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Estudantes no Exílio: Desafios e Oportunidades em Angola, Marcolino José Moco

Neste depoimento, o professor universitário Marcolino José Carlos Moco exalta e descreve a sua infância nos anos 50 e tempos de estudante no Seminário Menor e no Maior no centro sul de Angola, interrompidos devido à audição dos programas da Rádio Brazzaville-Angola Combatente do MPLA, por expulsão, no fim do Ensino Secundário. É professor desde os seus vinte anos.

A sua simplicidade é inspiradora ao dizer – os idosos podiam depositar testemunho, memórias , histórias de vida, garantindo a preservação da história social. Até ao presente momento, a Plataforma História Social de Angola não reúne condições para constituir uma amostra, porém, a questão da acessibilidade e a predisposição dos donos das memórias constituem indicadores de sucesso e de motivação.

A inclusão de um professor universitário com obras publicadas, com vasta experiência política e de governação, de um antigo primeiro-ministro angolano resulta na contextualização do posicionamento de Angola na África Austral e o resultado das teorias realistas da guerra fria em Angola.

Sobre a importância da oralidade, recorda-nos que ainda vivemos em uma sociedade em transição da cultura tradicional para a ocidental e que o efeito da política colonial da assimilação ainda paira: “quanto mais aculturados ao ocidente, mais nos afastamos da nossa cultura”. Recorda a importância actual da oralidade em África. Contrariamente a outros depoentes, faz abordagem mais generalista e, a nível social, a sua memória viaja de assuntos micro para assuntos macro. Chama a atenção das gerações mais novas apontando um dos maiores erros realizados à data da independência: os líderes dos movimentos de libertação, provavelmente sem escolha, não fizeram tudo para manter a população branca angolana, como se viria a conseguir na Namíbia e África do Sul, provavelmente, a partir da nossa experiência. Descreve a intolerância actual como uma marca da guerra angolana: nos três Bastiões, o bilhete de identidade foi substituído pelo cartão de militante.

Reafirma a necessidade de transparência total nas eleições para a construção da democracia em Angola, sendo esta a antecâmara para deixar conselhos às gerações mais novas. Este panafricanista sonha com um projecto construtivista para Angola e explica ser a União Europeia um projecto social e político que poderia ser adaptado às condições africanas, depois de um levantamento aturado das nossas realidades.

Neste depoimento, recorremos à técnica do audiovisual, menos interpessoal, deixando ao critério do depoente o aprofundamento e a clareza de certos factos durante a validação da transcrição em texto.

INTRODUÇÃO

Eu chamo-me Marcolino José Carlos Moca, sou formado em Direito, tenho o doutoramento. Tenho-me dedicado ao professorado e foi como professor que fui requisitado para funcionário do MPLA, no Huambo, e ocupei funções nacionais e uma internacional de relevo. Fui Secretário da CPLP e, hoje, aos setenta e um anos, estou reformado, não declarado, porque a nossa burocracia ainda não me facultou este privilégio. Continuo a dar aulas. Sou formalmente advogado, sou conferencista e é isso que tem sido a minha vida.

Eu nasci em 1953, na aldeia de Chitue (leia-se Tchitue), no interior da Província do Huambo, vinte e quatro quilómetros a oeste da cidade do Huambo, naquilo que hoje é o município da Ecunha. No tempo em que eu nasci, chamava-se Vila Flor, a sede do município.

PERCURSO ESCOLAR, 1950

Na aldeia onde eu nasci, nos anos 50, havia pouco tempo em que a educação formal do tipo ocidental se começava a instalar. Antes, havia a nossa educação, hoje, do meu ponto de vista, se faz confusão, dizendo-se que não havia educação nem ensino, mas anteriormente havia a educação adaptada ao nível de organização das sociedades pré-coloniais. Por exemplo, hoje, vemos elementos desta educação no sul de Angola, este tipo de educação tradicional ainda prevalece e estava adaptada ao nível da sociedade, ainda não estava muito dominada pela presença colonial europeia, eu nasço nesse tempo em que a administração colonial europeia se começou a instalar.

O meu pai já tinha elementos dessa educação, aliás, foi o meu primeiro professor, comecei a aprender as letras em casa.

Passado algum tempo, fui para as aulas que se davam na pequena igreja protestante da minha aldeia, feita de adobes, onde o meu primo, felizmente ainda vivo, Isaac Salupula, me deu as primeiras lições formais, ao lado de outros meus primos, geralmente, mais velhos do que eu. Estamos em 1961 e eu tenho 8 anos.

