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Memórias da Luta de Libertação Nacional de uma Metodista, Irene Judite Webba da Silva

O nome Irene Webba sempre foi associado  à luta de libertação de Angola, sugerindo  a importância da memória desta veterana na construção da nossa história social. Em 2024, a fundadora da HSA pede à filha Anita Webba para a sensibilizar. Sempre ouviu seus pais falarem da contemporânea Irene Webba.

A anfitriã recebeu-nos na sua sala cheio de memória material, para além de fotografias de ilustres membros da sua família. Há medalhas de honra e um pôster do presidente Nelson Mandela, cenário ideal para realizar a auscultação desta anciã, à volta de um English Tea preparado por uma das netas, uma chefe de cozinha angolana formada no Reino Unido.

Alguns dos depoimentos realizados em 2025 apresentam a particularidade de constituírem memória imaterial para ambos trabalhos, o Angola 50 Anos 50 Vozes e a Historiografia do Lar de Acção Missionária e Educacional, Irene Webba é descendente de uma das mais antigas famílias metodistas da Missão do Quéssua e, mais tarde, da Missão de Luanda.

A história desta metodista está repleta de factos que ilustram o papel da Missão Metodista de Luanda na luta pela independência. Contemporânea de heróis nacionais, revela detalhes sobre a fuga para a luta de libertação, destacando a amiga Deolinda Rodrigues e o amigo Hoji ya Henda.  É em casa dos seus pais onde vários jovens se refugiavam durante as rusgas da PIDE. Recorda, entre outros, o Presidente José Eduardo dos Santos (Zé Dú) e seus amigos.

Segundo Irene Webba na escola da Missão de Luanda o ensino incluía lavores. O serviço religioso ao Domingo era sagrado. Ressalta o encontro entre a Juventude do Norte e a do Sul, promovida pelo Bispo Dodge, onde a juventude do sul entoou o Hino Sivaya.

O liceu confrontou-a com outros estudantes cuja socialização era instrumentalizada pelo império colonial para estratificar a população e recorda outras façanhas coloniais, tais como o apoio do seu pai a indígenas permitindo-os realizarem o teste de assimilação em sua casa .

Durante o período de transição e no pós independência prestou serviços diversos à Nação com realce à  emancipação da mulher  bem como seu papel na comunidade da antiga  Lixeira do Golfe.

Certos depoentes são contadores natos. Neste caso o entrevistador optou pela auscultação, sem interromper  a linha de tempo, mantendo-nos a escutar factos  determinantes de marcos  históricos. Por isso seu depoimento, não apresenta a rubrica sobre a alimentação, habitação e tempos livres. Esta é a transcrição e segue a ordem da narrativa audiovisual.

Introdução

Irene Judite Sousa Webba da Silva, mais conhecida por Irene Webba, tenho oitenta e três anos de idade, nasci no Quéssua, fica a onze quilômetros de Malange e eu cresci dentro do metodismo, os meus avós, os meus tios, toda a minha família é metodista na sua maioria.

E então, foi onde eu nasci. O meu pai era aquele  professor em “terras de qualquer categoria“ porque era um preto assimilado, e diziam que um preto assimilado, com diploma de professor podia ser professor em “terras de qualquer categoria” isto é: leccionar em  Angola, em Portugal, ou para onde quer que possa ir.

Infância, Missão Metodista do Quéssua e de Luanda

Fomos crescendo, saímos  do Quéssua, depois fomos para Luanda, na Missão Evangélica de Luanda. Nós fazíamos parte do grupo de jovens onde havia varias categorias. Eu era do grupo dos mais novos, juntamente com outros  rapazes como o Emílio de Carvalho, o Job de Carvalho, o Roberto de Carvalho, éramos os mais pequenos do Grupo X, o Esquadrão da Cruz eram os de média  idade, o Estandarte de Cristo era o grupo dos mais velhos.

O meu pai era professor e tinha vários colegas ali, como o Roberto de Almeida, o Jacinto Fortunato[1], a Lóide Ana de Almeida, a Regina da Silva e outros que faziam parte do nosso grupo.

Nós geralmente preparamo-nos para o domingo porque era um dia especial, onde nós tínhamos de  cantar, aprender a cantar. A Deolinda Rodrigues, a Domingas, a Lóide Ana de Almeida, a Regina da Silva e mais outras cantavam  soprano. Eu era do contrato com a Maria  Eugénia  Gaspar de Almeida, a Marilina e a Milú Rodrigues e os rapazes: o Emílio e o Jacinto Fortunato eram tenores e o Roberto de Carvalho era do baixo. Nós fizemos  um coro bonito na Igreja.

