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O Percurso de um Estudante do Quêssua, Bastos Manuel dos Santos

Pela necessidade de eficiência na utilização do capital humano, enquanto fonte primária da memória oral, recorremos a este depoente por ter estudado numa escola de uma missão protestante situada no norte de Angola. Seleccionámos alguém cuja história de vida permitisse recolher e preservar memória para além do padrão actual da Plataforma História Social de Angola, estabelecendo uma ligação entre a memória oral e a história social da formação superior de angolanos. Bastos Costa é filho de pastores da Missão do Keswa, nasceu e cresceu no seio do metodismo, berço do ensino Laubach em línguas nacionais.

A Igreja Metodista adaptou o modelo de ensino e de evangelização em Angola, e este angolano descreve a sua infância entre as missões do Keswa e de Luanda, comunidades onde se localizavam algumas das principais escolas de formação de angolanos. Este ensino de excelência teve grande influência no acesso ao liceu e, mais tarde, às bolsas de estudo concedidas por missionários para ingresso em faculdades em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos da América, a partir da década de 1930.

Antigo aluno do Keswa e, mais tarde, do Liceu Salvador Correia, em Luanda, integrante da elite metodista, regressa à sua meninice para descrever, com detalhe, o modelo de desenvolvimento comunitário estabelecido naquela região de Angola.

Após o 25 de Abril, junta-se, com um grupo de amigos, à luta de libertação nacional. No regresso a Luanda, é escolhido para exercer a função de guarda-costas durante o Governo de Transição.

Alguns meses depois da independência, prossegue a sua formação na Rússia. No regresso, num contexto marcado pela escassez de quadros, exerce a função de Cônsul de Angola na Rússia. De volta ao país, por indicação de um antigo colega do Keswa, Paulo de Almeida, ingressa na Faculdade de Economia e lecciona no IMEL.

INTRODUÇÃO

Eu nasci em Muquixi, é uma aldeia do município de Mucuri. Os meus pais eram pastores. O meu pai era pastor metodista e as esposas dos pastores eram preparadas pelas missionárias americanas para desempenhar aquele papel social. Por isso, eu louvo muito o papel da igreja metodista porque contrariamente a Igreja católica que apenas enviava os rapazes a escola, os metodistas já diziam que devia haver a igualdade, seriam mais evoluídos. por isso é que a minha mãe em 1920 vai para a escola. é preparada, estudou na Escola Ainda, era o internato feminino.

Naquela época os casamentos eram por indicação, diziam “olha, você menina vai casar com aquele rapaz”. Foi assim que os meus pais casaram em 1932. O meu pai era pastor metodista e a minha mãe era assistente social, tratava da comunidade. Eu nasci nessa condição em Muquixe.

Em 1957, eu fui batizado pelo Bispo Dodge, na Conferência de 1957, os pastores iam à Conferência e nessas ocasiões havia os batizados.

Não sei por que razão, talvez por influência do nosso avô, começaram a chamar aos meus irmãos “Santos”, por serem netos maternos do velho Santos. A minha avó materna é descendente da família Vasconcelos. Os primos Samuel David, António dos Santos e Pedro Mauricio vieram de Malange para Luanda viverem com o tio Vasconcelos em 1962. Neste ano a minha mãe veio a uma Conferência da Igreja Metodista em Luanda e trouxe o primo Antônio dos Santos, ele nasceu em 1937 e veio com quinze anos para Luanda, os outros irmãos dele já estavam em Luanda.

INFÂNCIA, MISSÃO DO QUÊSSUA

Em 1957, os meus foram transferidos para Xá Muteba. Depois, os meus pais vão para o Cuanza Norte, onde a minha mãe adoece, acometida de uma doença para a qual naquela altura não havia diagnóstico, ela morre em Novembro de 1959, eu tinha seis anos.

Como eu sou o mais novo, a partir daquela data passei a ser criado pelos meus irmãos. Eu tinha irmãos mais velhos. o mais velho tinha vinte seis anos, casou-se e assumiu os irmãos mais novos, foi nesta altura que eu vou viver no Quêssua.