Eu aprendia com demasiada facilidade porque já trazia conhecimentos a partir de casa. Por isso, não tardei em ser dispensado da escola, dessa escola da igrejinha. Esperei por uns meses até que o meu pai reunisse os recursos suficientes para ir frequentar um nível superior, no centro evangélico de Essukula, que distava cerca de quatro quilómetros da minha casa. Apanhei o ano lectivo 1961 / 1962 a meio, mas também ali me tornei um aluno acima da média. Feita a segunda classe, o meu padrinho veio lembrar-nos de que eu era católico. Durante aqueles anos, houve um esquecimento que eu era católico. Era interessante porque eu era católico numa aldeia protestante. O meu pai era soba e ficava feio um soba ter apenas uma esposa. E os seus primos, dirigentes da igreja protestante, não aceitaram que eu fosse baptizado na igreja protestante.

Foi quando apareceu o meu padrinho, o senhor José Kalolossio, que na época era seminarista e levou-me a ser baptizado na Missão Católica de Queipeo. Resumindo, inicio os estudos em casa, depois, para a catequese protestante, vou para o centro mais evoluído, sempre como protestante, para Essukula onde faço a segunda classe. Na instrução protestante, repetiam-se os anos várias vezes. Então eu fiz a 1ª Classe, sempre a passar e sendo um dos melhores alunos, repeti a preparatória duas vezes, eles chamavam de preparatória 1 ª, e 2ª e depois fiz a 1ª e a 2ª classes “do Centro”.

Eu tinha de ir para a Missão Evangélica do Elende, mas começando por repetir novamente a 2ª Classe. O meu padrinho torna a aparecer e diz “o meu filho em nome de Deus (afilhado) agora vai comigo” e leva-me para a Missão Católica do Quipeio. Se eu fosse para missão evangélica, teria de repetir a 2ª Classe, chamavam àquilo, tipo, 2ª Classe “da Missão” enquanto a primeira era a do Centro, como disse antes. Na Missão Católica do Quipeio, frequento, imediatamente, a 3ª e 4ª classes, entre 1965 e 1967. Sendo o melhor aluno da turma, sou seleccionado para o Seminário Católico Espírito Santo, na cidade do Huambo, então Nova Lisboa, para frequentar o que hoje é a 5ª Classe (na altura 1º ano do primeiro Cíclo dos Liceus).

No Seminário Menor, mantive-me até 1972, concluindo o antigo 5º ano dos Liceus, sempre com aproveitamento excelente, que possibilitou que fosse um dos 4 ou 5 elementos para o Seminário Maior de Cristo Rei, também na cidade de Nova Lisboa (hoje Huambo).

PROGRAMA DE RÁDIO ANGOLA COMBATENTE, 1974

Mas, em 1974, já num ambiente revolucionário, que se iniciara com o 25 de Abril, nesse ano, eu fui expulso do seminário, um a dois meses antes dos exames no Liceu Norton de Matos, para concluir o antigo 7º ano dos Liceus, também chamado Curso Complementar dos Liceus. É importante sublinhar que nessa altura o Estado português dava equivalência oficial aos estudos feitos nos seminários católicos, mas nós tínhamos de fazer os exames nas instituições de ensino do Estado, ao lado dos alunos da instituição oficial, nesse caso, o Liceu Nacional Norton de Matos, em Nova Lisboa. Eu já tinha feito o exame, no fim do 2º Ano, do Seminário Menor, em 1969, tendo-me destacado como o melhor da nossa turma proveniente do Seminário Menor do Espírito Santo.

A minha expulsão do Seminário Maior, quando pouco faltava para a prestação de exames no Liceu Norton de Matos, deveu-se ao facto de ser um dos teimosos organizadores da audiência do Programa Angola Combatente, do MPLA, que se transmitia a partir da Rádio Brazzaville, que, infelizmente, coincidia todos os dias com a hora da reza do terço. O Padre Reitor, depois de tantos avisos, pela perturbação de que eu era um dos incentivadores, tinha razão toda em expulsar-me; a mim e ao hoje Juiz Conselheiro jubilado meu amigo e compadre Simão de Sousa Vítor. Mas eu tinha 21 anos e o meu colega e amigo 19 anos, e a revolução independentista, para nós, era irresistível.

