O presente depoimento integra o Programa de História Oral da Plataforma História Social de Angola (HSA), iniciativa dedicada à identificação, recolha, preservação, estudo e divulgação de testemunhos de vida que contribuam para a construção da História Social de Angola. A HSA parte do princípio de que a memória constitui um património colectivo e que a sua preservação deve assentar, sempre que possível, nas narrativas dos próprios protagonistas, articuladas com documentação escrita, iconográfica, audiovisual e bibliográfica. Através da triangulação entre memória oral, memória material e investigação histórica, a Plataforma procura construir um repositório digital de referência produzido de angolanos para angolanos, sem deixar de dialogar com a comunidade científica internacional.
Mais do que recolher depoimentos, a HSA desenvolve um trabalho continuado de identificação de protagonistas, localização de espólios documentais, curadoria científica, edição, restituição digital de arquivos e valorização de fontes históricas dispersas em Angola e na diáspora. A preservação da memória é entendida como um processo colaborativo entre investigadores e depoentes, no qual cada testemunho constitui simultaneamente uma fonte histórica, um ponto de partida para novas investigações e um contributo para a reparação da memória nacional.
Desde a sua criação, a Plataforma procura identificar protagonistas da história social angolana residentes em Angola e na diáspora, bem como investigadores, académicos e amigos de Angola cujas trajectórias de vida contenham informações relevantes para compreender a experiência histórica do país.
A selecção dos depoentes assenta em critérios de idoneidade, credibilidade, relevância histórica do percurso pessoal e disponibilidade para colaborar na construção de um património documental acessível às gerações futuras.
Foi neste contexto que o historiador e nacionalista Artur da Costa foi identificado durante a sua participação no ciclo de conferências promovido pelo Núcleo da Fundação Dr. António Agostinho Neto no Benelux (NUFAANBELUX). A profundidade das suas intervenções, o conhecimento historiográfico demonstrado, a riqueza da sua biblioteca e a extensa rede de contactos construída ao longo de décadas revelaram o seu potencial não apenas como depoente, mas igualmente como colaborador científico desta Plataforma e facilitador da aproximação a outros protagonistas da diáspora angolana na Europa.
A recolha do testemunho iniciou por uma conversa realizada por WhatsApp, registada em suporte áudio segundo a metodologia de entrevista semiestruturada utilizada pela HSA. Um problema técnico provocou, contudo, a perda parcial da gravação. Longe de comprometer o projecto, este imprevisto conduziu a uma solução que acabou por enriquecer o resultado final: o autor decidiu reconstruir as suas memórias por escrito, ampliando significativamente os temas abordados e produzindo uma narrativa autobiográfica de grande densidade histórica.
Segundo o próprio autor, este exercício constituiu um processo particularmente exigente. A evocação da infância no Huambo, das amizades de juventude, da prisão, da perseguição política, da clandestinidade e do exílio implicou revisitar experiências profundamente marcantes. A escrita tornou-se, simultaneamente, um exercício de memória, de reflexão histórica e de catarse pessoal, conferindo ao texto uma dimensão humana que dificilmente poderia ser reproduzida através de uma entrevista convencional.
Nesta fase do projeto, o autor manifestou igualmente preferência por não realizar o registo audiovisual do seu testemunho. Considera que a escrita lhe proporciona maior liberdade para organizar as memórias e refletir sobre acontecimentos particularmente sensíveis. Em contrapartida, manifestou inteira disponibilidade para continuar a colaborar com a Plataforma através da redacção de novas memórias, da orientação bibliográfica e da consulta do seu vasto acervo documental, construído ao longo de décadas de investigação. Para a HSA, esta colaboração representa um património intelectual de elevado valor, permitindo validar informações, contextualizar acontecimentos e orientar futuras pesquisas e passar a uma nova variante de depoimentos na qual o autor por sua autoria agrega memória documental sua e de outrem.
A segunda parte do depoimento resulta igualmente da vontade do autor de publicar sua memória material redigida para o projeto inacabado da historiadora Aida Freudenthal, que procurava reunir testemunhos de antigos membros da Casa dos Estudantes do Império dispersos por vários países. Para facilitar a leitura e o enquadramento histórico deste percurso, o presente volume inclui, em anexo, o testemunho de Astrid Cecília de Carvalho, também elaborado no âmbito deste projecto e gentilmente autorizado por seus descendentes para publicação na Plataforma.
Importa igualmente assinalar que, antes mesmo da realização deste depoimento, Artur da Costa havia oferecido à HSA um estudo da sua autoria sobre antigos membros da Casa dos Estudantes do Império. Esse trabalho constituiu a primeira contribuição académica disponibilizada para publicação na Plataforma.
A posterior integração do testemunho de Astrid Cecília de Carvalho representa um segundo momento desse processo de construção colaborativa do acervo, demonstrando a confiança depositada pelos próprios protagonistas na missão da HSA.
Embora a Plataforma História Social de Angola tenha como foco principal a História Social e não a História Política, reconhece que muitos percursos individuais não podem ser compreendidos sem referência ao contexto da luta de libertação. O testemunho de Artur da Costa evidencia essa realidade ao documentar a repressão exercida pela PIDE, as prisões de estudantes e nacionalistas angolanos, os mecanismos de vigilância e as consequências sociais da política colonial portuguesa. Mais do que narrar acontecimentos políticos, o autor revela de que forma esses acontecimentos marcaram a vida quotidiana, as relações familiares, os percursos educativos e as oportunidades de uma geração.
Um dos aspectos mais relevantes deste depoimento reside, contudo, na valorização da cultura como espaço de formação da consciência nacional. O ambiente intelectual vivido no Huambo, através do Cine-Clube, dos programas radiofónicos, da imprensa cultural, da leitura e da circulação de ideias, surge como um verdadeiro laboratório de cidadania. Foi nesse contexto que Artur da Costa, António Faria, Manuel Faria e outros jovens iniciaram atividades de crítica cinematográfica, produção radiofônica e escrita jornalística, experiências que mais tarde evoluíram para projectos cinematográficos dedicados à preservação da memória nacional. Entre eles destacam-se os filmes que este grupo de jovens ligados ao cine-clube fizeram no Huambo nos anos 1960 ; os filmes e livros de António Faria ou a colaboração de Artur da Costa num filme sobre a Casa dos Estudantes do Império.
Durante o processo editorial, coube igualmente à Plataforma História Social de Angola proceder à revisão integral do manuscrito, à organização temática do texto através da introdução de subtítulos, à seleção e inserção de documentação iconográfica e à elaboração de notas de contextualização histórica sobre personalidades, instituições e acontecimentos referidos pelo autor. Sempre que possível, essas notas foram sustentadas por fontes primárias e secundárias acessíveis em arquivos digitais e bibliografia especializada. Em diversos casos, o trabalho de edição permitiu identificar novos espólios documentais, coleções de periódicos, arquivos pessoais e outras fontes primárias suscetíveis de integrar futuras ações de digitalização, investigação, reparação e restituição da memória nacional, objetivos que fazem parte da missão permanente da HSA.
Este depoimento ultrapassa, assim, o valor de uma narrativa autobiográfica. Constitui uma fonte primária para o estudo da história social, cultural e intelectual de Angola, documentando simultaneamente os percursos de uma geração de estudantes, a vida da diáspora angolana, a formação das redes de solidariedade internacional e a importância da cultura na construção da consciência nacional. A sua publicação reafirma a visão da Plataforma História Social de Angola de construir, com rigor científico e responsabilidade patrimonial, um arquivo vivo da memória angolana, onde os próprios angolanos são autores, depositários e intérpretes da sua história, contribuindo para que esse património permaneça acessível às gerações presentes e futuras.
Esta memória colectiva será publicada integrando memórias de dois angolanos e por respeito a ética e moral aqui seguida é também publicado a contribuição de Astrid de Carvalho enquanto depoimento individual respeitando seu pensamento e forma de escrever memória.
Nota de Contexto e Enquadramento Histórico
A Génese: O Trabalho Inacabado de Aida Freudenthal
A origem destes testemunhos remonta a dois anexos originalmente redigidos para integrar uma investigação da prestigiada historiadora Aida Freudenthal (1940-2024), especialista de referência nos estudos da sociedade e do percurso historiográfico de Angola. Com a interrupção involuntária desse projecto académico devido ao falecimento da investigadora, os dois textos — que corriam o risco de permanecerem engavetados — ganham agora uma nova vida pública e uma função comunitária renovada.
Marco de Viragem na História Social de Angola
Com a publicação destes anexos, abre-se uma nova época na forma de construção do modelo participativo da plataforma historiasocialdeangola.org.
A disponibilização deste material reveste-se de um duplo significado pioneiro:
● Primeira Contribuição da Nova Fase: Os dois anexos escritos por Artur da Costa e Astrid constituem a primeira contribuição de memórias e testemunhos a inaugurar o acervo da nova versão da plataforma História Social de Angola.
● Repositório de Escritos Doados e Arquivados: Inauguram uma categoria fundamental da plataforma destinada aos escritos doados e arquivados, permitindo que narrativas pessoais, familiares e de vivência registadas e construídas no passado passem a integrar este património histórico de acesso público.
O Valor do Testemunho Colectivo
Ao transformar registos pessoais e anexos de trabalho num bem comum, os depoimento de Artur da Costa e Astrid reafirmam que a história de Angola se reconstrói não apenas através dos documentos oficiais, mas também pelo olhar de quem vivenciou a sua complexidade social. Este gesto pioneiro serve de convite e exemplo para que outros cidadãos doem os seus escritos e memórias, enriquecendo o acervo da historiasocialdeangola.org e consolidando uma historiografia verdadeiramente inclusiva, descentralizada e democrática.
Introdução
Chamo-me Artur Miguel da Costa Salgado da Silva. Nasci em Luanda em 1943. Na altura em que nasci os meus pais viviam na Ilha de Luanda. Quando tinha cinco anos fomos para o Huambo que se chamava na época Nova Lisboa, foi nessa cidade que cresci.
Escola Primária, Huambo
Antes de ir para a escola no Huambo, comecei a aprender a ler e escrever com uma senhora, Dona Alda Lara, que dava aulas em casa dela a alguns miúdos. Ela morava perto da nossa casa.
Dona Alda era tia do Lúcio Lara e da poetisa Alda Lara. Um dos miúdos alunos dela, tínhamos cinco anos, era o meu amigo de sempre, Jorge Pires, futuro general « Piricas » do Estado Maior do exército angolano, que morava numa rua ao lado da minha.
Fiz a primeira classe na escola primária que se encontra na antiga rua do Comércio, escola que tem na parte traseira um campo de futebol que era o campo do Sporting. Havia na aula um só menino negro, que morava ao fundo de uma rua que descia ao lado da escola, até perto dum riacho, casas pobres, bananeiras, lembro-me. Foi o único que reprovou no fim do ano. Imagino que não tinha condições para estudar, que os pais eram provavelmente analfabetos, não podiam ajudá-lo. Era a imagem da situação colonial que se vai repetir durante aqueles anos todos no Huambo.
Luanda, 1951
Em 1951 os meus pais voltaram durante um ano para Luanda, onde frequentei a segunda classe numa escola primária que se encontrava na esquina entre a avenida que vai até ao Hospital Josina Machel e o começo da subida para a antiga calçada de Santo António.
Nessa altura eu via filmes no Cine-Teatro Nacional, o belo cinema que foi inaugurado em 1932 e que foi agora tão bem restaurado pelo governo.
Durante esse ano, ficámos alojados primeiro numa casa alugada no bairro da Ingombota perto do cinema Tropical e depois na casa da minha avó na secular calçada de Santo António. Uma casa muito antiga que talvez tenha sido construída no século dezanove. Tinha um quintal atrás, com uma vista magnífica que ia do porto até à fortaleza, a baía em frente e a Ilha ao fundo, o estádio dos Coqueiros em baixo. Carlos Ferreira fez uma gravura da calçada, em 1948, onde se vê a casa no primeiro plano.
Em frente da casa da minha avó, morava a família do Tony Neto e do Hélder Neto que conheci nessa altura. O Tony andava na mesma escola primária que eu. Só voltei a encontrar os dois irmãos na Casa dos Estudantes do Império (CEI) em Lisboa, nos anos 60.
Legenda: Luanda, minha escola primária na 2a classe, em 1951, situada no começo da actual avenida do Primeiro Congresso do MPLA, onde está hoje a «torre» do Banco Económico
Cidade do Huambo,1948-1968
Depois desse ano em Luanda, voltei para o Huambo com os meus pais e o meu irmão António Pedro.
Na rua onde cresci moramos em três casas diferentes. Nessa rua moravam também os pais do Lúcio Lara e do poeta e jornalista Ernesto Lara.
Quando cheguei pela primeira vez ao Huambo em 1948, havia um bairro aqui e outro ali e entre eles havia espaços, por vezes havia mato. Onde eu morava era a segunda rua da cidade, mas nem sequer era asfaltada, ainda passavam aqueles carros de bois com muitos bois a puxar, os carros boers.
A cidade do Huambo tinha sido inaugurada no princípio do século XX, foi uma ideia de um governador muito conhecido, Norton de Matos. Resolveu fazer uma cidade naquele sítio do Planalto Central para ser uma cidade de colonos, no fundo para colonizar o centro de Angola. E para fazer passar o combóio que vinha do Lobito e depois iria até à fronteira da actual RDC: o Caminho de Ferro de Benguela (CFB).
Em 1928, um outro governador, Vicente Ferreira, decidiu chamar-lhe Nova Lisboa para que fosse a futura capital do império. Sonho imperialista dum ridículo fascista que deu o nome à rua onde sempre morei.
Uma cidade que nasceu sob a insígnia do colonialismo e foi uma cidade em grande parte racista, uma cidade colonialista, pelo menos até eu ser obrigado a sair de lá em 1968. 7

Legenda: A primeira sede da administração civil da cidade de Huambo na Av. Norton de Matos, Foto
A Livraria LELLO
A partir de certa altura, formámos um pequeno grupo no Huambo de jovens com interesse pela literatura. Na escola éramos obrigados a estudar os autores portugueses, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, etc e nós pouco a pouco começámos a interessar-nos por autores brasileiros, havia livros brasileiros que apareciam na Livraria Lello, uma sucursal da Lello de Luanda.
Então, começámos a interessar-nos por autores como Jorge Amado, que também podíamos encontrar na biblioteca da Associação Comercial.
Quando líamos esses livros brasileiros encontravámos um pouco daquilo que não existia na literatura portuguesa, quer dizer um clima, um ambiente social, as comidas, uma série de coisas, todo um cenário um pouco parecido com o da terra onde estávamos a crescer. Este gosto pela literatura brasileira foi talvez o primeiro sinal de procura da nossa identidade.
Cinema Ruacaná
Interessávamo-nos por tudo que era possível fazer do ponto vista cultural. Estávamos numa cidade onde não havia quase nada nesse domínio.
Como gostávamos muito de cinema, tivemos a sorte de haver uma sala importante onde podíamos ver muitos filmes.
Era o cinema Ruacaná, que foi inaugurado em 1949, um ano depois da minha chegada ao Huambo. Exibia um filme diferente todas as noites. A certa altura íamos ao cinema todas as noites. Para o nosso grupo o cinema era como uma janela aberta para o mundo.
