Durante a homenagem em Lisboa ao DJ Zeca Povinho e ao DJ e músico Mi Faria, no Espelho d’Água, Aguinaldo Vieira Dias prestou tributo a Zeca Povinho, juntamente com Maria Rufina Ramos da Cruz. O tio Guina, além da camaradagem, partilhava com Zeca Povinho a paixão pelo cancioneiro nacional.
Algum tempo depois, Gina Costa propôs a recolha das suas memórias, dada a sua profunda ligação à história da música angolana. O percurso de Aguinaldo revela-se relevante não apenas por ter crescido no Marçal, na Rua da Gajajeira, separada do mercado de São Paulo pela Avenida de São Paulo, mas também por se tratar de um dos bairros berço da música urbana nacional, ao lado do Operário e do Marçal.
Aguinaldo Vieira Dias pertence a uma família onde a música luandense do século XX parece ter o seu cordão umbilical: sobrinho de Liceu Vieira Dias, primo dos irmãos Rui e André Mingas, de Carlitos Vieira Dias, e dos irmãos Alba e Mário Clington. A ligação desta família a outros compositores, intérpretes e instrumentistas angolanos demonstra que a música está no génese dos Vieira Dias. Carlitos Vieira Dias afirmou: “Apesar de ter nascido no meio de uma família recheada de bons talentos musicais, com realce para os primos Rui e André Mingas, o baptismo nas lides musicais teve como suporte Aguinaldo Vieira Dias” (Jornal de Angola, 2022).
A HSA ainda não recolheu dados de forma sistemática; o presente trecho resulta de diálogos de sensibilização mantidos com Aguinaldo Vieira Dias e serve de motivação e amostra da importância de partilhar estas memórias com as gerações futuras, netos e bisnetos.
Período Colonial
Liceu Vieira Dias
Já quando foi da homenagem do centenário da prima Céu[1] um indivíduo que veio lá de fora disse que o tio Liceu nasceu no Congo, em 1919 Banana fazia parte de Angola, logo depois houve uma troca entre Portugal e os Congos e eles entregaram uma parte de Cabinda a Angola. Muita gente não sabe, não somos emigrantes, o meu avô nasceu em Luanda, a famílias do meu avô é feita de descendentes que vieram do Brasil, houve duas famílias que de escravos libertos e disseram que queriam voltar para a sua terra de origem e como estes descendentes tinham combatido pela Coroa portuguesa, deram-lhe passagens, eles vieram com as famílias e se estabeleceram aqui em Luanda,
Estou à procura de um livro que fala sobre o tio Liceu, conta a história dele, neste livro os nomes das pessoas estão trocados, diz que o meu avô nasceu no Congo, ele não nasceu no Congo. Eu tenho o artigo publicado no facebook, vou receber este livro. O meu avô quando foi trabalhar naquela parte do Congo pertencia a Angola, foi transferido como chefe de posto, não nasceu naquele local, muitos dos seus filhos nasceram naquela localidade. Li parte do artigo e o comentário foi “Quando Agostinho Neto chegou a Angola ele estava na cadeia e o Agostinho Neto escreveu este poema em sua honra”.
Expropriação de Terrenos a Famílias Angolanas
Aqueles terrenos do hospital Maria Pia eram da minha família, foram retalhados, foi uma doação da D. Maria II, Rainha de Portugal, o meu avô ficou com uma parte que é ali onde está o hotel Loanda, aquilo era terreno do meu avô, onde esta as Obras Públicas era o terreno do meu tio avô Mateus Vieira Dias que veio do Golungo Alto, ele mandou fazer aquele prédio , perdeu muita coisa, mandou vir os brancos daqui de Portugal para irem trabalhar para ele que depois moveram-lhe um processo e ele perdeu muita coisa e apenas ficou com algum dinheiro , algumas posses como uma fazenda que colocou em nome de uma esposa, quando morreu ainda tinha algum dinheiro. ele é que pagou o ramal do caminho de ferro da Beira ALta até a fazenda dele, na Beira Alta, as mercadorias da fazenda dele vinham desse comboio até Luanda para serem vendidas, a Beira Alta é uma povoação de onde sai o ramal para o Golungo Alto.
Escola do Golungo Alto
A primeira escola do Golungo Alto foi feita pelo meu tio avô na fazenda dele, conhecido como “Mateus Neto do Quitungo”, chegou ao Golungo alto e digo sou neto do Mateus Neto do Quitungo, aparece muita gente curiosa para conhecer os descendentes dele, sabem muito desta história.
