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Pela Emancipação da Mulher, Maria da Conceição Caposso

Conceição Caposso, foi sensibilizada a partilhar as suas memórias pela sua filha Lourdes Caposso, poucos dias depois de a entrevistadora a abordar e apresentar-lhe a estratégia 25-27 da Plataforma História Social de Angola.  nossas expectativas foram ultrapassadas pela vontade e pela clareza da memória de uma cidadã nascida  na década 1930, provando ser possível colectar memória oral de excelência desta época.

As suas memórias centram-se na trajetória da luta clandestina urbana. Revela factos sobre as diferentes fases da luta de libertação.  sobre a clandestinidade  trata-os sempre pelo cognome clandestino , de Manos Cambutas, os factos  apresentam a importancia da clandestinidade urbana, enquanto  ponto de contacto e de envio de bens e comunicaçoes de e para as  regiões politico militares, o Congo e os controlados pela PIDE no inteiro das cidades, vilas e aldeias. Um casal de enfermeiros  enquadra-se em cada  célula clandestina consoante as cidades para onde eram transferidos, no caso estiveram em vários lugares, como Cabinda, Capelongo.

No âmbito do contexto do conflito armado iniciado  durante o período de transição, recorda a cadeia com outros contemporâneos e como foi a única mulher a ser deixada nas masmorras do Huambo com seu marido, também enfermeiro e o pai do músico Waldemar Bastos.  Chegou a viver profundos traumas de guerra.

Para além de ser enfermeira, foi mobilizadora social enquanto líder da OMA e nestas vestes adquiriu habilidades múltiplas e uma consciência social que não a permitem recordar e fazer muito mais para a consolidação dos esforços pela independência.

Por  tudo isso, prossegue a construção do  seu legado. Após reforma, durante o Covid -19 funda coms suas duas irmãs, a Associação Mabunda Okatissa, cuja acção principal é cuidar e criar meninas carenciadas. tratou dos documentos de identidade, matriculou-as, ensina-lhes arte e costura. assumindo a responsabilidade de monitorar duas vezes por dia, o cotidiano destas crianças.

Para além da memória oral, esta memória contém memória material, logo a seguir a recolha da memória oral conduziu-nos ao Lar das Kafecos. A recepção, a despedida e durante o convívio com metade das trinta meninas foi agraciada com músicas e louvores religiosos, graciosamente cantada em línguas nacionais e em portugues, os gestos e a pureza das letras  encheram-nos os olhos de lágrimas.

As meninas apresentara-se dizendo o nome, idade e a classe, ouvimos uma boa dicção. mostraram-nos os lavores: bordados diversos, incluindo a bainha aberta e o ponto cruz, crochet, tapeçaria e peças artesanais em palha, incluindo chapéus diversos e bases de mesa rematadas  com crochet.

Esta particularidade, de conhecer um lugar e sítio de memória viva de Conceição Caposso permite verificar a consciência social e o melhor entendimento da sua memória oral, aliando o passado, ao presente e ao futuro. Pois, certamente a sua forte transmissão de valores e tradições  tem relevância na  educação e no desenvolvimento destas crianças.

INTRODUÇÃO

Eu sou a Maria da Conceição Roque Caposso, os amigos da família conhecem-me por Mãezinha, porque eu sou xará da minha avó e em casa o papá e a mamã quando os filhos são xarás dos avós, os filhos são tratados por mãezinha ou por paizinho.

O meu pai por causa da PIDE foi para o Congo e nós ficamos aqui em Luanda. Eu nasci no Bairro Operário, no Município do Sambizanga, no dia 12 de Fevereiro de 1937.

ESCOLA RUI DE SOUSA, LOBITO

Depois, o meu pai foi para o Congo e mandou vir a minha mãe para o Congo. Apareceu o meu tio e disse-lhe: mana ao invés de apanhar um carro para ires para o Congo, vais por barco, desembarcar no Lobito. E vais de comboio até Teixeira de Sousa e o teu marido vai te buscar. Mas, isso não aconteceu, o meu tio gastou dinheiro e a minha mãe ficou sem dinheiro para poder ir connosco para o Congo. Descemos no Lobito e ficamos no Lira. Depois, fomos para a casa de uma amiga dela, mãe do Hermínio. Escórcio. Foi onde ficamos no Lobito estudamos.

