O artista plástico Sebastião Cassule partilha factos sobre a vida sociocultural em Luanda. O cinema era uma das maiores atrações para os jovens católicos envolvidos em ações sociais na Igreja de São Domingos. No âmbito da responsabilidade social, criou o Atelier Marilândia Cassule, uma iniciativa privada dedicada ao ensino das artes plásticas e à ocupação dos tempos livres.
Esta transcrição segue a sequência da entrevista.
INTRODUÇÃO
Sou o Sebastião Joaquim N’debela Cassule, de nome artístico Dom Sebas. Tenho cinquenta e sete anos de idade. Nasci em 12 de março de 1968, no município de Ambaca, Comuna de Camabatela, Província Cuanza Norte…
O DIA 11 DE NOVEMBRO DE 1975
À meia noite de 10 de Novembro de 1975 eu estava por baixo da cama, em casa da minha avó Maria por trás do Jumbo, devido aos tiros todos nós atiramo-nos para debaixo da cama, eu tinha sete anos. Foi assim que passei a independência. Não tinha noção do que era porque como criança nunca senti nada adverso, não tinha noção de sermos oprimidos. Eu não tinha contacto com os colonos portugueses e os que tive foram pontuais, não foram cruéis. Mas a história e os factos dizem o contrário. Mas, eu como não tinha noção, não tenho isso na minha memória mais profunda.
Mas, eu sofri indirectamente as agruras da colonização porque embora eu recorrentemente me considere como sendo natural de Camabatela, nasci numa cadeia porque o meu pai foi preso político. Nasci numa cadeia em Ibisso, no Cuando Cubango. Mas eu nunca admiti ser de lá porque eu considero a cadeia, o meu pai teve lá em uma condição especial, como uma área franca. Então, nunca assumi aquele espaço como sendo a minha naturalidade o espaço da cadeia. Só isso já revela quão…
A CULTURA ANGOLANA
Nós tivemos sempre uma cultura muito ligada à imagem em movimento e conseguimos ter uma relação muito próxima com a televisão. Nos anos 70-80 tínhamos apenas uma estação de televisão, a TPA, apenas uma rádio, a RNA e depois no final dos anos 90 foram surgindo as rádios comerciais, mas sempre tivemos opressivo era o colonialismo.
Nestes espaços como fontes e eu não sabia umbundo, mas já tinha a 4ª classe. Ensinava depois nas salas de cinema, não apenas como fontes de diversão, mas como fontes de busca de informação que depois, de acordo com a experiência de cada um, essas informações transformaram-se em experiência para a vida.
O CINEMA
Havia também uma determinada organização para o nosso acesso aos bilhetes do cinema. Ainda me lembro, os mais disciplinados na catequese da São Domingos tinham acesso a ver o filme no Cinema São Domingos. Eram sempre filmes com uma lição e por isso eram também fontes privilegiadas de educação.
Na altura, recebíamos filmes de várias origens, do Bloco Socialista com o qual tínhamos uma relação muito próxima, mas havia também filmes vindos dos Estados Unidos e do Brasil. Depois, as salas de cinema acabaram por ter também outras funções. Não somente o espetáculo ligados ao cinema, mas também ao teatro, aos concursos de dança, aos concursos de música, às festas. Mas, acabavam por ser espaços que nós ocupamos durante os finais de semana.
E havia, apesar do País estar em guerra, uma certa segurança, tanto que nós frequentamos os Cinemas com horários apropriados às faixas etárias. Os mais novos iam à matinê, pois eram filmes para maiores de seis anos ou de 12 anos, havia esse cuidado que hoje não há. O acesso hoje à informação por via das redes sociais e da Internet não olham para esse critério de selecionar o que deve ser visto e ouvido por uma criança de seis anos ou doze anos. Hoje é tudo aberto. Este é o grande perigo, está tudo aberto. Antes havia esse cuidado. Havia a soirée para os mais adultos, filmes para maiores de dezoito anos. Havia controle.
Quando o utente levantava alguma suspeita do ponto de vista da idade, pela sua aparência, ele tinha de mostrar o bilhete de identidade porque havia aquelas pessoas precoces, mas sempre com uma cara de garotinho. Estes tinham de mostrar o bilhete de identidade. Portanto, são valores que nós devíamos recuperar, perderam-se.