Mateus Paquete Pereira dos Santos Van Dunem Neto, então era pai do Belarmino Van Dunem, conhecido como Mateus Neto e ele é natural de Luanda, foi para Maquela do Zombo como Chefe do Posto, é o avô do Aécio e todo gente sabe, dizem que ele é de lá, o Aécio nasceu em Maquela do Zombo. Os primeiros filhos do Belarmino nasceram lá, o Aécio e o Apolinário que a FNLA matou. o Mino já é cassule é filho de uma prima directa que é irmã do Belarmino Van Dunem, prima da mãe do Belo Van Duném, o Mino e a Muxima são irmãos da Tina, mulher casada do Belarmino Van Dunem, e têm mais uma irmã a Bicha.
O Velho Mateus e o velho Fernando Torres tem filhos que também nasceram em Caxito e eles tem netos que nasceram também próximo a Tomboco e a Maquela do Zombo, tinha um filho que foi para o serviço de Agricultura e Florestas e naquela altura não havia direcções, eram postos e ele foi chefiar este posto e quase todos os filhos dele também nasceram ali. E os filhos estão espalhados em várias províncias, muita gente não sabe, qualquer dia alguém vai dizer que eles nasceram lá ou o pai nasceu naquele lugar.
O Paiva citado no mesmo livro também era meu parente, já faleceu, fez parte dos grupos de estudantes que fugiram daqui e foram presos na Espanha ou França porque o embaixador americano teve que intervir porque eles queriam entregar os angolanos para Portugal, para não serem presos, iria o França Van- Dúnem e outros.
O Bairro dos Operários
Há muitas afirmações baseadas em suposições e em algum convívio, ainda há muitos indivíduos com 70 e 80 anos que viveram naquela altura e sabem melhor que os miúdos, mas eles não tem lata para ir ao muceque fazer recolha “mas esta gente não conhece ninguém, eles vão ao muceque fazer o quê?”
A Obra sobre ” B Ó” escrita por Jacques Arlindo dos Santos está incompleta, os escritores recolhem e depois escrevem, alguns podiam se ter inteirado. Na altura, ainda havia muita gente viva que sabia sobre o Bairro dos Operários, muita gente não sabe a definição , não é o bairro das vadias e das mulheres, era o bairro dos operários, onde moravam os operários, maioritariamente os do caminho do ferro, outros viviam no Sambizanga e aqueles operários mais importantes. No Bairro dos Operários moravam famílias importantes como os Buritis.
Havia a Bricon atrás do cemitério do Ato das cruzes onde trabalhou o Beto Van Dúnem, era mecânico de máquinas industriais, tirou o curso de máquinas industriais na Escola industrial, quando foi preso ainda trabalhava na Bricon muita gente não sabe e também nao pergunta, é preciso ir recolher, fazer muita recolha.
Empregos
(…) E fui falar com o gerente e disse ao engenheiro “Sr. Engenheiro eu não digo mais nada, quando voltar aqui é para ir embora” e o gajo pensou “o preto vai aonde?”, só que o preto tinha muitos conhecimentos. Um sábado fui ao Banco Nacional levar o meu currículo, já tinha dado entrada aos documentos. Eu comecei a trabalhar aos dezasseis anos de idade e aos dezoito anos já ganhava cinco mil escudos. E ele disse “este ganha 5.000 escudos?” Não tem necessidade!” Neste dia encontro-me com o velho Manuel Van Duném e quando lhe disse que eu não estava no quadro por ser negro, que o meu amigo branco tinha-me dito “tu Vieira Dias, tu por causa disso[2] não te safas”, quando contei isto ao velho, ele disse “vai abrir um lugar de escriturário e esse lugar é teu, podes ir para casa e não te chateies mais” e não passou muito tempo…
Os Grupos, as Turmas, os Conjuntos e os Centros Recreativos
As mulheres aparecem sempre mais tarde tentando se afirmar, nenhum conjunto ou trio de mulheres se afirmou, elas cantavam e até tocavam. Antes da Lourdes Van-Dúnem houve um grupo de mulheres mas não se afirmaram. Houve mulheres vocalistas a tocarem em grupos de homens, a Garda (Ludegarda) tocava e cantava no grupo de Dion e a Tina Santos também cantava, não a confundam com a Dina Santos, a Tina cantou com o Hernani Morais e com o Mário Clington antes de formarem o Fogo Negro.