ESCOLA BANANA E MEANS, BELA VISTA

Matriculados, eu estudei na escola Rui de Sousa. Passei para a 3ª Classe e veio uma ordem de Salazar, de Portugal, a dizer que só podiam estudar na escola primária quem os pais fossem assimilados. A minha mãe era quitandeira, não tinha bilhete de identidade, não era assimilada. quem nos matriculou na escola, a mim e a minha irmã mais velha foi a senhora Eduarda, a mãe do Hermínio Escórcio, no Lobito, na escola Rui de Sousa. E quando veio esta ordem a minha mãe foi para a Igreja Evangélica, na Canata. Falou com o Reverendo José Chipenda: as meninas não podem estudar porque a mãe não é assimilada. O pastor aceitou, mas depois a minha irmã mais velha adoeceu e a minha irmã mais nova a estudar. Estudamos, fiz a 4ª Classe e veio uma ordem da Igreja Evangélica que precisava de meninas para irem estudar na Escola MEANS.

E eu não sabia umbundo, mas já tinha a 4ª classe. Ensinaram-me a escrever e eu só fui copiando e passei para a Escola MEANS, no Dondi, Bela Vista. Fui interna, estudei, fiz a 4ª, a 5ª e a 6a classe e voltei ao Lobito. Quando cheguei ao Lobito Comecei a dar aulas na escola evangélica, chamava-se Escola Banana. Ensinei.

A CANDESTINIDADE URBANA E OS MANOS CAMBUTAS

E os mais velhos, os patriotas já se estavam a organizar, não ainda por causa da guerra, era clandestinamente. Não se podiam juntar dois a três homens, as mulheres em geral não se juntavam, eram mais os homens, dois a três homens iam logo presos. disseram e agora como é que vamos fazer? Há uma miúda bem expedita, vamos ensinar-lhe a fechar a boca, não se informa a mãe e nem nada! Já eu tinha dezasseis anos. vieram e falaram comigo, quem? O Sr. Júlio João Afonso e o Serqueira João Lourenço.

Assim que fui, aceitei, ensinaram-me todas as práticas. O que é que eles faziam? Juntavam-se dois, três e davam-me o bilhetinho: Vai levar ao tio fulano e não diz nada. Antigamente, eu chegava, e até hoje em algumas famílias ainda dão beijinho aos mais velhos, e eu chegava e dava os beijinhos aos meus velhos e aperto a mão do tio, entregando o bilhete e assim sucessivamente. O meu trabalho era esse da clandestinidade. A minha mãe não sabia o que eu fazia.

Desconstruiu aquela história. Eu dava-lhe a ler o que eu escrevia e nessa altura eu já tinha muita influência mais progressista dos que me circulavam, filosofias que me eram dadas para ver, ouvir e a acreditar. O professor Lázaro Búrias ao me ter aprovado para a candidatura a realizador e camarógrafo, fez com que eu mudasse a minha ideia em relação às pessoas. As pessoas não são aquilo que nós pensamos que elas são. Não são, nunca foram e nunca serão. As pessoas são o que são, ponto.

Em 1993, eu fui para a Namíbia e de lá para Johannesburg, África do Sul. Eu fui para emigrar e depois vir buscar  a família. Mas, as circunstâncias da vida levaram-me a encontrar-me com Louis Peter, um professor de Cinema e Artes da Universidade de Peter Whats Rand.

Chegou a uma altura , eles foram presos, os senhores Sequeira João Lourenço, Júlio António Afonso, Cunha, Fançony e muitos outros, todos foram presos. Eu estava a dar aulas e assustei-me, o polícia chegou e disse-me:

–             menina, está presa!

–             eu presa? e o polícia

–             vamos embora.

Pronto, fui. Avisei as crianças: vão dizer à mãe que a Mãezinha foi presa, o policial levou-a.

Lá fomos até a PIDE, cheguei:

–             és terrorista.

–             eu terror, eu, terror?

Porque antigamente havia uns livros pequeninos cujo título era Terror, então fiz alusão aqueles livros e fiz muita confusão.

–             Conheces o Sr. João Lourenço?

–             conheço.

–             conheces o Sr. Júlio?

–             conheço.

eu companhia-os a todos

–             Então, você é terrorista?

–             eu não sou terror, eu conheço sim, uns são meus tios, outros meus primos, mas eu não conheço o terror, não sei do terror.

E aí veio um policia, como eu estava a fazer muita confusão e muito barulho dá-me uma chapada da cara. E eu era muito clara, os dedos ficaram logo marcados e eu:

–             minha mãe disse não se bate na cara eu a discutir com o policial.