E também havia o cine clube do Huambo, o primeiro cine-clube de Angola, criado nos anos 50 por um grupo no qual estava Sócrates Dáskalos.
Sócrates Dáskalos
Sócrates Dáskalos pertencia a uma família de origem grega. Era um nacionalista angolano. A irmã dele, Zaida Dáskalos, foi minha professora na escola primária. O outro irmão dele era um grande poeta e também um nacionalista angolano, Alexandre Dáskalos.
Sócrates Dáskalos além de ter fundado o cine clube do Huambo nos anos 50, tinha sido preso com os outros organizadores de uma célula do que foi uma tentativa de criar um partido socialista angolano. Esta história, e muitas outras, está contada no seu livro de memórias. Livro importante porque tem muitos relatos e informações de grande interesse sobre o período da luta pela independência : Um testemunho para a História de Angola, do Huambo ao Huambo
Em 1976, Socrates Dáskalos foi o primeiro governador angolano de Benguela, depois da expulção do exército invasor do regime sul-africano do apartheid que tinha ocupado a cidade.
O Cine Club do Huambo, anos 60
Quando nos tornámos sócios do Cine-Clube do Huambo, nos anos 60, Sócrates Dáskalos já tinha deixado o Huambo há muito tempo. Os adultos que dirigiam o Cine-Clube estavam muito ocupados com a vida profissional deles. Quando viram que havia um grupo de jovens entusiastas, entre os quais o António Faria, o Manuel Faria eu, resolveram entregar-nos as chaves do cine clube, quer dizer puseram à nossa disposição a sede que estava num local alugado ou emprestado, no primeiro andar de um edifício ao lado da Catedral da cidade, o edifício então chamado edifício do Grémio do Milho.
A sede do cine-clube era composta por uma pequena sala para reuniões e um quarto ainda mais pequeno onde estava uma biblioteca de cinema com livros e revistas.
O Cine-Clube recebia revistas e informações de outros cineclubes de Angola como o de Luanda ou o de Benguela e também de outros países. E isso para nós foi precioso porque íamos ver filmes, mas ao mesmo tempo estávamos cada vez mais informados com as nossas leituras sobre a actualidade cinematográfica e sobre a história do cinema ou também sobre a maneira como se faziam os filmes. E alguns entre nós quiseram fazer filmes.
Foi o que fez Manuel Faria que, entre outras realizações, teve a ideia de irmos fazer um documentário nos bairros africanos do Huambo. Ele realizou e terminou esse filme em 8mm que foi exibido na Casa dos Estudantes do Império em Lisboa. Também começou a realizar um filme baseado no belo poema «Namoro» de Viriato da Cruz, mas pôde acabá-lo. Um dos membros da equipa desse filme era o Fernando Oliveira que frequentava o colégio Alexandre Herculano como o Manuel. Os dois faziam parte dos elementos mais novos do nosso grupo. Alguns anos mais tarde, foi o Fernando que organizou a minha fuga clandestina para a Bélgica, quando estava a estudar na Faculdade de Direito de Lisboa.
António Faria[1], irmão do Manuel, publicou no Huambo em 1965 o livro «Introdução ao Cinema Angolano». Dirigiu uma secção de cinema e teatro na CEI. Realizador para o cinema e a televisão em Portugal, também escritor e dramaturgo, um dos seus primeiros filmes foi « Omala Vangalange » adaptação de uma lenda do Huambo. Autor do filme « Índia » (1972), poema fílmico sobre a mitologia imperial portuguesa e a violência do colonialismo.
Quanto aos filmes que realizámos no Huambo, infelizmente desapareceram todos.
A Revista Dialógo
Manuel Faria criou a revista «Diálogo» do Cine-Clube do Huambo, onde publicou autores angolanos, Arnaldo Santos e Ernesto Lara Filho. Os artigos que ele e eu escrevemos nessa revista em 1964 foram citados pela historiadora Maria do Carmo Piçarra no livro « Angola O Nascimento de uma Nação – O Cinema de Libertação » editado em 2013. A autora encontrou nos nossos textos elementos «de uma consciência identitária angolana » que se queria exprimir através do cinema.
Nós tomámos conta do Cine Clube, éramos nós que organizávamos as sessões de cinema: o gerente do cinema Ruacaná mostrava-nos a lista dos filmes que ele considerava não comerciais, que não valia a pena programá-los para o público em geral. Mas, para nosso encanto, esses filmes eram muito bons e até obras primas que pudemos escolher para as sessões mensais do cine-clube.
O Jornal Planalto
Depois fomos propôr uma página de cinema ao director do jornal local, o « Planalto ». Foi António Faria que publicou o primeiro artigo. Como ele indica, foi um artigo sobre o grande realizador francês dos primeiros anos do século XX, o mágico Georges Mèliès. Quando o cinema estava a nascer em França.
O Director do jornal « O Planalto » era a certa altura o senhor Molar[2], que foi nosso professor de francês e de história no colégio Alexandre Herculano, que o António Faria, o Manuel Faria, o Fernando Oliveira e eu frequentámos em épocas diferentes.
O colégio Alexandre Herculano, localizado mesmo ao lado da casa onde eu vivia. Da varanda da minha casa eu via as janelas da sala de aulas onde a menina Zaidinha, Zaida Dáskalos, nos dava aulas da quarta classe da instrução primária e nos preparava para o difícil exame de admissão ao ensino secundário.
Também fui aluno do Colégio Dom João de Castro onde tinha como colega de aula o amigo Manuel Rui, futuro grande escritor e poeta, autor da letra do Hino Nacional de Angola.
Mais tarde, o Manuel Rui e o António Faria, com outros angolanos, foram presos em Coimbra pela PIDE, a polícia do regime fascista e colonialista português, quando eram estudantes na Faculdade de Direito. Levaram-nos para Lisboa onde sofreram interrogatórios com a tortura do sono. Meteram-nos na horrenda e obscura prisão medieval do Aljube, onde também esteve preso Agostinho Neto.

Legenda: Escola primária da cidade Alta, no Huambo, onde fui aluno da 3ª classe

Legenda: Colégio Alexandre Herculano nos anos 1950/1960
Rádio Clube do Huambo
Fomos propor ao Rádio Clube do Huambo um programa de cinema ! O Rádio Clube do Huambo era dirigido nessa altura por um jornalista angolano, Sebastião Coelho, que teve um papel muito importante na rádio angolana, na divulgação dos músicos angolanos. Acabou por ser mais tarde preso pela PIDE e sofreu muito na prisão. Depois de ser posto em liberdade foi obrigado a ficar em Luanda, não pôde voltar ao Huambo.
Fomos falar com ele, propor-lhe um programa de cinema para o Rádio Clube do Huambo. Ele viu aqueles miúdos entusiastas e aceitou o que propúnhamos, ficamos encantados. Então, pôs à nossa disposição um jornalista locutor com o qual trabalhávamos. Utilizamos a máquina de escrever do Cine-Clube para redigir os textos que eram lidos na rádio. Levávamos a matéria preparada para o programa que se chamava «Tempo de Cinema». Fazíamos o programa e o locutor lia os nossos textos. Uma vez foi a mulher do Sebastião Coelho, a importante jornalista Joana Campina[3], que escreveu e leu uma crítica sobre um filme que tínhamos visto no cinema Ruacaná, sobre a corrupção e o crime no meio do poder económico da Alemanha Federal.
Éramos nós também que escolhíamos as músicas do programa, encontradas no vasta colecção de discos do Rádio Clube do Huambo posta à nossa disposição.
Estas eram actividades culturais que nos permitiam pouco a pouco ir fazendo a nossa acção política, mais ou menos clandestina. As nossas actividades iam atraíndo outros jovens. Éramos todos simpatizantes do MPLA.
Líamos muito. Um livro fundamental ainda hoje, que nos marcou profundamente foi « Os condenados da terra» de Franz Fanon, publicado em França em 1961. As palavras deste autor explicavam o que víamos e vivíamos em Angola, a terrível situação colonial, o pensamento genocidário dos colonos, a revolta e a luta dos colonizados. Depois vou contar como tais livros, interditos pelo regime português, chegavam às nossas mãos. Líamos muito, livros editados em português ou em francês : Marx, Engels, Lénine, Sartre, Simone De Beauvoir, Albert Memmi, Aragon, Hô Chi Minh, Nkrumah, Boris Vian, Hemingway, Steinbeck, Guimarães Rosa … A leitura ajudava-nos a compreender o mundo e a militar contra o sistema colonial, pela independência do nosso país.
A Casa dos Estudantes do Império (CEI), Anos 60
A CEI, em Lisboa, foi muito importante para as nossas actividades culturais e políticas no Huambo nos anos 60.
A Casa dos Estudantes do Império, era uma associação dos estudantes de Angola e das outras colónias que frequentavam a universidade em Portugal. Tinha sido criada pelo governo fascista português em 1944 para controlar os estudantes que vinham do chamado Ultramar. A sede estava em Lisboa e também houve Delegações da CEI em Coimbra e no Porto. A do Porto esteve aberta pouco tempo. A de Coimbra foi fechada pela Pide em 1961.
A partir do fim da década de 1940, começaram a chegar a Portugal estudantes que transformaram completamente a associação : Mário de Andrade, Agostinho Neto, Lúcio Lara, Amílcar Cabral, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa e tantos outros.
A CEI transformou-se completamente, passou a ser uma verdadeira escola de formação política contra o colonialismo, pela independência das nossas terras.
Além dos nomes que acabo de citar, muitos outros combatentes e dirigentes dos movimentos de libertação foram, enquanto estudantes, membros da Casa dos Estudantes do Império.
Fui pela primeira vez à CEI em 1962, que passei a frequentar assiduamente em 1963.
A PIDE vigiava a CEI. Houve prisões e vagas de prisões nos últimos anos de existência da nossa associação, que foi encerrada pela PIDE em Setembro de 1965.

Cartão de Identidade da Casa dos Estudantes do Império de Artur Miguel da Costa e Silva
O Jornal “Anti Colonial”
A CASA, como nós lhe chamávamos, tinha ligações clandestinas com os movimentos de libertação. Óscar Monteiro, que foi vice-presidente da direcção da CEI, no seu livro De Todos Se Faz um País (2012), conta como a certa altura havia na nossa associação representantes do MPLA, da FRELIMO e do PAIGC. Eram eles, respectivamente, Álvaro Santos « Zéfos », Óscar Monteiro e Jorge Querido, que publicavam na clandestinidade o jornal « Anti-Colonial » com artigos sobre as lutas de libertação.
Uma rede foi criada para a distribuição do « Anti-Colonial ». Quando foi descoberta pela Pide, houve muitas prisões. O Óscar conseguiu fugir a tempo, mas o Zefos, o Rui Quartin e o Percy Freudenthal foram presos. O Morais e eu também éramos considerados como fazendo parte da rede porque recebíamos o jornal, segundo a informação que o Zefos nos deu mais tarde. Mas não fomos presos, provavelmente porque o processo não foi a julgamento.
O Percy Freudenthal, do grupo do « Anti-Colonial » na CEI, foi o fundador e o primeiro director da SONANGOL. Uma sala de exposições tem o seu nome da sede da companhia em Luanda.
A CEI contou com uma grande historiadora de origem moçambicana, Aida Freudenthal, mulher do Percy. Os seus trabalhos, numerosos livros e artigos, têm Angola como tema principal. Foi pesquisadora e consultora da exposição «Casa dos Estudantes do Império – Farol da Liberdade» na Câmara Municipal de Lisboa em 2015. O magnífico catálogo desta exposição, para o qual a Aida muito trabalhou, é necessário e importante para quem desejar conhecer a história da CEI. Está publicado na internet on-line2.
Lembro-me da noite, nos anos 60, em que o Helder Neto, o Morais e eu, descíamos uma rua de Lisboa. O Morais e eu íamos ao cinema. O Helder ia para a agência internacional de imprensa Reuters onde trabalhava à noite. Mas na verdade ia dasaparecer, não voltaríamos a vê-lo na CEI: fugiu de Portugal depois dessa noite, para se juntar à luta do MPLA.
O Helder tinha sido preso em 1959, na vaga de prisões de nacionalistas angolanos que deu origem a três processos judiciais conhecidos por « O Processo dos 50 ». Esteve preso no campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde. Quando foi libertado estava proibido de voltar a Angola. É por isso que estava em Lisboa e frequentava a Casa dos Estudantes do Império, até fugir.
Os Julgamentos em Lisboa, 1965
Quando havia prisões, nós fazíamos os contactos com as famílias e com os advogados dos que estavam presos. E havia sempre um grupo de membros da CASA presentes no tribunal para apoiar os nossos camaradas com a nossa presença. Era arriscado: éramos observados pelos Pides que estavam na sala das audiências com atitudes de provocação contra nós.
Depois de uma vaga de prisões em 1965, houve julgamento em Lisboa no ano seguinte. O MPLA publicou um comunicado sobre esse processo. Dos sete acusados, cinco eram membros da CEI : Henrique Guerra, José Teixeira Lucas, Milton Almeida Tavira, Vitória de Almeida e Sousa e Astrid Cecília de Carvalho. Arminda Correia Faria, futura presidente da OMA e João Baptista, foram presos em Angola e levados para Lisboa.
Eu tinha sido encarregado de ir à pensão Pérola da Madeira contactar a mãe do nosso amigo José Teixeira Lucas, um dos réus desse processo, piloto aviador que tinha fornecido ao MPLA documentos militares importantes. A mãe do Lucas era a Dra Regina. Ela e o marido, o Dr Lucas, faziam parte dos júris que iam ao Huambo quando ainda não havia liceu na cidade. Todos os miúdos tinham medo desse casal de professores, conhecidos por serem muito exigentes nos exames orais. Estávamos sempre à espera que não fizessem parte dos júris que vinham dos dois únicos liceus da época, o do Lubango e o de Luanda. E agora, aparecia eu, já estudante universitário, diante da Dra Regina que me tinha chumbado, com muita razão, no meu último exame de Matemática do ensino secundário : era possível terminar o « Curso dos Liceus » com uma deficiência ! Mas, já não era a «terrível» Dra Regina que eu tinha à minha frente, mas uma mãe enfraquecida e angustiada por causa dos sofrimentos do filho preso e barbaramente torturado pela Pide. Quando ela ia às visitas na prisão, o Lucas conseguia entregar-lhe discretamente bisnagas de pasta dentífrica dentro das quais tinha metido, bem enroladas, mensagens escritas em papel mortalha, papel muito fino que era utilizado para fazer cigarros. Eram esses papéis com mensagens em letra miudinha que eu ia buscar à noite e que entregava na CEI a quem devia recebê-las.
Astrid Cecília de Carvalho
Astrid Cecília de Carvalho, do mesmo processo, ficou presa na cadeia da PIDE em Caxias durante um ano. Era a secretária da Mesa da última Assembleia Geral da CEI, quando Mário Machunco, futuro primeiro-ministro de Moçambique, foi Presidente dessa mesma Assembleia Geral. Mais tarde, Astrid refugiou-se em Itália onde exerceu importante actividade junto dos comités italianos que apoiavam a Luta de Libertação do povo angolano. Depois da independência, sempre ajudada pelo marido, Nicolò Gianotti, dirigiu o Escritório Comercial de Angola em Milão.
