalhos de campo nas missões do Dondi e do Bailundo, no Seminário Emanuel e na audiência com o Rei do Bailundo, Soma Ekuikui VI. Ao longo do percurso foram registados vários testemunhos, tendo este depoimento sido recolhido no Seminário Emanuel, na Missão do Dondi.
Fernando Catanha integra o grupo de angolanos que residiu, no período colonial e pós-independência, sempre na mesma província. A sua trajectória está ligada à teologia protestante e à Missão do Dondi, onde lecciona no Seminário Emanuel. A sua memória oral encontra-se intrinsecamente associada à história das missões protestantes no centro-sul de Angola e do próprio Seminário Emanuel.
A recolha de dados foi colectiva, pelo que os depoimentos se complementam e devem ser lidos em conjunto para uma melhor compreensão. O casal restaurou e reside num lugar de memória, a antiga residência de Johnny T. Tucker. Estes depoimentos integram uma investigação sobre lugares e sítios de memória da educação e da formação universitária de angolanos, ligados à luta de libertação de Angola, ao protestantismo nacional e à liderança dos movimentos de libertação nacional, bem como ao factor comum entre os líderes e os Presidentes de Angola, todos com ancestralidade religiosa protestante.
Esta memória integra uma vasta recolha e recuperação da memória de Angola, em curso, em colaboração com a IECA e a Igreja Metodista Unida de Angola, iniciada em Março de 2025.
INTRODUÇÃO
Eu tive sorte quando os meus familiares me deram o nome Fernando Catanha. Catanha porque nasci em uma altura em que meu pai teria falecido a três meses, então o meu xará chamasse Fernando Mango, e o meu nome ficou Fernando Catanha por ser órfão desde o ventre da mãe.
Sou pastor desde 1978. Até agora o meu trabalho tem sido expandir o Reino de Deus, pregando o Evangelho e conquistando almas para Cristo. E o meu trabalho e minha profissão.
FACTOS MARCANTES
Residir na Antiga Casa do Missionário John T Tucker É uma grande honra residir nesta casa, todas as casas no Dondi são históricas, mas aquela é mais porque o Reverendo Tucker aqui no Dondi a nível da nossa igreja foi um grande homem de Deus. Muito conhecido e desenvolveu trabalhos para o desenvolvimento da Igreja e até mesmo de algumas cidades como a Huíla e o Bié. Foi um homem muito destacado, por isso, viver em casa dele foi uma honra muito grande, até a mim me chamavam “Tucker’’. Estamos aqui neste edifício e a honra é muito grande porque foi aqui onde recebemos a bênção de nos encontrarmos para prepararmos um lar, um casamento que dura até hoje. No próximo ano faremos cinquenta anos de casados. E das pessoas que nos governaram ainda temos a Graça de ter uma professora que está nos EUA, a Dra. Mayer.
Eu devo dizer que os meus pontos altos em relação a Missão do Dondi são muitos. Poderíamos passar o dia inteiro a explicar tudo. Mas, devo dizer que eu vim para Missão do Dondi em 1954 quando tinha dez anos de idade. Vim de uma aldeia que se chama Chiwisi onde eu nasci, em Tchicala Tcholoanga.
Comecei aqui a estudar a Pré primária e foi aqui nesta Escola Hei. Depois fui transferido para o Lutam. Onde concluí o Ensino Primário e o Ensino Geral. Depois, a Igreja transferiu-me para o Instituto Currie, na Escola Técnica, onde ela também passou, mas eu passei primeiro. E passei pelo instituto de 1963 a 1965, depois fui para o Huambo, para a Escola Industrial, agora chama-se Ho Chi Min, é um Instituto Politécnico
11 NOVEMBRO 1975
Não tenho mais nada a acrescentar porque naquela altura nós éramos estudantes aqui no Huambo. Iniciamos em 1972 e à data da Independência estávamos aqui. Portanto o que ela explicou está correto.
CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES
Bem, os conselhos são muitos. Uma coisa que podemos considerar comemorando os cinquenta anos, nós mais velhos vivemos várias etapas e várias metamorfoses pelas quais o nosso País passou. Vivemos a era colonial, vivemos a guerra pela independência.
Depois de ver a independência, vivemos a guerra civil. Nós passamos por todas essas etapas de alegria, de choro e de lamentações. Os mais novos precisam de se encaixar nos valores que trouxemos até à independência e que nos têm ajudado da independência para cá.
Estamos numa fase em que temos de compreender o passado. Temos de compreender o trabalho que os jovens do passado fizeram. O problema que temos é que agora temos jovens que conseguem trabalhar para a paz, mas estamos a ver jovens que procuram destruir tudo. É o caso do grande trabalho que o nosso Governo está a fazer dos jovens que partem das instituições públicas. Precisamos trabalhar muito como igrejas, educar os jovens para uma consciência de não destruir nada, porque isso parece ser uma revolta que alguns jovens sentem. Custa muito saber que um jovem chega, por exemplo, a um sinal de trânsito na estrada, torce-o ou parte mesmo. Será que ele, assim, está feliz?
Portanto, temos de trabalhar com o Governo para esta situação mudar. Tanto as Instituições Sociais que trabalham para moldar a mente dos jovens e muito mais a Igreja que é tida como a reserva moral da Sociedade, temos de trabalhar. São muito jovens desviados do pensamento do País. O Governo está a fazer muito para o desenvolvimento, mas se formos a ver, há quem esteja a fazer algo para retardar mais a juventude.
Eu não acredito que haja um mais velho que está interessado em destruir uma coisa já conseguida, porque queremos ver novidades, queremos ver o nosso País a crescer e não estar a fazer esses recuos.
Esses vai e vens. Portanto, como Igreja, temos uma grande responsabilidade. Temos de trabalhar no sentido de educar e criarmos uma nova mentalidade nos nossos jovens. É mesmo a nossa tarefa.
E aliás as igrejas sempre o fizeram. Mesmo no tempo colonial trabalhou para a formação dos jovens. Os jovens têm de passar pelas escolas, têm de passar pelas igrejas. É assim que vamos ter um bom futuro com essa juventude.
Este depoimenro foi realizano na Missão de Dondi, em Março 2025.
Entrevista e transcrição: Marinela Cerqueira
Revisão: Judite Chimuma
Palavras Chaves: Missão de Dondi| Seminário Emanuel| Jonnhy T Tucker

