A recolha da memória de Monsenhor Inácio Francisco Manuel Gonçalves, conhecido como “Ingo”, surgiu por indicação da avó Neneca (Loló), que nos relatou a sua origem, sendo filha única da mãe e criada por uma escrava. Sempre que um depoente aborda a escravatura, torna-se imperioso registar estas memórias sobre este modo de produção e o genocídio de africanos.
Encontramo-lo na residência das freiras da Paróquia de Santa Bárbara, em Luanda. Sentado na sua cadeira, com o televisor ligado e a ventoinha desligada, recebeu-nos cordialmente. A entrevista iniciou espontaneamente, ao som dos pássaros, enquanto a TV não perturbava a viagem à ancestralidade.
O sacerdote abordou a escravatura em Angola, afirmando que “ter sido escravo, tal como os seus pais e antepassados”. Destacou tratar-se de um sistema social humano, com características próprias em cada região, país ou continente, enfatizando a importância da linhagem familiar para compreender a escravatura pré-colonial.
O diálogo entre entrevistador e entrevistado, ambos angolanos, foi fluido; o sacerdote tratava a entrevistadora por “mana”, e a conversa refletia a interação entre duas gerações, explorando diferenças entre a escravatura pré-colonial, colonial e “as nossas escravaturas”. A transcrição manteve a espontaneidade do áudio, sem ordenação ou subtítulos, reproduzindo a entoação característica do entrevistado.
O depoimento não foi concluído devido à debilidade física do sacerdote, mas publicamos excertos que ilustram o pensamento de Monsenhor Inácio Francisco Manuel Gonçalves em 2024.
INFÂNCIA
Eu devo dizer que fui uma pessoa privilegiada nas mãos de Deus. Os meus pais nasceram no Dando, mas suas origens são do Cuanza Sul onde estão seus parentes. Se eu quiser saber o que foi a escravatura eu tenho de contactar com gente do Cuanza Sul, onde há ainda muitos que tiveram a sorte dos seus parentes passarem-lhes o testemunho sobre estas e outras questões.
A minha mãe é Caxinji, descendência quioca, meu pai tem ramos de mandongus do Cuanza Sul. E quando falavam, eu não sei, mas, geralmente, insistiam mais na parte materna, o que eles estudavam na parte materna, as tias da parte materna e as outras tias da parte paterna. Estes são os dados que eu colhi dos meus antepassados, um critério para poder julgar o passado.
QUANDO NASCEU EM 1940 AINDA EXISTIA ESCRAVATURA?
Existia, mas eu comecei a ter conhecimento dessas coisas muito tarde, pois saí da minha família quando tinha sete anos. A minha família estava na miséria e nós, filhos, tínhamos de ir …, ultimamente, os mandongus viam como é que os outros brancos europeus lhes eram superiores e foram imitando. As nossas famílias, essas que são mandongus, imitaram muita coisa da parte ocidental, e a parte ocidental também melhorou pela graça do Cristianismo. O resto fui ouvindo já homem de bigode e de barba, à medida que nós nos formamos. Os nossos professores não eram delicados nesse sentido, cada um de nós é que tinha de colocar a si próprio esse problema, escutando aqui, escutando ali e idealizando, eu não passei por esse crivo. Fui escravo dos portugueses, meus pais, meus avós, e meus antepassados.
DIMENSÕES DA ESCRAVATURA EM ANGOLA
Fomos aprendendo a consultar pessoas mais velhas, porque a sociedade angolana de hoje depende em muito da sociedade angolana do passado. O que gravei de experiência foi que todos os povos tiveram escravos, todos, não há exceção dos europeus e dos outros. E à medida que a personalidade humana se foi autoconhecendo, e através dos estudos, com recurso a várias ciências, foram recolhendo experiências de várias sociedades, daqui e de acolá, e a sociedade foi-se recompondo.
ENTÃO, HÁ QUE DISTINGUIR A ESCRAVATURA. COMO É QUE FOI A NOSSA ESCRAVATURA ANTES DO COLONIALISMO?
Mas, para podermos ter esses dados, temos de conversar com os velhotes, os que tiveram esta experiência estão quase a morrer.
Agora, está a criar-se uma mentalidade semelhante à europeia e nesta semelhança há divisões ideológicas.