A Astrid, que nós todos admirávamos, minha grande amiga desde os tempos da CEI. Estivemos sempre em contacto e em viagens entre a Bélgica e a Itália, na troca de informações e na participação em actividades relacionadas com Angola, até ao triste dia em que nos deixou, longe do seu país que tanto amava. Deixo à « Plataforma História Social de Angola » o seu depoimento.

A Socialização na CEI
A Casa dos Estudantes do Império tinha uma cantina onde almoçávamos e jantávamos por um preço muito baixo, tínhamos um posto médico gratuito cujo médico era o
angolano Dr Arménio Ferreira, amigo de Agostinho Neto. Havia uma boa biblioteca com livros sobre África, eram organizadas conferências, exposições, almoços de confraternização com comidas dos nossas terras, sem esquecer as famosas festas africanas da Casa dos Estudantes do Império…Cantores vinham cantar para nós, como o amigo Rui Mingas, membro da CEI, futuro autor da música do Hino Nacional de Angola. O duo «Ouro Negro» também cantou na nossa associação, o Luís Cília[4], do Bié com a sua canção «O menino negro não entrou na roda», e muitos outros músicos que se vêem em fotografias da época.
Lembro a nossa emoção quando Rui Mingas cantava em kimbundu o belo poema de Mário de Andrade Canção de Sabalu : « Mon’etu ua kasule / A mu tumisa ku S. Tomé… » (« Nosso filho caçula / Mandaram-no p’ra S.Tomé… »)
Literatura, Edições e Línguas Nacionais na CEI
Estudantes angolanos que partiram para Portugal para frequentar a universidade, ficaram em contacto com os mais novos que tinham ficado em Angola. Quando íamos de férias levávamos livros comprados em Lisboa ou em Paris e sobretudo as obras editadas pela CEI, e também documentos clandestinos e panfletos.
A secção editorial da CEI era dirigida por Carlos Ervedosa e por Costa Andrade. Foram publicados 22 livros, 7 antologias de poesia e de contos de autores de Angola, de Cabo Verde, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe.
A CEI publicava também a revista « Mensagem » dirigida por Tomás Medeiros de São Tomé e Príncipe. Muitos artigos da revista eram da autoria de membros da associação. Foi aí que o escritor Pepetela publicou o seu primeiro conto.
Estávamos no tempo da luta pela independência, da construção da nossa identidade. A literatura publicada pela CASA teve um papel importante nessa procura da identidade.
Em 1959, teve lugar na associação um Colóquio sobre «Poesia Angolana». Foi Agostinho Neto que pronunciou o importante discurso de abertura onde salientou o papel relevante da poesia na construção da identidade angolana. Pude ler uma parte desse discurso que foi publicado na revista da CEI.
Lembro-me do primeiro livro da CASA que comprei: Antologia de Poetas Angolanos. Sentado num banco de um jardim público em Lisboa, foi a descoberta, a grande emoção, a ler os poetas da nossa terra, a questão da identidade nacional a afirmar-se. Muitos jovens estudantes da nossa associação viveram a mesma experiência. Agostinho Neto tinha razão.
O escritor Gonzaga Lambo, autor do Cancioneiro Popular Angolano editado pela CEI, deu-nos algumas aulas de umbundu na biblioteca da CASA. Infelizmente foram poucas aulas para podermos aprender a falar. Foram interrompidas, não me lembro por que razão.
A Livraria Argente Santos, Huambo
Sempre que partia para Angola, levava na minha mala muitos exemplares de livros editados pela CEI para oferecer a jovens que nós sentíamos que estavam a interrogar-se sobre a sociedade colonial. E também para tentar pô-los numa livraria do Huambo. Foi o que aconteceu na pequena livraria Argente Santos[5], onde trabalhava um amigo angolano, o Meneses. O dono da livraria era um português da oposição ao regime fascista de Salazar. Foi certamente por isso que aceitou os livros de poesia editados pela CASA, que foram postos na montra. É preciso recordar que eram livros de autores interditos naquela época, estávamos em 1964: Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto, Manuel Lima e outros, numa montra duma livraria de Nova Lisboa, cidade colonial, em plena guerra de libertação! A Pide não se deve ter apercebido do que tínhamos feito, porque os livros deviam ser poucos e foram vendidos rapidamente. Em todo caso não tivemos nenhum alerta a esse respeito.
Na livraria Lello do Huambo, vi um dia a PIDE a confiscar inúmeros livros, descaradamente, diante dos clientes.
Só uma vez a minha mala foi aberta no aeroporto do Huambo. Por sorte, dessa vez não tinha na mala livros da CEI, nem panfletos, nem documentos que me podiam comprometer.
A propósito de documentos comprometedores que utilizávamos para informação clandestina, onde é que os guardávamos ? Parece incrível, mas eram escondidos no palácio do governador do então distrito do Huambo, porque os dois filhos mais velhos do governador, Rui Veiga Pinto « Figov » e Zé Carlos Veiga Pinto, pertenciam ao nosso grupo de simpatizantes do MPLA.
Por vezes, havia estudantes da CEI que obtiam o passaporte numa agência de viagens de Lisboa e iam até Paris. Havia também os que lá iam em viagens de fim de estudos. E de lá traziam livros que eram interditos em Portugal. Livros comprados na famosa livraria Maspero. Também, havia uma ou outra livraria de Lisboa que os vendia discretamente.
Livros que passávamos uns aos outros, cuja leitura melhorava sempre os nossos conhecimentos políticos. Alguns desses estudantes traziam também de Paris notícias importantes sobre os movimentos de libertação.
O Apartamento na Rue Hyppolite Mandron n° 7, Paris 1964
Em 1964 eu e dois amigos da CEI, o António Faria e o Morais, conseguimos obter passaporte e fomos até Paris. Frequentámos o pequeno apartamento da Rue Hyppolite Mandron n° 7 onde vivia o mais velho Câmara Pires[6]. A casa dele funcionava como uma representação do MPLA em França, mas também lá encontámos Moçambicanos e Santomenses.
Foi na casa de Câmara Pires que conhecemos Paulo Jorge, antigo da CEI, que nessa altura ainda estava em Paris. Infatigável militante da luta pela independência, foi ministro das Relações Exteriores de Angola. Foi também na casa de Câmara Pires que conhecemos o escritor Castro Soromenho[7]. E Jacinto Veloso, aviador, e o seu amigo João Ferreira que tinham fugido de Moçambique num avião roubado à força aérea dos colonialistas portugueses. Jacinto Veloso teve funções importantes no governo de Moçambique depois da independência. Outro moçambicano que vimos chegar à casa de Câmara Pires, foi o Oscar Monteiro[8], militante da FRELIMO, de quem já falei. Naquele momento tinha acabado de chegar a Paris, depois da tão perigosa travessia dos Pirinéus. Também ele ocupou cargos muito importantes depois da independência de Moçambique.
Estivemos com o jovem Carlos Belli Belo que dirigia a UGEAN, União Geral dos Estudantes da África Negra sob domínio colonial português. No fim da vida era embaixador de Angola na Costa do Marfim. Encontrámos em Paris o Beto Traça da CEI, que tinha fugido há pouco de Portugal, depois de ter desertado do exército colonial. Combatente da guerra contra os invasores sul-africanos em Angola em 1975, é general da Força Aérea angolana.

O Encerramento da CASA (CEI),1965
Quando regressámos a Lisboa a CASA tinha eleito aquela que seria a última direcção da nossa associação. O presidente era o moçambicano Ferreira Mendes «Fofo» que me pediu para substituir o Tesoureiro da Direcção que tinha «desaparecid ». Nessa época desapareciam estudantes que fugiam de Portugal para não serem incorporados no exército colonial. Foi assim que assumi um cargo na Direcção da CEI durante alguns meses, antes da nossa associação ser invadida e encerrada pela PIDE em setembro de 1965.
Estava no Huambo quando ouvi, no programa em português transmitido pela Rádio Brazaville, a triste notícia do encerramento da CEI.
Prisão, Luanda 1966
Depois, ainda voltei uns tempos a Lisboa e em seguida decidi regressar a Angola desta vez para ficar, pensando que o regresso seria definitivo. Até me inscrevi num curso de Letras que tinha sido criado em Sá da Bandeira, a cidade do Lubango de hoje. Os primeiros cursos universitários começaram a aparecer em Angola por volta de 1992.
Em 1966 no Huambo, numa tarde em que ia a entrar na casa dos pais do meu amigo Manuel Faria, onde eu ia praticamente todos os dias, um agente da PIDE dirigiu-se a mim e disse-me que tinha de comparecer na sede deles na cidade Alta no dia seguinte à tarde.
Eu costumava enviar de Lisboa ao meu amigo Manuel Faria do Huambo textos que escrevia sobre filmes que tinha visto. O Manuel enviava essas críticas de cinema a jornais de Luanda. Penso que nenhuma foi publicada. Em todo caso, o inspector da PIDE que me interrogou naquela tarde começou por me fazer perguntas sobre um desses textos, de que já nem me lembrava, sobre um filme italiano muito mau intitulado « África Adio » que parecia ser realizado por um fascista. Depois do interrogatório voltei para casa, pensando que as coisas ficariam por ali. Mas no dia seguinte de manhã, vários Pides apareceram na casa dos meus pais, vasculharam tudo e levaram-me preso num jipe. No dia seguinte meteram-me num avião para Luanda, acompanhado por um Pide.
Fui fechado numa cela sozinho na terrível prisão de São Paulo onde os interrogatórios se passavam na violência e nas torturas. Muitos militantes angolanos foram mortos nas prisões da PIDE e nos campos de concentração na época colonial. Na cadeia de São Paulo submeteram-me ao suplício da « estátua » : em pé numa sala durante dias e noites. Depois, isolado numa cela durante três meses. Numa noite ouvi o Manuel Faria gritar coisas incoerentes. O rapaz que vinha limpar a minha cela passou-me discretamente um bilhete dele escrito com muito desespero. Uma só vez me deixaram dar uns passos num pátio da prisão. Vi um miúdo sentado num banco a chorar, quase nu, tinha o corpo todo inchado, deviam ter-lhe batido muito. Não fiquei muito tempo fora da cela. O pátio estava em frente dos quartos dos interrogatórios com as portas abertas, onde o Pide que me tinha interrogado estava a espancar um preso. Quando percebeu que eu estava a ver, gritou para que me fechassem de novo na cela.
No dia em que me prenderam no Huambo, foram também buscar o Manuel Faria. E, soubemos mais tarde, apresentaram-se no palácio do governador do distrito para prender o Rui Veiga Pinto « Figov » e o Zé Carlos Veiga Pinto. Mostraram ao governador Queimado Pinto um grande dossier sobre o nosso grupo. Soubemos assim que já andavam a vigiar-nos há muito tempo. O governador chegou a um acordo: os seus filhos não seriam presos naquela altura. O Rui regressava a Lisboa para continuar o curso na Faculdade de Direito e o Zé Carlos ficava no Huambo a acabar o curso dos liceus, vigiado pelo pai Governador. Isto até ver se o nosso grupo ia ou não ser julgado em tribunal.
Lembro-me que, antes de sermos presos, para ouvir o programa do MPLA « Angola Combatente », tínhamos de sair da cidade, por causa das ruidosas interferências sonoras provocadas pelos técnicos do colonialismo. Íamos para um bosque nos arredores. Era o Zé Carlos que nos levava no carro do pai que na altura nem sonhava por onde o filho andava. Suponho, aliás, que era um dos poucos carros que tinha rádio na Nova Lisboa daquele tempo.
O Zé Carlos foi um dos primeiros estudantes da Faculdade de Veterinária do Huambo, onde, depois da independência, foi professor e director.
O Manuel Faria, o Morais e eu, saímos juntos da cadeia de São Paulo. O Manuel Faria estava muito doente, aflito com alucinações que não conseguia controlar. O Morais e eu tentávamos ajudá-lo mas não sabíamos o que fazer, estávamos enfraquecidos com os meses de prisão. O Manuel, que era o mais novo e o mais activo do nosso grupo do Huambo, nunca mais conseguiu ser o mesmo.
Depois de sairmos da cadeia, as perseguições, ameaças e provocações da PIDE no Huambo nunca mais cessaram. Éramos vigiados constantemente. Quando voltava para casa dos meus pais à noite, lá estava um Pide à porta. Nos cafés e no cinema sentavam-se ao nosso lado. Quando caminhávamos a conversar no passeio do jardim da Alta, um jipe deles rolava lentamente ao nosso lado, a acompanhar-nos. Um dia que fomos visitar a mãe do Jorge Pires e do Carlos Pires, a Dona Valentina, entraram pela casa adentro para mostrar que faziam o que queriam. A raiva deles devia ser forte porque o Jorge estava longe, engajado na luta de libertação.
A Célula do MPLA em Sá da Bandeira (Lubango)
O Jorge e eu começámos o ensino secundário no colégio Alexandre Herculano, mas a partir do terceiro ano ele foi estudar para o liceu de Sá da Bandeira, hoje Lubango. Em Nova Lisboa (Huambo) ainda não havia liceu.
Quando vinha de férias, começou muito novo a falar de independência africana. Nas conversas foi-nos ajudando a pensar o sistema colonial e a necessária luta para a conquista da independência. Soubemos mais tarde que já fazia parte de uma célula do MPLA com outros jovens que frequentavam o Liceu Diogo Cão.
Por razões de segurança, o Jorge Pires não podia contar-nos tudo. Seria importante conhecer a história desse grupo de estudantes do Lubango, do então liceu Diogo Cão, ainda adolescentes, já engajados na militância independentista, antes de 1961. Lembro-me de nomes que ele citava, mas não conheço o contexto. Só um deles poderia testemunhar sobre esse grupo.
O Carlos Pires contou-me que o irmão, quando vinha de férias, tinha criado no Huambo uma célula clandestina do MPLA que se reunia nas traseiras de um hotel.
Conhece-se bastante bem a história do nascimento e do desenvolvimento da luta pela independência em Luanda desde os anos 40 e 50. Ainda há muito trabalho para investigadores, no que diz respeito a outros centros urbanos de Angola.
O Carlos Pires fazia parte do nosso grupo. A certa altura, os Pides iam buscá-lo ao Instituto de Investigação Médica onde trabalhava, à uma hora da tarde, diante de toda a gente. Levavam-no para interrogatório até altas horas da noite. Num desses interrogatórios disseram-lhe que me tinham metido na recruta no quartel da cidade para me dobrar.
Legenda: HUAMBISTAS. 1964. Casa dos Estudantes do Império. Foto de Carlos Ervedosa. António Faria à direita, Rui Veiga Pinto « Figov » (com óculos) ao centro e eu (Artur da Costa) atrás dele
A Fuga, 1967-68
Essa recruta era para formação de oficiais milicianos. A primeira parte da recruta passava-se no Huambo, a segunda no quartel Grafanil em Luanda. Eu nunca iria fazer a guerra deles.