O Chefe da PIDE chega e diz:

–             crianças aqui?

–             é esse policial que me deu chapadas na cara Vê, é criança, é inocente.

–             e ele me está a dizer que eu sou terror (eu nem falava terrorista, falava em terror).

Tudo insinuando pelos mais velhos. O Chefe da PIDE disse:

–             eu sei lá, é criança.

–             eu vou te queixar na minha mãe, vou-te queixar a minha mãe que me deste chapada na cara.

E então o Chefe da PIDE soltou-me. A minha mãe já estava lá fora a cambalhotar-se com os panos delas. Minha mãe foi sempre quitandeira e usou sempre panos e é da Ilha:

–             Mãezinha za monami, za monami (vem minha filha em língua quimbundo)

–             Mãe, não me diz ‘’vem”, olha aquele policial que me deu cha-pada da cara

(apontando aos gritos para o polícia) E o Chefe da Polícia:

–             Inocente, deixem a criança A minha menina

–             não apontes, vamos embora.

Lá fui com a minha mãe. esse episódio passou. Naquele dia ja nao fui dar aulas, fui para casa e continuei a minha vida no Lobito.

CABINDA

Passados dois anos, casei-me com o senhor Silva Caposso, que é esse famoso Caposso e eu sou Maria da Conceição Roque Neto e Caposso é apelido do marido. O meu marido foi colocado pela primeira vez em Cabinda. lá vou eu com o meu marido para Cabinda, já tinha um filho e uma filha. Então, cheguei à Cabinda e encontrei o Sr. José Van Dúnem, o Sr. Mangueira e outros tantos mais velhos. Como eu já estava “com o ouvido” com a política da clandestinidade enquadro também o meu marido, enquadramo-nos todos e ficamos ali.

Nisto, aparece a PIDE, eu não sabendo que no meio desses da PIDE também havia um da clandestinidade que era o Director Nacional dos Serviços de Saúde. Disseram-lhes que o meu marido aos sábados ia na buala falar de política. E nesse dia encontram o meu marido a jogar a bola com o seu filho de dois anos, de calções, a jogar a bola “o pai chuta e o filho chuta” e eu sentada a fazer renda (esse vício de fazer renda já é antigo) havia um trabalho em renda em curso ao lado da depoente), e a minha filha bebé estava ali.

Lá fiquei a fazer a renda. Quando vi os senhores levantei-me:

–             onde está o senhor Silva Caposso?

–             o seu Silva Caposso está ali

–             é aquele?

–             sim senhor.

Lá vem ele a correr com o seu filhinho : Faz favor de entrar, então entraram no posto médico e lá ficamos, conversaram com ele, o Director Nacional de Saúde a olhar para ele a explicar, e eles a olharem, também estava o Director da Fazenda. Eu com boas maneiras perguntei-lhes:

–             os senhores querem um copo de água?

–             não, não, não esteja à vontade. Passado um pouco saíram.

Na semana seguinte, transferência, porque antigamente aos sábados saíam as transferências para os médicos e enfermeiros. O meu marido era enfermeiro e foi transferido para vinte cinco quilómetros do Lubango, na Huíla, e lá ficamos.

CAPELONGO, HUÍLA 1974

Engrenamo-nos outra vez com os outros, desta vez era já um outro grupo, com Maria Gourgel, Luísa Veríssimo, Padre Jorge Kandjimbo. O que nós fazíamos? Aos sábados eles vinham do Lubango até a Huíla e comemos  a fazer churrascos e estávamos a falar política. Quando chegava ao fim, o meu marido e outros traziam roupa, comida e quem é que levava a roupa e comida para os Manos Cambutas? O Jorge Kandjimbo. Os Manos Cambutas que são os terroristas (lembra-se no início quando digo “eu não sou terror’’).

Eu disse para um velho que estava no kimbo e ele é que transmitia para as matas. Quer dizer, nós ficamos aqui e os outros foram para as matas. Continuamos, saímos da Huíla, Luanda, Cabinda, Lobito, Huíla, Capelongo, sempre a nos enquadrarmos com os outros colegas. Até que fomos para Capelongo e de lá para Luanda. Outros colegas: N’Gongo, Bernardo de Sousa, Regina Marques e tantos outros.