A Juventude do Sul e a do Norte

 Um dia, veio um Missionário, o Dr. Ralph Dodge ter connosco e disse: – “ vocês têm de se encontrar com a Juventude do Sul”, porque nós éramos da Juventude do Norte. O colono sempre estava a dividir-nos, dizendo: aos do Sul – “vocês não devem se dar com aqueles calcinhas de Luanda; enquanto para nós eles diziam: – “ vocês não devem se dar com aqueles matumbos do Sul”. É o dividir para reinar”. Então, o Missionário disse-nos: – “vocês devem estar todos unidos”. É assim que um dia aparece o grupo da  Juventude das Missões do Sul, composto por quem? Jonas Malheiro Savimbi, Daniel Júlio Chipenda, José Belo Chipenda, Carlos Gonçalves, Benjamin Liwanhica. Num domingo começámos primeiro, cantamos nós e depois disseram: – “agora é a vez dos nossos irmãos do Sul. Então, levantou-se o grupo de cantores. Eles tinham aquele hábito de cantar Sivaya com uma voz forte, vozes muito bonitas. É então assim que  começamos esse relacionamento da juventude das missões do Norte com a Juventude das do Sul.

Com a Deolinda Rodrigues, saímos do culto e arranjámos aquelas coisas que nós conseguíamos e íamos aos bairros tratar daqueles que precisavam. Esse hábito de dar começou muito cedo com a Deolinda Rodrigues, entre outras coisas… a fim de nos distrairmos,  mas também para podermos falar  já de política,  comentando: – “isso não pode ser, eles estão a tratarmos mal”

Foi assim que nós começámos.

O Liceu

Depois, da quarta classe havia a admissão ao Liceus e no Liceu  havia: pretas, brancas e mulatas. Eles punham as pretas atrás, as mulatas no meio e as brancas à frente. Coisas horríveis! A gente sentia, mas aguentávamos com garra. Sabe o que eu fazia enquanto estávamos ali? Uma vez, apareceu a minha professora de Geografia, a Periquita que era uma racista de primeira:

  • “número nove!“ Levantei-me.
  • “faz favor, esse caderno…”

Mexeu no meu caderno até deixá-lo cair. A turma entrou em pânico porque ela disse:

  • “apanha!”

Eu – “não apanho, a senhora doutora deixou cair o meu caderno de propósito. Este caderno está limpo, está forrado, nós temos sempre o cuidado de pô-lo em condições, portanto eu não vou apanhar”

Ela ficou a  olhar para mim, olhou para aqui e para ali, começou a olhar para a turma e uma das minhas colegas brancas (eu dava-me com todo mundo) disse:

  • “Webba não apanhes, não apanhes”!

e a Webba não apanhava mesmo o caderno.  até que depois eu disse:

  • “Eu sei que estou sujeita a uma falta disciplinar mas eu vou dizer ao meu pai do porquê que eu não apanhei  (nós só podíamos ter três faltas disciplinares, depois perdíamos o ano. Podíamos ter boas notas, mas  a disciplina é  que contava mais),
  •  A dado passo ela toca a campainha e quem aparece? A Reitora, Dra. Maria beatriz. e eu fiquei a olhar para ela:
  • A Sra. Reitora com o devido respeito eu não vou apanhar o caderno porque a Sra. Doutora deixou cair o caderno de propósito para eu apanhar, mas eu nao vou apanhar e eu vou dizer ao meu pai do que se está a passar.

A reitora abaixou-se, apanhou o caderno e entregou-me. A partir daí vejam o que me ia acontecer: eu tinha de ter sempre o caderno em dia porque havia dias em que essa professora chegava e chamava:

  • “número 9”

Eu já sabia porquê, e já estava preparada para aquilo. Ela não conseguiu me reprovar, porque por  muita ginástica que  ela tenha feito, minha filha, nunca me surpreendeu, portanto não  conseguiu reprovar-me.“ Era tudo assim.  Passamos por essas e por outras.