Em Luanda, o Beto Van Dúnem tentava encontrar maneiras de me fazer fugir. O Beto era um dos que fizeram parte do «Processo dos 50 ». Esteve preso muitos anos no campo de concentração do Tarrafal em Cabo Verde. Quando foi libertado, ficou uns dias em Lisboa onde frequentava a Casa dos Estudantes do Império. Foi assim que o conheci. Muito me ajudou em Luanda nesse período tão difícil para mim.
Uma noite, no Grafanil, um dos oficiais instrutores veio buscar-me ao dormitório. Disse-me que havia algo de grave comigo, que tinha colegas oficiais ali no quartel que me queriam meter uma bala na cabeça! Indicou-me que no dia seguinte eu ia ser posto fora do quartel e mais tarde enviado para uma «companhia disciplinar», um centro penal do exército.
No dia seguinte efectivamente sai do Grafanil. Apanhei o autocarro da carreira e fui para o Huambo esperar pelo que ia acontecer comigo.
Entretanto, matriculei-me no Curso Superior de Letras criado no Lubango, e parti paraessa cidade. Fiquei em casa de amigos à espera que as aulas começassem ou que os militares me chamassem. O que aconteceu pouco depois, não pude sequer começar as aulas.

Legenda: Bilhete de identidade nº 1349 emitido pelo Estudos Gerais Universitário de Angola pertencente a Artur Miguel da Costa Salgado da Silva- Colecção Privada de Artur da Costa
Voltei para o Huambo e fui ao quartel buscar a guia de marcha como me tinham dito para fazer. Mandavam-me para Portugal sem dizer para onde, mas nós sabíamos que havia nesse país, na vila de Penamacor, uma « companhia disciplinar » onde os jovens perseguidos por razões políticas eram treinados como soldados rasos junto com ladrões e criminosos de direito comum. E depois enviados para uma das frentes de guerra contra os combatentes das lutas de libertação em Angola, na Guiné ou em Moçambique.
Quando me apresentei no quartel do Huambo para receber a guia de marcha para partir para Portugal, senti e vivi uma situação de guerra civil. Naqueles anos de Luta pela Independência, havia famílias divididas, amigos que se tornaram inimigos. Uma situação de guerra civil dentro da Luta de Libertação. O oficial que me recebeu, falou para alguém que estava no escritório ao lado, pedindo para trazerem o meu dossier. Ouvi um tipo a gritar: «Este gajo devia estar na prisão!». O tal que gritou no escritório ao lado devia estar a ler o meu dossier. Não sei que coisas horríveis a PIDE tinha escrito sobre mim. O tal tipo enervado apareceu então com o meu dossier e quando me viu, parou espantado. Tínhamos andado juntos na escola primária e tínhamos brincado juntos quando éramos crianças, se calhar fomos alunos no mesmo colégio. Os anos passaram e agora estávamos um diante do outro como inimigos. O tipo deu meia volta e desapareceu no escritório ao lado.
Fui para Luanda onde tinha de embarcar no velho navio «Quanza » que fazia a sua última viagem. Desta vez ia só carregado de tropas que regressavam a Portugal. Ao fim da tarde, apoiado à balaustrada do navio vi afastar-se da Ilha onde tinha vivido os primeiros anos da minha vida. Tinha sido expulso de Angola pela PIDE.
A Formação de Capitães de Abril e a Deserção
Os barcos portugueses não podiam parar nos portos africanos, a viagem foi longa, 17 dias se bem me lembro. Eu era um personagem estranho no meio de toda aquela tropa colonial, ainda fardado com o uniforme de cadete do curso de oficiais milicianos. A meio da viagem houve dois jovens furriéis que viram que eu estava ali perdido, vieram ter comigo. Senti que podia confiar neles. Quando se vive durante muito tempo a militar de maneira mais ou menos clandestina, cria-se um sexto sentido que permite sentir quando se pode fazer confiança a alguém.
Nós sabíamos em Angola e na CASA que o Partido Comunista Português aconselhava os seus jovens militantes a não desertar, a ficar no exército para fazer política, para sabotar, para influenciar os oficiais de carreira contra o sistema colonial. Ao que parece, essa foi uma maneira de formar politicamente alguns dos capitães que mais tarde fizeram a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal.
Reuniamo-nos a três no camarote do chefe das máquinas do barco, um senhor de certa idade que era certamente da mesma tendência política que os dois furriéis que me contavam o que tinham feito em Angola dentro do exército para causar problemas, para sabotar a máquina de guerra colonial.
O barco chegou a Lisboa e eu sabia que tinha amigos angolanos que estavam à minha espera, quase todos antigos membros da Casa do Estudantes do Império que tinha sido encerrada pela Pide em 1965.
Havia muita confusão dentro do navio com os soldados que queriam ir para casa. Tinham estado no exército e na guerra durante quatro anos, que era na época o tempo obrigatório de serviço militar. Um dos dois amigos furriéis ofereceu-me o casaco militar que se tinha de vestir em Portugal e que não fazia parte da farda em Angola. Sem o casaco arriscava-me a não poder sair do cais. Consegui obter a guia da marcha para abandonar o porto e apanhar um táxi. Devia apresentar-me num quartel de Lisboa, chamado quartel dos Adidos, para saber qual era o meu destino.
Soube depois que um dos meus amigos, o Henrique Dinis da Gama, estava à minha espera no cais, mas não nos vimos. Apanhei um táxi e fui a casa do Tony Neto, o irmão do Helder Neto de que já falei. Pedi-lhe para guardar a minha mala. Soube mais tarde que nessa altura o Tony já era membro do MPLA. Estava a estudar medicina. Foi um dos primeiros Ministros da Saúde na Angola independente.
Tony Neto foi um dos réus do processo do padre angolano Joaquim Pinto de Andrade em Lisboa, em 1971. Entre os que fizeram parte deste processo, havia outros dois antigos membros da Casa dos Estudantes do Império : Álvaro Santos « Zefus » que tinha sido o representante clandestino do MPLA na CASA e José Ilídio Cruz membro muito activo da CEI, e fotógrafo das actividades da nossa associação.
Depois dele falecer, ao que me contaram, um familiar deitou fora as fotografias que o nosso amigo José Ilídio tinha tirado na CEI durante anos. Perdeu-se assim uma parte importante do património histórico da Casa dos Estudantes do Império.
Depois de sair do porto de Lisboa e de ter deixado a minha mala na casa do Tony Neto, encontrei o Rui Veiga Pinto «Figov», o António Faria e o Fernando Oliveira, todos do nosso grupo do Huambo.
Fui ao tal quartel dos Adidos, onde, depois de um telefonema, o oficial que me recebeu disse-me que me devia apresentar na Companhia Disciplinar de Penamacor. Era o que eu já sabia. Saí do quartel dos Adidos e disse logo aos camaradas que estavam à minha espera que não iria para Penamacor, que ia desertar, tinha que fugir.
A Fuga para Bélgica, Lisboa 1968
Eles estavam de acordo e levaram-me para casa dum amigo, antigo da CEI, o Octávio Ribeiro «Príncipe». Era uma casa de militantes contra o fascismo, a PIDE podia aparecer, eu só podia lá ficar durante algumas horas. Procuraram encontrar um alojamento mais seguro para eu ficar escondido até organizarem a minha fuga clandestina para o estrangeiro.
Foi o mais velho Luciano Meireles, um dos réus do conhecido « Processo dos 50 » em Luanda, que encontrou a solução com pessoas que ele conhecia. Um estudante, a quem a mãe tinha alugado um pequeno apartamento, aceitou esconder-me.
Era o Fernando Oliveira que estava a organizar a minha fuga clandestina, mas havia dificuldades nesse mês de Maio de 1968. Os estudantes e os operários estavam em grande revolta em França. Revolta que continuava em Junho. A fronteira da França com a Espanha governada pelo fascista Franco estava praticamente fechada, muito vigiada.
O tempo ia passando. Eu vivia momentos de angústia temendo ser descoberto. Por medida de segurança tive de mudar de casa três vezes. A mudança fazia-se à noite, era um dos momentos mais perigosos.
Já estava escondido em Lisboa há três meses, quando me avisaram que ia partir. Tony Neto veio buscar-me de carro. Não me lembro quem conduzia. Fomos em direcção ao Norte de Portugal. A meio caminho estava à minha espera o Fernando Oliveira. Mudei de carro, fui com ele até ao Porto. Chegámos à noite. Numa praça deixou-me com a pessoa que me ia fazer passar a fronteira. O que aconteceu umas horas mais tarde. Numa canoa fizeram-me atravessar um rio que devia ser o rio Minho, fronteira da Espanha.
Quando li a descrição da célebre «Fuga dos Cem» em 1961, constatei que uma parte dos fugitivos seguiu o mesmo itinerário que eu. Essa fuga, muito bem organizada, de dezenas de estudantes das colónias, muitos da CEI e outros dos lares das igrejas protestantes dos arredores de Lisboa, foi um acontecimento histórico.
O governo colonialista português perdia um grande número de quadros universitários. O livro « Opération Angola », de Charlie Harper e William Nottingham, publicado em 2017 e o filme da jornalista angolana Diana Andringa «Operação Angola – Fugir para Lutar» de 2015, descrevem muito bem esta célebre «fuga». Muitos dos fugitivos integraram os movimentos de libertação, outros foram estudar em diversos países com bolsas de estudo.
Volto à minha fuga em 1968, que continuou com muitos percalços e problemas por vezes perigosos. A passagem de Portugal para Espanha e deste país para a França era toda organizada pelos chamados « passadores » que tinham sido pagos para isso.
Refugiado das Nações Unidas, Bélgica 1968
Depois, fui eu que tive de continuar a viagem pela França até tentar chegar à Bélgica onde estavam à minha espera camaradas do tempos da CEI, segundo o que me tinham dito em Lisboa : devia ir para a Bélgica porque lá estavam amigos nossos e porque nesse país era mais fácil naqueles anos obter o estatuto de Refugiado das Nações Unidas. Tudo mudou, agora a Bélgica é um inferno para os emigrantes e refugiados, como os outros países europeus.
Depois de uma primeira tentativa falhada de chegar à Bélgica, foi finalmente um amigo da CEI, o cantor Luís Cília, que me recebeu em Paris, que encontrou a solução. O Cília era amigo de um casal belga cujo marido trabalhava em Paris e que ía às vezes visitar a mãe à Bélgica. Ela morava numa quinta perto de um bosque onde havia um posto de fronteira que fechava durante a noite. Foi assim que o casal me levou na pequena viatura deles, passámos de madrugada pela fronteira fechada e desta maneira pude entrar na Bélgica sem passaporte, clandestino.
Em Bruxelas fui tocar à porta do amigo que me tinham dado o endereço em Lisboa. Era o angolano Omar Karim Amad6, filho de um médico paquistanês de Luanda. Omar foi director da Reserva da Kissama muitos anos mais tarde. Disse-me para passar na casa de Caetano Fernandes «Banana», moçambicano, que morava ali ao lado e que me levou à casa, muito próxima, dos angolanos Lobato Faria e Dinah7, onde fiquei alojado. Eram todos efectivamente antigos membros da CASA. Poucos dias depois chegou o Rui Veiga Pinto «Figov», que também vinha pedir o Estatuto de Refugiado das Nações Unidas.
Estávamos em Agosto de 1968. Apresentei-me no escritório das Nações Unidas em Bruxelas para pedir o Estatuto de Refugiado. Comecei a trabalhar como empregado na cantina da universidade, a « Université Libre de Bruxelles » (ULB), situada no bairro onde viviam angolanos e moçambicanos. Em Outubro já ia às aulas da licenciatura em que me tinha matriculado.

Legenda : Estatuto de Refugiado na Bélgica do angolano Artur da Costa , Colecçao privada
2. Memória Documental
- A Dra Aida Freudenthal tinha lançado um projecto, não realizado, de depoimentos a publicar, escritos por antigos membros da CEI que vivem em vários países. Não sei quantos foram feitos. Junto para eventual publicação pela Plataforma História Social de Angola, dois desses textos : o meu texto intitulado « Antigos da CEI na Bélgica nos anos 60 », que completa este meu depoimento; e o depoimento (com fotografias) de Astrid de Carvalho : « Dos tempos da CEI à mobilização em Itália a favor da luta do povo angolano – anos 1967/80 ».
- Envio à Plataforma alguns documentos relacionados com o meu texto. Não são numerosos, os mais antigos e os mais importantes, perdi-os quase todos na minha fuga. Foram os meus pais que me trouxeram alguns, quando me vieram visitar à Bélgica nos anos 70.
- Participei na escrita dum livro colectivo sobre a nossa juventude no Huambo, « O Huambo e o Cinema Ruacaná ». Os autores são : Manuel Rui, António Faria, António Segadães, Fernando Oliveira e eu. Foi editado pela editora « Mayamba » em Luanda. Teve o lançamento no Huambo, no Centro Cultural Manuel Rui, em Outubro de 2025, num anfiteatro cheio de estudantes. Houve também um lançamento na União dos Escritores Angolanos em Luanda em Dezembro do mesmo ano.
Depoimento Artur da Costa * – Segunda parte: entre a Bélgica e Angola
Antigos da Casa dos Estudantes do Império (CEI) na Bélgica nos anos 1960/70
Como já contei na primeira parte do meu depoimento, cheguei à Bélgica em Agosto de 1968. Tinha sido preso pela PIDE em Angola, e, depois de muitas perseguições e ameaças, decidiram mandar-me para Portugal, para a Companhia disciplinar de Penamacor. Sem a ajuda do Fernando Oliveira, amigo de longa data do Huambo, e de membros da Casa dos Estudantes do Império (CEI) já encerrada, António Ferreira Neto, Octávio Ribeiro “Príncipe”, Henrique Dinis da Gama, Rui Veiga Pinto “Figov”, sem esquecer o mais velho José Luciano Meireles, do “Processo dos 50”, eu não teria podido ficar uns meses clandestino em Lisboa e depois atravessar as fronteiras sem documentos. E em Paris, foi Luís Cília, também da CEI, que arranjou maneira de me fazer chegar à Bélgica.
Foi Fernando Oliveira que organizou a minha fuga clandestina. No momento da independência foi um dos juristas que escreveu a primeira Constituição de Angola. Foi também um dos criadores da primeira Faculdade de Direito angolana, da qual foi professor e director. Envio um artigo da sua autoria sobre o dia da Dipanda, publicado no Jornal de Angola.
Em Bruxelas encontrei logo à chegada o Omar Karim Hamad, de Angola, que tinha conhecido anos antes, em Luanda, o Caetano Fernandes “Banana”, de Moçambique, e o Lobato Faria e a Diná, de Angola, em casa de quem fiquei nos primeiros dias. Pouco tempo depois, chegaram a Bruxelas o Rui Veiga Pinto “Figov”, de Angola, e o Armando Ferreira, de Moçambique, onde já estava o Eduardo Medeiros, também de Moçambique. Eram todos antigos membros da Casa dos Estudantes do Império.
