Sidónio Gabriel defende causas ligadas à identidade e à cidadania como meios de integração social dos vários povos do deserto mais antigo do planeta, o deserto do Namibe. Os namibienses reconhecem Sidónio Gabriel e Ildeberto Gaspar Madeira como dois mais velhos, guardiões da memória colectiva da cidade do Namibe e dos seus arredores.
Com frequência, ambos se predispõem a partilhar conhecimentos sobre tradições, hábitos e costumes, bem como as suas leituras da história social da província no período pré-independência, descrevendo factos sociais de que foram protagonistas.
Sidónio Gabriel assume a responsabilidade de ter criado a primeira célula clandestina na cidade do Namibe para a luta de libertação nacional, vinculada ao MPLA. Ainda muito jovem, defendia compatriotas e reivindicava direitos iguais, o que levou à sua primeira detenção política, na sequência da defesa do direito de os negros circularem nos passeios do Forte São Fernandes, onde esteve preso.
Este local foi usado, no período da escravatura, como espaço de retenção de pessoas escravizadas antes do seu embarque. Após o fim oficial da escravatura, passou a servir de cativeiro para trabalhadores forçados durante o império colonial. Mais tarde, Sidónio Gaspar foi transferido para a cadeia de São Nicolau, na antiga Bentiaba. Ambos os edifícios integram a memória material classificada de extrema relevância para a história pré e pós-independência. Sidónio Gaspar é um testemunho vivo destes espaços e descreve, na primeira pessoa, pormenores e acções ali vividos.
O ancião clama pela angolanização da toponímia da província. A sua intervenção social tem sido registada pelos órgãos de comunicação social e afirma: “eu não sou político, sou revolucionário”.
A sua história de vida é marcada por acções sociais determinantes para a história social do Namibe e deixa como mensagem às novas gerações: “o governo não pode garantir emprego a todos”.
A sua memória é particularmente relevante para o estudo das limitações sociais e da coragem dos combatentes pela independência de Angola. Apela à urgência da recolha e do tratamento destas memórias e alerta para o facto de serem cada vez menos os sobreviventes, cujas vidas se aproximam do fim. Recorda que existem poucos angolanos que testemunharam directamente a luta contra o racismo, passaram pelas prisões do Forte São Fernandes e guardam arquivos e documentos sobre o Namibe, como o seu amigo de infância, Betuca.
A construção da memória é um processo singular, e a clandestinidade teve impacto directo e indirecto na vida de crianças, jovens e adultos, sobretudo no quotidiano das famílias dos envolvidos, quando estes eram presos ou partiam para a luta de libertação nacional. A história dos últimos 80 anos de Angola é indissociável do fim do império colonial e da independência, pelo que uma leitura abrangente da sociedade exige a inclusão dos depoimentos destes cidadãos e das suas famílias, como é o caso do ancião Sidónio Gaspar.
O depoimento de Sidónio Gabriel foi realizado na sua residência e contou com o apoio de Ildeberto Gaspar e de Franck Frazão.
Introdução
O Sidónio Gabriel é cidadão angolano, nascido em Chicola Ginga, filho de Gabriel João e de Luzia Helena.
Eu vim para cá aos sete anos de idade para viver e conviver com os pais. Estudei na escola Portugal nº 55, Fernando Leal onde fiz a quarta classe, os meus pais queriam que eu continuasse os estudos, mas eu disse que preferia aprender um ofício. Naquele tempo aprender um oficio tinha mais valor para o negro. O negro tinha como opção: ser seminarista, telefonista, vendedor gasolina, ou contíno, primeiro era contíno, mas a maioria eram brancos e foi a minha profissão.
Casei-me no dia 15 de Agosto de 1957, às sete da manhã e às dezessete horas do mesmo dia fui cumprir o serviço militar em Luanda, estive lá vinte e dois meses, regressei e comecei a trabalhar.
Depois, recebi um convite do meu mestre e cheguei até ao Lobito onde fiquei até 1954. o Aqui trabalhei no restauro do Palácio da Justiça e do Palácio do Governo.
Tive muitos amigos, os meus amigos eram bailundos a quem eles chamavam “de pé descalço” a quem chamavam “boçal, analfabeto” e este é meu amigo e com este aprendi muito, a ser humilde (referindo-se a Idelberto Madeira).
Ingressei no MPLA em 1958, vou completar 65 anos como militante, não só como do MPLA, ali naquela parede tenho certificados, fizeram-me uma festa na terça feira, dos noventa anos de idade, este mês no dia 14 de Maio completei noventa anos.
A Descendência e o Significado dos Nomes Angolanos
Eu nasci na Tchicola , município do Lubango tenho um nome “Bambulu” que tem um significado. Eu quando nasci, dizem eles, naqueles cruzamentos, puseram-me ali e fizeram um tratamento tradicional e o que isto significava? Além disso, nós somos africanos, há muita gente que não acredita, mas, eu lembro-me que os curandeiros que me fizeram isso, lembro-me deles, foram dois, na altura eu tinha três anos de idade quando os conheci. Portanto, só há pouco tempo me disseram o significado deste nome “Bambulu”, eu não nasci lá acidentalmente. A minha mãe veio para cá e quem me criou foi a minha madrinha e o Sr. António José Fernandes, um senhor mestiço, sobrinho do Sr. Manel. A origem do nome vem do pai que era do Cunene que era Mundimbas.
