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Um Estudante Universitário da Operação Angola, António Santos Pinto

 Levámos dois anos a tomar a decisão de contactar António Santos Pinto, veterano da Operação Angola e residente na Suíça. A panafricanista Elisa da Costa insistiu várias vezes que se tratava de uma excelente oportunidade para a HSA integrar na sua base de dados a memória da Operação Angola e da diáspora na Suíça.

Na Primavera de 2025, o depoente propôs a participação da entrevistadora na festa anual dos Estudantes da Escola Industrial de Luanda, da qual é anfitrião, por ser o estudante mais velho. Concedeu esta primeira entrevista com o compromisso de continuidade.

A segunda entrevista é de carácter colectivo, constituindo o quarto caso de recolha de dados junto de um casal, sendo ambas complementares. A inclusão dos cônjuges tem-se revelado motivadora e colaborativa, sobretudo na partilha e validação das memórias.

Introdução

Chamo-me António dos Santos Pinto, o meu nome precisa de ser corrigido nos arquivos do Museu de Aljube, em Angola, sou conhecido por Santos. 

Eu sou angolano, pertenço a família Van Dunem e Dias dos Santos Pinto,  os meus bisavós tinham estes sobrenomes. Quando o meu pai foi baptizado por um portugues que  não aceitou este sobrenome  por ser um sobrenome de origem holandesa, uns continuaram a ser chamados Van Dunem e os descendentes do meu pai, Carlos Dias dos Santos Pinto, passamos a ter o apelido Santos Pinto.

Factos Marcantes

Alfabetização em Luanda, anos 50

Nos tempos de estudante em Angola  até Dezembro de 1960 a minha missão era mais ajudar as pessoas que não tivessem a possibilidade de ir para escola ou não eram admitidas na escola eu ajudava-as. Eu era chefe do escotismo da Igreja de São Paulo, era praticamente a igreja das pessoas dos musseques e a Igreja do Carmo para as pessoas residentes na baixa (centro da cidade). Os frequentadores da Igreja do Carmo eram considerados “mais cidadãos”. Eu fiquei na Igreja de São Paulo, onde acabei os meus estudos primários. Essa era a minha missão, o que eu queria era que todas as pessoas que não tivessem possibilidades de estudar avançassem. O Governo portugues impedia  os pretos e de maneira só com muita dificuldade podíamos ir para o Liceu ou com muito dinheiro. 

A Clandestinidade

Em Angola eu tinha um grupo político, formava as pessoas no sentido de compreenderem a situação em Angola. Eu tinha três grupos em três bairros, indegena,  Sambizanga e operário. Contactava a pessoa indicada em cada bairro, reunimos os três eles depois conversavam com as pessoas no seu bairro. E nenhum de nós de um bairro tinha o direito de ir saber quem são as outras pessoas, para não haver muita pesquisa da PIDE e evitar outras situações. até o escritor protugues menciona isso.

Bolsa de Estudo em Portugal, Dez 1960

O Governo Português dava cinco bolsas para Angola, três para estudantes do Liceu, uma para um estudante da Escola Comercial e uma para um estudante da Escola Industrial. E eu em principio como era o primeiro aluno da minha classe eu tinha o direit oa essa bolsa. mas, com oviramque eu era negro prefiriram dar essa bolsa a um estudante branco. e entao com muitadificuldade Dom Moises Alves de Pinho e outros padres fizeram de tudo para que eu conseguisse uma outra bolsa através do Instituto de Assistencia Social de Angola- IASA. Então, eles conseguiram uma bolsa que era quase metade da bolsa do governo português.

Também tive muitas dificuldades porque naquela altura o funcionário das finanças não me quiz dar o bilhete e eu tive muita dificuldade. Com a pressão da igreja conseguiu o bilhete de passagem de barco, só me foi dada em Dezembro de 1960, as aulas já tinham começado em Outubro eu tive de recuperar toda essa matéria.

Início da Luta de Libertação Nacional e a Fuga para o Exílio, Suíça Julho 1961

Eu estudei no Porto porque a Escola Técnica do Porto era mais forte. Depois, a vida no Porto era mais econômica e um colega disse-me que ia fugir e convidou-me. Porque eu tive a possibilidade de ir para lá. Haviam outros estudantes angolanos no Porto, um deles  morreu e dois ainda estão na Suíça.

Em 4 de Fevereiro de 1961 começou a guerra em Angola, nós não podíamos estudar e andar juntos na rua. A PIDE ia às nossas casas para estudar tínhamos de ir  um restaurante havia muitas dificuldades, era assim que eles pensavam, diziam que nós estávamos metidos na luta armada. E nós dizíamos que não, estávamos aqui em Portugal a estudar, eles passavam o tempo a perseguir-nos.

Pós Independência

11 de Novembro de 1975

Houve uma festa muito grande, estava na Suíça. Depois de 11 de Novembro eu conversando com a Bernadete decidimos ir para Angola. Como os portugueses saíram de Angola havia falta de técnicos para as infraestruturas . Verifiquei as necessidades que Angola tinha, vendi tudo que tínhamos na Suíça e trouxemos coisas em caixas para irmos para a Angola. o Mande tinha dois anos e a pequenita vieram connosco. Levamos dois carros, despachei o velho carro a pedido dos parentes em Angola, fui até a Holanda para despachar essa viatura. Levamos todos os bens que tínhamos. Eu fui o primeiro, a Bernardete chegou a 20 de maio de 1977.