Conheci então o Carlos Soares de São Tomé e Príncipe, e a Manuela, igualmente de São
Tomé, casada com o Roque, que era de Angola como o Mário Nobre, João “Berro”e o António Setas. Mais tarde chegou o Gago da Silva, miúdo da Caála, que se tornou amigo de dois brasileiros, com quem fizemos um pequeno filme, algo surrealista que foi premiado num festival.
Houve outros angolanos e moçambicanos que estiveram na Bélgica nos anos 60/70, mas que não cheguei a conhecer. Sobretudo aqueles que viveram em Liège ou em Leuven e depois em Louvain – la Neuve, para onde transitou a secção francófona da Université Catholique de Louvain (UCL). Esta transição foi provocada pelos extremistas e separatistas flamengos em 1968, que expulsaram de Leuven os professores e alunos francófonos. Ficando assim nesta cidade unicamente a parte flamenga da universidade católica, a Katholieke Universiteit Leuven (KUL)
Na UCL de Louvain-La-Neuve e na KUL de Leuven, encontravam-se muitos estudantes da América Latina e de África. Foi o caso de Mena Abrantes, dramaturgo e encenador angolano, que só conheci quando me foi apresentado há uns anos no Teatro Elinga em Luanda. E também lá estava aquele que seria mais tarde músico e cantor de renome, José Barceló de Carvalho “Bonga”, de quem o Gago da Silva, que tinha residido em Louvain, me falava muito quando se mudou para Bruxelas.
Em Bruxelas estiveram igualmente outros moçambicanos, como o realizador Camilo de Sousa, mas que viviam num bairro distante e com quem não convivíamos. E na KUL, em Leuven (1966/77), esteve a moçambicana Perpétua Gonçalves, nas línguas e literaturas.
Havia igualmente uma comunidade caboverdeana e guineense, segundo se pode constatar a propósito de uma missão de contacto e organização do PAIGC que o poeta Onésimo Silveira, antigo sócio da CEI, teria efectuado em 1968 na Bélgica. No que diz respeito aos estudantes dessa comunidade, com os quais não tínhamos contactos, a maior parte devia frequentar a universidade de Leuven ou a de Louvain-La-Neuve.
Do mundo católico passaram nesse tempo pelo Instituto Lúmen Vitae, em Bruxelas, alguns sacerdotes e candidatos a sacerdotes provenientes de Angola e Moçambique. Estávamos aliás atentos aos escritos de missionários belgas e holandeses nestas duas colónias.
Comité Contre le Colonialisme et l’Apartheid
O Rui Veiga Pinto “Figov” e eu estivemos com o Óscar Monteiro, antigo da CEI, quando ele veio a Bruxelas em representação da FRELIMO para um meeting na Université Libre de Bruxelles (ULB) organizado por um comité belga de solidariedade, o Comité Contre le Colonialisme et l’Apartheid dirigido pela professora Paulette Pierson-Mathy da Université Libre de Bruxelles (ULB). Colóquio onde também estiveram representantes do MPLA e da SWAPO.
De igual modo, o Rui Veiga Pinto, o Lobato Faria e eu, estivemos com o Beto Traça, outro dos tempos da CEI, futuro general da Força Aérea Angolana, quando ele passou pela Bélgica. E o Rui Veiga Pinto, que fazia uma Licenciatura Especial em Direito Internacional na ULB com o professor Jean Salmon, assinalou-me que Joaquim Chissano, futuro Presidente de Moçambique, tinha feito uma brilhante comunicação sobre a defesa da Guerra de Guerrilha enquanto meio legítimo de fazer a guerra por parte dos povos oprimidos, na ULB, no ano académico 1970/71.
Na mesma época vinham a Bruxelas vários amigos angolanos. A Astrid de Carvalho, refugiada em Itália, em Milão, o António Faria e o Henrique Dinis da Gama, todos antigos da CEI, e também Carlos Pires que tinha feito parte do nosso grupo do Huambo (1) , nos tempos difíceis dos anos 60.
A propósito desse grupo, tivemos então notícias do Zé Carlos Veiga Pinto, que tinha ficado no Huambo onde estava a terminar o curso de veterinária, e também do mais novo do grupo, o Manuel Faria, que em 1966 saíra, enfraquecido e doente, da cadeia da PIDE em Luanda, e que antes tinha criado, em 1964, no meio de muitas dificuldades, a revista “Diálogo” do Cine Clube do Huambo, onde publicou autores angolanos (Arnaldo Santos, Ernesto Lara Filho) e artigos de cinema escritos por ele e por mim, que foram citados no livro “Angola o Nascimento de uma Nação, vol. II, O Cinema da Libertação” (2013).
O Primeiro Pôster do MPLA
O Carlos Pires tinha passado nessa altura por Bruxelas, a caminho da Argélia, para ir visitar o irmão, o Jorge, mais tarde general “Piricas” das FAPLA, e para levar as tintas e o papel necessários para imprimir o primeiro poster do MPLA, desenhado por Henrique Abranches.
Legenda: Primeiro poster do MPLA, realizado por Henrique Abranches. Estes posters foram legendados em quatro línguas, português, francês, inglês e alemão. Exemplar de Artur da Costa
Há uns anos, o angolano Manuel Salvador Ribeiro, antigo da CEI e um dos que fizeram parte da histórica “Fuga dos Cem” em 1961, ao saber que o Carlos me tinha oferecido um dos primeiros exemplares desse cartaz, contou-me que os trabalhos de serigrafia para o
imprimir, tinham sido efectuados nas salas do laboratório do Instituto Pasteur de Alger, onde ele tinha sido investigador e Chefe de Serviço.
O meu amigo Manuel Salvador Ribeiro tinha feito um brilhante doutoramento em Medicina Veterinária, em Itália nos anos 60. Depois da independência foi professor e director da Faculdade de Veterinária do Huambo. Vítima de um atentado em Angola, ficou inválido e doente. Trabalhador infatigável apesar da invalidez, nos últimos anos de vida exerceu funções de Adido de Imprensa e Adido Cultural na Embaixada de Angola em Bruxelas.
A universidade, a investigação e a actividade política
Éramos quase todos alunos na ULB (2), dispersos por vários cursos, dos quais são de referir aqui, no que nos interessava de África, a Antropologia, a Sociologia, a Economia, a História, a Arte e as Ciências Políticas. Em todos estes cursos havia professores e assistentes com uma experiência africana e titulares de cadeiras vocacionadas para questões africanas, por vezes muito controversas para a “nossa revolução”. Todas essas questões eram transversais a todos nós, qualquer que fosse o curso.
O nosso interesse pela leitura, que evidenciei na primeira parte do meu depoimento, tornou-se ainda mais necessário no ambiente universitário da ULB onde a investigação exigia de nós um trabalho assíduo. Era a nossa principal actividade, continuada depois na carreira profissional. Por outro lado, os conhecimentos que íamos adquirindo esclareciam e ajudavam a nossa actividade política.
Assim, ficámos a conhecer as obras de vários autores: do belga Jan Vansina: Les Anciens Royaumes de la Savane, publicado em inglês em 1965, de que nos apareceu a edição francêsa por esses anos; de Jacques Maquet, outro autor belga: Les Civilisations Noires (1962) e Pouvoir et sociétés en Afrique (1970); de Georges Balandier: La vie quotidienne au royaume du Congo du XVIe au XVIIIe siècles (1965); a obra de Jacqueline Delange, Arts et peuples de l’Afrique noire (1968).
E os trabalhos dos nossos professores na Université Libre de Bruxelles (ULB), entre os quais:
Marie-Louise Bastin, grande especialista internacional da cultura e da arte clássica dos povos de Angola, Art décoratif Tshokwe (1961), Tshibinda Ilunga : à propos d’une statuette de chasseur ramenée par Otto H. Schütt en 1880 (1965), Tshibinda Ilunga : héros civilisateur – à propos de statuettes Tshokwe représentant un chasseur (mémoire-1966), L’art d’un peuple d’Angola : I. Tshokwe ; II. Lwena ; III. Songo ; IV. Mbundu (4 trabalhos publicados entre 1968 e 1969 na revista “African Arts”/”Arts d’Afrique”), Masques et sculptures Ngangela (1969), Quatre statuettes anciennes de chef Tshokwe (1969), Y a-t-il des clés pour distinguer les styles Tshokwe, Lwena, Songo Ovimbundu et Ngangela ? (1971) ; La sculpture Tshokwe : essai iconographique et stylistique (tése-1973).
Luc de Heusch [também cineasta ligado ao movimento CoBrA], Le Rwanda et la civilisation interlacustre. Études d’anthropologie historique et structurale (1966), Pourquoi l’épouser? Et autres essais (1971), Le roi ivre ou l’origine de l’État [Mythes et rites Bantous] (1972).
Aliás, as mémoires (téses) que escrevíamos para obter a licenciatura na universidade, tratavam de assuntos ligados às nossas terras de origem. A minha foi em grande parte sobre obras de escultores Ovimbundo que se encontram no espólio do África Musée de Tervuren-Bruxelas. Foi a professora Marie-Louise Bastin que me aconselhou e me deu acesso a essas esculturas.
Convêm referir aqui que alguns de nós frequentavam a Bibliothèque Africaine, na Place Royale, e o Museu de Tervuren (Musée Royal de l’Afrique Centrale – Africa Musée), com uma fabulosa colecção de Arte Africana, da qual, peças riquíssimas de Angola. (Aliás, víamos com espanto e alguma raiva, muitas peças angolanas, em lojas privadas de arte africana no centro da cidade, que tinham chegado ali não sabíamos como!) Na Chaussée d’Ixelles, muito próximo da Place Ferdinand Coq havia a Livraria Africana (3) do portuense António Enes Ramos, marido da professora Marie-Louise Bastin.
O Ambiente Panafricanista na Universidade de Bruxelas
Inúmeros foram os meetings em que participávamos na Universidade. Estávamos numa época de grandes controvérsias políticas e ideológicas, com enormes reflexos em África, exacerbadas durante os acontecimentos de Maio 68, em França, que tiveram repercussões na Bélgica, em particular no meio estudantil. Mas, mais importantes, eram as lutas de libertação em África, os movimentos revolucionários na América Latina e a longa guerra do Vietname. Lembro-me que o amigo angolano, Lobato Faria, me contou que havia mesmo na Universidade uma importante comunidade de estudantes vietnamitas que estava profundamente dividida entre os que apoiavam a luta contra a invasão norte-americana e os que eram favoráveis ao regime de Saigão.
Nós seguíamos com atenção os dramáticos acontecimentos no Congo (Leo), nos Camarões, e noutros países africanos. Seguíamos com interesse as publicações em Bruxelas de Jules Chomé: Moise Tshombe et ‘escroquerie katangaise (1966), Mobutu et la contre-révolution en Afrique (1967), Le drame du Nigéria (1969), e L’Ascension de Mobutu, du Sergent Désiré Joseph au Général Sese Seko (1974). Continuávamos envolvidos nos movimentos contra o Apartheid e para a libertação de Mandela e seus companheiros.
Chegávam-nos informações sobre a repressão colonial e sobre o julgamento de angolanos em Lisboa, em 1971, no processo de Joaquim Pinto de Andrade, Presidente Honorário do MPLA, onde também se encontravam no banco dos réus antigos membros da CEI, Álvaro Santos “Zefus”, José Ilídio Cruz e António Ferreira Neto.
O Angola Committee e o Mozambique Bulletin
Como me lembrou o amigo moçambicano Eduardo Medeiros, alguns de entre nós estavam relacionados com o Angola Committee[9], de Amsterdão, e recebíam a sua publicação Facts and Repports (Da Costastraat, 88, Amsterdão), para a qual colaboravam, aliás. Os mesmos mantínham algumas ligações com o movimento britânico anti-apartheid, do qual tiveram conhecimento e receberam: Modern África – 1870-1970, de Barry Williams (1970), e África Discovers Her Past, de J. D. Fage (1970). Relações cautelosas, porém, porque o meio estava certamente infiltrado e esses movimentos também. Havia por isso uma caixa postal de destinatário belga que os ajudava. Chegava também a Bruxelas o Mozambique Bulletin vindo de Argel ou Dar-es-Salam.
De Itália, onde a angolana Astrid de Carvalho exercia intensa actividade militante a favor da independência de Angola, trazíamos livros como “Storia dell’Angola” (1968), com prefácio de Joyce Lussu, tradutora da poesia de Agostinho Neto (esta “História de Angola” tinha sido escrita e publicada inicialmente em Alger, em 1965, pelo Centro de Estudos Angolanos, criado e dirigido por Henrique Abranches), e “MPLA/ Angola: una rivoluzionze in marcia”, com textos recentes sobre a luta de libertação, reunidos por Mário Albano, Edizione Jaca Book (1972).
Mas era em Paris que na altura se publicavam mais livros e revistas sobre África. Destacamos as publicações da Présence Africaine e L’Afrique Noire Pré-coloniale, de Hubert Deschamps (1969) e La Mort Sara, de Robert Jaulin (1967). Líamos igualmente as reflexões sobre a questão colonial nos Cadernos de Circunstância, de um grupo de Paris ao qual pertencia Alfredo Margarido, antigo da CEI, e na revista Polémica, do grupo de Genebra. Em 1974, o investigador português Eduardo de Sousa Ferreira publicou (com uma introdução de Basil Davidson): Le colonialisme portugais en Afrique: la fin d’une ère. Também foram importantes as publicações do movimento terceiro-mundista inspirado na Conferência Tricontinental de Havana (1966).
Encontrava-se em Bruxelas um grupo de jovens portugueses (quase todos estudantes como nós) que tinham saído de Portugal por razões políticas ou para não participar na guerra colonial. Sabíamos que a maioria deles estava engajada na luta contra o governo fascista e contra o colonialismo. Integravam movimentos distintos, do comunismo clássico (relacionados com o PCB e PSB), do maoismo (Jacques Grippa), do trotskismo (Ernest Mandel), do guevarismo, etc. E, em Janeiro de 1968, realizou-se em Bruxelas uma reunião promovida pela organização portuguesa LUAR, na qual participaram alguns refugiados das colónias. Todos estes Movimentos tinham as suas posições sobre as questões africanas e as colónias portuguesas, assim como sobre o apartheid na África do Sul. Cada qual queria envolver-nos à maneira deles.
Desertores Portugueses , 1961
Aquele que ficou sempre ligado aos angolanos foi o Alberto Pinto[10], o conhecido “cabo Pinto”, que tinha vivido momentos dramáticos que marcaram a sua vida, durante a difícil e perigosa deserção do exército colonial no Norte de Angola em 1961, junto com o oficial médico Mário Pádua. Foi o primeiro caso de deserção de militares portugueses que se encontravam na frente de combate. Quando conseguiram passar a fronteira foram considerados espiões pelos soldados congolenses e estiveram à beira da morte, tendo sido finalmente salvos pela intervenção dos angolanos do MPLA que se encontravam no Congo (Leo). O Pinto, sempre pronto a ajudar os amigos angolanos, era em Bruxelas um militante activo contra o regime colonialista português.