Há mundimbas e há muímbas aqui no Curoca relacionados aos muambas. A origem vem do meu pai que era mumdimba, estes descendem dos ambuímbas. E a minha falecida mãe é de cá, o meu avô, pai pai da minha mãe era de Vila Nova de Seles, portanto, pelo meu nome tradicional tenho uma grande missão.
Alimentação
Eu agora não sei se aquelas farras, se aquelas bebedeiras…, eu bebia bem. Mas, em 2009 cessou tudo, o álcool acabou. Não gosto muito de água, mas bebo a bebida original.
Não sei qual é o meu prato predileto, gosto mais de pirão do que de arroz e de massa. Dizem que o peixe é mais saudável , eu gosto de peixe, mas também não desprezo a carne “ tenho de jogar a defesa e depois no meio campo”.
A Prisão de São Nicolau
A prisão de Bentiava (em pronúncia é Bentiaba), era o nome do rio , agora chama-se São Nicolau. Muitos foram para o Cuando Cubango e para São Nicolau, quem foi lá parar dos meus companheiros de luta foi o Jerônimo Sinedima e o Cosme. Quando eu formei a célula clandestina foi com o Sinedima e o Cosme, era sacristão e professor, e o Sinedima trabalhava na Venâncio Delgado & Filhos, iam buscar os contratados para as pescas e o Sinedima é que trazia os homens. O Flaviano foi professor , o sacristão e eu era o vagabundo que estava no bairro no seio deles. O Henrique Abranches também trabalhou comigo. Ouviu falar da Olga Chaves do Cunene e do Eng. Flora? Meu grande amigo, fui eu, o Engº. Flora estava em dúvida, o Sinedima… porque muitos amigos meus, mas muitos, até Doutores. O Capicua era um sujeito da minha cor, tinha o curso de eletricidade, trabalhou na Escola Industrial de Luanda, era um dos activistas no Botafogo também trabalhou comigo e foi visitar-me no dia 25 de Junho de 1958, foi visitar-me quando estive hospitalizado no Hospital.
Aquele hospital Dona Maria Pia e devia continuar a chamar-se assim porque foi feito com o dinheiro dela, da rainha D. Maria Pia, quando faltava dinheiro vendeu as suas jóias para acabar o hospital. Não deveria chamar-se Josina Machel porque foi dinheiro dela. Mas quem manda é o povo, pois esta coisa de quem manda é o povo, deveria acabar.
Radish Júnior “o Pai dos Pretos”, 1961
Em 1964, criei a célula clandestina porque nós até éramos proibidos de andar no passeio, a proibição terminou graças ao cidadão Raul Radish, Despachante Oficial. Ele chegou a casa e encontrou o criado com o tabuleiro do matabicho a chorar e perguntou-lhe:
– quem te bateu?
– foi a polícia, disse “sai do passeio preto”
O Radish foi ao Posto da Polícia, passou pela entrada e dentro do próprio gabinete surrou ao Comissário da Polícia (Radish Júnior era intitulado “o pai dos pretos”)
– sr. Radish o João está preso
– o que é que ele fez?
– estava a andar no passeio
Saiu de casa, foi ter com o cipaio:
– oh Cabo, abre a porta
– oh João, vai para casa.
…Ali onde é o protocolo hoje era a residência do Sr. Intendente, entidade máxima, primeiro tínhamos o Governador, ele vinha do Lubango para cá, infelizmente a moda continua na mesma, o caminho de ferro é nosso mas a direção está no Lubango. O Radis chegou e tocou a campainha, veio o criado e disse:
– Quero falar com o Sr. Intendente
– O Sr. Intendente está a almoçar
– Diz que está aqui o Sr. Radish
Quando o intendente torceu o rosto, deu-lhe uma carga de porrada e no dia seguinte apanhou o avião e foi a Luanda tratar de assuntos. No regresso do Radish, o Intendente foi destituído e disseram-nos : a partir daquela data já podíamos andar no passeio, foi a melhor coisa que ele fez, eu não me esqueço, em todos os bairros, em 1961.
Prisioneiro, Fortaleza de São Fernandes, Maio a Dezembro de 1961
Em 12 de Maio de 1961 fui preso na Fortaleza de São Fernandes. Todos os dias a partir das vinte e uma horas aquilo era “o fado da Amália, já não se sabia quem estava a cantar” pancada e morte (gesto), enfim! Eu vi! quando o Sr. Radish acompanhava o Governador acompanhado pelo Radish, no dia seguinte “todos banho, quem está doente? Médico, Aka!”…
Olha, o Raul Radish Júnior não era filho desta terra, era da União Nacional, para mim que fosse, mas era o Pai dos Pretos. Ele morreu em Portugal depois de ser operado na Inglaterra, foi operado a cabeça, ele já não podia viajar, foi a sorte da minha vida….