E os outros já presos, como o Hermínio Escórcio. Como nós fazíamos? Antigamente, havia umas cigarrilhas pretas, nós embrulhamos o famoso bilhetinho que a família quisesse mandar. Fazíamos um cigarro, ponhamos assim (gestualmente explicando a substituição do tabaco pelo bilhetinho) e ponhamos no maço de cigarros e era esse o trabalho que nós fazíamos para apoiar os que estavam na cadeia, entre eles o marido da camarada Arminda Faria. Mas, ela não estava presa, era o marido, ele era Lobito. Lá ficamos trabalhávamos sempre “um olhar para outro, outro olha para o outro…, piscamos o olho” e trabalhamos sempre sem eles se aperceberem. Mas, fazíamos trabalhos na clandestinidade.

ENFERMEIRA NA CLANDESTINIDADE

Mas qual era o nosso trabalho no hospital quando eu já era enfermeira? Transmitíamos os bilhetes, dávamos os recados que a família mandava. E nós o que pudéssemos mandar para os outros: nesse cigarro ponhamos os bilhetinhos, dinheiro e a caixa de fósforos: não quer fumar um cigarro? O cigarro bom dávamos e os outros escondidos. Os chefes dos hospitais eram todos brancos e eles nem se podiam aperceber que nós estamos nesta luta.

Quer dizer, estou a explicar isso para verem que não foram só os do maqui que fizeram trabalho, nós também aqui na retaguarda trabalhamos.

E assim os nossos filhos foram crescendo, em casa sempre foram ensinados, de manhã o hino do MPLA, quando tocasse todas as crianças tinham de ficar de sentido para aprenderem o hino.

O meu primeiro filho foi 1º Secretário da Jota no Huambo e todos estavam enquadrados, uns na OPA e outros na OPA. Todos os meus filhos estudaram.

MPLA URBANO, HUAMBO 1975

Quando viemos outra vez para Luanda eu precisei de fazer a especialidade e o meu marido foi colocado para o Huambo, lá vamos nós. Aquilo era saltitar de sítio para sítio, hoje são províncias. fomos para o Huambo e ali aproveitei fazer a especialidade de partos e o meu marido continuou a fazer o trabalho dele como enfermeiro.

Quando os Manos Cambutas entraram (tomaram o Huambo), engajamo-nos a sério, o camarada Presidente chegou então nós nos enquadramos a sério, já não era clandestinidade. Então, formamos a OMA. Como não tínhamos as blusas da OMA, sabíamos que eram brancas com o símbolo vermelho, foram feitas pelos homens. O meu filho tinha muito jeito e fez um desenho de uma mulher. Nós já tínhamos a noção porque eles já mandam estas amostras dessas bandeiras durante a clandestinidade, bandeira do MPLA e aquele símbolo, o facho.

Por causa desse “facho” o meu cunhado foi preso, desmantelaram a casa toda, rasgaram os colchões e ele tinha guardado o facho para o meu cunhado, falecido, Manuel da Silva Araújo. Os outros senhores, o Hernâni, cada um guardou no seu sítio e ele guardou naqueles vagões. Ele teve de ir cavar outra vez para tirar as poeiras, nas carruagens para poder entregar os fachos. Entre eles havia um que ia informar o que os outros faziam.

11 DE NOVEMBRO DE 1975

Nós caminhamos e quando chega a guerra: em 1975, quando chega à independência, eu não a vi porque eu estava na cadeia da UNITA. Eu sofri todas as pessoas vão ficar escandalizadas, mas sofri muito! Ali não tinha mulher, não tinha homem, não tinha criança, todos presos, o CIR que estava lá , todos são presos. Nós as mulheres fomos violentadas, os nossos maridos a verem e eles todos ali.

No dia em que as FAPLA ganhassem a guerra (é guerra não é?), por exemplo, estavam a combater e quando as FAPLA ganhassem e eles derrotados… Começavam a nos violentar das vinte às quatro da manhã e os maridos de sentido a apreciarem eles a… E já antes disso,

entravam na cela, abriam a porta e se alguém tentasse levantar a cabeça era morto.

Nós enchemos duas valas grandes, depois da guerra fomos ver “os nossos camaradas ficaram mesmo”. Nós salvamo-nos por um triz.

E eu como falava umbundo, aprendi, ouvi-los a falarem, essa Conceição Caposso ela é a coordenadora da OMA, a baterem-me, a baterem-me e eu:

–             és a Coordenadora da OMA?

–             eu não sou da OMA, eu não sou da OMA (repetia)

–             não és da OMA, você não é mulher?

–             eu sou mulher, mas não sou da OMA, sou do MPLA.