O Argumento do Filme a CASA
Depois de terminar o meu curso de História da Arte e Arquelogia na ULB, frequentei, durante um ano o IAD, Institut des Arts de Diffusion. Era uma escola de cinema, onde o futuro realizador português Rui Simões, que eu tinha conhecido no bairro da Universidade, estava a terminar os estudos. Realizou “Deus, Pátria, Autoridade” e “Bom Povo Português”, as duas longas metragens essenciais para conhecer e comprender a revolução do 25 de Abril em Portugal. Também realizou e produziu filmes em Angola, entre os quais um belo documentário sobre o seu amigo de juventude em Lisboa, o artista angolano António Ole. E há anos voltou a Bruxelas para filmar os sítios onde viveu o seu exílio belga, que integrou num documentário, “Guerra ou Paz” , sobre os refratários e desertores do exército colonial. Realizou também o filme “A CASA” sobre a Casa dos Estudantes do Império. Escrevi com ele as cenas de ficção desse documentário, adaptadas do primeiro capítulo do romance “A Geração da Utopia” de Pepetela.
Solidariedade e ajuda aos movimentos de libertação na Bélgica
Nos anos 1950, Mário de Andrade veio várias vezes à Bélgica, a Bruxelas e a Liège, onde havia partidos políticos e organizações de solidariedade que ajudavam os movimentos de libertação das colónias portuguesas.
No 1° volume de “Um amplo Movimento… – Itinerário do MPLA através de documentos e anotações de Lúcio Lara”, encontram-se, em cartas de Mário de Andrade e de Lúcio Lara, referências ao jornal “La Gauche”, cujo director era Ernst Glinne, do Partido Socialista Belga, que já no fim dos anos 50 publicava artigos sobre a repressão colonial em Angola, numa altura em que a opinião pública europeia pouco ou nada conhecia sobre as colónias portuguesas. Um desses artigos foi escrito por Mário de Andrade, que esteve na Bélgica com Ernest Glinne: “Por detrás da cortina da mentira e do medo – Inquietações e vagas de terror em Angola” (transcrito no anexo 11 do livro citado de Lúcio Lara).
Encontrei na Bibliothèque Royale de Belgique, em Bruxelas, um outro artigo, não assinado, publicado também no jornal “La Gauche”, no n° 38 de 30 de Outubro de 1959, sobre a situação em Angola: “Terreur policière en Angola”. Penso que deve ter sido escrito ou pelo menos orientado por Mário de Andrade.
Numa carta endereçada a Viriato da Cruz, em Novembro de 1959, Lúcio Lara escreve: Já saiu o artigo da “Gauche”. Ocupa uma parte inteira, com o título TERREUR POLICIÈRE EN ANGOLA.
Este artigo foi um dos dois primeiros a ser publicados em jornais internacionais sobre a situação colonial em Angola, antes do começo da Luta de Libertação a 4 de Fevereiro de 1961.
Mário de Andrade orientou também em Liège a publicação de uma importante brochura sobre o “Processo dos 50” em Luanda.
Antes da independência de Angola, o Presidente Agostinho Neto esteve três vezes na Bélgica, onde foi recebido a alto nível por representantes do mundo político, sindical e católico, em encontros organizados pelo Comité Contre le Colonialisme et l’Apartheid, presidido por Paulette Pierson-Mathy, professora de Direito Internacional na Université Libre de Bruxelles (ULB).
Um aspecto importante de actividade dos refugiados vindos das colónias e dos opositores portugueses na Bélgica foi a denúncia da guerra colonial junto da opinião pública local, através da imprensa, de mesas redondas, panfletos, etc., não esquecendo que o país albergava a NATO e em Bruxelas estava a sede do Mercado Comum, a futura União Europeia. E havia também um importante apoio humanitário aos movimentos nacionalistas, de sindicatos e de organizações não governamentais como OXFAM Solidarité, ou de obediência religiosa como Entraide et Fraternité… Sem esquecer que a guerra de libertação nas colónias portuguesas contribuiu igualmente para o redimensionamento da acção política dos movimentos de esquerda na Europa.
Legenda: Bruxelas, 1974. Agostinho Neto, Eugénia Neto, Saidi Mingas. A organização internacional de solidariedade OXFAM BELGIQUE entrega uma contribuição para ajudar o MPLA, Foto OXFAM BELGIQUE
Fui colaborador do Comité Contre le Colonialisme et l’Apartheid (CCCA) / Comité Afrique Australe (CAA), dirigido pela professora Paulette Pierson-Mathy da ULB, na produçao de documentos de análise e informação e na organização de conferências internacionais sobre Angola no Institut de Sociologie de l’Université Libre de Bruxelles (ULB).
Organizei, com a ajuda do escritor belga Eddy Devolder, o dossier Angola, Terre, Peuples Oubliés da revista belga “Avancées” em 1992, com artigos do escritor Manuel Rui, Paulette Pierson-Mathy (Université Libre de Bruxelles), Marie-Luise Bastin (Université Libre de Bruxelles), Pierre Halen (Université de Bayreuth, Alemanha), Eddy Devolder (École Supérieure des Arts de Tournai). Também escrevi dois textos para esse dossier.
Fui convidado com a professora Paulette Pierson-Mathy para representar o Comité Afrique Australe (CAA) na Conferência Internacional ”Angola, Direito, Democracia, Paz e Desenvolvimento” organizada em 2001 em Luanda pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.
Tenho traduzido para francês livros de Pepetela, em colaboração com romanistas belgas.
Participei recentemente como conferêncista numa Conversa da Academia Angolana de Letras: uma homenagem à minha professora Marie-Louise Bastin da ULB, que me ajudou a conhecer a arte clássica dos povos da minha terra.
Há sempre mais para contar. Pode-se mesmo escrever um livro. Esta segunda parte do meu depoimento é obviamente muito diferente da primeira. Na Bélgica, já longe da repressão criminosa do regime colonialista português, pude militar pelo meu país sem o perigo de ser preso, torturado ou assassinado.
Pude também finalmente concluir um percurso universitário, formar família e ter um filho.
Depois da independência, as actividades, os contactos e as viagens entre a Bélgica e Angola, fazem parte da minha vida pessoal como acontece com cada um dos angolanos da diáspora.
Texto modificado e actualizado a 6 de Julho de 2026
(1) A distribuição e a venda das publicações da CEI nos nossos países de origem eram feitas em geral pelos membros da associação, quando para lá partiam de férias, ou que as enviavam para lá. Foi o caso do Huambo, onde eu chegava com os livros e que, com o Manuel Faria, íamos a uma livraria, que se chamava “Argente Santos”, onde um empregado angolano, o Menezes, os recebia para venda e os punha na montra. Talvez com o assentimento do senhor Santos, o proprietário, que um dia me tinha mostrado e aconselhado a comprar uma interessante biografia de Lenine, da autoria de Gérad Walter, que perdi, mas de que pude recentemente voltar a adquirir um velho exemplar em Bruxelas. Foi assim que nos anos 60, estiveram expostos, na montra de uma livraria do centro da Nova Lisboa colonial, os livros de poesia de Agostinho Neto, Viriato da Cruz, António Jacinto…
Para Moçambique era o Eduardo Medeiros que enviava as publicações da CEI ao irmão , Emídio Medeiros, que as distribuía na Beira.
E, no sentido contrário, em 1964, quando o “ABC” editou em Angola o livro “Luuanda” de Luandino Vieira, que estava preso no Tarrafal, foi Henrique Dinis da Gama que levou para Lisboa os exemplares que foram vendidos pela CEI. Foram dois outros membros da CEI, Rute Magalhães e Carlos Ervedosa, que fizeram chegar o “Luuanda” às mãos dos membros do júri da Sociedade Portuguesa de Escritores que conferiu ao Luandino o Grande Prémio de Novelística, em 1965. Isto serviu de pretexto para que um bando de fascistas destruíssem então a sede desta Sociedade, que foi encerrada. Se bem me lembro, foi na noite seguinte a essa destruição, que a televisão apresentou um programa com vários protagonistas que atacaram violentamente o Luandino e falaram da CEI como sendo um centro de subversão. Recordo que estávamos reunidos no andar da biblioteca da CEI, com o Ferreira Mendes “Fofo”, o último presidente da Casa dos Estudantes do Império, quando apareceram os que tinham visto o tal programa na cave do café Rialva, do outro lado da rua. Quando nos contaram o que tinham ouvido sobre a CASA, pensámos que era o fim, que nessa noite a nossa associação também ia ser atacada e encerrada. Não foi fechada nesta noite, nem no dia seguinte, mas poucos meses depois, em Setembro de 1965. Eu estava em Angola nessa altura e ouvi a notícia do encerramento, na emissão em língua portuguesa da Rádio Brazzaville. Quando voltei a Lisboa, o “Fofo” Mendes contou-me a violência a que tinha assistido durante a invasão da CEI pela PIDE, e como tinha sido obrigado a constatar, como presidente, a espoliação dos bens e dos arquivos da associação.
(2) Université Libre de Bruxelles (ULB), universidade laica, criada em Bruxelas em 1834, quatro anos depois da independência da Bélgica, em oposição à Igreja Católica que na altura queria controlar todo o ensino no novo país.
(3) À livraria de António Enes Ramos e às organizações políticas e de solidariedade belgas, em particular no que diz respeito a Angola, chegavam livros que nos foram extremamente úteis. De 1967: Angola, Cinco Séculos de Exploração Portuguesa, de Américo Boavida (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira); Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Poesia. Antologia temática, por Mário de Andrade (Argel, Dezembro, 2ª Edição) – A direcção literária da colecção era de Mário de Andrade, Sérgio Vieira, Tomás Medeiros, e era produzida na gráfica C. P. Heineken. Correspondência para 162, Avenue Abdelkader Ziar, St. Eugène, em Alger. Muitos poetas angolanos fazem parte da antologia. De 1969 : Consciência da Luso/Tropicalidade (Seus princípios humanistas, sua visão da África Pré-Portuguesa, Sua constituição, seu futuro e responsabilidade), por António Ferronha (Luanda, Angola) ; La poésie africaine d’expression portugaise: évolution et tendances actuelles (Antologie), par Mário de Andrade (Paris, Pierre Jean Oswald, Colection P.J.O. Poche). De 1970: Distribuição Étnica da Província de Angola, por José Redinha – Luanda, Centro de Informação e Turismo de Angola). De 1971 : La guerre en Angola. Étude socio-économique, par Mário de Andrade et Marc Ollivier (Paris, François Maspero); La révolution en Afrique. Problemes et perspectives, par João Mendes (Boulogne, 2ème édition, Préface Jean Suret-Canale, Postface Mohamed Harmel) – Embora de origem moçambicana, João Mendes viveu em Angola e esteve ligado em França ao grupo da FUA ; Reflexões sobre a arte negra (Ensaio), por Mesquitela Lima (Luanda, Instituto de Investigação Científica de Angola, Relatórios e Comunicações, Ilustrado); Vidas Novas, de Luandino Vieira (Publicado em Paris por Madame A. Bros) – À venda em Bruxelas no mês de Janeiro de 1972. De 1972 : A propos d’un livre récent: Mythes, légendes et objets plastiques dans l’histoire Chokwe, par Alfredo Margarido. In: Société Française d’Histoire d’Outre-Mer, Tome LIX, N.º 216, 3e Trimestre 1972: 491-504 (Separata) ; L’empire Austral (10.III. Empire Austral et Unité Africaine en 1971, pp. 464-471), in: Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot, Paris, Maspero, 1972 (Cahiers Libres 234-235) ; Les partis de la lutte armée (10. V. Empire Austral et Unité Africaine en 1971, pp. 494-508), in: Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot, Paris, Maspero, 1972 (Cahiers Libres 234-235) ; Luttes armées africaines (10.IV. Empire Austral et Unité Africaine en 1971, pp. 472-493), in: Idéologies des Indépendances africaines, par Yves Bénot, Paris, Maspero, 1972 (Cahiers Libres 234-235). De 1973 : L’Afrique ancienne (I), de Basil Davidson (Paris, Maspero); A onda (poemas), de Manuel Rui (Coimbra, Centelha – Poesia do Nosso tempo, 6) ; Figuras antropomórficas dos cestos de adivinhação dos Quiocos, por M. L. Rodrigues Areia (Coimbra, UC, 1973); Práticas e ritos da circuncisão entre os Quiocos da Lunda, por José Redinha. Luanda, Fundo de Turismo e Publicações, 1973, 51 pgs. Ilustrado. De 1974 : L’ Angola Traditionnel (Une introduction aux probèmes magico-religieux), par M. L. Rodrigues Areia (Coimbra, UC) ; No antigamente na vida. Estórias, de Luandino Vieira (Lisboa, Edições 70).
*Membro da última Direcção da CEI em 1965
Professor reformado de História da Arte e de História do Cinema da “Académie des Beaux-Arts – École Supérieure des Arts” de Tournai (Bélgica).
(Nota: este texto, agora actualizado, fazia parte dum projecto, que não foi concluído, proposto pela historiadora Aida Freudenthal, para reunir depoimentos de antigos membros da CEI dispersos em vários paises. O meu amigo moçambicano Eduardo Medeiros ajudou-me, com as suas recordações e conhecimentos, na elaboração deste depoimento.)

Dos tempos da Casa dos Estudantes do Império (CEI) à mobilização em Itália a favor da luta do povo angolano – anos 1967/80, Astrid Cecília de Carvalho
Contexto do Testemunho de Astrid Cecília de Carvalho
O presente testemunho, bem como a segunda parte das memórias de Artur da Costa publicadas neste volume, têm origem no projeto de investigação concebido pela historiadora Aida Freudenthal, destinado à recolha de testemunhos de antigos membros da Casa dos Estudantes do Império (CEI) dispersos por diferentes países. A interrupção desse projeto impediu a publicação de um conjunto de memórias de elevado valor histórico, permanecendo inéditos vários testemunhos fundamentais para a compreensão da experiência dos estudantes africanos durante os últimos anos do colonialismo português.
No âmbito do trabalho desenvolvido pela Plataforma História Social de Angola (HSA), Artur da Costa decidiu rever, ampliar e concluir o texto inicialmente preparado para esse projeto, autorizando a sua publicação. Simultaneamente, “autorizou” a integração do testemunho de Astrid Cecília de Carvalho, entendendo que ambos os textos se complementam e permitem uma leitura mais abrangente da experiência vivida pelos estudantes angolanos na Casa dos Estudantes do Império e, posteriormente, na diáspora europeia.
A publicação conjunta destes dois testemunhos representa igualmente uma homenagem à memória de Aida Freudenthal, cujo projeto de preservação das memórias dos antigos membros da Casa dos Estudantes do Império permanece uma referência para os estudos sobre a história contemporânea dos países africanos de língua portuguesa. Ao recuperar parte desse trabalho inacabado, a HSA procura igualmente contribuir para a preservação do seu legado científico.
As memórias de Astrid Cecília de Carvalho possuem, contudo, um significado que ultrapassa o universo da Casa dos Estudantes do Império. O seu testemunho ilumina uma dimensão ainda insuficientemente estudada da luta de libertação nacional: o papel desempenhado pelos estudantes angolanos e por outros jovens africanos que permaneceram na Europa depois da repressão colonial, muitos deles ligados à chamada Operação Angola e às sucessivas redes de apoio aos movimentos de libertação.