Fui solto no mesmo mês de Dezembro, estive na estrada a fazer serviços forçados , fui fazer blocos, fui palmatoado, chicoteado e socado “mata o terrorista “. Felizmente, quem me foi buscar à prisão foi Mandinga Duarte, filho de um grande empresário. “Eu ordenei”. Ao sair da cadeia, o Chefe do Posto aproximou-se e disse-me “afinal tu és da malta e não dizes nada, sempre foste! O Forte é para os pretos” (risos).
Fui viver na Torre do Tombwa com um amigo meu, o Zequinha Esteves. Depois, uma nova perseguição pela PIDE…
Em 1968, infelizmente deixei essa terra que eu muito amo e fui para o Lubango.
Exército Português, Lubango 1968
No Lubango eu despedi-me, fui fazer o serviço em casa, onde o chefe da PIDE… Tive sorte porque tinha um amigo meu que era amigo do filho do chefe da PIDE , quer dizer “eu tocava saxofone e os outros tocavam trombone”, era uma equipa de canecas! E eu encontrava o Valentim filho do Governador a lançar, o nosso lanche era primeiro um litro de vinho…, depois “íamos na mosca do filho do Chefe da PIDE”, eu era o último a pagar. Eu conhecia o chefe da PIDE viz a viz “aqui é o filho, aqui é o Valentim (gestos)”.
Depois, o filho “ o meu pai perguntou por ti, o que é que tu fazes?”, mas nós a nossa conversa era sempre desporto “ Benfica e tal” porque eu já sabia
Leitura da Juventude
Tinha conhecimento (reflectindo) porque eu comprei muitos livros revolucionários. Eu fui assinante da revista Reader ‘s Digest, era traduzida em português e vinha do Brasil e aquilo alimentava a minha mente. Eu li No Subterrâneo da Liberdade e o Paraíso do Carnaval do Jorge Amado, li A Mãe na Clandestinidade. Eu tenho aqui, a Mãe na Clandestinidade, é uma história da prenderam o filho, “Chora Terra Amada” e ela pôs-se em frente a fábrica a distribuir panfletos. O Sol, Terra e Mar , já leu? Foi escrito por um sul africano; a Cabana do Pai Tomás, já leu?, Dr. Jivago? Eu também li o livro e vi o filme que era proibido na Rússia “ E Assim Se Foi Temperando o Aço”, enfim !
E a Psicologia Humana? A psicologia humana foi escrita por um francês, aquele livro fortaleceu-me a humildade, deu-me “luzes” sobre como conhecer uma pessoa pelo : falar, gestos, o andar, já sabemos , já conhecemos quem é a pessoa, soubemos a sua parte mais sensível e a parte mais fraca. É por isso que eu dou-me com toda a gente, como o Dr. Filomeno Vieira Lopes e outros, não interessa! Porque eu sou um ser humano como ele, ele respeita-me, eu tenho de respeitar a minha dignidade, para mim não tem que ser…
Arrufos e Prisões
Eu a assistir o Carnaval, estava a conversar com uma moça e de repente “pá (gesto), um borracho”, eu avancei, o gajo correu e já vinham os policiais, o desgraçado quando levantou o cacetete, ele tinha a maçã de adão saída, mando-lhe um murro ali, ia matando o homem! Apareceu um patrício com o cacetete, aí o branco quando vinha mandei-lhe um soco no peito(gesto), ele “aí minha mãe!”, fui preso.
Mas, minha senhora, eu tive aquela força porque tive um bom almoço: cachucho e feijão de óleo de palma com uma piroada. E eu devagar, sem preguiça e nem pressa acabei um litro de vinho tinto. Aquilo, eu parecia um super-homem, a força de um homem nervoso (risos).
Outra recordação, em 1962, eu vinha de fora, o cipaio não me deixava entrar e eu:
– porquê, mostrei o bilhete de identidade?
– porque o chefe disse para não deixar passar ninguém,
– porquê?
– para contar às pessoas
– vocês contam os mulatos e os brancos, para contar?
– não.
Eu pus-me à frente, estavam ali “cem mil pessoas”, não ficou um! Quando me apanham lá dentro, o chefe fecha a porta e diz “este homem é malandro”. Um cipaio para mim, dois de lado o Chefe do Posto, outro a “tocar viola”, surraram-me bem surrado. Mas, pensei eu “eu vou matar esse chefe do posto, vou matar o gajo a porrada, apanhar o gajo”, mas o Mandingo Eduardo chegou e safou-me.
Um dia desses, já vivia no Lubango, o homem para me prejudicar, vejo-o, foi ele que veio ter comigo, tornou-se meu amigo. Os homens são assim, nada de rancor! Não interessa, nada de ódio, não! Mas, eu sou um pouco esquisito “nao me façam mal”. Eu voltei a falar com ele,mas, “já não é a mesma pessoa”. Este para mim, sim! Isto para mim significa um malandro porque o mal mata, porque é que ele me fez mal?