Do ponto de vista sobre o que temos de fazer? Eu tenho uma experiência por ter estado mais de trinta anos em um grupo de jovens por onde passaram várias gerações, há de ter havido o conflito de gerações, mas cada geração tem as suas virtudes e os seus problemas e vícios. Cada um tem de procurar dominar ou viver o seu tempo , de forma correta, porque eu não posso viver o tempo do meu pai ou do meu avô. É claro que eu posso apropriar-me daqueles valores já criados pelos meus ancestrais. Isso é importante.
Mas, os tempos são completamente diferentes. Temos sempre de tirar o melhor partido possível de cada situação, também como um elemento socialmente útil desenvolvermos o espaço onde estamos, desenvolvermos a nossa profissão e em particular desenvolvermos a nossa família.
A CADEIA DE VALOR DA ARTE E O ATELIER MARILÂNDIA CASSULE
Como artista procuro ter uma responsabilidade social e ter engajamento no lugar onde eu estou, a partir da minha família quero alterar o espaço onde estou, a minha comunidade e as pessoas que me são próximas, sobretudo os jovens, desde os meus filhos e particularmente aqueles com a minha profissão, daí ter criado com inspiração a Marilândia Cassule, fundada minha esposa. Ela é a produtora. Esta 1ª residência do Atelier Don Sebas Cassule para por via desta plataforma eu passar a minha experiência aos mais jovens.
Eu vivo da minha arte. Hoje, ainda não se vive da arte em Angola, ainda não se vive de qualquer arte artística, é perentório dizer que ainda não se vive da arte. Mas, há alguns artistas que já podem viver da sua arte, mas por um esforço pessoal, não por existir um sistema.
Tal como existe nas outras atividades profissionais, quer seja formal ou informal, nós temos um mercado de emprego que nos recebe. Nas artes, nós não temos um mercado que nos recebe, não há um sistema a receber o artista, portanto de forma geral não se pode dizer que já se vive de arte. Porque o sistema é composto por vários elementos, desde a formação até aos meios de divulgação dessa atividade até chegar ao consumidor final. Nós temos nesse circuito de todas atividades ou disciplinas artísticas essa discrepância até chegarmos ao consumidor. Por isso, nós vimos mesmo consumidores com capacidade financeira não adquirem o produto artístico, porquê? Por falta de conhecimento e de ter um sistema que faça esse produto chegar ao consumidor final. Portanto, se não existe esse sistema temos uma necessidade identificada e precisamos de resolver isso. E a resolução começa por cada um dos elementos parte desse sistema e o primeiro elemento da cadeia de valor da arte é o artista, portanto, o artista tem de necessariamente ser um empreendedor. Daí o facto da minha esposa e eu criamos essa plataforma de residências artísticas, sob o tema” Luanda Praticidade de Viver e de Residir’’. Práticas, tem aqui o duplo conceito de fazer, de trabalhar com o produtor artístico e prática no sentido de quem vive e reside em Luanda tentar se adaptar a esse espaço e fazer nesse espaço o seu melhor espaço para viver.
Não importa se nasceu em Luanda ou fora de Angola, mas quem reside, trabalha e vive em Luanda precisa de contribuir e, se adaptar a essa forma de viver e criar mecanismo para poder viver nesse espaço, é esse legado que eu pretendo passar, fazendo, aos mais jovens.
CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES
Tirar o melhor partido das situações, estarem atentos e viver o seu tempo. Estar preocupado com o seu tempo, mas também é importante olhar para as experiências dos mais maduros. Muitas coisas na sociedade que se repetem; nos problemas recorrentes, podemos sempre olhar para a experiência dos mais velhos, e ver como os mais velhos resolveram aquele problema. Então, vamos tirar partido disso, conversar com os nossos pais, com os nossos mais velhos, para tirar dúvidas.