Nós nascemos sob a bandeira de Portugal e é bom ler o que os portugueses escreveram acerca da escravatura angolana. Porém, só ler não basta, é preciso consultar também os nossos mais velhos. Alguns sabem falar o português, esses é que nos podem dizer a origem da escravatura em Angola ou da escravatura em África. Eu, dos meus pais ou de pessoas mais velhas a quem perguntei, só consegui gravar essa ideia “a escravatura é um facto universal, é humana’’.
Detestamos a escravatura que os portugueses impuseram aos angolanos, aos moçambicanos, aos indianos, etc. Mas nós próprios também tínhamos a nossa escravatura e também tinha vários níveis. Que eu me lembro, a escravatura no nosso tempo recaía sobretudo àqueles meninos que eram desobedientes às orientações dos pais.
Que eu me lembro, antigamente, para haver casamento, não eram os rapazes que iam escolher “eu quero aquela’’. Trata-se de uma questão patrimonial dos tios e das tias “aquela casa é boa porque….”. Porque conheciam os antecedentes das respectivas famílias, é assim que os casamentos de antigamente tinham a circunstância de serem duradouros. Depois, veio a religião cristã com a transformação que Nosso Senhor Jesus Cristo trouxe, como diria eu: a imagem e semelhança do homem com Deus, seres livres, seres independentes e através desta nomenclatura é que as sociedades coloniais se foram formando.
Mas, para fazer este escrito, não pode haver suposição, convém procurar velhotes para descreverem como é que era a escravatura em África. Agora, o que os portugueses e franceses escreveram também nos ajuda porque há alguns que nas suas escritas foram autênticos. Revelaram o que os velhos disseram, mas há outros que depois fazem as suas manipulações, segundo os seus costumes.
Então, pelos estudos feitos de Antropologia, até cerca do sétimo ano de Filosofia e de Teologia, não tive esta oportunidade de estudar e ver a realidade da escravatura, como era antigamente, apenas fiquei com estas imagens.
E também não nos adianta fazer a socialização ou dierna sem ter em conta o que nós fomos antigamente, todos tivemos escravos, quem conseguiu fazer, fez a escravatura, e as coisas foram mudando à medida que a sociedade foi evoluindo, até chegarmos aos nossos dias. Nós agora temos o regime capitalista e tivemos o comunista nos nossos tempos de estudo de estudos. O Capitalismo e o Comunismo fizeram uma espécie de cruzamento e já não estamos a ver “bem-bem” o Capitalismo e nem “bem-bem” o Comunismo. Aquilo que captamos é que em relação a nós africanos foram assassinadas gerações de angolanos, esta é a origem da luta pela nossa independência: “Somos homens como eles, também queremos os mesmos direitos”.
Eu teria de dispor de tempo para ir às aldeias mais recônditas, falar com algumas velhas e alguns velhotes, ou aqui mesmo em Luanda, falar com a avó Neneca para se encontrar algumas velhotas que podem descrever a escravatura. Na minha família, a escravatura era materna, sou mesmo livre da escravatura paterna.
É útil recorrer também aos escritos que foram feitos por estrangeiros porque através da escrita nós podemos ver aquilo que realmente está em conformidade com a escravatura do lado paterno ou do lado materno. Os pais verdadeiros eram as tias do lado paterno e do lado materno. É aí que nós assentamos a escravatura e, através disso, lendo e relendo é que podemos ter certa novidade.
Falando da escravatura matriarcal e a liderança matriarcal, por exemplo, o soba não é sempre filho de uma irmã, como era na sua província?
– Eu sou de Malanje, cada grupo étnico africano teve a sua escravatura, mas, em geral, olhando assim genericamente,
eram os filhos desobedientes que desobedeciam às ordens dos tios “olha, esse já não está a obedecer. Mais tarde, não vai ser grande coisa, então vai-te , não nos serve?
– e como se processava isso, pagava-se?
– era pela desobediência, os factos, cada vez que houvesse uma desobediência social, era um conluio, o núcleo familiar, os irmãos convidavam as outras irmãs para julgarem o facto e um irmão dizia” não, se o miúdo está a agir desta maneira, antes que não estrague a nossa sociedade, vai”
– era uma espécie de sanção?
– era uma sanção, sim senhora!
– e voltava ou ficava para sempre?
– quanto a isto não me dediquei, esta é a minha ideia geral, que captei e se tivesse de estudar havia de ter isso em conta.