Aconteceu a pouco tempo, quando eu estive doente vieram comprar o material, não encontraram ninguém e fugiram, roubaram-me a ferramenta. Pensei, eu percebo são desgraçados, vou me queixar para quê? Quando chegar o momento, vou morrer na cadeia, eu tenho feito, eu tenho uma oraçãozinha para quem a providência se encarrega.
O Futebol
Eu conheci um Cerqueira que foi um grande jogador, foi guarda redes no Ferroviário. Na véspera do meu aniversário eu tive um grande presente, o Benfica deu 5 a 1. A senhora é desportista?
- Não, mas dou importância à prática do desporto, talvez possa falar do desporto no seu tempo?
- Eu fui desportista, sou benfiquista, mas jogar futebol só quando eu “era gente”, durante a tropa, nunca tive inclinação para a prática do desporto. Agora, o Benfica, há anos que sou Benfiquista, senão me engano desde 1950, Benfica do coração, perca ou ganhe.
Eu vivi na Bela Vista, jogávamos futebol aqui na cidade e na escola, nós meninos jogavam a bola com os meninos do bairro da Facada, nós jogamos naquele bairro porque o goleiro vivia ali e nós dizíamos, vamos jogar, ninguém tem medo do goleiro, mas eu ia com as costas largas porque estava lá o goleiro e ele gostava de lutar.
Depois, frequentava o Forte, a Nação, a Barra e a Torre do Tombo. O que era a Torre do Tombo? Era um bairro e hoje é o Bairro Valódia. Em um encontro na Administração eu disse “a Torre do Tombo é importante para Portugal, vamos por o nome do Valódia e ficou a chamar-se Bairro Valódia.
Os Contratados
No período colonial era a pretalhada e a negralhada. A negralhada já tinha bilhete de identidade já era tratada de outra forma e a pretalhada coitadinha (gestos). Mas, havia rusga, precisavam de trabalhar e estava lá (aonde) um senhor que tinha pescarias, iam presos e ganhavam qualquer coisinha.
Os contratados que vinham do Bailundo iam para o mar ganhavam uma miséria e acontecia “Conrado morreu um preto, caiu no mar” morreu? Pagavam quinhentos escudos a capitania “a vida de um homem negro era quinhentos escudos”, era assim! se caiu no mar, não vou parar para o salvar porque aí há peixe, senão o peixe vai fugir porque ali há peixe” e valia muito dinheiro, então pagava quinhentos escudos, isto um homem que veio de fora que tem a sua família, pronto paga quinhentos escudos e pronto. E isto não é história, isto aconteceu, um homem que é contratado pagavam quinhentos escudos pela sua morte.
Namoro e Casamento
No campo familiar parece que nasci com um cérebro “aquela mulher é bonita” (está a entender)?! Ainda conservo o “aquela mulher é bonita”. No princípio, eu pensei que era doente, hoje aceito que estou mesmo doente porque não há idade quando se ama e se gosta, enquanto “o comboio apitar na estação” eu vou atrás , tem de ser. Há anos, eu fui passear, eu frequentava, vi uma moça mestiça, ela tinha um físico grande e ela aceitou-me, depois de seis meses ela disse eu fiz anos “minha mãe do céu, eu só pus a mão a cabeça”, ela diz-me que só tinha quinze anos e eu pus a mão a cabeça, eu tinha sessenta e cinco anos. Fui enganado pelo físico, eu disse que não pode ser ! E ela disse “ eu entreguei o meu corpo porque te amo.
A mãe quando soube disse “ tu estás com um velho”, mas “ como é que a mãe sabe que ele é velho se quem dorme com ele sou eu”, foi isso que ela perguntou à mãe. A mãe depois disse “eu vou queixar a esposa do Dr. Modesto que é minha amiga, ele vai para a cadeia “ e eu disse-lhe “quando ela andava na má vida e tu sabes quem desonrou a tua filha não te foste queixar, agora que ela anda sossegada queres enviar alguém para a cadeia”. Um dia desses ela a noite pôs-se de joelho e disse “ Tio Sidónio, muito obrigada, eu andava à procura de homem, hoje eu sou a esposa”.
A minha esposa sempre me respeitou, eu tenho a fotografia dela sempre anda comigo, vivemos nove anos e morreu. ela dizia “eu tenho a minha casa , o meu marido deve estar a minha espera” e diziam-lhe “ o teu marido é um velho” e ela “mas é meu marido”.
Em uma entrevista contei uma história verídica: um senhor operário deixava de dar dinheiro a mulher para comida, ficava com o dinheiro e às segundas-feiras queria o almoço “não tem dinheiro”, era porrada para cima da mulher quando ele gastava o dinheiro todo.