Racismo

  • Fomos passando, passando… na aula de lavores, era a Dona Rosa a professora, mas  as brancas eram as primeiras na fila, as mulatas no meio e as pretas atrás e o que acontecia na aula de  lavores? Elas aprendiam o gengivite, o ponto cruz, mas eu felizmente aprendi isso já na igreja porque a madrinha Juliana, a mãe do Paulo De Almeida era a professora.  e eu já sabia daquilo e eu não  me importava, sabe o que eu fazia? “barraca”. Vendia maçãs da índia. naquele tempo, Webba, tens?  tenho’ Custa tanto (gestos). a irmã da professora de lavores, a Marciana Alves da Cruz olhava para nós e dizia “Atchim, atchim, pum-pum, so pretas é que há” e nós  ali recebermos a história toda e eu disse “eu vou te fazer chorar” é uma das vezes ela vira-se eu digo-lhe: Olha eu sou preta , mas tenho os olhos direitos e tu és branca e tens os olhos tortos”, ela era vesga e ela:
  • Nini, Nini, olha a Webba
  • A Webba o quê, diz primeiro o que tu disseste

Eu não levei desaforo para a casa e era assim como eu era, minhas  Filhas a História è Longa, é muito longa, há muito para contar tantas coisas já se passaram, os anos foram passando”.

A Fuga de Deolinda Rodrigues

Aquela “coisa do processo 50, nós íamos aos bairros levar as cartinhas e (gestos) e a nossa chefe, sempre a  a chefe do grupo era a Deolinda Rodrigues. era baixinha, mas “era quente”. a Deolinda não levava desaforo para casa até que depois começaram as  prisões, mas ela era um alvo. “Ela tem de fugir”. Aí vamos nós lá na baixa ver uns barcos, onde vinham aqueles comerciantes. A Irene assanhada como sempre, a fazer parte do grupo porque eu interligava as coisas,  conseguimos por a Deolinda dentro de um barco. um cargueiro “ A Deolinda enfiou-se ali””. quando o tuga deu conta a  Deolinda já estava longe.

Estás a ver filha e era assim como nós trabalhávamos, sempre a mexer aqui e ali!

Atestado de Assimilação

Depois era o Sr. Webba, preto assimilado. Havia os indígenas queriam ter o atestado de assimilação iam lá a nossa casa “Senhor Webba nós moramos aqui com o Senhor Webba”, porque tinha de vir o branco, um aspirante , alnafabeto, vir a nossa casa para ver se o preto sabia comer com a faca e o garfo. para ser possível passar o Atestado da Assimilação. Entao, tinham de vir para a cas do senhor Webba para (gestos)

“Ah senhor Webba, enfim  minhas filhas”

E aquilo era liderado por um chefe, o Poeira. todo temido que levava sempre: o patrocínio trabalhava toda semana e no sábado tinha o seu dinheirinho e nesse mesmo sábado havia rusga. aquele bocado de dinheiro eles roubam, tiravam.

“Isso nao foi brincadeira, a independência de Angola foi uma trajectória enorme e nós trabalhamos muito naquela altura”

A Hospedeira da DTA

O Manuel da Cruz Gaspar disse: Oh Webba tu tens todo o estilo para uma boa hospedeira. Então, vou falar com o Tenente Coronel Jacinto Medina da DTA para a Webba fazer parte do concurso, concorreram trinta funcionários , a  Irene Webba era a única funcionária, de trinta passaram quinze para a prova oral e em que consiste a prova oral? A prova oral consiste em estar no avião. Eu nunca tinha estado em um avião. o meu pai disse: tens aqui um comprimido de Enjomin. Tomei o comprimido e entrei. Não podíamos estar  sentadas, era de pé a falar : Chá, café ou laranjada. A minha colega que estava sentado ao meu lado começou aos vômitos devido a ondulação do avião.  e a dado passo ela diz-me:

  • Oh Webba, empreste-me o seu saco
  • Não, se eu te der o meu saco vão dizer que eu também  vomitei, eu nao te dou o meu saco.

Porque bastava vomitar e já não se passava na prova oral. e depois das voltas todas , o avião aterrou e eu “até que enfim!”. Passado uns dias, recebi a comunicação, estava  aprovada, a primeira negra hospedeira e aí fui eu.

Mas, depois de quatro anos deixei a vida de hospedeira porque naquela altura uma hospedeira não podia casar e nem ter marido, tinha de manter sempre o físico e pensei “não vou passar a vida nisto , sem me casar” e saí. A História é grande, há muito para contar!

A Fuga de Nacionalistas, 18 de Janeiro de 1961

O Hojy Ya Henda saiu da minha casa, a 18 de Janeiro de 1961 com o Ismael Martins e o Elísio de Figueiredo. Eu  preparei a mochila, bombó com ginguba. Dezenove dias depois, a nossa rádio Angola Combatente comunicou “ A Andorinha poisou”, era o nosso código “Já chegaram”. Há muito para dizer, a história é grande!