Na Missão do Quêssua já havia um dos maiores centros de escolaridade em Angola, onde se estudava com alguma qualidade e a custo zero, por isso, quando se fala de Quêssua, não tem outro segredo é que os missionários pagavam bons professores. Por exemplo, o pai do Presidente João Lourenço, o Filipe Fragata, os estudantes dessa época em 1940 tinham uma professora inglesa, a Dona Winnie, preparou-os muito bem, estudaram até a quarta classe, mas nos preparamos muito bem quando vieram para o mercado de trabalho conseguiram empregos, uns frequentarem o curso de enfermagem.

O IRMÃO PROFESSOR, PRESO POLÍTICO

Quando eu estudava a quarta classe do Quêssua o meu segundo irmão foi preso, veio para Luanda. Depois de solto fica com a residência fixa em 1962 e casou-se em Luanda. e para o meu irmão com quem vivíamos em Malange não estar muito sobrecarregado. Em setembro de 1962 viemos três irmãos para Luanda viver com o meu irmão recém-casado.

Seis meses depois, o meu irmão fugiu para o Congo porque continuava a ser muito perseguido pela PIDE. ele já tinha muito boas relações com os missionários americanos, deram-lhe uma bolsa de estudo para os estados Unidos onde vive até hoje. chegou EUA próximo a fazer vinte e sete anos e este ano faz noventa anos.

O meu irmão foi embora e voltei para Malange onde fiz a quarta classe. Em 1966, o outro irmão que já estava a trabalhar disse-me para ir viver com ele, regressou a Luanda e estudou no Liceu Salvador Correia. Ao fim de dois anos regressei a Malange onde estudei o quarto e o quinto ano. Em 1972, regresso a Luanda. Alguém me convida a trabalhar nos serviços de saúde. Primeiro trabalhei na secretaria da Maternidade de Luanda, recém-inaugurada, foi o meu primeiro emprego no final de 1972. Depois, fui trabalhar para a Escola técnica de saúde, na Samba, também na secretaria, até ao 25 de Abril.

A Missão do Quêssua era Evangélica, a Igreja é que era Metodista. Para dizer, nem todos os missionários eram evangélicos, mas a igreja era Metodista. Eles foram recebendo jovens de todos os pontos de Angola, de Luanda principalmente e também do Norte.

Estudos de Teologia em Angola

A Igreja Baptista estava centrada no Norte, a Metodista em Malange, Kuanza Norte e Luanda  no Sul a Igreja Congregacional Evangélica, mas havia intercâmbio entre eles. Por exemplo, quem quisesse fazer o estudo bíblico, ser pastor, se  tivesse a quarta classe  estudava no Quéssua, se tivesse o Primeiro Ciclo estudava no Dondi e se tivesse o quinto ano estudava no Brasil. É assim que os primeiros  que foram para o Brasil estudar teologia foram o Bispo Emílio de Carvalho em 1953,  o Francisco Sousa e Santos, o irmão mais velho  Sousa e Santos  que foi Vice Ministro das Finanças, chamamos-lhe Sozito e o Paulo Matoso. Segundo as histórias, os dois últimos lá chegados começaram a namorar com as filhas dos directores  e foram expulsos, o único que aproveitou, singrou e é pastor até a data foi Emílio de Carvalho.

O ENSINO NA MISSÃO DO QUÊSSUA, 1960

Da minha infância, como já disse, cheguei ao Quêssua depois do falecimento da minha mãe em 1960 para estudar a primeira classe. Nesta época, no Quêssua já havia vários níveis de ensino.

Havia a Escola Alegria onde se estudava a primeira e a segunda classe, havia a Escola Luz onde se estudava a terceira e a quarta classe, e havia o Colégio do Quêssua onde já se estudava até ao quinto ano.

E a perspetiva dos americanos, do Sr. Lebart, era fazer a universidade. Mas em 1961, os portugueses dizem “mas vocês querem ir até onde? Terroristas, a partir de agora no Quêssua só se estuda até ao segundo ano”.

Mas, lembro-me de haver indivíduos que concluíram o quinto ano, entre os quais Janota, Roberto de Carvalho, havia uma geração mais nova, do Flávio Fernandes, neste ano fazia o segundo ano, um excelente aluno, até me lembro que ele e o João da Cunha dispensaram. Nesta perspetiva, o governo colonial proibiu que o Quêssua leciona-se até ao quinto ano, apenas passou a lecionar até ao segundo ano.

