Na preparação da participação da HSA na comemoração do Dia Internacional dos Museus, no Namibe, a 18 de junho de 2023, contactámos antecipadamente a depoente Judite Luvumba para sugerir participantes residentes no Huambo, Benguela e Namibe. Silva Silvano foi contactado na véspera da chegada ao Namibe, recebeu a HSA e a Muki Produções no final do dia, na sua residência na Avenida 14 de Abril, e começou por ler as notas elaboradas naquela manhã. Como é habitual, foi-lhe oferecido um exemplar de Juventude Angolana no Período Pós-Colonial: Contribuição à Análise Qualitativa.
O presente depoimento complementa uma curta historiografia colectiva realizada por outros dois depoentes, Idelberto Madeira e Sidónio Gaspar, com patrocínio do Governo Provincial de Benguela e em colaboração com a Direcção de Monumentos e Sítios da Direcção Provincial do Ministério da Cultura de Angola. O depoimento é sucinto; o depoente hesitou na sua divulgação e, por outro lado, a HSA não dispõe de agentes sociais no Namibe para dar continuidade. Certos relatos exigem interação profunda e maior duração para alcançar o padrão esperado. Seguindo os procedimentos metodológicos em que “todo angolano pode contar a sua história”, este depoimento será publicado na expectativa de continuidade.
Silva Silvano expressa preocupação com a sociedade, e especialmente com os anciãos, relativamente à escalada da violência.
“Para mim, a história deve narrar o passado da humanidade, mas também o presente, para que a camada juvenil nascida na década de 1980 possa contribuir para a elaboração do documento. Observa-se que estrangeiros, por vezes pouco conhecedores da realidade angolana, intervêm na elaboração da história do país, enquanto existem angolanos com conhecimento para contar a própria história.
Sou Silva Silvano, casado, de origem camponesa, nascido em 1946 na aldeia de Lumbungululo, Município da Tchicala Tcholoanga, Província do Huambo. Aos 14 e 15 anos, ajudei os meus pais a desbravar a terra com charrua puxada por bois e estudei na aldeia até aos 16 anos. Depois, estudei no Centro de Bethel e na escola particular de Manico, concluindo a quarta classe do ensino primário em 1965.
Naquela época, já havia necessidade de procurar emprego para não depender dos pais. Devido à carência de estabelecimentos de ensino secundário no município, interrompi os estudos até 1972, quando o Governo Português criou o ensino secundário, permitindo-me completar o primeiro e segundo ciclos preparatórios.
Durante a guerra que devastou o país, em 1983 fui obrigado a sair do Huambo e fixei residência na província do Namibe, onde continuei a minha formação académica até ao ensino médio.”
Período colonial
Os nossos antepassados sofreram opressão colonial a partir da década de 1960. Quem nasceu depois desta época não testemunhou tais sofrimentos e viveu melhor. Apesar da ocupação colonial de 500 anos, o povo circulava livremente pelo país. Quem não tivesse dinheiro podia adquirir bens a crédito nas lojas, pagando após a colheita. Também era possível comprar motorizadas ou carros em prestações[1]. Hoje, num país independente, estas facilidades praticamente não existem.
Dia a dia rural
A vida na aldeia consistia em trabalhar a terra e cuidar do gado e caprinos. Cada um dirigia-se ao seu terreno sem conflitos com os vizinhos, ao contrário do que se observa atualmente, com disputas por terras.
Pós-independência
Independência significa não depender de outro Estado. Recebemos o país da opressão colonial, mas atualmente verifica-se insegurança: roubos, furtos, destruição de bens públicos e violência domiciliar. Também se registam ataques a pessoas que levantam dinheiro em bancos, situação presente em várias províncias. A polícia tem envidado esforços para conter estes problemas.
Constata-se ainda pouco respeito por parte de alguns jovens. Antigamente, ao cruzarem-se com um mais velho, inclinavam-se e cumprimentavam dizendo “boa tarde, pai” ou “boa tarde, avó”. Hoje, alguns desrespeitam, afirmando que “estes velhos estão ultrapassados”. Tal comportamento não deveria existir. O respeito por toda a gente é necessário.
Este depoimento foi realizada em Moçâmedes, no dia 16 de Abril de 2024.
Entrevistadores: Marinela Cerqueira Sónia Cançado e D`Jassy Quissanga
Transcrição: Marinela Cerqueira
[1] Provavelmente o depoente não tem conhecimento da existência de créditos bancários, ou no seu caso deve ser difícil aceder à condição de reformado, pois para além de fazer referência ao sistema de microcrédito colonial, vulgarmente conhecido como “fiado” onde o cliente levava bens de consumo e pagava no final do mês ou no fim da colheita conforme refere no depoimento.