Os Filhos da Guerra

Depois de muitos anos,  eu passo a trabalhar em Malange. Os Quitumbas, o padre Marcos, o Laborinho, todos eles eram miúdos. Até que depois disseram-me: Camarada Irene, tu como estás aqui  na garra, tens de ser a Primeira Coordenadora da OMA em Malange. O padre Marcos e  todos que andávamos ali a driblar, disseram: Camarada Irene, você tem de sair daqui porque eles querem apanhar-te. Então, aí vou eu para Luanda em um carro pequenino que levou pessoas a mais . E levei também uma menina pequenina porque naquelas andanças, um contínuo  do meu serviço, o João Miguel da Silva, a mulher teve o bebe,  morreu e deixou a bébé com quinze dias de vida:

  • E agora? Oh Webba o João Miguel ficou viúvo, eu vou ficar com um dos filhos  uma menina e tu?
  • Eu quero o bebé
  • Mas, tu tens os trigêmeos. 

Recebi esta bébé com quinze dias, hoje é uma senhora, a educação e a instrução foram dadas.

E outra coisa, em minha  casa não havia filhos e enteados. Todos comiam à mesa.

 E depois, aparece o falecido Helder neto:

  • Oh camarada Irene, a UPA fugiu e deixou ficar um bebé e agora
  • Passa para aqui
  • Esse bébé veio comigo e registrei em meu nome, Marco Elisio Webba.

A Independência

Enfim, a história é grande, há muito para se dizer , sobre aqueles trabalhos com o Roberto de Almeida, com o Desidério e tantos e tantos que os nomes já não me vem à memória, com a Ruth Neto, Rodeth Máquina Gil, Angela Lupapa. Até que depois chega o dia da independência.

Mas, dois meses antes, Neto já estava em Angola, onde foi recebido com (emoção) e ele  diz“ Camaradas da OMA, vocês têm de ir até Berlim assistir ao Congresso Mundial de Mulheres. Era composto por três mil mulheres de todo o sítio e então vocês têm de ir lá para arranjarem mais garantias para nós”

Nós fomos: Irene Webba, Luisa Inglês, Rodeth Gil, Ângela Carina e outras, éramos onze, Maria Olga Chaves, num total de onze a doze. Nunca tinha andado de avião, Tínhamos a lista porque nós trabalhávamos com outras pessoas. tiramos a s fotografias “paga já” para o passaporte. saímos de Angola via Moscovo “ o Tuga não falava connosco, mas tinha de nos levar”.

Chegamos, entregamos os passaportes: olhavam para o passaporte, olhavam para a minha cara, naquela fotografia estava diferente.  Eu não falava russo e eles não falavam português, eu e a Luísa Inglês ficamos ali até chegar a Valentina Tereshkova, a primeira mulher  que foi até ao cosmos. Ela chegou com os nossos nomes e autorizou a nossa ida para Berlim, Alemanha Democrática. Chegamos com um dia de atraso,  já estava a delegação da  UPA (i.é. FNLA) a representar-nos, o Mobutu. Então, mas nós já tínhamos o Kamu de Almeida e a Maria de Jesus Allen que  “já tinham raspado” já estavam ali

Cada uma tinha direito ao seu quarto, havia um guarda, eles sabiam que tinham de cuidar de nós por causa dos possíveis raptos. Começamos a trabalhar, encontramos a Presidente das Mulheres Cubanas, Wilma Espín[2]. Apresentamos o problema. No último dia o Congresso levantou-se, três mil mulheres  a favor do MPLA como o único movimento que seria capaz de levar Angola à independência.

Lá vamos nós com o documento. depois, de muitas voltas, chegamos, a Luzia Inglês diz: eu tenho aqui a minha… nós  andávamos sempre armadas, se bem que eu nunca dei um tiro, mas a Luzia  Inglês tinha a arma dela. Descemos e  havia um silêncio e ela disse: eu não vou me deixar apanhar pela UPA . Se eles vierem, eu vou, quem quiser ir comigo também vai. Quer dizer, quem quisesse morrer com ela, para não   sermos capturadas pela FNLA. 