Eu ouvi-os dizer: basta apanharmos a Coordenadora da OMA, ela vai nos dizer, vai nos indicar toda da OMA e nós vamos matar. Falaram isso em aprendo e eu ouvi. Então, tive de negar:

–             nao sou da OMA

–             então, você faz o quê no MPLA?

–             sou da saúde porque nós no MPLA temos estruturas, cada um consoante o seu trabalho, uns são da saúde, outros são da OMA e eu não sou da OMA e os miúdos são da OPA. mas, eu não sou da OMA.

E assim ficou. A Coordenadora da OMA estava presente, chamava-se Bernardete ou Odete, mas o nome de casa era Dete, mulher do Camarada Assis. Mas, eu depois de nos baterem dizia-me:

–             camarada Caposso diz a verdade, eu estou aqui.

–             mas, eu também vou morrer, se eu também sou da OMA, eu não digo. Se eu morrer, cuidem só dos meus filhos, mas eu vou dizer que você é da OMA, nunca.

E assim foi, chegou um dia em que todas as mulheres são libertas menos a Conceição Caposso. Eu só disse: Meus Deus se o meu destino é esse. As outras todas foram e eu fiquei lá e vieram para Luanda.

E nesta violência de nos baterem e violar estava a camarada Joana Junqueira, morreu o mês passado, é triste. Fiquei muito triste e nem tive conhecimento. É uma camarada que sofreu muito e as filhas também foram violentadas, não só elas (pode ser informação confidencial – apagar ou perguntar-lhes se autorizam essa revelação). De manhã eles experimentam como as crianças gritavam “Aí, está a me doer, aí pai, olha’’, eles os da UNITA e nós só chorávamos, não pudemos fazer nada. O que íamos fazer?

Qual é a comida que nos davam? Um quilo de feijão, aquela lata de azeite de palma, um quilo de fubá e um carapau, aqueles encarnados, isto para uma semana. A água, davam aqueles copos plásticos que davam para cada um. Nós como éramos dois presos, o meu marido e eu, ele apenas metia os dedos e fazia assim (fazendo gestos), limpava os olhos e punha um bocadinho na boca e o outro copo ficava para bebermos durante o dia e dizia: a Mãezinha fica com este e usa “Você que te usaram toda a noite!, era um bocadinho de água. Era sofrimento! Mas, foi passando, chegou a independência e nós lá dentro. Tanto surra que apanhamos!

LIBERTAÇÃO DO HUAMBO

E depois chegou a altura em que as FAPLA libertam o Huambo. Que alegria! O meu marido disse   E os outros todos (tinham sido levados para o Bié) e nós ficamos, eu, o pai do Waldemar Bastos e o meu marido.

O meu marido tinha barba até aqui (mostrando o cumprimento com linguagem gestual). Como ele tinha cabelo branca e barba também, eles pensavam “esses são velhos, ficam aí”. Mas, Deus é tão poderoso que esqueceram-se de fechar a porta. Todos os presos foram e fecharam-nos a porta ( não trancada) e nós ficamos ali. Às tantas, o meu marido disse:

–             mas então nós vamos ficar aqui, eles estão aonde?

saiu e espreitou

–             ninguém!

Aquilo estava abandonado e o meu marido disse:

–             Sr. Bastos, vamos sair daqui porque podem vir a noite e nos matarem.

Então, saímos e dirigimo-nos para o bairro de Fátima, passando pelas matas até encontrarmos a minha casa. Ali chegamos e quem aparece? O meu filho, o terceiro, falecido. Ele olhou e o pai:

–             Zequita, Zequita.

Ele olhou e pensou “estou a ouvir a voz do pai”, vai para dentro e diz a irmã:

–             Dulce eu ouvi a voz do pai

–             Oh tu és demais! que pai, o pai já morreu

–             Eu ouvi a voz do pai.

–             senta-te aqui.

Ele viu a irmã distraída, foge e ouve outra vez e eu digo:

–             meu filho, não tenhas medo, somos nós mesmo e ele “agora é a mãe” (pensando).

e o pai diz-lhes:

–             não tenham medo, somos nós.

E a Dulce aproximou-se e pergunta:

–             onde estão?

Mas o capim era tão alto, era o tempo da chuva. E o pai levantou a mão e eles:

–             e a mãe?

Levantei a mão.

–             e não estamos sós. estamos com o Sr. Bastos.

Levantou a mão.