Um dia, perguntei-lhe: o que se passa contigo, tu é que és o culpado. Não me disse nada. Dei uma volta e depois disse-lhe: tu tiveste a peça na mão e não a valorizas-te, não a quiseste, bati-as sempre na mulher. Até que um dia, eu proponho a ela ser minha namorada, eu tinha dezessete anos ,ela deixou o noivo porque queria casar, uma moça de vinte e três anos. Eu frequentava o Forte e trouxe-a cá, e quem escolheu a sério não foi ela, fui eu que escrevi, não foi ela. Depois de certo tempo disse-me “eu estou grávida”. Então, eu ia passando e não sei tão pouco quem foi que lhe disse e ele veio a passar e vem ter comigo ter comigo “Oh Sidónio tu engravidaste a minha mulher’” eu disse “quem, engravidei, a tua mulher?”. O caso foi parar ao padre, a missão, a polícia e ao Chefe do Posto:
– oh Sidónio vocês são casados
– não , aqui não há Sidónio.
Ele não sabia amar a ninguém , só sabia bater, mas, eu apareci, acariciei-a, acarinhei-a. Tivemos três filhos. Fiz coisas que ele não fazia, então quem é que é o culpado, qual mulher do outro? Qual mulher dele? A mulher que apanhava porrada? Eu fui lhe resgatar porque ele não sabia tratá-la. Disse-lhe “eu ofereci-te uma e você não sabe tratar”, eu entreguei e ela é que sabia da vida dela. Era um sujeito só de “copo e porrada”. Nós namoramos antes e ele não soube tratá-la, fui resgatá-la.
Outro episódio, eu frequentava o forte, vejo um casal (abraçado)aproximei-me:épa de onde és tu? Vim do Lubango, vieste fazer aqui o que, no Lubango não tem mulheres? Porrada em cima do gajo, ele apanhou o comboio em Sacomar, pode apanhar e eu disse à moça “Você só namora com alguém do bairro se ele for do Bairro Santa Rita ou da Cidade, de mais nenhum bairro, está a ouvir”, e ela “sim senhora!”
Pós Independência
Não foi Agostinho Neto que queria fazer um golpe de estado, não foi ele que foi atacar. Alguém me disse que a Rússia estava cansada porque Agostinho Neto queria mudar a política, para eles ficarem a governar o país, quando Nito Alves diz “nós só seremos independentes quando virmos o branco e o mulato a …”, lembram-se dessa frase? Ele disse isso em um comício. Nesta altura, eu estava no Cunene, porque quem formou o MPLA no Cunene fui eu, quem dirigiu e foi representar a delegação do MPLA no Cunene recebida pelo Camarada Lúcio Lara, fui eu.
Dois Guardiões do Namibe
Tenho um grande amigo, o Betuca (diminutivo do seu amigo Ildeberto Gaspar), conhece o Bituca? Hoje é o Dr. Ildeberto, Para mim é sempre o Betuca, conheci-o com oito anos e quando lhe chamo Sr. Doutor, ele diz “não quero”, nem ele e nem o falecido irmão.
E é meu parceiro, nós estamos a lutar pela mudança do nome de Moçâmedes para Mussungo Bitonto, nome de nosso antepassado, nós nos debatemos!
Quiseram ficar com a sede do Benfica, entregamos a sede!
Aquela saída, daquela travessa que vem da escola para cima e era para ser chamada de Rua 11 de Novembro e eu disse: Uma travessa desse gênero , chamar-se 11 de Novembro, a data que nós nos tornamos cidadãos angolanos, uma travessa dessas?Porque é que vocês não deram o nome ao jardim. E a Avenida a quem deram o nome Eduardo Mondlane porque é que não puseram o nome do Dr. Agostinho Neto? Falei sobre essa rua, aquela rua “11 de Novembro”. Esteve cá um membro do Bureau Político, o Dr. Matias que era o Coordenador do Conselho Social disse-me que disseram-lhe: vocês não entrevistem o Dr. Ildeberto e nem o Sidónio Gabriel”.
Bem, eu menti muito quando era criança, mas quando é para defender uma causa, nós defendemos uma causa! “Aquele esta armado em esperto”, eu nunca fui burro! Vamos defender, eu não sei que nome vão dar a cidade.
É lógico que eles quando chegaram não encontraram só servos, encontraram homens” são pretos, mas são pessoas”, em 1985 o nome era Tchandi Tchantadoa. Trezentos anos depois, passou a chamar-se Mussondo Bitoto, porque é que não aceitam Mussondo Bitoto quando há razões, se a cidade de Wacu Cungo tem um nomes tradicionais.
Negritude e Africanismo
Eu não sou a favor e nunca pensei ser, defender a negritude, mas o africanismo posso. Todos nós aqui nascemos na África, ele pode dizer “eu sou africano” (referindo-se ao seu parceiro Ildeberto); eu posso dizer que eu sou africano. Esses vem cá fora, com nomes de guerra, vem para governar, ou vem para mandar? Vamos defender, infelizmente hoje somos somente nós. Olhe, temos mais um aprendiz (Referindo-se ao activista social e sociólogo Frank Brazão[1]“fez um programa vip, tão giro, já viu? Já está a ser impulsionado. Nós aqui nessa terra somos assim “de braços abertos, mas não me belisquem, que eu não quero saber quem é, se vou preso, vou preso, se é porrada, é porrada”.
