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Memórias de um Estudante Americano no Lar de Acção Missionária e Educacional de Lisboa

A história de vida de Johnny Foreid apresenta a particularidade de ser o único filho de missionários americanos a residir no Lar da Liga Evangélica de Acção Missionária e Educacional. Nascido em Lisboa por razões políticas, num contexto em que o salazarismo combatia a expansão do cristianismo anglo-saxónico nas colónias, viu os seus pais impedidos de obter visto de entrada. Por essa razão, os missionários Foreid não cumpriram a missão prevista em Moçambique e, em vez de regressarem aos Estados Unidos, permaneceram em Portugal ao longo de toda a vida.

Apaixonou-se por uma residente angolana, e dessa relação nasceu a família que constituiu com a esposa, Edite Foreid, descendente de famílias pertencentes à elite metodista.

Descreve a forte solidariedade existente entre metodistas e o relacionamento próximo entre estes e os missionários, realidade determinante na orientação da sua vida. Revela pormenores sobre a atribuição de bolsas de estudo a alguns dos primeiros angolanos a frequentar universidades do império colonial, um dado relevante para contextualizar o início do processo de formação de quadros angolanos que esteve na base da criação deste Lugar e Sítio de Memória. Neste espaço concentram-se memórias materiais e imateriais que testemunham a estratégia do Concílio das Igrejas no apoio à Luta de Libertação. Refere, a título de exemplo, a bolsa de estudo atribuída a Agostinho Neto, cedida pelo esposo da sua prima Josefa, por sua vez oferecida pelo amigo Bispo Dodge.

Aborda ainda as relações sociais entre estudantes, entre estes e os missionários, e sublinha a importância deste lugar e sítio de memória, localizado em Portugal, mas central para a história do protestantismo em Portugal, em Angola e na formação de quadros e lideranças dos PALOP. É neste enquadramento que o Dr. Foreid aceita revisitar a sua infância, juventude e percurso universitário, revelando igualmente o envolvimento dos residentes do Lar 122 no movimento estudantil associado ao 25 de Abril.

Pela primeira vez, vivenciámos a experiência de recolher memórias que se complementam não apenas pela vivência social — religião e universidade — mas também pela união conjugal. Foi durante a recolha de dados da esposa que o Dr. Johnny assistiu em silêncio, com gestos que revelavam profundo conhecimento do Lar, permitindo-nos perceber a forte camaradagem que ali se construiu.

Infância

Aliás, quando eu nasci eles mudaram-se da zona de Lisboa e foram para o Alentejo, para Beja, foi aí onde passei a minha infância, tenho uma costela alentejana e nessa altura.  Houve outros que chegaram a ir, mas na altura o Governo de Salazar não autorizou a ida dos meus pais para Moçambique. Como  eles sabiam a língua acabaram  por ficar em Portugal, trabalhavam na zona  de Lisboa  e fundaram muitas igrejas em Portugal.

A Bolsa de Estudo de António Agostinho Neto

Entretanto, o que acontecia, os meus pais eram muito amigos  do casal Dodge que tinham trabalhado e vivido muitos anos em Luanda, eram amigos íntimos desse casal missionário em Angola da igreja metodista.

Justamente, o Bispo Dodge ofereceu uma bolsa para o pai da Eunice  cursar medicina, ou seja, ofereceu uma bolsa de estudo para  que pudesse tirar o curso de medicina, possivelmente em Portugal. 

O pai dela ficou extremamente agradecido e como sinal de agradecimento em uma das visitas do bispo Dodge convidou-o a jantar em casa,    foi um jantar, a Eunice pode descrever, com  muita cerimônia, com pessoas a servir, foi uma coisa de grande elegância para retribuição a bolsa que tinha sido oferecida pela Igreja Metodista, mas por acção deste Bispo. Entretanto, ele já tinha família, teria  pensado melhor e oferecido a bolsa a Agostinho Neto. Portanto, Agostinho Neto tirou a medicina pela desistência do meu sogro. Mas mais interessante ainda,   Eunice é o nome da esposa do Bispo Dodge, deram-lhe o mesmo nome por  agradecimento e  honra por este facto. E  eu só soube disso a pouco tempo,  há três meses, nunca me tinha contado essa história da  oferta da bolsa a Agostinho Neto,  contou-me em Junho.

Então, Os meus pais que nunca estiveram em África, conheciam um casal que viria a ter um impacto no  nome da Eunice que mais tarde viria a ser a minha e esposa, este cruzamento não deixa de ser curioso.

A Família Americana residente em Beja

Éramos os únicos americanos a residir na cidade, isso era interessante porque  a polícia nessa altura não falava inglês e nem francês e o meu pai muitas vezes tinha de ir a policia ajudar com as traduções de acidentes envolvendo  estrangeiros.  E  uma vez  teve de ajudar um afro americano que atropelou um ciclistas  a um quilômetro antes de Beja. Havia uma grande confusão com a família porque  queria receber dinheiro e  acusar o homem de ter morto o ciclista.  E o meu pai  teve de ir a polícia, traduzir e acalmá-lo porque  o senhor não dizia falar uma palavra em  portugues. o meu pai convidou-o a ficar em nossa casa, nunca o tinha visto na vida, mas convidou-o a ficar em nossa casa,  sítio onde ficou a dormir e a  comer, esteve uma semana inteira em nossa, recolheu-o em nossa.  Entretanto, a família  teve de dar algum dinheiro a família por compensar o que tinha acontecido, o carro foi arranjado.

Apenas para dizer que naquele tempo se faziam coisas que  hoje seria impossível, portanto  era uma cidade muito pequena.