Qual foi a alternativa? Quem quisesse ir estudar tinha de ir estudar em Malanje, nas instituições do ensino colonial. e como o fazer? os americanos arranjaram uma carrinha com bancos. os alunos todos os dias iam e regressavam até Malange. A estrada do Quêssua a Malange tinha um percurso de doze quilômetros e não era asfaltada. os alunos frequentavam o Liceu, o seminário e a escola Comercial, havia alunos do Quêssua a frequentarem todas as instituições do estado. No Quêssua, os professores vinham de Malange, havia professoras portuguesas, brancas, eram competentes e por isso o ensino era de qualidade. Ia um carro pequeno buscá-las todos os dias.

HABITAÇÃO NO QUÊSSUA, 1955

Um pormenor interessante, os missionários já tinham casas maravilhosas. até hoje dissemos” ele tem uma casa assim, tem uma casa de missionário”. E os angolanos, aqueles com alguns níveis viviam com condições habitacionais distintas. segundo reza a história, o nosso tio Filipe de Freitas foi uma conferência nos Estados Unidos e mostrou as fotografias sobre as casas onde viviam os angolanos.

Em 1955, constroem um bairro chamado Bairro Azul, o Bairro Azul do Quêssua era um bairro com mais condições. Era um bairro com água canalizada, havia uma nascente e por um sistema de gravidade os americanos conseguiram puxar a água até a estas casas. Em 1955, o Quêssua tinha água canalizada, e os bairros de Malange, como a Maxinde, não tinham água canalizada à data da independência de Angola. Os generais e outros angolanos pertencentes atualmente a classes de alta renda não viviam em casas com água canalizada. Eu costumo brincar com uma contemporânea, com a Mingaxi, dizendo-lhe” tu ias à noite puxar o barril de água, para eu não ver que em tua casa não havia água canalizada. Em Quêssua havia telefones. telefonava-se de casa para casa “três quartos e dois compridos para a casa de fulano”. Havia campos relvados de futebol, praticava-se basquetebol. Aquilo parecia uma aldeia americana. Eu na primeira classe tinha colegas filhos de missionários e isso ajudou-me a tirar o racismo da minha cabeça porque percebi logo que éramos todos iguais, brincávamos e íamos a casa deles.

Expulsão de Missionários Americanos, Keswa 1961

Depois de 1961, no dia 5 de Setembro de 1961 prenderam dois americanos, os senhores Bronson e o Lemaster, era  o Director da Educação,  esse meu irmão que vive nos EUA e o tio João, pai do Bornito de Sousa. Foram presos no Quéssua, enviados para Malange e dia seguinte enviados para Luanda. Estes missionários foram expulsos de Angola  e depois foram expulsando os  outros missionários que estavam no Quéssua, ficou apenas um, o Senhor Shad[1]. Este ficou a dinamizar Quéssua até 1968. Neste ano ele vai de férias, deram-lhe a garantia de poder regressar e depois disseram-lhe: você não volta mais. O filho   Shad, após a reforma regressou ao Quéssua, neste momento vive no Quéssua.

Para além da Igreja o Quéssua  tinha o internato masculino, o feminino e a volta tinha os bairros:  Azul, o Norueguês, tem este nome por ter sido feito com o financiamento da Noruega,  o Escondido, a  Esperança, para citar alguns.

Tinha um hospital. O médico vinha de malange para tratar dos casos mais importantes, mas havia enfermeiros que asseguravam os tratamentos paliativos.

Na Escola Henda havia cursos técnicos para as senhoras e na outra os cursos técnicos para rapazes. A mim calhou-me alfaiataria,  eu quase nem chegava com os pés ao pedal da máquina.  As meninas  tinham culinária, costura, bordado. Mas, essa aprendizagem era após os estudos. Quem estudasse de manhã ia para os trabalhos práticos no outro período.

Keswa tinha um padrão americano. As pessoas  até comentavam “ vê-se que aquele indivíduo estudou no Keswa, era  pelo comportamento e pela forma  de se vestir…. . Eu tenho fotografias dos meus pais. Antes de eu nascer o meu vai já se vestia a rigor, usava o laço e todos eles se vestiam assim (apontando para fotografia). Esta fotografia foi tirada em 1950 quando o meu pai organizou uma conferência anual. Reparem nos pormenores, nas canetas no bolso do casaco , no laço.

O meu irmão contou-me ter sido uma costureira a costurar este vestido e outros, pois a esposa do pastor tinha de estar bem arranjada durante a Conferência, então fez dois vestidos.