Portanto, já não são as tias ou os tios (que decidem), aí é que está o nosso mal. Por isso é que eu digo que a sociedade de hoje está a ser julgada. É preciso ter em conta esses dados remotos dos quais direta ou indiretamente dependem as projeções futuras, porque hoje em dia é tudo generalizado, já não se sabe se vem da parte dos tios, se vem da parte paterna ou materna.
Em Malange, nas conversas que eu ouvia, em geral, o nosso ramo é matriarcal, pelas conversas que a gente
colhia de fugida porque os mais velhos não gostavam de tratar desses assuntos, eram tratados só com os mais velhos. Não tínhamos acesso aos mais velhos.
Não lhe sei dizer sobre esses povos descendentes dos Congos e de São Salvador. Parece-me que as suas origens eram de parte paterna. Chegaram separados e depois com as guerras houve junções.
Houve também funções sociais, vieram os portugueses, os estrangeiros. Muitos foram levados à força, foram vendidos “ amarra essa gente”, outros foram vendidos pelos próprios familiares por serem maus. Como saber até onde está a maldade? É preciso ler, estudar e investigar para podermos ter ideias claras, senão vai ser uma decisão. Tirando isso, não trago mais riqueza (sorrisos).
FACTOS DA ASSIMILAÇÃO
O senhor padre é da época da política de assimilação, do indigenato?
Sim, era orientação concreta e objetiva dos portugueses que nos consideravam seres atrasados que não tínhamos nada de memórias. Consultando livros, mesmo católicos , naqueles tempos havia até sacerdotes católicos que seguiam esse caminho. Hoje em dia, essas coisas estão a melhorar.
Na Europa nenhum país aceita, nenhum francês aceita ter um bispo português católico, todos são nomeados. Nós aqui em Angola, por causa da mentalidade colonial “tiram um sulano do sul e colocam no norte, tiram do norte e colocam no sul”, criando muitas vezes desajustes.
ESTUDOU NA MISSÃO CATÓLICA, OS NÃO ASSIMILADOS SÓ TINHAM ACESSO À ESCOLA DA MISSÃO?
Até a quarta classe era uma marcada. Para nos ensinarem, diziam: “a gente não está a dizer que os gajos são burros?”.
Quando os portugueses foram embora para guerrear os kaladulenses, os mandongus, sofreram baixa porque nós também tínhamos massa política, seja matriarcal ou patriarcal, sofreram baixas! e nós também sofremos outras! Portanto, eu sou da colonização portuguesa, sou escravo português, mas com a recepção dos sacramentos fui refazendo a minha personalidade. Agora creio ser livre, mas ainda sobre a tutela dos cordeis da escravatura colonial ocidental coisa que muitos dos nossos não têm consciência, muitos nossos governantes não têm consciência disso. Os que foram leitores assíduos e de bom jornais ou se foram formados em países ocidentais, por exemplo na Alemanha, na França ou nos EUA, as suas mentalidades são outras, o despertar deles é diferente e a dos outros estamos para ver quando formos para a eternidade, agora essa eternidade, como é que vai ser essa eternidade, eu nasci negro.
ENSINO PRIMÁRIO
Na escola, aqui é que se via mesmo a diferença. Lá no Dundo a organização da cidade, uma parte era só para os brancos, outra parte para aqueles que assimilavam com maior facilidade que eram os mondongos e a outra parte onde viviam os nativos, os abandonados”.
Iam lá cercar alguns que eles reconheciam a inteligência e faziam deles chauffeurs. Eu fui para o Dundo com os meus padrinhos que foram catequistas, e tinha sete anos mas já sabia ler “João de Deus”, aprendi! Sabia somar, fazer a subtração, etc.
Mas, lá não tinha mais possibilidade, nessa escola fiz a terceira classe e ainda passei um ou dois anos só a ir à escola, porque eu deveria ter onze anos quando fiz a terceira classe e não havia âmbito de vazão, ia a escola para não fazer mangonha na sanzala até ser estabelecida a terceira classe rudimentar, fiz. E passei mais um ano à espera da classe elementar que nunca mais aparecia! Então, nessa altura as direções superiores foram ter à escola, precisavam de rapazes inteligentes que pudessem fazer este ou aquele trabalho.