O Ambiente do Lar 122

A primeira vez que eu vou para o Lar 122, vou conviver com pessoas completamente diferentes de onde eu tinha crescido.  não só diferentes por serem de cores diferentes, uns mais escuros outros mais claros,  uns mais branco, mas  ter  algo em comum: serem todos jovens e serem todos estudantes, não estudam todos a mesma coisa e exactamente por não estudarem todos a mesma coisa, tornava  o ambiente extremamente rico.

Quando nos sentávamos numa mesa, com quinze, dezasseis alunos, de várias faculdades, as conversas eram interessantes, não só pelas idades, as coisas fervilhavam, também porque   estávamos numa natura que o mundo estava  a mudar de forma intensa, mas porque  as músicas que havia era a do beatles e havia uma energia muito grande entre nós.

Continuamos a comer e depois do almoço ficamos na entrada, havia um enorme salão, era a mesa  muito comprida e o salão quase o dobro deste e de onde estava  o piano e geralmente as conversas iam parar  além  do café e estendiam-se depois era preciso irmos às aulas e estudar.

Era um ambiente extremamente rico, muito variado,  com experiências de alunos vindos  de Moçambique e  Angola.  Mas não somente, era também um local onde muitas vezes vinham pessoas de passavam   por períodos curtos ou pessoas que contactaram o 122 que também eram jovens conhecidos e conheciam  jovens que lá viviam e  iam nos visitar. Portanto, era um lar muito aberto, e isso enriquecia.  por vezes  também iam ao lar pessoas ligadas à música e faziam um pequeno concerto

Mas talvez, o período  mais notável,  de a maior riqueza que eu possa me lembrar na minha vida, das coisas … : todos os dias alguma coisa nova poderia aparecer.  Havia rotinas, mas  quer dizer as rotinas alteravam-se muito,  quer dizer não havia espaço para tédio, era de uma  riqueza muito grande, era muita criatividade.

Depois, havia bastante liberdade, nós saímos, às vezes íamos aos cinemas, a muitos lugares, também  participamos na igreja, quer dizer havia muita liberdade e isso era muito interessante.

O lar tinha um jardim na parte  posterior, e muitas vezes esse jardim  era ocupado pelos alunos, era aí onde tomávamos o café. Foi mesmo inebriante!

Refere-se à liberdade dos estudantes no lar?

Sim, bastante livre.

O 25 de Abril e a Independência dos PALOPs

Isso estava na ordem do dia,  eu entrei no Lar em 1969 e  entrei na faculdade antes do 25 de Abril e tudo isso já fervilhava.   Era um ponto de base, estava na “crista da onda”, porque  a luta armada já tinha iniciado e isso  tinha despertado  consciência  e essa consciência despertada era nos estudantes universitários.   Não só a luta estudantil  se fazia em Portugal, lembro-me que estava no primeiro ano de medicina e  as aulas nunca começavam em Outubro.  Havia reuniões da  RGA (Reuniões Gerais dos Alunos) que ligavam as universidades de Lisboa, Coimbra e Porto e portanto havia um clima pré 25 de Abril muito forte.

Lembro-me do  Santa  Maria,  eu frequentava este hospital, lembro-me da Sita Valles, era minha colega, irmã do Valles.  E lembro-me dela a falar na sala de alunos onde nos reunimos,   assim como me lembro da intervenção da polícia muitas vezes.  Uma vez,  entrou pelo hospital  e estávamos numa reunião da Faculdade de Direito, por acaso também estava a Eunice,   Reunião Geral de Alunos (RGA)  em frente a Faculdade de Direito,  em Entrecampos,  e tivemos de fugir da polícia, sempre a correr e   entrar pelo Pio XII, uma residência de estudante que ainda existe ali em Entrecampos, quando se sobe aquela avenida que vai  até ao Santa Maria, a direita e ali está o Pio XII  e tivemos de ficar lá uma horas até a situação acalmar.

Ou seja, o clima pré 25 de Abril foi muito forte, abrangia os estudantes, o campo da música e unia muito as pessoas.  Portanto, não eram só os estudantes angolanos ou moçambicanos.  Era muito alargada e  unia  praticamente todos, era muito forte. 

O jantar de domingo geralmente era muito giro. Eunice intervém e recorda: aprendemos a fazer  muslims, foi nos ensinado pelo Marc, um missionário suíço que nos ajudava a fazer muslims com leite, iogurte e fruta.  Havia uma outra missionária, a Andreia,  do Philippe Albert era um piloto que vinha a Portugal e depois ia a Figueira da Foz. Ainda hoje fizemos cá em casa o muslin que não conhecíamos.

Lembro-me de haver três, livros para fazer a cadeira de anatomia  e de ver a assinatura de Liahuca, quando eu fui para lá ele já tinha saído, um livro base e o volume era muito mais complicado pelos livros que eu estudei, eu estudei nos chamados livros “Blue…”, esses livros eram três calhamaços e lembro-me da assinatura de Liahuca. Eu fui para lá ele já tinha saído.

Colaboração na Luta pela Independência  de Angola

Ambos trabalhamos na delegação do MPLA em Estocolmo, eu a minha mulher e uma cunhada fomos colaboradores, o primeiro representante foi o Dr. António Alberto Neto.

Este depoimento foi realizado em Santo António dos Cavaleiros, em Lisboa.

Entrevista e transcrição: Marinela Cerqueira

Palavras Chaves: Lar de Acção Missionária e Educacional|  Missionário Dodge| Agostinho Neto|