–             e não temos nada (referindo-se ao vestuário, provavelmente quase nus)

–             e o que vão vestir, venham ?

E nós dissemos-lhes:

–             não podemos vir porque estamos cheios de piolhos.

Eram daqueles piolhos grandes, brancos, o meu marido disse-lhes:

–             nem um lençol temos?

Atirou-lhe o lençol e o meu marido disse-me “Mãezinha, vai tu primeiro”. Fechei-me em um quarto.

E o mesmo lençol atiro ao Senhor Bastos. Cada um em um quarto. E a água para nos lavarmos? Apenas havia uma banheira na casa de banho, na banheira da casa de banho onde havia água.

Eu quando fui presa deixei uma bebé, nasceu em novembro e nós fomos presos em Fevereiro. Ela ainda mamava. essa coisa da mulher dizer “está a doer, esta doer’’ quando está a dar de mamar é finta (apologia a ter sido presa no período de amamentação). Eles davam-nos tantas bofetadas que nem sentia a dor do peito. Consegui encontrar os meus filhos todos , todos bem, mas todos gordos e pensamos que fosse anemia, não havia comida e que a mais velha estivesse grávida, a Dulce. O pai disse que isso deve ser anemia’’.

A partir dali, fiquei maluca, mesmo maluca! Porque onde estivesse “estão a vir, estão a vir”, onde estivesse, se estivesse a engomar ou a cozinhar ninguém podia… se alguém chamasse eu ficava daquela forma. se alguém estivesse a cozinhar eu ouvia” está a cheirar queimado, está a cheirar queimado” Vejam, o trauma!

LUANDA

E mesmo assim, desisti? Não desisti, continuei sempre no MPLA. O Camarada Lara mandou-me chamar, viemos para Luanda. Eu não trouxe transferência, eles próprios mandaram a transferência porque lá eu já estava enquadrada, era membro da Comissão Diretiva e da OMA. Nunca fui primeira, fui sempre à Secretaria para a Organização e Finanças, porque a organização é que mobiliza, na OMA e no Partido. Viemos para Luanda, o meu marido acabou de estudar medicina. Vivemos no Cruzeiro. Ao invés de me envaidecer, já era membro do Comité Provincial da OMA, fui outra vez à base, não podia tirar o lugar da outra, da Camarada Irene Webba, era a Coordenadora Provincial da OMA, em Luanda. Eu enquadrei-me no Cruzeiro, agora Patrício Lumumba . Aí fui subindo pouco a pouco até ser membro do Comité Municipal da OMA da Ingombota, Mem-bro do Comité Municipal do Partido na Ingombota e Membro do Comité Provincial da OMA e do partido, Coordenadora e 1 ª Secretária do Sambanga e Membro do Conselho da República.

Mas eu sempre a coordenar a minha casa. O meu marido morreu e deixou-me sete filhos, sete sobrinhos, minha mãe, meu tio, todos em casa. E com aqueles que vieram refugiados, em casa éramos trinta e sete pessoas, mas conseguimos. Havia muita fome naquela altura , nós não nos importamos com a fome o que nos importava era somente “O MPLA vai ganhar, já estamos independentes”. Trabalhei até hoje e não paro de trabalhar. Hoje sou membro do Conselho da República, fui Deputada e hoje membro do Conselho de Honra do MPLA. Mas estou em casa, já não faço nada, vou quando me chamam.

A ASSOCIAÇÃO MABUNDA OKWATISSA, 2020

O que eu faço? no tempo da COVID, eu sentada nessa cadeira vejo na televisão crianças a morrerem, a porem os filhos nos contentores e eu pensei “mas essas mães mandam as crianças fazerem isso? E eu pensei: e um dia vão perguntar, o que é que a senhora fez? Telefono para a Ministra Faustina Inglês, da área social e disse-lhe:

–             olha, eu quero formar um lar.

–             quer formar um lar?

–             sim.

–             tia, não começa por mim, começa pelo distrito e depois eles vão mandar o documento.

E aqui na porta havia sempre o tapete, aquela torneira sempre com uma bacia para lavarem as mãos para quando me viessem visitar:

–             a mãe não sai daqui.

–             sim minha filha eu daqui não saio.

Fui ao Ministério da Justiça falar com o camarada Borges, primeiro falei com ele ao telefone e ele mandou-me lá ir:

–             camarada Borges.

–             tem de formar a associação, a camarada sozinha não vai conseguir fazer esse projecto.