Então, a dado passo vemos uma pessoa a vir em nossa direção, era o Hermínio Escórcio

“Camaradas da OMA, o Camarada Presidente está à vossa espera”

Nem levamos as coisas, fomos  direitinhos ao Camarada Presidente.  E então? Então Camarada Presidente…Como sempre a Irene era a traquina.

Vamos aos outros trabalhos , agora vamos a preparação da independência. Camarada Irene… Foi a primeira vez que  a OMA vestiu a farda, duas mil mulheres fardadas e duas mil mulheres da ODP. Paiva  Domingos da Silva,  Imperial Santana,a Mariana Ana Paz, todos os nossos camarada (gestos)

Aí Angola! Quando ele estava ali a proclamar a independência estávamos lá. Sempre!

Em 1976, “Olha, temos de ir falar com o Mobutu”. A camarada Maria Eugênia chegou e disse:“ A OMA tem de fazer parte da delegação”. Fomos eu e a Luísa Inglês, “ cuidem bem do vosso Presidente”(Camarada Maria Eugénia)  Chegamos a casa, eles o Mobutu e aquela gente a tentar arranjar(…)  e nós sempre em comando, a despistar. Fomos ver a casa e os seguranças e a Luzia Inglês e eu decidimos dizer ao Camarada Presidente e dissemos-lhe “Camarada Presidente a OMA vai dormir consigo”, ele começou a rir.

  • sim senhora, vão buscar os colchões

E eu e a Luzia, de duas em duas horas vamos no revezar “dormes tu duas horas e eu fico sentada a olhar,  acordas, é a minha vez e ficas tu”

Há muito para dizer sobre o MPLA, o meu querido MPLA e eu digo “Eu não sou do MPLA, eu sou o MPLA”. Desde 1958 e fomos em 58 porque a maioridade era aos dezoito anos porque nós começamos antes. E foi assim, há muito para dizer sobre esse país”.

Eu quero que os nossos continuadores se portem bem. Se bem  que há muito para dizer sobre o agora. Naquele tempo, quem é que pensava em roubar? Trabalhávamos com entusiasmo. O N`Gakomona na Lunda Norte disse: Camarada Irene aí vai  um  camarada nosso com um frasco de lubóias (diamantes), sabe o que é lubóia? Um diamante grande.  O camarada chegou, entregou-me o frasco, eu nem sequer abri para ver. Fui chamar o NZazi: N`Zazi o Ngakomona mandou-nos isso, o MPLA não tem dinheiro. Fomos a correr ao Camarada Lúcio Lara. camarada Lara…. Não pensamos nessas coisas!

Representações em Luanda dos Governos Provinciais  

Há um dia, em que o Domingos Hungo “SKS” disse: Camarada Presidente nós precisamos muito do seu apoio, agora no Kuando Kubango está em fogo…você fica em Luanda a representar-me. Fiquei a representar o Governo do Kuando Kubango. Estavam habituados a chegar ao armazém e diziam: é do Kuando Kuabngo eu preciso, eu preciso disso”, passaram a assinar as entradas e as saídas.

Uma vez, o Kuando Kubango tem direito há dezassete Land Rovers e agora? Um dos meus traquinos veio dizer-me: mãe, não ficamos com nenhum? Não (eu mandei parquear os carros todos na minha rua, rua Ramalho Ortigão.) Não, isso não é nosso”. Fui ter com o Ledy e disse-lhe: arranje-me um barriga de ginguba, aqueles aviões soviéticos. Foram dezessete Land Rovers e eles diziam “ali é perigoso”, eu disse, mas eu vou. Deram-me a missão e eu ia cumpri-la, preparamos  comida, havia muita fome. Lá estavam o Domingos Hungo, o  Jorge Tribuna  e o Daniel Vapor, era o pessoal dele, cheguei “trouxeste comida?”, havia fome!

Minha filha, não foi fácil a independência, há muito que dizer! Hoje, nós não vamos falar daquilo que fomos porque os nossos camaradas, eu digo muitas vezes a alguns camaradas  “eu não me sinto mal por eu não ser rica”.

Como antiga combatente dão-me 24.000,00 Akz por mês e o Fundo de Pensão 40.000,00 Akz, é isso? E vamos nós. Por isso as minhas filhas dizem “não pode ser”. Eu tenho de ter dignidade sempre. Numa reunião o camarada Presidente João Lourenço escolheu quatro para o Conselho de Honra e o meu nome  estava presente. E já era membro do Conselho de Honra da OMA. Andamos nós a trabalhar com dignidade, somente com dignidade, não envergonhando o nosso país.