A historiografia tem privilegiado, de forma compreensível, o estudo da luta armada, da ação diplomática oficial e das estruturas políticas dos movimentos de libertação. Menor atenção tem sido dedicada aos estudantes, intelectuais e refugiados políticos que, acolhidos por igrejas, universidades, instituições sociais, organizações estudantis, sindicatos, partidos políticos e movimentos de solidariedade europeus, desenvolveram um intenso trabalho de sensibilização da opinião pública internacional para a realidade colonial portuguesa e para a causa da independência de Angola e dos restantes PALOP.
O percurso de Astrid Cecília de Carvalho constitui um exemplo particularmente significativo dessa outra frente da luta. Depois da experiência vivida na Casa dos Estudantes do Império, da prisão pela PIDE e do exílio, estabeleceu-se em Itália, onde colaborou com jovens italianos e diversas organizações de solidariedade internacional, promovendo conferências, debates, campanhas de informação e iniciativas culturais dedicadas à realidade angolana.
O seu testemunho evidencia igualmente a proximidade com a família de Agostinho Neto e a actividade que desenvolveu, após a independência, na direcção do Escritório Comercial de Angola em Milão, contribuindo para a promoção da economia, da cultura e da imagem institucional do novo Estado angolano em Itália, em colaboração com a Embaixada de Angola em Roma.
Estas memórias demonstram que muitos dos movimentos europeus de solidariedade com Angola não surgiram desligados dos próprios angolanos. Pelo contrário, foram frequentemente construídos em estreita articulação com estudantes, intelectuais e exilados africanos que, através da sua experiência, conhecimento e capacidade de mobilização, desempenharam um papel essencial na criação e consolidação dessas redes internacionais.
Embora afastados das frentes militares, muitos destes jovens exerceram, na prática, funções de representação política, mediação cultural e diplomacia informal, tornando-se verdadeiros embaixadores da causa angolana junto das sociedades europeias.
Neste sentido, o testemunho de Astrid constitui uma fonte primária particularmente relevante para compreender formas de participação na luta de libertação que permanecem ainda pouco documentadas. A sua leitura contribui para alargar a compreensão do nacionalismo angolano, evidenciando que a independência foi igualmente construída através da ação de homens e mulheres que, a partir da diáspora, mobilizaram consciências, estabeleceram alianças e promoveram internacionalmente o direito dos povos africanos à autodeterminação.
Este testemunho adquire ainda maior relevância quando colocado em diálogo com outras memórias reunidas pela Plataforma História Social de Angola. Diversos episódios aqui narrados cruzam-se com os depoimentos de Artur da Costa e de António Santos Pinto e esposa suiça Bernardette que se conheceram numa reunião de apoio de jovens suiços à causada independência de Angola, membro da “Operação Angola” radicado na Suíça, bem como com outros testemunhos em fase de recolha. Esta triangulação entre diferentes memórias permite confirmar cronologias, identificar redes de sociabilidade, compreender percursos convergentes e revelar a diversidade das formas de participação da diáspora angolana durante o processo de libertação nacional.
A Plataforma História Social de Angola considera esta triangulação de testemunhos um dos pilares da sua metodologia de investigação. Cada depoimento é entendido não como uma narrativa isolada, mas como parte de uma memória colectiva em permanente construção, articulada com documentação escrita, fotografias, espólios pessoais, bibliotecas particulares, arquivos públicos e investigação académica. Esta abordagem permite produzir uma história social construída a partir das experiências dos próprios angolanos, valorizando simultaneamente a pluralidade de perspectivas e o diálogo entre diferentes fontes de conhecimento.
A publicação deste testemunho constitui igualmente uma homenagem póstuma a Astrid Cecília de Carvalho, falecida em 2018. Ao integrá-lo no seu acervo, a Plataforma História Social de Angola procura preservar o legado de uma mulher cuja acção cívica, política e cultural permanece inseparável da história da diáspora angolana e das redes internacionais de solidariedade com a independência de Angola.
Não se trata de um documento complementar ao depoimento de Artur da Costa, este texto representa uma contribuição autónoma para a história social de Angola. A sua publicação reafirma a missão da Plataforma História Social de Angola de recuperar, preservar e restituir à sociedade angolana memórias produzidas pelos próprios angolanos, contribuindo para uma história construída de angolanos para angolanos, em diálogo com a comunidade científica internacional e aberta às gerações futuras.
Dos tempos da Casa dos Estudantes do Império (CEI) à mobilização em Itália a favor da luta do povo angolano
Astrid de Carvalho*
Cheguei a Lisboa no mês de Novembro de 1961, e tive tempo de ver a chegada a Luanda dos militares portugueses que vinham defender os interesses do governo colonial, depois dos acontecimentos do 4 de Fevereiro e de 15 de Março. O MPLA e os outros movimentos de liberação do povo angolano tinham sido obrigados a começar a revolta armada. Até esse momento saíamos do liceu e éramos bombardeados de brochuras, com informações sobre a situação político social do país, que apanhávamos a correr e que escondíamos logo. Tínhamos reuniões clandestinas nos vários bairros, o meu era a Maianga, onde os mais velhos nos informavam, instruíam, numa palavra ajudavam-nos a abrir a mente e o coração para os problemas reais do nosso povo. Devo lembrar dois nomes, que infelizmente já não estão connosco, mas que foram muito importantes para na nossa formação: Helder Neto no liceu e Henrique Abrantes, que morava na vivenda gémea da minha e nos encantava todos os sábados quando voltava do mato com gravações de concertos de música tocada por miúdos com instrumentos feitos por eles. Tudo foi destruído pela PIDE, que ficou com tudo quando o foi prender, inclusive a maravilhosa coleção de arte que trazia das suas viagens no interior do país. E também recordo as informações e a ajuda que nos dava um senhor português que morava mesmo em frente da nossa casa, mas infelizmente não me lembro do seu nome e nem sei o que foi feito dele.
A minha chegada a Lisboa foi traumática. Fazia muito frio (para mim) e Lisboa era cheia de velhos e cegos, o que me impressionou muito, não estava habituada a tanta gente idosa, a nossa esperança de vida em Angola, na altura, era de 33 anos…
Comecei a frequentar a CEI em 1961 por ocasião de uma palestra sobre a energia do vento feita por um engenheiro cabo-verdiano, não me lembro quem me convidou, se o Henrique Dinis da Gama ou a rapariga que está sempre comigo nas fotos da época e de que não me lembro do seu nome.
Na CEI conheci pessoas maravilhosas, muitas já não estão connosco: o Paulo Jorge, e a Rute e Eva Magalhães (com as quais constituímos um grupo feminino), o Alfredo e a Manuela Margarido, os Meireles, o Fofo Mendes que foi nosso último presidente, o Gringas, o Rodinhas, o Eduardo Medeiros, o Mário Machungo com quem trabalhei como secretária da Assembleia Geral da CEI e do Henrique Guerra com quem exerci a mesma função na Assembleia Executiva, o Rui Mingas, o Óscar Monteiro, o Artur da Costa que até hoje é uma fonte de informações sobre a nossa Angola, ele e o Eduardo Medeiros, a Aida Freudenthal, o Artur Pestana (Pepetela), o Manuel Rui, o Luandino Vieira, a Vitória “Cachimbinha”, o Lobato, a mamã Domingas que nos servia a comida na cantina com tanto amor, e tantos outros amigos e companheiros maravilhosos. Na CEI publicávamos os nossos escritores e poetas, assistíamos a conferências, fazíamos teatro com o António Faria, praticávamos desporto, organizávamos festas e almoços com as comidas das nossas terras.
A certa altura perdi a minha bolsa de estudos, porque não consegui manter a média na universidade e comecei a trabalhar para poder manter os meus estudos. Em 1964 fui fazer um curso de francês a Tours e no fim do curso dei um salto a Paris, onde entreguei ao Paulo Jorge e ao Câmara Pires, da representação do MPLA em Paris, um relatório da CEI sobre o problema dos camarada brancos que estavam prontos para a luta.
No meu regresso fui recebida por amigos da CEI, à frente dos quais estava a Eva e o seu marido Matos Viegas. Senti-me muito importante e amada, mas na realidade esta recepção era devido ao facto que o Eduardo Medeiros estava preso e não tinha familiares em Lisboa para o ir visitar e portanto eles convenceram-me que eu tinha o dever moral de escrever uma carta à PIDE pedindo autorização para o visitar na qualidade de sua noiva. Escrevi a tal carta que foi recusada porque o Eduardo negou que fosse sua noiva, mas eu tinha feito o meu dever e não era culpa minha se ele não tinha visitas. Conto isto para mostrar de maneira concreta quanto éramos unidos e como o problema de um era o problema de todos. Éramos como os mosqueteiros, todos por um e um por todos, era este o espírito da CEI.
Em 64 começaram mais uma vez a ser presos elementos da CEI : a nossa Vitória de Almeida e Sousa foi a primeira a ser detida e ficou 3 anos na cadeia, seguida pelo Milton Almeida Tavira, o João Baptista que creio que esteve preso durante 4 ou 6 anos, o José Teixeira Lucas, na altura militar no exército português que fornecia informações aos movimentos de libertação, o que não lhe perdoaram, condenando-o a 9 anos de prisão, o Henrique Guerra, Presidente da Assembleia Executiva da CEI, condenado a 8 anos de prisão, eu, Secretária da Assembleia Executiva, e a Arminda Faria (enfermeira de Luanda e amiga de João Baptista). Eu e Arminda fomos postas em liberdade depois de 1 ano de prisão, tínhamos sido absolvidas pelo tribunal. Eu fui a última a ser presa, depois do Henrique Guerra e portanto já estava preparada. Mas tive tempo para fazer parte da mesa da última Assembleia Geral da CEI dirigida por Mário Machungo, futuro primeiro-ministro de Moçambique, quando “Fofo” Mendes era o presidente da CEI. A minha mãe queimou tudo o que encontrou com o nome da CEI e portanto hoje não tenho nada, nem o cartão nem os livros publicados pela CEI, nem sequer uma número da nossa revista “Mensagem”.
Depois de um ano de prisão, saí da cadeia de Caxias em 1965, magra e enfraquecida fisicamente e psicologicamente. Seguindo os conselhos do Dr. Arménio Ferreira, o nosso médico angolano da CEI, fiz um regime para me restabelecer e ganhar alguns quilos. Nisso fui ajudada pela Eduarda, amiga do Eduardo Medeiros. Vivi então no Algarve, no campo, numa casa de camponeses do PCP que me hospedaram 4 meses. Voltei depois para Lisboa e fui trabalhar para a Berliet como secretária da direção. Foram três anos difíceis. Todos os dias, quando saía de casa tinha um “acompanhador”, que me seguia todo o dia, e todas as pessoas que eu cumprimentava ou que encontrava eram controladas. Na direção da Berliet, arranjando os dossiers, encontrei um da PIDE, que continha os relatórios sobre todos os estudantes do Instituto Superior Técnico que
faziam ali os seus estágios. Tinha absolutamente de tentar fugir, abandonar tal situação.
Deixei Lisboa em 1968, encontrando trabalho numa companhia americana Publishe Representative que angariava estudantes para vender porta a porta assinaturas de revistas de vários países. Era para mim a maneira mais fácil de sair de Portugal, visto que se tratava de uma companhia americana. Depois do grupo de estudantes, do qual eu fazia parte, vender assinaturas em Portugal, Espanha e França, chegámos à Itália. Estávamos há uma semana em Itália, quando os chefes da Publisher Portuguesa foram obrigados a voltar para Lisboa. Tratava-se de uma vigarice. Soube depois que era uma companhia que fazia publicidade de várias revistas e tinha direito a uma assinatura anual grátis da parte das revistas de que fazia publicidade. Assim, nós vendíamos uma assinatura, por exemplo do Nouvelle Observateur, a três ou quatro pessoas, uma delas tinha sorte e recebia a tal assinatura gratuita. Os outros, não recebiam nada. Até que a vigarice foi descoberta…
Logicamente aproveitei para ficar em Itália onde fui bem recebida e encontrei, numa semana, trabalho como tradutora na Olivetti Publicidade, onde todos os trabalhadores eram intelectuais da esquerda.
Os milaneses eram muito curiosos e muitas vezes, enquanto esperava por um autocarro, perguntavam de onde vinha e aproveitavam para falar de Angola, que não conheciam. Era, de certo modo, o início das minhas actividades para informar sobre o meu país. E, um dia fui contactada por uma jovem senhora que era professora e começou então o meu trabalho de informação sobre Angola no meio académico, numa escola do ensino secundário. A ficha sobre Angola que usavam nessa altura no ensino, falo dos anos 70 e 71, era completamente errada, tanto do ponto de vista geográfico como político-social.
O segundo passo foi o de fundar com Gianna e Lucien Mégévand, Nicolò Giannotti, Adele Lombardi, Todeschini, Weiss, Sandro Sessa e outros um comité “Amici della Angola Libera” (Amigos de Angola Livre) para fazer contrainformação, porque em Itália governava a Democracia Cristã e a informação era toda contra o povo angolano. Muito pró Unita e portanto contra o MPLA, que era tido como um movimento filo soviético e portanto não tolerado pela maioria de direita que compunha o governo italiano. Tínhamos contactos com os jornais, nem sempre fáceis, com a televisão, sobretudo com o canal três e a rádio, sobretudo a Rádio Popular. Este comité Amigos de Angola Livre trabalhou com o Comité Anti-imperialista Amilcar Cabral, de Giancarlo Costadoni, com o Tribunal Russel de Lello Basso e com Movimento “Liberazione e sviluppo” (Libertação e Desenvolvimento) de Enrico Dodi. Fiz conferências sobre Angola promovidas pela ANPI (Associação Nacional Partiggiani Italiani), com os sindicados, trabalhei com o Tribunal Russel e participei em 76 na Algéria à elaboração do texto dos Direitos dos Povos. Nesta atividade de contrainformação fui muito ajudada por Venâncio de Moura, então representante do MPLA em Lisboa e que foi depois, em 76, o primeiro Embaixador da RPA (República Popular de Angola) em Roma, e pelo meu primo Henrique Santos “Onambwe”, então membro do Bureau Político do MPLA.
Depois de ter sido contactada pela jornalista Augusta Conchiglia, falei pela primeira vez em público em nome do MPLA, em Roma, em 1973, numa manifestação a favor dos movimentos de libertação de todo o mundo promovida pelos sindicatos e partidos da esquerda e também por movimentos da esquerda. A minha participação nessa manifestação assim como a mensagem que transmiti foram feitas de acordo com o camarada Venâncio de Moura, que, como já disse, era então o representante clandestino do MPLA em Lisboa. O representante do MPLA em Itália era um tal Manuel Jorge que não era muito claro nas suas posições políticas e que portanto não era de muita confiança. Eis a razão dos meus contactos com Lisboa e não com Roma.
Conheci também nessa época Leda Giulini e Joyce Lussu que ajudaram Agostinho Neto a fugir de Portugal. Leda e os seus filhos Gabriele, Iantra e Miguel, foram amigos de Agostinho Neto e da sua família. Quando Maria Eugénia Neto, esposa do Presidente Neto, vinha a Milão, era hóspede de Leda Giulini, e foi na casa dela que tive o prazer e a honra de a conhecer.