Eles eram respeitados pelo governo colonial, “olhem, o pastor”, impunham respeito pela sua educação e pela forma de estar, já se diferenciavam dos católicos. 

A mulher do pastor não podia ser analfabeta. Então as meninas estudavam na Escola Henda para depois se casarem com os rapazes das escolas do Kesha.

No Keswa havia duas situações: não se podia namorar com uma católica, perguntavam logo “você está a namorar com aquela católica, com aquela moça de catete, com aquela bailunda?”.  Estas questões eram  mais colocadas às meninas. 

Eu apenas soube que Bailundo era uma região depois da independência, antes pensava ser o nome do sul de Angola, por tratarem as pessoas do sul por Bailundos. Eu  não atribuo este comportamento apenas a colonização, mas também as rivalidades tribais.

Da mesma forma que alguns dos nossos pais não deixavam os filhos falarem as línguas nacionais. O meu irmão residente  na America teve melhor base da língua kimbundu, até hoje expressasse correctamente em kimbundu.

A Alimentação no Quéssua

Há um vídeo de 1955 para você ver os indivíduos a trabalhar na agricultura como os agrônomos, mas sim, eles tinham naquela disciplina. Nas horas livres tinham de ir cultivar, mas era mais no âmbito da formação não era no sentido pode escravizar. era para a autossuficiência, os internatos eram fornecidos por alimentos cultivados nos campos agrícolas do Quéssua. havia o subsídio  vindo da Junta Americana. Pensavam,” se temos o terreno porque temos de comprar milho, banana, etc. Depois, já havia tratores e outros instrumentos.

Qualquer um dos internatos tinha um cozinheiro coadjuvado por estudantes. Havia uma escala de trabalho  na cozinha, o cozinheiro principal era o Avô Chamborim, mas ao lado dele havia um aluno “ hoje é o teu dia de ficarmos ao lado do Avô Chamborim”. era assim o sistema. Antigamente,  chamávamos tio a todas sos colegas dos nossos pais. há uma história datada dos anos 1940. um angolano foi a uma conferência nos  Estados Unidos e mandaram-lhe lavar a loiça e ele” na minha terra esse trabalho é para os imundos”. e disseram-lhe “aqui na America todos lavam a loiça, a mulher está a fazer algo e o marido está a lavar a loiça”.

FILHOS CÉLEBRES DO QUÊSSUA

Eu costumo dizer que no Quêssua não aconteceu nenhum milagre. Os americanos chegaram e implementaram o seu sistema de vida. E para além de tudo para época, implementar um ensino de qualidade a custo zero e isso foi fundamental.

O meu irmão mais velho sempre trabalhou uma educação desde o Quêssua, morreu em 1975, João Manuel da Costa, teria agora noventa e dois anos, faleceu com setenta e dois anos, há trinta anos.

As Esposas dos Pastores

Já havia a sociedade das senhoras. Havia senhoras com cargos falando da Deolinda,  o meu irmão conta que quando a Deolinda foi para o Quéssua a aquelas reuniões da Juventude, com as colegas como a Irene Webba e  outras, ele refere-se aquelas bonitas jovens “Aquelas Deolindas”.

Cemitério do Quéssua

A organização do cemitério do Quéssua é estratificada, há a parte dos missionários,  de pastores e familiares angolanos e  uma terceira parte a do povo em geral, onde está sepultado  João Filipe Martins, ele era filho de pastores, mas parece ter sido a pedido dele ser sepultado em uma campa de tambe museus familiares. Os pais de Celestino Dias, foi Ministro do Comércio, o Buta , a minha mãe e membros da família Webba  estão sepultados. Os familiares devem contribuir para a preservação deste patrimônio cultural de Angola, conservando os túmulos dos seus antepassados. A minha mãe está sepultada no Cemitério do Quéssua , ela faleceu em 1949. Eu tive a intenção de levar as ossadas do meu pai para estarem na campa da minha mãe.

O PASTOR ANDRÉ SANTOS DA COSTA, EUA 1963

André Santos da Costa foi sempre muito ligado aos americanos foi o primeiro secretário da escola, do Sr. Lemaster. ele é preso no dia 5, vem para Luanda onde fica cerca de seis meses preso, é solto em 1962. Casa em Junho de 1962 com a namorada, uma jovem da família Pegado.