Recorrendo a uma analogia, a corrida de estafetas é uma corrida de parceria, e é tempo de saber fazer parcerias. Hoje mesmo as grandes multinacionais fazem parcerias essencialmente devido às crises. Quando temos uma crise, acabamos por não perder tudo se tivermos uma parceria, se não apostarmos tudo naquele negócio, naquele produto. Portanto, na corrida de estafetas há um esforço de parte a parte, tanto de quem entrega a estafeta como da parte de quem recebe a estafeta.
Outra analogia que eu faço são as profissões, aquelas profissões em desuso como a serralharia por causa da automatização da tecnologia, a mecânica, a sapataria. Hoje valoriza-se tudo feito à mão. Essas profissões são aprendidas vendo os mestres a fazer e o mestre não é propriamente um professor, ele ensina-nos fazendo e na medida que mostramos a curiosidade em saber, o mestre vai ensinando e nos vai inclusive mostrar aqueles pequenos truques. Aprendem-se os pequenos segredos, perguntando. Portanto, os jovens não podem esperar dos mais velhos, dos mais experientes, que sejam eles a passar o testemunho.
Eles têm de dar o passo de acordo às necessidades e aos seus interesses nessa informação para depois transformar em conhecimento e posteriormente em sabedoria e tirar partido sobretudo do momento que se vive.
IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA ORAL
A importância da memória oral é fundamental e deve ser o grande sustento para a evolução e o desenvolvimento do homem porque nós temos capacidade e porque particularmente nós africanos somos essencialmente orais e isso nos torna cada vez mais humanos porque a oralidade passa uma série de aspectos que têm muito a ver com o calor humano, com a emoção e isso é extremamente importante com as relações humanas, na valorização do outro.
A grande crise que temos hoje a nível mundial se deve à automatização e à digitalização. É o facto de nós transferirmos o saber para as máquinas e então perde-se esse contacto emocional, perde-se a vida. E a memória oral tem isso e felizmente nós ainda conseguimos conservar isso.
Ainda conseguimos ser uma espécie rara e pudemos, temos imensas dificuldades, mesmo a partir das necessidades básicas e muitas dessas necessidades são recorrentes e as causas são o facto de nós não termos capacidade de adquirir serviços, produtos e meios porque não temos dinheiro.
Mas nós hoje, podemos fazer do turismo uma fonte inesgotável de capital na nossa oralidade, isto é muito natural. A nossa hospitalidade, a forma de recebermos as pessoas é algo único. Podemos transformar isso em dinheiro. Hoje, há várias formas de fazer turismo e há lugares que estão muito evoluídos ao nível de outras áreas geográficas, mas que perderam a humanidade, esse calor humano. Há muitas coisas institucionalizadas, mas aqui ainda o fazemos com naturalidade. Esse calor humano, esse sentir que o outro é importante para mim, que o outro está no princípio e está no fim, para cada um de nós, o princípio e o fim de vida está no outro. Ao nascermos dependemos de alguém e ao morrermos também dependemos de alguém e no processo da vida idem. Então, porque é que o outro não tem valor? Aqui ainda temos isso, ainda valorizamos a pessoa humana e ao transmitirmos o conhecimento através da fala, apesar de que se perde muito através da fala, muitas coisas ficam.
Mas também precisamos de fazer registos, e usar outros meios de fazer registos dessa nossa riqueza. Ainda, conseguimos ser únicos, autênticos, e naturais nesse quesito e o mundo está a precisar dessa humanidade. Essa humanidade vai permitir que o mundo viva em paz, que possamos usufruir de tudo aquilo que a natureza nos oferece e o que ela nos oferece independentemente de qualquer geografia, pertence à Humanidade. Portanto, o meu lugar de viver é aquele em que eu me sinto bem, aquele onde eu sou bem tratado e nós ainda tratamos muito bem as pessoas.
As fronteiras físicas foram criadas pelas pessoas para dividir e não há necessidade disso, nós somos apenas uma raça, a raça humana e precisamos de partilhar e essa oralidade, essa memória oral permite-nos isso, Não temos essa faculdade de partilhar. E o que precisamos de fazer, produzir e partilhar as boas coisas.
Este depoimento foi realizado em Luanda, em Março de 2025.
Palavras Chaves: Atelier Marilândia Cassule|
Audiovisual: Muki Produções
Transcrição: Marinela Cerqueira