O Fundador da 1ª Célula do MPLA no Namibe, 19xx
Felizmente, estão ali os diplomas “o de herói nacional do segundo grau e o convite para assistir ao Terceiro Congresso como Representante dos Combatentes da Primeira Guerra de Libertação Nacional”. Sou Membro do Comitê Nacional da Associação dos Antigos Combatentes, sou representante, fui condecorado na Assembleia do Povo, tenho Menções Honrosas.
Outro dia fui homenageado pelos meus noventa anos, Sua Excia. o Senhor Governador Archer Mangueira e a esposa vieram saudar-me e fazerem uma oferta “eu tenciono uma coisinha, um dinheiro, não sei quanto é, e aqueles que já foram? É um dinheiro, eu pensei onde investir esse dinheiro, vou por a prazo naquele banco, naquele Banco Espírito Santo”.
A Solidariedade
Trabalhava aqui em casa uma jovem, por sinal até inocente, mestiça, estava a lamentar-se “a minha filha não sei onde ela para, só oiço dizer que está em Luanda, não sei se está em Benguela?” , “que idade é que ela tem?” “Tem catorze anos”. Quis Deus que ela aparecesse aqui, aquele corpo á bandida, vestia um calção curto, ela lhe disse aquele chinelo velho e ela disse-me “aquele chinelo velho foi uma amiga que emprestou, não tenho roupa”. Eu arranjei-lhe uns panos, se ela aparecer hoje a senhora não a reconheceria, está uma mulher, uma matulona, hoje se a vir é uma menina nova, já tem roupa, já tem calçado. É esta mãe, está viúva e está desempregada, está a lutar para educar os filhos. Falou com os familiares do falecido marido e ninguém deu uma esferográfica, apenas eu. E este amigo também (apontando para o seu amigo Betuca) também tem me ajudado quando eu não tenho nada para comer, ajuda-me. Estão a estudar, comprei umas sandálias porque eu sou daqueles que acreditam em Deus.
Quando a madre pedia:
- ah então o Senhor Sidónio aqui tão perto, não vai à missa?”
– não tenho tempo
– não tem tempo?
– não, não tenho tempo!
Ela olhou para mim, esta é a tua casa, é a minha casa e eu vivo aqui ao lado.
Eu vou deixar a minha cama, ligo a TPA “O Pai Nosso que está no céu e eu leio o evangelho, o livro 13”. Estou sozinho, concentrado porque se eu for a igreja, vejo a menina que está bem vestida, está bonita vou pecar por pensamento e obra, eu vou levar um pecado e sair de lá com mais pecados. Não faça isso, sou católico.
Por exemplo, conheço aquela igreja profética do Avô Enoch, já estive com ele, boa pessoa e lúcido. Eu não sei se a igreja faz milagres, mas eu vi o homem a entrar louco. Ele pegou a cruz, na bíblia e salpicou água e o homem saiu meigo como um dócil cãozinho. Mas, eles não querem descobrir, não descobrem, será que aquilo é só uma oração e mais nada? Mas eu vi fazerem aquilo, sou católico, respeito ao próximo como a nós mesmos.
Não sei se quer que eu diga mais, não vou dizer política porque eu não sou político, mas não sou contra os políticos, ser político por ocasião? Político de meia tigela, o suposto político ou o político por excelência? O político por excelência é um estadista. Agora, nesta idade eu sou político? Não tenho tempo.
Factos Marcantes
Aos dezasseis anos ganhava cerca de nove mil escudos, a minha mãe era lavadeira custeava os estudos do meu irmão. Quando minha mãe estava moribunda conversei com ela e disse-me “Sidónio eu sou a tua mãe e o meu marido é teu pai”.
Quando perdi a minha esposa , a miudinha que eu apanhei aos catorze anos e morreu aos vinte e nove anos de idade, marcou-me porque eu tirei-a da lama.
Outra que me marcou há uns anos atrás , foi a alguém que Deus pôs nesse mundo para sermos amigos (referindo-se ao parceiro Betuca) mesmo ele estando presente digo: conheci-o aos quatro anos este meu companheiro de luta.
Mas, quando eu digo que não tinha, não tinha mesmo nada. Apenas, tive uma oficina cujos rendimentos me permitiram comprar uma viatura e esta casa pela qual paguei cerca um milhão . Mas aí está, o nosso destino ninguém conhece, isto é a vida!
Outra, a melhor de todas, quer saber qual é? É a primeira vez que vejo a senhora e está a entrevistar-me, que Deus lhe abençoe. Foi o maior prêmio que a senhora me deu foi ter aparecido hoje, e está a fazer um grande trabalho, é uma forma de se escrever a história de Angola. Eu não sei porque ainda não escreveram, o que eles pensam? Eu nao sei se se lhe digo que “eles” valorizam mais o roubo e não sei se amanhã quando você escrever outro livro… também, eu ainda não disse nada sobre os gatunos gatunos, até a Presidente do Tribunal De Contas, alguém que foi Vice Presidente, o homem que foi Arquitecto da Paz Abriu as portas para a gatunagem. A senhora se eu a tratar por camarada não vai gostar? Vou.