O meu irmão depois dos americanos serem todos expulsos, ele foi o primeiro angolano a beneficiar de uma daquelas casa. Quando vim viver para Luanda no dia 4 de Setembro de 1962 fico admirado, não estava a viver numa casa daquelas, muito menos em casa com frigorífico. Era uma casa de missionário. Estávamos em setembro, começam as aulas, havia uma escola da Missão Metodista de Luanda e mesmo ao lado. Mas, ele estava se muito perseguido pela PIDE, foi preso várias vezes, prendiam-no e soltavam-no frequentemente, até que no dia 30 de Março 1963 ele e mais um grupo saíram de autocarro até Caxito, de onde  andaram até encontrarem a base da UPA. queriam matá-los por desconfiança, mas o velho Gourgel pai do Beta Gourgel (N’Gangeta), era Pastor, mandou uma mensagem “eu conheço os rapazes, são filhos de colegas”. Foi ele que deu ordem para eles poderem avançar. A partir daí, foram bem recebidos, ficaram em casa do velho Gourgel alguns meses até chegar à bolsa dos Estados Unidos. Ele é mais um amigo, Serafim Sousa e Santos retomaram os estudos a partir de Agosto de 1963, mês em que chegaram aos Estados Unidos.

Voltou a casar em 1969 porque a esposa ficou em Angola. Na altura não tinha a facilidade de viajar, casou com uma americana.

Teve um bom emprego, atingiu o cargo de Diretor na General Motors, viajou pelo mundo, chegou a estar em Angola e foi recebido pelo Embaixador dos Estados Unidos. Está reformado. Este ano faz noventa anos, sempre esteve ligado à igreja, a esposa era menonita converteu-se.

Na Lunda também havia uma missão, sei que o Missionário chamava-se MCLaren. Havia rapazes que depois de fazerem a quarta classe iam para o Quêssua estudar. O meu irmão foi professor, deu aulas nesta Missão, tenho encontrado antigos alunos dele.

Nos Estados Unidos vivem antigos contemporâneos do Quêssua, como a Loidiana, irmã do Paulo de Almeida, xará do tio Paulo de Almeida, pai de Deolinda Bebiana de Almeida.

DIMENSÕES DA ASSIMILAÇÃO, 1920

Nos anos 20, o meu pai já tinha a quarta classe, era professor, tinha o diploma de Professor Rural. Em 1932 casou na Missão Metodista e no registo Civil. quem não fosse caso pelo registo Civil e apenas casado na Igreja Metodista os seus filhos eram registados como filhos ilegítimos. Eu perguntava porque não somos filhos legítimos e os filhos dos outros (referindo-se aos filhos de indígenas) são ilegítimos?

Porque os pais deles eram apenas casados pela Igreja Metodista e aquele casamento não era reconhecido pelo Império Colonial Português. apenas os casamentos realizados pela Igreja católica eram legítimos. a maior parte dos pastores eram casados apenas na Igreja metodista, mas o meu pai em 1932 casou também pelo Civil. Até a década de 1960 eram filhos ilegítimos porque os pais não eram casados pela Igreja católica ou pelo registo civil. Porque o casamento e o registo de filhos nas Igrejas Protestantes têm não tinha qualquer valor.

LICEU ADRIANO MOREIRA, 1963

O Liceu Adriano Moreira foi inaugurado em 1963. lembro-me da visita do Ministro do Ultramar a Malange, eu era miúdo, os alunos diziam “Senhor Ministro Malange precisa de um Liceu”. Porque quando havia exames os professores vinham de fora, de Luanda ou de Malange. Havia o Colégio Sarmento e o Seminário – Colégio São José, mas não tinha liceu. O Ministro Adriano Moreira atendeu ao pedido. As instalações eram no antigo Tribunal, foi onde fiz o exame de admissão, dois anos depois construíram o Liceu. Eu não estudei neste liceu, apenas fui fazer o exame porque os estudantes do Quêssua tinham de fazer o exame nas instituições de ensino públicas em Malange.

Os professores de Malange validavam os exames, ou mandavam os júris da escola oficial inspecionar os exames realizados nas escolas da Missão do Quêssua. Eu fiz o exame de admissão. Isto acabou nos anos 1960, eu fiz o exame ainda nas instalações do Tribunal e em 1966 vim estudar para o Liceu Salvador Correia, em Luanda. Estudei com o Bornito de Sousa, temos a mesma idade, mas ele esteve sempre adiantado um ano. Ele entrou no liceu com doze anos e eu com treze anos.