Então formamos a associação, formamos a associação. falei com a minha irmã mais velha que hoje tem noventa anos, eu que tenho oitenta e oito e a minha irmã mais nova que tem oitenta e cinco , é pastora da Igreja Metodista, Josefa Roque a a mais velha chamasse Rosa Roque. Formamos a Associação e todas já eram da OMA há muito tempo. Fui ao camarada Borges e a Diretora do Gabinete disse-me:

A saúde está bem! Porque temos uma Ministra preocupada com a saúde de Angola. E o que eu penso é que se arranje material e pessoas capazes de orientar o trabalho nos postos médicos e nos hospitais.

CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES

Eu tenho mesmo de dizer porque as mais novas dizem que nós estamos ultrapassadas, não , ultrapassadas em quê? Realmente, algumas datas não falham, mas o que nós soubemos, podemos transmitir e nós transmitimos: “Minha filha quando receber um doente, não o maltrate. Deves recebê-la com todo o carinho, cuidar dela e ver o que podes fazer’’.

Tanto Enfermeira, como na enfermeira-parteira, em qualquer profissão o amor acima de tudo mesmo esta é para a geração que me está seguindo.

Para a outra geração, vocês com cinquenta anos devem transmitir a nova geração porque elas pensam que nós para fazermos um parto tínhamos de pedir dinheiro. Para fazer alguma coisa tínhamos de pedir.

Nós trabalhamos com amor ao próximo e nós soubemos o que sofremos no tempo colonial. Por isso, não vamos fazer os outros sofrerem.

A IMPORTÂNCIA DO 11 DE NOVEMBRO

E depois os mais novos que estão a entrar dizem “chegou a minha vez”, não façam isso. a tua vez já chegou há muito tempo, desde o dia 11 de Novembro de 1975, é que chegou nossa vez. Nós temos de segurar este dia 11 com “unhas e dentes” e fazer o bem para toda a gente ver ‘’valeu a pena o sacrifício”.

Porque se nós não fizermos o bem e os que nos seguem também não fizerem o bem, vão dizer: estávamos bem, não sei porque que fizeram… Não estávamos nada bem, vejam a minha explanação: eu para estudar na escola primária o meu pai tinha de ser assimilado e foi por isso que fui parar à igreja protestante.

Hoje sem estudos não vale nada. Por isso, eu tenho aqui uma babá e a essa minha companheira a primeira pergunta foi:

–             estás a estudar o quê?

–             eu não estou a estudar porque tenho duas crianças, ficam com a minha mãe e vim arranjar emprego

–             você vai estudar para amanhã poder educar esses filhos e serem alguém.

Hoje sem estudos não vale nada. Por isso, eu tenho aqui uma babá e a essa minha companheira a primeira pergunta foi:

–             estás a estudar o quê?

–             eu não estou a estudar porque tenho duas crianças, ficam com a minha mãe e vim arranjar emprego.

–             você vai estudar para amanhã poder educar esses filhos e serem alguém.

Eu tive um miúdo que tratava o meu jardim. Eu disse-lhe: tu tens de estudar, hoje está no 3º Ano da faculdade. Não digo que todos temos de ser doutores, mas pelo menos termos o ensino médio, os cursos técnicos e aí vamos engrandecer o nosso país. Porque sem estudos… Por exemplo, eu não sei ver e mandar mensagens porque não aprendi. Então, os nossos filhos, netos e bisnetos têm de estudar. Eu às vezes quando preciso digo ao meu neto que tenho uma mensagem para mandar e os meus netos fazem e porque que o fazem porque estão a estudar.

A EMANCIPAÇÃO DA MULHER

Não liguem a quem dizer que nós fizemos mal, nós fizemos bem. No tempo colonial quem estudava era só o homem, a mulher não podia estudar. A mulher que dá a luz, que dá de mamar, que cria os filhos, chega no dia do pedido, a mulher não pode ficar na sala, os homens é que resolvem o problema.