No dia 21 de fevereiro de 1976 foi feita uma manifestação em Milão para que a República Popular de Angola fosse reconhecida pela República Italiana. De facto, a Itália foi o primeiro estado europeu a reconhecer a RPA em 1976.
Sempre em 76, depois da abertura da Embaixada em Roma, promovemos em Milão, com o Movimento Libertação e Desenvolvimento (Movimento Liberazzione et Sviluppo) de Enrico Dodi, com a Embaixada de Angola em Roma e com o apoio do município de Milão, uma exposição no Museu Santa Croce sobre o novo ensino primário em Angola, foi um grande sucesso.
Em 1976 terminou a minha actividade de contra-informação, e passei a colaborar com a Embaixada de Angola. Trabalhei depois como responsável do Escritório Comercial de Angola, no Palácio África (representação em Itália do Ministério angolano do Comércio Externo) de 1989 a 1992, onde promovi o comércio, ajudas alimentares da CEE, a nossa cultura, o nosso cinema, sempre em colaboração com a Embaixada em Roma.
Em 1997, eu e a minha amiga Itala Vivan, professora universitária (que promoveu e promove escritores africanos em Itália, como foi o caso da publicação do primeiro livro de Pepetela publicado em Itália, “Mayombe”), participámos numa Conferência Internacional, em Bruxelas, a favor do povo angolano, organizada pelo Comité Afrique Austral, presidido por Paulette Pierson-Mathy e onde Artur da Costa era colaborador. Entre os convidados que tomaram a palavra nesta Conferência, Paulo Jorge, antigo da CEI, na altura Secretário do Bureau Político do MPLA para as Relações Exteriores, fez uma importante comunicação: “La problématique politique actuelle de l’Angola”. Eu tinha escrito um texto para este evento, “L’engagement politique des écrivains angolais”, que foi publicado pelo Comité Afrique Australe no livro das Actas da Conferência, “Angola, éléments d’analyse – Actes de la Journée de Solidarité, 24 mai 1997”.
Esta é, em síntese a minha história em Itália, nomeadamente em Milão, nos anos 1970/90.
*Secretária da Assembleia Executiva e da última Assembleia Geral da Casa dos Estudantes do Império (CEI).
Faleceu em 2018 em Milão
Envio aqui junto duas fotos da manifestação de 1976 e uma de um evento que organizámos no Palácio África – Feira de Milão. Entrego um prémio ao presidente da Feira em representação de todas as delegações Africanas depois de uma semana de manifestações culturais e encontros comerciais que chamamos Semana Africana, foi um maravilhoso exemplo do que pode fazer a unidade africana, só que limitada a Milão.
(Nota: este texto fazia parte dum projecto, que não foi concluido, proposto pela historiadora Aida Freudenthal para reunir depoimentos de antigos membros da CEI dispersos em vários países.)

Palavras Chaves: Cine Clube do Huambo|Rádio Clube do Huambo|Sócrates Dáskalos| União geral dos estudantes da África Negra| Cadeia de São paulo|Diana Andringa| Université Libre de Bruxelles|Julgamento de Angolanos em 1971| Dossier Angola Terre , peuples e Oubliées|Desertor do Exército Portugues| Refugiados| Processo 50|
Palavras Chaves: Comité “Amici della Angola Libera” (Amigos de Angola Livre)|Paulo Teixeira Jorge|Casa dos Estudantes do Império|Aida Fredenthal|Itala Vivan|Venâncio de Moura|Comité Anti-imperialista Amílcar Cabral| Giancarlo Costadoni|Tribunal Russel de Lello Basso|Movimento “Liberazione e sviluppo” (Libertação e Desenvolvimento)|Enrico Dodi
Autores: Artur da Costa e Astrid de Carvalho
Editor: Marinela Cerqueira
Imagens: colecção de Artur da Costa
Lisboa, 15 de Setembro de 2026
[1] Doutor pela FCSH UNL (Estudos Portugueses), Mestre pela (FLUL, História da Expansão e Descobrimentos Portugueses), Licenciado em História (FLUL).Frequentou a FDUC (1961), FDUL (1963), Estudos Gerais de Angola (Lubango,1967). Estudos primários e secundários no Lubango (Huila) e Nova Lisboa (Huambo). Ativista associativo (Cineclube do Huambo, Casa dos Estudantes do Império, Sindicato dos Profissionais de Cinema, Associação Portuguesa de Realizadores de Filmes, Associação “Casa dos Estudantes do Império”). Primeiros escritos «Georges Méliès», A Voz do Planalto, Nova Lisboa (Angola), 27 de maio de 1960. Primeiro programa: Tempo de Cinema (Radio Clube do Huambo, 1960).
Primeiros filmes, 1958 (Angola). Filme de estreia: A Chafarica (1970). Depois, Índia (1972), Ofensiva Popular (!975), Sertório (1976), O Homem que Matou o Diabo (RTP, 1978), Os Flagelados do Vento Leste (1986).
Centenas de documentários (RTP 1974-2003) entre os quais Edmundo Pedro Memória da Fuga do Campo de Tarrafal.
Pesquisa: Introdução ao Cinema Angolano, 1964; Consciência Crítica e Cinema Nacional, 1970; Miséria de Cinema, 1972, Casa dos Estudantes do Império: Itinerário Histórico, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1995; Linha Estreita da Liberdade, Lisboa, Colibri, 1997; «A morte de Mutu-ya-Kevela no relatório do Tenente Pais Brandão», sep. Clio, Revista do Centro de História FLUL, Lisboa, Colibri, 1997; Concepção de História e Prática Política. O Abade Correia da Serpa, Serpa, Câmara Municipal de Serpa, 2001; O Real e o Possível. Norton de Matos, Etiologia de um Estado e Fim do Império, Lisboa, De Volta a Tala Mongongo, Porto, Maranus, 2008, Lisboa.https://www.wook.pt/autor/antonio-faria/3341?srsltid=AfmBOooj2MIXWNm-6ccd0rd2OQDpoAmF-wkzXYgfDKZYK-ZrCw3We1Pi
[2] Corria o mês de junho do ano de 1959 quando O Planalto retorna às bancas, e cessa a produção da Voz do Planalto. Terá sido por esta altura que a tipografia adopta a denominação de Gráfica do Planalto. No ano de 1968, o Director é o Dr. Altino Vaz Monteiro, médico, sendo Gilberto de Mascarenhas o Director Consultivo. Serafim Molar é o Chefe de Redação. Esta equipa mantém-se pelos anos 70. https://ombilaiongombe.wordpress.com/2024/04/30/o-jornal-o-planalto/
[3] HISTÓRIA DA RÁDIO EM PORTUGAL, SEMPRE NO AR SEMPRE CONSIGO
… O casamento acabara, com Joana Campina Miguel a continuar a trabalhar em rádios do Huambo, Luanda e outras cidades. Ela refaria a vida com Sebastião Coelho e, além da rádio e do ensino, gravou música étnica angolana, não sabendo eu se ficaram preservadas cópias desses registos. A polícia política nunca deixou de acompanhar a vida da locutora, dando-a a residir em Lisboa em 1973 e a pedir colocação como professora.Em 1974, a Emissora Nacional readmitiu-a, reconhecendo que fora alvo de processo de despedimento no tempo após o final da II Guerra Mundial, agora como locutora de 1ª classe. Porém, pouco depois, deixava a rádio. https://radio.hypotheses.org/2019
[4] Luis Cília nasceu em Angola em 1943 e de acordo com a sua biografia em www.luiscilia.com:”Veio para Portugal em 1959, para prosseguir os seus estudos. Em 1962 conheceu o poeta Daniel Filipe que o incentivou a musicar poesia. Datam desse ano as suas primeiras experiências nesse campo ( “Meu país”, ” O menino negro não entrou na roda”, etc.), mais tarde incluídos no seu primeiro disco gravado em França, para a editora Chant du Monde. Em Abril de 1964 partiu para Paris, onde viveu até 1974.” Nesse mesmo ano, 1964, editou em França o primeiro LP “Portugal-Angola: Chants de Lutte”, disco editado pela prestigiada editora “Le Chant du Monde”. Nele constava a escolha de hoje e que foi o primeiro poema musicado por Luis Cília, “O Menino Negro Não Entrou na Roda”.Numa altura em que Portugal se encontrava em plena guerra colonial, o racismo é o tema abordado nesta belíssima canção com letra do escritor angolano Geraldo Bessa Victor. https://notaspassadas.blogspot.com/2017/10/luis-cilia-o-menino-negro-nao-entrou-na.html
[5] A Rua Castro Soromenho, que constitui uma homenagem ao primeiro administrador da cidade de Huambo, tem início na Praça de Lisboa e termina na Rua Artur de Paiva. É uma das ruas mais importantes da cidade baixa. O primeiro edifício a norte desta rua é o Palácio do Comércio, com entrada pela Praça de Lisboa. O primeiro a sul, foi sede do colégio Alexandre Herculano, fundado em 1933 pelo casal Alda e Abel Lara, tios dos poetas Alda e Ernesto Lara e do político marxista Lúcio Lara, que ali estudou, quando residiu em casa dos tios em Nova Lisboa. Outros edifícios icónicos são o Hotel Coelho e o Hotel Residencial. Entre os estabelecimentos comerciais que tiveram sede nesta rua destacam-se: Livraria Académica, Farmácia Ultramarina, Casa Branca, Alfaiataria Midões, Armando Lopes, Farmácia Sanitas, as antigas instalações da EVA, e a Farmácia Império, Casa Ouro, Livraria ALNUSA (mais tarde CASA DUMBA), Barbearia Coelho, Bar “A NAU” (do Teixeira), Livraria Argente Santos e Sapataria Oliveira. A Rua Castro Soromenho, que constitui uma homenagem ao primeiro administrador da cidade de Huambo, tem início na Praça de Lisboa e termina na Rua Artur de Paiva. É uma das ruas mais importantes da cidade baixa. O primeiro edifício a norte desta rua é o Palácio do Comércio, com entrada pela Praça de Lisboa.O primeiro a sul, foi sede do colégio Alexandre Herculano, fundado em 1933 pelo casal Alda e Abel Lara, tios dos poetas Alda e Ernesto Lara e do político marxista Lúcio Lara, que ali estudou, quando residiu em casa dos tios em Nova Lisboa.Outros edifícios icónicos são o Hotel Coelho e o Hotel Residencial. Entre os estabelecimentos comerciais que tiveram sede nesta rua destacam-se: Livraria Académica, Farmácia Ultramarina, Casa Branca, Alfaiataria Midões, Armando Lopes, Farmácia Sanitas, as antigas instalações da EVA, e a Farmácia Império, Casa Ouro, Livraria ALNUSA (mais tarde CASA DUMBA), Barbearia Coelho, Bar “A NAU” (do Teixeira), Livraria Argente Santos e Sapataria Oliveira. casa dos Estudantes do Império – Farol da Liberdade» na Câmara Municipal de Lisboa em 2015. https://ombilaiongombe.wordpress.com/2026/03/22/rua-castro-soromenho/?like_comment=1021&_wpnonce=bcb2cd852d
[6] Câmara Pires,membro de uma antiga família luandense, tinha participado na Guerra Civil de Espanha em 1936. Era um grande amigo de Agostinho Neto. Encontrei em jornais italianos notícias sobre a primeira visita do Presidente do MPLA a Itália em 1963, com artigos e fotografias. Numa das fotografias vê-se, numa conferência em Milão, Câmara Pires ao lado de Agostinho Neto e do dirigente moçambicano Marcelino dos Santos. Num convite para uma conferência de imprensa, Câmara Pires é designado como Ambasciatore del M.P.L.A. a Parigi.
[7] No seu exílio francês, Castro Soromenho é assíduo freqüentador da casa de seu amigo angolano Inocêncio da Câmara Pires, na Rua Hippolyte Maindron, que fora membro das Brigadas Voluntárias pela República que participaram da guerra civil espanhola[12]. Câmara Pires é, na época, o “assumido embaixador dos movimentos de libertação em Paris” (António Faria, 2006). Sua casa é o ponto de encontro das pessoas que fogem de Portugal e das colônias, principalmente aquelas com relações com o Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA. Por lá passam Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Mário Pinto de Andrade, Carlos Serrano, Paulo Teixeira Jorge e muitos outros.https://sobrecs.wordpress.com/biografia/
[8] Óscar Monteiro (OM): Nessa altura, já tinha começado a guerra colonial, em 1961, e quem estava em idade militar, que era o meu caso, já não obtinha passaportes. Mas havia uma oportunidade única que era a da viagem de estudo do fim de curso. Estava no quinto ano de Direito e quem pedia os passaportes era a universidade e a PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado] nunca recusava. Era uma espécie de falha do sistema. Davam até um passaporte muito simples, uma folha. E quando eu regresso da viagem qe nos levou até à Dinamarca, já tenho uma mensagem de Marcelino dos Santos que me entregou Paulo Jorge – que foi um grande dirigente do MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola] – dizendo-me: “vais organizar a célula da FRELIMO [Frente de Libertação de Moçambique] em Portugal e vais colaborar com duas pessoas, uma de Angola chamada Zefu – Álvaro Santos era o nome dele – e outro do PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde] que é o Jorge Querido e vocês vão montar uma rede dos três estudantes das colónias.” É assim que eu entro na FRELIMO.https://www.dw.com/pt-002/a-liberdade-faz-se-com-o-cora%C3%A7%C3%A3o-diz-%C3%B3scar-monteiro/a-17549928
[9] The Angola Comité (Angola Committee) was established in 1961 to support the freedom struggle in Angola. Leaders of the organization included Sietse Bosgra and Trineke Weijdema. The Angola Comité supported the struggle against Portuguese colonialism by the liberation movements MPLA (Angola), FRELIMO (Mozambique) and PAIGC (Guinea-Bissau and Cape Verde). It provided material support to those movements, organized a boycott campaign against Angolan coffee and support Portuguese war resisters. The whole of Southern Africa became the organization’s focus. In 1976, following the end of Portuguese colonialism, the Angola Comité was renamed the Komitee Zuidelijk Afrika (KZA) (known in English as the Holland Committee on Southern Africa) and concentrate its actions on the South African, Zimbabwean and Namibian freedom movements. KZA was involved in campaigns to isolate South Africa including campaigns for sanctions and divestment and against banks making loans to South Africa. With anotherDutch organization, Werkgroep Kairos (Working Group Kairos)
Stichting Kairos), the KZA was active in the Shell boycott campaign and helped establish the Shipping Research Bureau which monitored oil deliveries to South Africa. It also campaigned in support of the sports boycott of apartheid South Africa. The KZA had an important success in 1985 when it forced the banks to stop selling the South African gold coin, the Krugerrand. KZA provided material aid to liberation movements. After the end of apartheid, the KZA, the Anti-Apartheids Beweging Nederland (Dutch Anti-Apartheid Movement) and the Eduardo Mondlane Stichting (Eduardo Mondlane Foundation) established the Netherlands Institute for Southern Africa (NiZA). (Some pages of the website are available in English.)https://africanactivist.msu.edu/organization/210-813-693/