25 DE ABRIL, 1974

No 25 de Abril, éramos jovens e ficamos todos entusiasmados. Eu era muito amigo do General Bibi, da Vila Alice, sobrinho do Bispo Emílio de Carvalho. Organizamos uma saída para o Congo, integramos as FAPLA, no famoso CIR Calunga onde fizemos o treino militar e regressamos a Luanda na altura do Governo de Transição. Eu já trabalhava e percebi o que se estava a passar no dia 26 quando chego ao serviço. Eu sabia, já tinha feito vinte e um anos no dia 16 de Abril. Eu e amigos já fizemos o plano de fuga, tinha amigos que já tinham fugido. Havia vários canais, o Kopelipa e outros vinham para Portugal para a Força Aérea, nós já estávamos ligados à clandestinidade. Mas sinceramente, no dia 26 de Abril quando se fala do 25 de Abril eu não fiz uma relação imediata com a independência de Angola, pensei ser uma ocorrência em Portugal, não avaliei o impacto que causaria em Angola. depois, comecei a ouvir as manifestações, nas revistas e no jornal, a notícia já aparecia Agostinho Neto, já falavam da FNLA, então percebi que a luta pela libertação estava a progredir. O meu grupo organizou-se e saímos de Luanda em Junho para Cabinda, o Bibi, um primo dele e eu.

Em Cabinda já havia células clandestinas e um grupo iria levar-nos a Ponta Negra. Ainda me lembro, eu já trabalhava e paguei-lhes os bilhetes.

Ao atravessar as matas em Cabinda fomos presos, havia o movimento Revolta Ativa, ficamos três semanas presos em Ponta Negra. Lembro-me de ter aparecido os Comandantes Pedalé e o Dimuca. Conseguimos chegar ao CIR Calunga, onde fizemos o treino militar e depois do treino militar fomos para as matas do Mayombe até ao acordo de cessar-fogo assinado com o governo português. Depois, regressamos a cidade, primeiro estivemos em Cabinda e depois no Soyo onde conheci o falecido Augusto Teixeira Lopes “Tutu”, ele era engenheiro, feita as contas ele tinha trinta anos, mas nós éramos uns miúdos. Começamos a conhecer os mais velhos, foi um dos primeiros dirigentes que eu conheci. Quando constituíram o governo de transição, reconheci a Camarada com quem havíamos estado no Soyo.

GOVERNO DE TRANSIÇÃO

De repente, era necessário protegermos os nossos ministros. Eu e o Paulo de Almeida, antigo Comandante-Geral da Polícia, fomos os dois indicados para sermos seguranças do falecido Saidy Mingas. Aprendi muito com ele, ele era uma pessoa espetacular. Mas depois o Onambwe diz “então tu és segurança, um indivíduo com o sétimo ano?” Mandaram-nos para a Rússia fazer uma especialidade. Em 1978 voltamos pouco depois daquela confusão do fraccionismo.

Os jovens que se juntaram à guerrilha após o 25 de Abril de 1974 deram um grande contributo no reforço dos movimentos da luta de libertação? Esta característica de qualquer guerrilha. não se faz guerrilha com muita gente. a guerrilha não se destina a tomar o poder; a guerrilha é a base, chegasse, atacasse e há a retirada, a guerrilha é mais uma forma de pressão, ninguém toma o poder com a guerrilha, salvo em casos excepcionais.

No caso de Angola, a guerrilha chamou a atenção das Nações Unidas, estavam os movimentos a lutar pela independência.

Depois disso, houve a organização, uns na clandestinidade, outros na guerrilha e organizou-se o Governo de Transição. Num movimento de guerrilha os envolvidos não se conhecem a todos, por isso há os nomes de guerra, o meu é Cangato, porque quando se é capturado ninguém sabe quem é o Cangato apenas o teu grupo. Há técnicas de guerrilha distintas de uma guerra convencional.

11 DE NOVEMBRO 1975

A 11 de Novembro tinha vinte e dois anos, era FAPLA, e segurança do Saydi Mingas, ele morava no Bairro do Saneamento por trás do Palácio. Cumpri aquelas formalidades todas.