Também, trabalhei para o Ministério da Agricultura para representar Angola junto à FAO, fui a primeira. Estava o Dr. Eduardo Soma e outros . Eu digo sempre “eu não me importo de ser pobre, aliás não sou pobre, eu sou rica porque tenho dignidade”.

Comunidades na Extrema Pobreza

Quando a Bebiana de Almeida  telefona-me: Oh Irena onde estás, vou precisar de ti (eu estava na África do Sul) temos aqui trabalho, vamos tirar  dali, era uma população que vivia na lixeira do golfe. chegamos e ela já estava ali. Até que uma vez eu fui pedir ao Zé Dú. ele era um daquele meninos que quando houvesse rusga no Sambizanga ia dormir em nossa casa, ele, o Maurício, o Brito Sozinho, o Loy, o Mário santiago, iam todos  dormir a nossa casa porque o Senhor Webba era o preto assimilado.

Então,  o Zé Dú depois deu-nos o terreno. Eu não pedi, era só o necessário “ camarada Presidente nós precisamos tirar aquele pessoal do lixo para devolver-lhes a dignidade. Depois de muitas voltas, trinta e três hectares de terreno. Tivemos a participação da Francisca Escórcio.  Sempre a falarmos com eles:

  • E agora, vocês vão pagar o terreno
  • Vamos pagar como?
  • Quarenta anos de bom comportamento têm direito a um terreno de  15x15m2 para fazerem as casas

Naquela altura, pedimos aqui e ali , cimento e outros materiais, nós ajudamos.

E enfim minha filha e aí vamos nós! Já falei tudo, já não falo mais.

O Roberto de Almeida convidou-me: oh Irene, tu é que sabes, dar as voltas, eu quero que venhas trabalhar comigo aí vamos nós, naqueles momentos difíceis  que não havia dinheiro, não havia nada. Quando aparecesse dinheiro os deputados queriam e eu dizia-lhe “ vocês não tem a fome que aqueles trabalhadores têm, portanto vamos primeiro pagar o trabalhadores e depois a vocês” e o Roberto pra mim “estás  a pensar bem”. E foi assim que nós estivemos sempre em defesa de quem mais precisa.

Neste momento, o meu motorista que tem dois filhos completamente cegos e a mulher é diabética, moravam na Boavista. Um dia, ele chega e diz-me:

  • Chefe…
  • Eu não gosto que tratem por chefe, você trate-me por tia Irene e nem de Doutora, mas qual é o seu problema?
  • Puseram-nos fora e agora nao sei como fazer porque nao peguei a renda dois meses

Fui falar com a Bebiana “ vou precisar de uma daquelas casas, preciso de colocar numa dessas residências esta família”. levei a minha e outra carrinha:

  • Que é isto?
  • E a minha chefe?
  • Onde estão os meus ceguinhos, vocês agora são meus, vamos embora para o carro
  • Onde é que vão
  • Eu é que sei, vocês não ocorreram com eles.
  • Chegando ao terreno, o povo
  • Eles nao  nao sairam da lixeira
  • E qual é o problema, vocês estão a pagar? quanto é que eu recebi?

Um dia os ceguinhos disseram-me:

  • Avó nós também queríamos votar
  • Querem voltar, está bem.

Tratamos os bilhetes de identidade e fui com os meus ceguinhos e uma das nossas escolas, uma tem seis e outra oito salas de aulas e numa dessas escolas processava-se o acto eleitoral. No dia das eleições preparei comida, cheguei e disse-lhes:

  • isso não é para o MPLA, é para todos que estão aqui a trabalhar
  • Nós podemos comer?
  • Podem comer sim senhora
  • Eu quero uma coisa, os meus ceguinhos também querem votar, podem votar?
  • Podem sim senhora

Eu ajudei-os e fiz a fila dos idosos e dos diminuídos físicos. 

É muito para dizer!

Quando se fala de mulheres na polícia, as primeiras dez mulheres na polícia quem as “enviou” fui eu: a Betty Rank Frank, a pedido de Neto. Neto disse:

  • Camarada Irene, a emancipação da mulher, não temos mulheres na polícia, precisamos pelo menos de  dez
  • Sim senhora, dez na polícia e dez na DEFA.

Hoje, estão aos milhares. Eu fico muito feliz porque foi o nosso trabalho. 

Vamos trabalhar para dignificar este país, é o que eu peço a juventude. eu agora apenas quero que me ponham uma esquadra da polícia na nossa comunidade. Já foram lá ver o terreno. E tenho um número de meninos que devem ser trabalhados por vocês, para aprenderem.