O Fogo Negro e a Tina Santos
O Fogo Negro foi um conjunto feito pelo Oliveira Fontes Pereira que saiu no carnaval. Um conjunto de indivíduos,já eram assimilados, e seguiu o exemplo da Cidrália. A Cidrália era um conjunto feito por indivíduos que já eram da elite angolana e vieram dançar o carnaval, popularizou o carnaval porque saiu para rua para dançar o carnaval, O Lindo da Poupa, o Hernani de Morais, o Zé Cordeiro e outros foram para a rua dançar o carnaval, a Tina Santos também era do grupo e também foi dançar o carnaval na rua, era irmã da Dra. Victória que tem uma clínica na Maianga, da Victória que foi esposa do meu primo Rui Clington, elas tinham uma irmã chamada Benícia Espírito Santo. A Tina Santos cantava!Cantavam a música que nós cantávamos, em kimbundu, cantavam samba e boleros canções da nossa época.
Oliveira Fontes Pereira e seus Agrupamentos Musicais
Mas já havia grupos como os Assis, o primeiro grupo que aparece, se forma e resolve levar a música angolana a outros palcos foi o N`Gola Ritmos. Havia muitos músicos angolanos, o primeiro indivíduo da Rebita era o pai do Fontes Pereira que tinha um grupo chamado Elite, tocava harmônica e rebita, foi o primeiro funeral que por vontade dele o grupo saiu, a Rebita sai a cantar e as mulheres a dançarem rebita desde casa até ao cemitério, a harmônica sempre a tocar.
Abel Mona Dakota, Elite
Abel Mona Dakota, Elite
Não assisti, mas ouvi falar disso. Mais tarde comecei a saber e a descobrir, a saber as origens… Mesmo hoje as pessoas não falam, há muito pouca gente que sabe da história da música. Nós temos um defeito de querermos puxar tudo para nós, ninguém consegue falar do outro, a gente só quer puxar para si. Ninguém fala do Oliveira Fontes Pereira, a pouco tempo falei na rádio LAC em Angola e falei sobre ele, de um homem que formou quatro agrupamentos, o último foi o Gongo, Henda Xá Lá, um homem que foi preso pela PIDE por causa do valor que tinha e do que ele queria fazer, do seu valor musical. As musica “Zumbi Ya Papá” e o “Manuel, Manuelé” cantada pelo Bonga são do Oliveira Fontes, do Fogo Negro e muitas outras cançoes suas. Era compositor e na altura não cantava, ele só tocava reco-reco, os outros cantavam, mas ele era o compositor. Irmão de Euclides Fontes Pereira, é filho de Abel Fontes Pereira, o homem do grupo Elite, ninguém fala nisso. Se as pessoas estão realmente interessadas, tem que ir buscar, tem que procurar. Há muita gente que não fala…
N´Gola Ritmos
O Mário Rui fala muito sobre o N`Gola Ritmos, já aquela música do Lendário tio Liceu e o filme O Ritmo do N ́Gola Ritmo[3] prestou muitos depoimentos sobre o tio Liceu porque ele andava muito com o Carlitos Vieira Dias, andavam muito juntos, estudavam e tocavam juntos. Quase todos já morreram e alguns em vida hoje alegam e afirmam outros factos sobre a história deste agrupamento em geral e em particular de Liceu Vieira Dias.
Eles estiveram no Tarrafal, alguém abriu a boca e ia levar porrada e o Amadeu Amorim disse “não me provoca mais, não me provoca mais”, ele foi o último a sair, os outros saíram, mas ele não saiu, foi o último a falar….
Nós mandamos um disco para Cabo Verde, o Amadeu Amorim foi lá e disseram-lhe “continua porque estão no bom caminho”.
Nós naquela altura já fizemos músicas revolucionárias. Por exemplo, em Kimbundu Chimba significa “negro que prendia negros e batia” e a estrofe diz “chimba me apanhou e bateu”, era uma mensagem cantada em palco, mas estes gajos nunca souberam quando a gente tocava, o tio Liceu tinha esta premissa de cantar em kimbundu coisas….O embondeiro é símbolo da força africana, da resistência, nem a malta do colono sabia de símbolo retratado por uma árvore secular…
O Agrupamento Angola do Ritmo
Falando da minha experiência, andei ligado a música e conheci vários agrupamentos, eu vivi o tempo das Turmas. Ao lado da minha casa, por trás da minha casa havia uma casita onde as turmas tocavam até de manhã. As turmas eram um grupo de pessoas que tocavam com instrumentos rudimentares como batuques, reco reco e chocalhos, não havia tanta inclinação para tocar instrumentos. Eu cheguei a tocar nesse palco com Lindo Rodrigues, Carlitos Vieira Dias, o Octávio e outros, formamos um conjunto chamado Angola do Ritmo. A Tina Santos, o Almerindo, Joãozinho… Já existia o Negoleira do Ritmos, Joãozinho e o Almerindo, ficávamos a tocar, éramos miúdos. Com dez, onze anos tocamos no Cazumbi que era um espectáculo realizado no Parque Heróis de Chaves, um jardim infantil que tinha alguns animais onde realizavam este espectáculo semanal para crianças e feito por crianças.