Por volta das dez da noite fomos a o Futungo onde estava Agostinho Neto e saímos todos em coluna para o Largo 1º de Maio. Na Samba havia muitos tiros e a coluna onde ia o Agostinho Neto por precaução parece que teve de parar e depois de chegar a informação de estar tudo sob controle, a coluna onde estava o Saydi Mingas avançou até ao 1º de Maio. a meia noite Agostinho neto fez o discurso da Proclamação. No dia seguinte estávamos todos contentes. Passando algum tempo fui para a Rússia estudar.

ESTUDANTE NA RÚSSIA

Em 1978, quando Angola começa a criar as Missões Diplomáticas, na altura “qualquer pessoa podia ser tudo”, mas para a diplomacia houve mais cuidado, foram ver quem tinha algumas habilitações do tempo colonial. então fui contactado e disseram-me para ser Cônsul, perguntei o que era e disseram-me: nós também não sabemos, vai só. E foi assim que começamos a dar os primeiros passos na diplomacia em Angola. Depois acabaram com a DISA, era preciso a reestruturar. Eu não estava organizado em Luanda porque quando me nomearam Cônsul, eu casei, mas não cheguei a ter casa em Angola. Decidi não prosseguir a carreira diplomática sem organizar primeiro a minha vida familiar em Luanda.

Consegui um apartamento daqueles construídos pelos cubanos, mas, a maioria dos meus amigos tinham boas vivendas, alguns viviam em Alvalade. Resolvi que enquanto não conseguisse uma moradia melhor não iria trabalhar no exterior. Consegui uma vivenda no Prenda.

Faculdade de Economia

Depois disso, o meu amigo Paulo de Almeida disse-me:

–             andamos distraídos

–             porque?

–             está todo mundo a estudar

–             oh

–             sim, temos de voltar a estudar, temos de fazer o PUNIV durante seis meses e depois entramos na universidade

–             vamos embora, é mais um desafio.

Foi mais um desafio! Olhe, eu que tinha feito o Liceu, não tinha bases nenhumas de economia, enviaram-me para faculdade de economia e o Paulo de Almeida que tinha feito o Curso Comercial mandaram-lhe para direito. Claro, tive algumas dificuldades e depois enquadrei-me. Frequentei a faculdade e economia de 1985 a 1990, foi onde conheci o Dr. Cerqueira durante uma palestra.

Terminei a faculdade em 1990. Tinha muito tempo livre, fui dar aulas de finanças públicas no IMEL, era uma forma de ocupar o tempo. Em 1999, sou chamado para trabalhar na Presidência da República, para colaborar na organização do sistema financeiro da Presidência da República, trabalhei neste local até à reforma, em 2000, mas, a nível das Forças Armadas, fui reformado em 2000, com a patente de Brigadeiro.

Resumindo, essa é a minha trajetória, politicamente nunca fui muito incisivo, dou minha opinião, as minhas ideias. houve uma altura que enquanto militares não podiam exercer política ativa, isto foi a partir das eleições de 1992. antes dessa época havia células do MPLA nos vários organismos.

CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES

O país não se faz num dia. Sabes, se alguém da minha idade, nascido no Quêssua, disser que cresceu em uma casa com eletricidade está a mentir. Quêssua só teve água canalizada em 1955, eu já era nascido; se alguém com a minha idade disser que viveu em uma casa com água canalizada também está a mentir, pode haver raras excepções. Se alguém disser que no tempo colonial já tinha um parente licenciado em Angola também não pode ser verdade, são casos raros, talvez padres. Isto para dizer que nestes cinquenta anos muito se fez, quem hoje não tem na família alguém licenciado? Até ao 25 de Abril era raro.

Agora, há problemas a resolvermos e discordo com alguns. Por exemplo, eu não concordo com a subvenção da gasolina. Angola produz petróleo, mas não refina e compra os derivados a preços de mercado. Angola explora petróleo bruto a um preço e compra os derivados caros, em algum caso concordo com a subvenção do gasóleo para a esfera produtiva.

Este depoimento foi realizado em Lisboa, no dia 5 de Junho de 2025.

Entrevista: Marinela Cerqueira

Palavras Chaves: Missão do Quéssua| CIR Calunga|Pastor  Costa| Escola Henda| Bairro Azul| Conferência Quéssua em 1950|Paulo de Almeida|Liceu Adriano Moreira|Governo de Transição