Toponímia
Tenho pena , até mandei uma revista onde está o Mussundo Bitoto, em um envelope ao Governador para ele ver os primeiros nomes desta cidade. Não têm uma comissão, mas uma comissão de quê e para quê? Até Luanda não devia se chamar Luanda. Então, o que vocês estão a fazer? Luanda em língua nacional era chamada “omussumo Ohanda”, a expressão em português significa “estão a puxar a rede”, em kimbundu rede é Ohanda, deviam pôr o nome Ohanda, o nome africano. Angola em homenagem a N´Gola Kiluange devia chamar-se N´Gola mas chamasse Angola. E dizem que vamos descolonizar, descolonizar o quê, se o nome Angola se manteve. Nascemos aqui e isto devia chamar-se Mussondo Bitoto que é o nome que eles deixaram em 1785. Depois, chamou-se Baía dos Peixes, o Angra do Negro. Agora, Moçâmedes, mas porque é que nós não vamos africanizar as denominações? Sim, porquê?
Ildeberto Gaspar, o Betuca, intervém: A culpa também é da maneira como se dá a história do nosso país,não se dá a história o verdadeiro sentido daquilo que é, não se dá a ligação ao povo”. Faz-se a história daquilo que apenas interessa a parte superior da sociedade, nós temos de saber o que é Moçâmedes. Agora, a palavra vai para o Parlamento, porque teve que ir ao Parlamento, eu gostaria de ler as actas desta reunião e discussão para se ver quem é que sabia o significado da palavra Moçâmedes e se for perguntar ao Parlamento Angolano, não sabia, não conheciam o Mussundo Bitoto, porque eles têm de ir a história, conhecer a crítica histórica. Também, ninguém sabia a história do Banco da Paciência, sobre o Tchingui Tuko também ninguém sabe, ninguém sabia até certo momento quem era o Mandumbe, mas começaram a saber porque foram pessoas lá, pegaram na situação histórica e levaram à tona, levaram para cima.
Eu não sou político , eu sou revolucionário, eu sou assim, nós temos que ver as coisas conforme elas são, fazer a revolução, incutir na mente de muita gente porque ainda há muita gente para ser descolonizada, ainda me lembro de ontem “o mundo acabou”, hoje somos nós.
Mas, eu tenho a certeza absoluta que quando Angola for governada por uma mulher Angola vai mudar . Eu sempre disse isso porque a mulher quando o filho está a chorar, entrega ao seu pai e se não parar de chorar a mãe dá uma palmada e o choro acaba, deixa de chorar. Eu defendo a mulher, eu enalteço a mulher, não é por você estar presente.
Depois da independência o que mudou em Angola ?
O principal ganho da independência foi a cidadania, não é a bandeira e nem o hino é sermos angolanos.
Vamos engatinhando, uma vez disse ao Eng. Flora é gatinhando que se aprende a andar” e ele disse-me “não camarada Sidónio, só se aprende a andar, andando”. Infelizmente, hoje formaram uma elite e um grupo.
Mas lá em cima são eles que governam. Quer dizer, o panorama vem de cima a abaixo “se eu quiser tirar-te do cargo , eu tiro”. O poder do povo não foi feito para isso, eles sabem muito bem o que é o poder do povo. Nós estamos aqui e de repente eles aparecem ricos, a herança é do pai deles? Esta riqueza toda! Famílias cheias de dinheiro.
Conselhos às novas gerações
Hoje todos nós ganhamos uma reforma de miséria, enriqueceram porque apareceu muito dinheiro. Há uma elite que são os mandões e um grupo que são os ladrões. O nosso país lá fora é uma lástima, Angola é vista como um país de gatunos. Por isso, eu apelo a juventude que estão atirados no álcool, na droga. Que país é que teremos daqui a alguns anos? Se hoje, são ladrões, o que vai ser do país?
As moças hoje não têm pudor, não dão valor a sua virgindade, é o mais barato, para elas“ uma gravidez, duas…”.
Até quando vamos fazer isso? Não têm, mas quem é que faz isso e quem acaba com isto? São eles próprios…O que é que estamos a fazer, o que vamos fazer para o futuro?Quem futuramente vai mandar em Angola? Eles dizem: o vosso tempo já passou.
Quem futuramente vai mandar em Angola, onde estão eles, meia dúzia deles, onde estão eles?Nós também fomos jovens, mas não me lembro naquele tempo de tanta droga (se bebidas alcoólicas são droga), bebíamos mas íamos trabalhar, íamos a farra mas de segunda a sexta estamos a trabalhar “ninguém bebia, só ao fim de semana”. Hoje não, se deu uma volta por aí já está bêbado mas há bebida, ah eu nao tenho emprego?
E quem vai dar emprego? “ah não tenho tempo, ah, não há emprego”, e quantos somos? O Governo é que pode dar emprego a toda gente? Há desemprego nos Estados Unidos e na Inglaterra e como hoje é que nós vamos… Por exemplo, outro dia ouvi o Victor Hugo na RTP África a abordar este assunto em uma entrevista e depois dizem “os jornalistas não estão a fazer nada”.