A Emancipação da Mulher foi um ganho da independência , porque já na mata falavam disso, por isso aparece a Deolinda Rodrigues como membro do Comité Director. Ele (Neto) já trabalhava nesse sentido, em por a mulher em relevo. E hoje temos muitas. Eu digo sempre a elas: trabalhem com justiça, façam tudo direito.

A Tentativa de Fuga

Não estive no maqui, eu trabalhei na clandestinidade. estavam a preparar um grupo: eu,a Albina Assis e a Marilina de Carvalho, saímos da casa da Marilina, a tia Leocádia fez uma oração e preparamo-nos. Havia o homem que iria levar-nos, era o Franco,  o estafeta que nos levava para o barco. Mas, os bufos queixaram “ ali havia qualquer…, Então, apanharam o Franco. Nós já tínhamos descido, ali por traz da Casa de Reclusão. que estava  na porta de armas era o Cícero, o pai da Elsa Barber. então, ele olhou para nós (já estava no esquema) “Boa sorte”. nós todas transformadas, as roupas e fomos  a até ao sítio onde presumivelmente o Franco iria apanhar-nos. Fomos esperando , dez horas, onze horas, meia noite, apenas víamos  barcos a passar, eram eles à nossa procura.

Tivemos de fugir porque se chegássemos de manhã da forma como estávamos vestidas pelo caminho haviam de nos descobrir. foi por isso que não fomos e ficamos sempre na clandestinidade. sempre!

Factos Marcantes

Estava na Administração do  1º Bairro, quando um dia destes “ olhem, os terroristas foram apanhados”. Apareceu uma miúda, devia ter cinco anos, entre  os filhos de terroristas que iriam ser levados para a Ilha da Cazanga. Era uma Ilha depois iria ser  dos católicos.  E eu  disse:

  • Senhor Administrador eu quero aquela miúda, é minha sobrinha
  • Tu tens a mania que conheces toda a gente, oh Judite
  • É verdade! Filô?
  • Tia

Tirei-lhe dali e depois levei-a para a casa da tia da Júlia,  o pai dela foi morto lá e a mãe ficou presa.

 A história é grande!

Eu só digo que os nossos continuadores  se portem bem. Nós temos tudo para dar certo, se nós quisermos. Que  essa juventude seja bem aproveitada e que não se deixe influenciar. Às vezes, vão ter connosco ao Zango para falar  com o nosso povo. Nós temos reuniões todas às segundas feiras  e então eu digo-lhes:

  • Faça favor, da próxima vez  você não vem aqui
  • Porquê?
  • Veja a desigualdade, você vem aqui falar em voz grossa ao pé daqueles que precisam, que estão…, utilize uma linguagem mais simples e vem aqui de sapatilhas.  Aqui, estas atitudes de facto não ficam bem.
  • Quem é essa senhora?

E estamos nós assim, minha filha “tem de se identificar com o povo”. Foi assim que aconteceu depois da independência. Foi assim que o Camarada Presidente uns dias depois da independência:

  • Camaradas da OMA, vocês têm de ir até Canacassala, Chicambo, eles têm de saber que já somos independentes. Os que estavam na mata não sabiam. Eu, a Apolónia Escolástica, Maria José Gama,  aquele grupo todo. A Apolónia disse-me tu  sabes mais kimbundu é que vais falar. Ela com o megafone. Chegamos “Ziano kaixi”
  • Nada de afinar, “Zieno Kazi “o que é?
  • Oh Irene
  • Eles assim não entendem, não vem.

e eles não vinham.

  • Somos nós irmãos, nossos camaradas, já somos independentes.

e as tantas:

  • Tem doentes?
  • Temos sim senhora

Os doentes vão para a carrinha e a comida está aqui.

Um dia um deles:

  • Camarada Irene gosta de maruvo
  • Gosto muito !

Nós regressamos com os doentes e trazíamos-os para o hospital.

Vamos só trabalhar  para esse país, que Angola é um país rico, que merece.

A mãe do Ricardo de Abreu, a Zita Sandão trabalhava em plantas. A Princesa Diana vinha a Angola, eu trabalhava com o Roberto de Almeida. A Ruth Neto pergunta o que vamos fazer? Fui ter com a Zita Sandão e pedi-lhe para ela fazer um bouquet de flores com capricho e convidei-a  para estar no acto de recepção da Princesa Diana.  Fomos entregar a Diana,com aquela carinha dela “tão boa menina”, recebeu o bouquet de flor.