Isso era bom? Hoje não é assim, lutamos pela nossa emancipação. Eu quando vejo que nomearam uma mulher eu fico contente. Eu também sou mulher, eu estou aqui e ela está ali. Mas, algumas mulheres prosseguem-se umas às outras, olham para as outras “só ela”. As mulheres devem ficar contentes por aquela mulher ter chegado ali, a tua vez chegará! Por isso, minhas filhas, temos de ter amor umas às outras, a outra subiu hoje, você também subirá amanhã, o caminho é para todos. E quando nós começamos a lutar pela nossa emancipação, fizemos uma passagem por um dos congressos: Dantes era somente dançar. Nesse congresso a camarada Ruth Neto disse: não dá mais, este ano vamos fazer diferente. Ainda estão vivas as camaradas Elisabeth Rank Frank, ela entrou como policia, eu entrei como enfermeira. Cada uma na sua profissão para mostrar aos homens que nós somos, nós também sabemos. Médicas engenheiras, cada um trajada a rigor com a indumentária da sua profissão (chapéus, capacetes, etc). O Camarada Mendes de Carvalho comentou: vieram nos dar “café sem açúcar’’ e nós dissemos que não é “café sem açúcar’’; é para vocês verem que nós também podemos. Hoje, quando vejo uma mulher a subir, penso que foi aquela luta que fizemos e fizemos mesmo a luta pela emancipação.

As filhas tem de saber que houve uma luta para sermos nomeadas. Para nomearem um homem não era preciso muito. E mesmo agora ainda é assim, quando nomeiam um homem perguntam ao CAP e é aprovado, mas se for uma mulher: essa, é filha de quem? Quem é ela? como é, mas o que ela faz? Isto, para denegrir as mulheres, mas hoje as mulheres, temos de estar fortes e firmes para poder mostrar que soubemos. E quando colocam nós devemos mostrar o que soubemos trabalhar. Era esse conselho que eu queria dar às mulheres.

IMPORTÂNCIA DA SUA GERAÇÃO CONTAR O PASSADO AS OUTRAS GERAÇÕES

É muito importante porque os mais novos não sabem nada, estudaram, mas não sabem nada da história de Angola. Tem de se juntar aos mais velhos, Às vezes, há pais que não contam. Então, tem de juntar aquelas pessoas que sabem um pouco da história e ouvirem.

E isso é muito importante porque história é história. A pessoa vai pegar e vai valorizar “afinal de contas valeu a pena essa luta, porque se nós não fizéssemos essa luta até hoje estávamos colonizados”.

Mas, houve mesmo e por isso muita entrega e naquele tempo quando fizéssemos esses trabalhos não olhávamos a “é mulato, é branco”, todos estávamos misturados desde que éramos angolanos. E hoje, temos mesmo de nos valorizar.

Os mais novos devem aproximar-se aos mais velhos, muitos de nós já estamos a esquecermo-nos das datas principalmente e até dos nomes, conhecemos as caras mas não os nomes. Mas, ainda há alguns que se lembram. ainda temos mais velhos que se lembram da história: como começou e como está até hoje. Por isso, é muito importante e muito obrigada por virem ter comigo.

Eu sou mesmo Conceição Capasso, a Mãezinha, falo muito e as minha filhas dizem “ a mãe quando começa a falar não para’’. Eu falo mesmo porque sofri na pele. Muito obrigada!

Eu resumi e a história é longa. Eu estou a escrever um livro, disseram-me lance agora e depois o resto seguirá, e tudo isso aconteceu, Mas, disseram-me lança já, depois o resto que vier. Chegou ao fim e o fim é esse. Deus me deu essa idade para fazer alguma coisa.

E a alguma coisa é esse trabalho de cuidar das crianças. Todas vem, cada uma dá um bocadinho. E eu como eu não faço ainda. se não estiver aqui em casa estou no lar. Umas estudam de manhã e outras a tarde e estou a fazer alguma coisa.

VISITA AO LAR MABUNDA, MEMÓRIA MATERIAL

No Huambo eu era da polícia e quando as pessoas começaram a enquadrarem-se, eu enquadrei-me, fui FAPLA e da OPD. Depois, o Camarada Agostinho Neto disse: não, ela tem jeito para a polícia, então tirou-me das FAPLA e fiquei na polícia. Se fosse contar tudo não saímos daí, falamos durante uma hora e meia. Estamos na Associação Mabunda Okatissa (ajuda em Quimbundu). lá na Ilha há muitas senhoras chamadas mabunda, davam muito esse nome, não sei porque e a minha mãe foi uma delas, não conheço o significado do nome.

Este depoimento foi realizado no Camama, Luanda, 13 de Março de 2025.

Audiovisual. Léo e Marinela Cerqueira

Edição Audiovisual: Muki Produções

Transcrição: Marinela Cerqueira

Revisão: Judite Luvumba

Palavras Chaves: Associação Mabunda| Manos Cambutas|Silva Caposso|Enfermeiras na Luta de Libertação Nacional|Emancipação da Mulher