Factos Marcantes

27 de Maio, 1977

Uma semana depois rebentou o 27 de maio, foi uma confusão terrível. A mãe dela a acompanhou e tiveram muitos problemas.

Agostinho Neto depois da independência foi à Suíça conversar com os quadros para poderem ajudar. A mim disse-me “seria bom se viesse”. Ao lado de Agostinho Neto estava o Ministro David Aires Machado, mais conhecido por Minerva. uns meses depois voltou e disse-me “Agostinho Neto está mesmo à tua espera”. No 27 de Maio mataram o Aires Machado. Era uma confusão “eu não sabia onde estava”.

As potências internacionais faziam tudo para que houvesse grande divisão, uns ajudavam o MPLA, outros a UNITA e outros ainda a FNLA, houve muita confusão depois da independência e essa confusão hoje ainda continua entre o MPLA e a UNITA,  a FNLA desapareceu.

Mas essa confusão, foi praticamente a população  descontrolada, ao invés de controlarem a população para que o país funcionasse , não foi isso que aconteceu.

Depois dessa confusão do 27 de maio voltamos para a Suíça e deixamos tudo. felizmente, o meu bom contato com as empresas permitiu retomar o meu trabalho.

O 27 de maio e a confusão entre esses dois partidos estragou tudo. Esses dois partidos estão a estragar Angola nesse sentido, ao invés de se unirem, terem uma reconciliação efectiva.

Há uma classe superior que tem tudo e há a classe inferior que não tem nada, entre as duas não existe nada. Como é possível comprar camelos para Angola ao invés de ajudar os pobres com aquele dinheiro. Eu não compreendo.

No ano passado fomos a Angola, fomos despedir Angola, com essa idade não sabemos quando é a última vez. Foi bom ver os familiares, mas ver o povo que não tem o que comer, ir ao lixo buscar comida, em um país como Angola não se compreende.

Conselhos às Novas Gerações

Os países africanos, sobretudo os angolanos e moçambicanos, quando encontramos uma pessoa amiga saudamo-nos e há certas pessoas angolanas a dizer que não podem dar um beijinho a um preto, isso já se dizia, com aquela professora que gostava de mim só me dava um beijinho quando não estivesse ninguém, e essa mentalidade continua é com se fosse o efeito de uma vacina, ainda activo.

O único país dos PALOPs  que está bem malgrado  a  sua pobreza é Cabo Verde. Podem discutir mas são unidos. Quando vamos a Cabo Verde é maravilhoso.

Uma vez o Presidente Pedro Pires organizou uma festa em Cabo Verde para  festejar a independência das colónias portuguesas, convidou todos colegas, ele também fez parte da Fuga dos 100. Fomos ao palco presidencial, ficamos à espera do Presidente, ele entrou e sentou-se. Chegou a altura de cumprimentar o Presidente, ele levantou-se e veio cumprimentar as pessoas, diferente!

Outra vez, estava em Angola e decidi passar por Cabo Verde, telefonei à Primeira Dama e ela disse-me que o marido faria anos dentro de alguns dias , eu disse que não podia e ele sugeriu que a Bernardete viesse ao seu aniversário. Estávamos na Ilha Da Praia. A Bernardete pensou ser necessário comprar um vestido especial, o presidente estava vestido de jeans. Estivemos em um condomínio e veio buscar-me para irmos tomar banho a uma piscina. Eu pensava sentar-me à frente e o Presidente sentar-se com as duas senhoras, ele denegou, sentou-se à frente, era eu a visita. É impossível em Angola haver políticos assim tão simples.

Em Cabo Verde há pobres mas os ricos ajudam os pobres. 

Agora, em Angola é uma dor ver uma criança andar catorze quilômetros  para ir à escola. Porque é que o governo não dispõe de autocarros para levar  as crianças à escola. Essa criança depois de andar catorze quilômetros, cansada, não vai aprender quase nada e outros catorze quilômetros de regresso, é triste.

Este é o grande desafio, é praticamente a arma que mata as pessoas, é a falta de educação. Na DIAMANG[1] não havia escola para assimilados e a escola para os indígenas tinham como objectivo principal aprenderem protugues e deixarem de falar a sua própria língua. A escola não ensinava nada, era simplesmente para os indígenas compreenderem o que o patrão dizia ou outros senhores.

Este depoimento foi realizado em Lisboa, em Maio de 2025.

Entrevista e Transcrição: Marinela Cerqueira

Revisão: Judite Luvumba

Palavras Chaves:DIAMANG|Presidente Pedro Pires|Dom Moi´ses Alves de Pinho|Igreja do Carmo|Bolsas de Estudo|Clandestinidade


[1]  Nos anos 1950, a Diamang (Companhia de Diamantes de Angola) era a maior empresa colonial e um dos maiores produtores de diamantes do mundo, com sede na província de Lunda, em Angola. A empresa ocupava uma área considerável, equivalente a quase um terço da superfície de Portugal Continental, e governava uma população de 80.000 pessoas.