Pronto, não quero mais falar (emoções)

A tia Meada, a Esmeralda estava encarregada por aquele trabalho e foi buscar-me, trabalhamos, até por o Largo das Heroínas em condições. A Irene Cohen era uma menina, uma menina por excelência. esse largo devia ser bem cuidado.

Quem recebeu a casa da OMA da mão dos colonos fui eu, o Loy disse-me “Irene vai buscar”, a OMA Provincial também fui eu que recebi das mãos do colono.

O primeiro grupo do Comité Miss Angola , o Júri, foi constituído pela Irene Webba, o … e a Gabriela Antunes. Um dia chega alguém perto de mim “ camarada Irene não faça perguntas difíceis” devido ao domínio da língua portuguesa.

A Missionária Irene Shields foi quem me deu o nome, era filha de Robert Shields[3]  que ajudou a criar o Francisco Webba. Foi ela que ensinou o meu pai a tocar piano, as músicas que eu ouvia o meu pai tocar eram  Mozart, Chopin, Schubert. música clássica, eu gosto de ouvir. Para mim a música é clássica.

Esses homens, a Igreja Metodista começou a trabalhar mais. Houve uma altura, em que a igreja católica estava filiada ao colono, você ia confessar ter feito isto e aquilo. às tantas,  já estava o homem da PIDE a apanhá-lo, mas depois mudaram de comportamento, houve uma grande mudança.

Fico feliz por  mostrarem que Angola também é capaz!

Atrás da igreja  de Quéssua estão sepultados os meus avós, Julião,   os meus sobrinhos netos vieram há dois anos aqui e foram comigo a Kalandula e ao Quéssua. Conheci uma missionária  cubana, a Cleide, que agora é pastora.

Um grupo de mulheres marchou a favor da libertação de Nelson Mandela na Marginal de Luanda, eu participei. Este é um grande homem!

Os colonizadores também foram embora com medo de represálias. O meu marido era mais preto que muitos pretos e morreu porque quando chegou ao Funchal em  Madeira, todo entusiasmado com os copos “Viva o MPLA”, deram-lhe uma surra e morreu. chamaram-me a dizer que o meu marido estava muito mal. Eles próprios pegaram em dinheiro e deram-me. cheguei a Lisboa e até a madeira foram três dias de barco, já tinha sido sepultado.

E os estudante passavam pela LELLO e o meu  marido ajudava com livros.E quando houvesse rusga nos musseques um dos funcionários da LELLO. o soba dormia lá em casa. Ele de racismo não tinha nem um bocado.

Este depoimento foi realizado em Luanda, no dia 8 de Fevereiro de 2025.

Palavras Chaves: Igreja Metodista|Princesa Diana| Agostinho Neto| Nelson Mandela|Deolinda Rodrigues|OMA|MPLA|Congresso de Mulheres|DTA|Zé Dú|Assimilação

Entrevista e transcrição: Marinela Cerqueira

Audiovisual: Elisa da Costa, Afrokaana

Edição Audiovisual: Leo

Edição da Transcrição do Audiovisual: Judite Luvumba


[1] Jacinto Fortunato

[2] Em 07 de abril de 1930, em Santiago de Cuba, nascia Vilma Espín. Ela foi uma das lutadoras mais ativas do período revolucionário. No período pré-revolucionário, Vilma participou do Movimento 26 de julho, que homenageava o assalto ao quartel Moncada, uma investida da guerrilha revolucionária que aconteceu em 26 de julho de 1953, cinco antes do triunfo da Revolução Cubana, e da qual Espín também participou.https://capiremov.org/experiencias/vilma-espin-uma-revolucao-dentro-da-revolucao/

[3] Reverend Robert Shields, his wife Louise Shields, and members of their family were Methodist missionaries in Angola between the 1890s and the 1960s. The Shields Family Papers consist of correspondence, legal papers, and photographs created by three generations of a missionary family. The correspondence documents the experiences of a missionary family in Angola (Luanda and Malange) and Zimbabwe (including the Umtali region) in the early twentieth century, and includes letters written from family members in England, among them letters written from Greta Gazeley to her mother, Wilhelmina Shields Gazeley, in the 1950s. https://researchworks.oclc.org/archivegrid/collection/data/414_slibrarydukeedurubensteinfindingaidsshieldsfamilyxml