No hospital D. Alexandre do Nascimento “já (brincam) com o coração” e são angolanos a fazer operações. Eu exijo, estudem!
O nosso país funciona assim “Ou levantam a saia ou dão dinheiro ”, até quando? Trata-se do futuro deles!
Íamos à Festa da Ilha, aos Coqueiros assistir ao jogo, íamos ao R-20 e saímos a pé para o quartel R- 20 a caminho da Vila Alice e não sentíamos que era mata, andávamos oe R-20 até ao Sambizanga e até ao Rangel. Saíamos a pé outra vez para o quartel, passando pelo cemitério novo (referindo-se ao Cemitério da Estrada de Catete).
Hoje, o trabalhador precisa de meio de transporte, dizendo “não tenho meio de transporte”, eu conheci um homem que vivia na Mancala e ia trabalhar na praia Amélia. Ele madrugava para chegar às sete horas ao serviço, largava e ia dormir em casa.
Mas, hoje já não é assim, já podemos e devemos arranjar melhor. Há autocarros com acentos em baquelite porque é mais barato, com aqueles saltos…
A valorização dos Reformados
Eles tem Lexus, quantos Lexus tem os deputados, dão-se ao luxo de ao fim de semana viajarem e são esses deputados que estão a debater as pensões dos antigos combatentes, actualmente são 23.750,00 KZ. O Dr. Boavida Neto propôs a actualização do valor da pensão avaliado em 180.000,00 KZ, mas eles acharam muito. Quer dizer, nós temos uma esmola de 23.750,00 Kz, a esmolinha que eles querem dar-nos. Quanto ganha um deputado?
Nós não queremos que eles nos agradeçam mas que reconheçam o que nós fizemos , tem que nos dar uma pensão que nos dignifique, nós não queremos receber esmola de ninguém porque o dinheiro é nosso, não é deles.
Quando há eleições, até os mucubais votam por via da impressão digital, o dinheiro não é deles, têm fortunas e fortunas, o dinheiro é nosso. E eu pergunto qual foi a nossa missão e como é que os mucubais sobrevivem? Em relação à agricultura, onde dormem os agricultores? Em cabanas de a pau a pique, forrada de folhas de bananeira, e um cobertor para cobrir a noite…Porque é que não se construiu casas econômicas, o mucubal vai viver na centralidade? Uma vez eu disse: já que não os consideram como angolanos, considerem-nos como seres humanos. Coitados, mas são coitados mesmo, nem casa de banho têm.
A Geração Antigos Combatentes, 10 Dezembro de 1956 a 24 de Abril de 1974
Por isso é que eu disse “a minha documentação está no Bureau Político. Na constituição dos Antigos Combatentes éramos 400 delegados, eu fui um desconhecido, mas recebi 222 votos e na segunda obtive 303 votos. E hoje já não haverá nenhum filho desta terra do Comité Nacional dos Antigos Combatentes, integrante dos combatentes do período 10 Dezembro de 1956 a 24 de Abril de 1974.
Então, apareceram outros e reclamámos: não pode ser, vocês são do 25 de Abril, nós a nossa organização integra os combatentes até 24 de Abril. Mesmo depois do terceiro mandato ainda encontramos gente que nunca fez nada, integrada nos Antigos Combatentes.
Alguém tentou me corromper “Eu dou-te seis meses da minha pensão”, daria acima de 120.000,00 kz, e muitos fizeram isso, até mesmo dirigentes receberam dinheiro, houve um que recebeu seis porcos, mas eu na minha consciência não aceitei, era a prática . Outro disse-me “eu que sou dono do MPLA, você não me quer na sua organização”, o MPLA tem dono? Eu não respondi, o MPLA tem dono? É um partido onde qualquer um pode entrar, desde que defenda os estatutos e os cumpra.
Outro, mandou a filha à oficina, para eu assinar o documento e eu disse “ o teu pai andou comigo? eu não sei o que o teu pai fez”.
Um dia, o falecido general (nome omitido), telefonou para mim “vem cá, vais apanhar uma reforma de general” e eu respondi-lhe “ eu sou da clandestinidade, nunca dei um tiro”, e ele “ aqueles que deram tiros andam por aí. Quer dizer, iria aparecer como general. Agora há prova de vida (nome?comandante? Zona?…) muitos desapareceram, não apareceram mais.
Concluíndo, esta Associação íntegra combatentes até 24 de Abril de 1974, os depois do 25 de Abril já não entram. Portanto, já há pouca gente, estamos a morrer, a associação acabará, agora se não há dinheiro para pagar as pessoas.
Este depoimento foi realizado na residência do senhor Sidónio Gabriel, no Namibe, no dia 19 de Maio de 2023.
Transcrito e editado por: Marinela Cerqueira
Palavras Chaves: Mussundo Bitoto| Sinedima| Cosmes|Prisão de São Nicolau ou Bentiaba| Antigos Combatentes| Célula Clandestina no Namibe| Torre do Tombwa| Petralhada|Negralhada
[1] 1 Consulte sobre Frank Brazão em: FRANCK BRAZÃO – MOÇÂMEDES NUNCA MAIS (Video Official)