TRABALHADOR, DIAMANG
A certo momento, proibiram-me de aprender a língua nativa, pois era para nos escravizarem. Eu cresci no Dundo, fui funcionário aos treze anos (risos) no hospital da DIAMANG, onde aprendi a curar feridas, a falar corretamente o kikongo e o Tchiumbo, língua do Zaire.
Ali era uma portuguesa, os médicos vinham diretamente de Portugal e não conheciam a língua local, nós é que direta ou indiretamente lhes íamos ensinando a medida da capacidade deles de assimilação (sorriso). Todos chegamos a conclusão que eram todos iguais, mas com exceções, muitos negros foram protegidos por europeus portugueses.
SEMINÁRIO E O RACISMO
Eu era seminarista, estava no meu segundo ano e não me enquadrava bem em alguns preceitos tradicionais. Por exemplo, quando a mãe dizia: “esse aqui é teu tio, aquela é tua tia’’. Para mim, a razão de ser tia ou tio já era a regra da assimilação portuguesa, perguntava: “é irmão, é irmã do meu pai?” Mandavam-me passear. Passava as férias na Katepa. Já seminarista, tinha feito a prova do sexto ano. Certo dia, a tia Suzana Camandongo contactou-me dentro da mentalidade negra:
– quem é que te nasceu?
– o meu pai, é o velho Chico
– e quem é o pai do velho Chico?
Eu não sabia
– pois, a sua origem paterna é oriunda do Cuanza Sul, eles são da zona Mandongo.
A conversa foi fluindo e ela fez-me entender “se o teu pai, tua mãe tiveram um filho, não achas que já estás na idade de buscar uma miúda?”. São interpelações que vieram depois. No meu subconsciente, percebi então que, segundo a vocação que eu estava a seguir, não dava. Ouvi, ouvi, ouvi! E fiquei calado. Também, não tinha arcabouço para discutir. À medida que o tempo foi passando, fui vendo que as coisas foram se esclarecendo e fiquei esclarecido. Senão, já me tinham escolhido uma moça.
E havia outra que se encantava comigo e eu também me sentia encantado. Sabe? São afetos naturais, mas a Graça de Deus é sempre superior às ambições humanas. Consegui vencer essas circunstâncias todas. Nosso Senhor protegeu-me e consegui chegar ao sacerdócio.
E para chegar ao sacerdócio, também foram lutas. Não sei se a “mana’’ não terá sofrido bastante pela sua cor, e havia muitos negros que eram colocados em classe quase europeia.
Estou lembrando-me do tio Lourenço Quitumba, cujo filho mais velho era o João Manuel Quitumba. No acasalamento do Capitalismo e do Socialismo muitos dos nossos filhos angolanos passaram por esses ventos, estudando fora. O Quitumba, que foi governador quando se deu a primeira reação civil de angolanos independentes, morreu.
Eu cresci, fui um chamariz para muitos rapazes do grupo mandongos, muitos foram para o seminário, seguiram a minha trajetória. Senti-me … “mas como é que eu posso fazer para ensinar os negros a terem os olhos mais abertos?” E optei pelo sacerdócio, como, porquê, não sabia ainda as razões.
Também, na vida sacerdotal tinha peripécias. No seminário de Malange havia um alsaciano, descendente de alemão e francês e um holandeses, o Victor Henrique Verbec, o homem mais alto que tínhamos na província, depois vieram alguns portugueses. Eles entre eles não se entendiam, eram colaboradores da PIDE e muitos dos colegas que não souberam ser prudentes nessa simbiose de professores “pisaram calos sem necessidade”, porque quem é esperto já sabe “esse que está aqui é europeu”.
IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA SOCIAL DE ANGOLA
Eu sugeriria que houvesse uma campanha de estudo sobre a escravatura matriarcal e patriarcal nas nossas civilizações. Agora, há reconhecimento de países capitalistas graças à influência do Cristianismo. Por isso, pedem desculpas. Esses que pedem desculpas são homens que refletiram seriamente acerca da sua origem e da origem dos outros, somos iguais, somos todos iguais!
Este depoimento foi realizado na asa das Madres da Capela de Santa Bárbara, Luanda 10 de Abril de 2024
Entrevistadora: Marinela Cerqueira
Palavras Chaves:| escravatura|mandongos|ensinorudimentar|seminário|racismo|Malange|DIAMANG|