As Salas de Espectáculo para Angolanos
Em Luanda havia pequenos espectáculos. O Luís Monteiro já fazia espectáculos, eu era pequenino tinha dez anos, ele já organiza angolanos, somente com artistas angolanos, no local onde nasceu o Desportivo União de São Paulo. Cantavam nas salas de espectáculo, uma era naquele prédio ao lado da Maianga, e outra ao lado da Minerva (onde depois mudou-se mais tarde para outro sitio. Os centros recreativos aparecem mais tarde, mas havia clubes que davam espetáculos, o Maxinde e o Ginásio, a Escaraquenha…
Tributo a Zé Povinho
Conheci o Zé Povinho mais tarde quando participei em um conjunto já numa parte mais evoluída o Zé Povinho era conhecido como o maior discotecário de Angola, pelo menos em Luanda era essa fama que tinha. E quando nós fossemos tocar, tínhamos 12-13 anos, quando éramos estudantes, naquele tempo não se vivia da música, punha a sua música por paixão e fazia dançar todo mundo.
Este depoimento foi realizado em Oeiras, no verão 2024.
Entrevista e Transcrição: Marinela Cerqueira
Palavras Chaves: As Turmas| Conjuntos|Agrupamentos Musicais|O FogoNegro|Liceu Vieira Dias|Zeca Povinho|
[1] Prima Céu é mãe dos falecidos José Van-Dúnem e João e de Francisca Van-Dunem.
[2] Apontado para o seu pulso e mostrando o tom da pele.
[3] O Ritmo do NGola Ritmos https://www.google.com/search?q=O+Ritmo+do+NGola+Ritmos&sca_esv=77c715e5b86334cd&sxsrf=AE3TifO3hGIH6SDUSjZPpm-DkCsj5r39_g%3A1760150658193&ei=gsTpaJLSC5zUkdUPib3YqA0&ved=0ahUKEwiSm-6VkJuQAxUcaqQEHYkeFtUQ4dUDCBA&uact=5&oq=O+Ritmo+do+NGola+Ritmos&gs_lp=Egxnd3Mtd2l6LXNlcnAiF08gUml0bW8gZG8gTkdvbGEgUml0bW9zMgYQABgWGB4yBRAAGO8FMgUQABjvBTIFEAAY7wUyBRAAGO8FSMCqAVCZUVjopgFwA3gAkAEHmAGOCaAB9VaqAQ8yLjYuNS40LjMuMy4xLjO4AQPIAQD4AQGYAhOgArg0qAIUwgIKEAAYsAMY1gQYR8ICBBAjGCfCAggQABiABBiiBMICBxAjGCcY6gLCAgcQLhgnGOoCwgIQEC4YAxi0AhjqAhiPAdgBAcICEBAAGAMYtAIY6gIYjwHYAQHCAgoQIxiABBgnGIoFwgIQEC4YgAQYxwEYJxiKBRivAcICBBAAGAPCAgUQABiABMICDhAAGIAEGLEDGIMBGIoFwgIKEAAYgAQYQxiKBcICERAuGIAEGLEDGMcBGI4FGK8BwgINEAAYgAQYsQMYigUYCsICCxAAGIAEGLEDGIMBwgIKEC4YgAQYQxiKBcICDhAuGIAEGMcBGI4FGK8BwgIIEC4YgAQY1ALCAgUQLhiABMICFBAuGIAEGJcFGNwEGN4EGOAE2AEBmAML8QWb8zF71vzy2IgGAZAGBroGBggBEAEYCpIHDTQuMi40LjIuMi4zLjKgB8H-AbIHDTEuMi40LjIuMi4zLjK4B6I0wgcIMC40LjE0LjHIB1U&sclient=gws-wiz-serp#fpstate=ive&vld=cid:071fefb9,vid:ifI9Zv34RtE,st:0