Então saio, e com alguns apoios. Lembram-se de que eu venho de uma aldeia de camponeses. Mas fazia parte da sua elite, pois eu já não dormia na esteira tradicional. Depois do colchão de palha de milho, passei a dormir num colchão de molas, do tipo que se usava no Seminário. Expulso, tive de passar algumas semanas a dormir “no chão”, em casa de um primo que vivia num dos bairros da cidade de Nova Lisboa, para poder fazer os exames do 7º Ano, do qual saí bem sucedido.

Daqui começa a minha trajectória laboral e política. Estamos em meados do ano de 1974. Angola é ainda uma colónia portuguesa. A Metrópole agitada, quatro meses depois da Revolução de Abril desse ano. Os movimentos de libertação nacional (FNLA, MPLA e UNITA) manobrando pelo seu reconhecimento como únicos “representantes do povo angolano”, embora cada um deles, praticamente, circunscrito a uma zona de influência étnico-regional. Sou admitido como professor do Ensino Preparatório do Secundário, na sede do actual Município de Ucuma, daquele que é hoje a Província do Huambo. Na febre de adesão juvenil a esses chamados “movimentos de libertação nacional”, eu bantu/negro/ umbundo da região, sou praticamente o teimoso que persiste em apresentar-se como simpatizante e depois militante do MPLA, num meio em que todos se converteram em simpatizantes da UNITA, com a excepção de boa parte de mestiços, brancos e membros da escassa presença de funcionários provenientes do norte ambundo. Pior para mim, se elementos do meio em que me movia (colegas de formação e profissão) tinham pela UNITA apenas uma ligação sentimental, eu parti, desde o início, para um engajamento de natureza institucional. Sou indicado como adjunto do coordenador municipal da JMPLA (Juventude do MPLA) no Cuma que era quase tudo branco e, naturalmente, no meio de mestiços e ambundos, na generalidade; criando-se, para mim, uma conotação bastante desfavorável, lá onde a unanimidade mais propendia para ideologias da negritude, com uma acentuada vertente étnico-regional um-bundo, atribuída à UNITA e ao seu fulgurante e carismático líder Jonas Savimbi, o mais jovem dos três líderes dos movimentos de libertação nacional.

Esta opção temerária e contra o mainstream local a que me impus tinha as suas raízes numa formação político-ideológica pessoal assente, inicialmente, nos conhecimentos em que um colega e muito amigo ambundo da Quibala, de nome Fernando Pinto Fernandes, me tinha adestrado, no Seminário Menor do Espírito Santo, onde nos conhecemos, sobre os nacionalistas (e escritores) do centro-norte de Angola, tais como Agostinho Neto, António Jacinto, António Cardoso, os irmãos Pinto de Andrade, os padres César, Alexandre do Nascimento, Augusto Kambua, etc., etc., cujas histórias me contava animadamente e de que líamos alguns poemas e outros textos revolucionários. Por outro lado, cedo me tornei num insaciável leitor da bibliografia marxista, ideologia em relação à qual o MPLA mais estava conotado.

TOLERÂNCIA POLÍTICA, HUAMBO 1976

Mas, a partir da entrada de Jonas Savimbi naquela zona, toda a gente mudou de partido. Eu fui um dos únicos teimosos a ser do MPLA e continuo no MPLA até aos últimos dias. Foi muito difícil, naquele ambiente “desportivo” onde cada um se definia: “eu sou do MPLA”, “eu sou da FNLA”, assim começaram as hostilidades, entre familiares, entre amigos. Eu, felizmente, cresci e desenvolvi-me politicamente em um ambiente de amigos de alto nível, mesmo noutra altura, sendo de outros partidos, continuamos amigos até hoje, mas na generalidade a situação ficou muito complicada.

Eu tive de passar pelas cadeias da UNITA, mais de uma vez, escapando à morte certa, enfim! Sendo considerado quase um traidor, se calhar, na minha tribo, eu era um traidor. O MPLA é expulso depois, e segue-se a maior dificuldade dos militantes do MPLA que ficaram na província do Huambo. Uma boa parte teve de fugir, como não foi o meu caso: uma grande parte tiveram de fugir para o litoral. Nessa altura, eu não consegui fugir, somente safei-me da cadeia devido à minha família. Pertenço a uma família da elite passada e, mesmo hoje, eu devia ter sido soba ou regedor da minha aldeia porque é uma tradição que já vem de há muitos séculos, e isto safou-me. E, pelo facto de fazer parte da elite intelectual, isso também contou, nas várias vezes em que escapei à morte.

Devo dizer que isso se passou em todos os bastiões. Por exemplo, aqui em Luanda, era muito difícil, depois de eclodiram as guerras, ser-se de outro movimento de libertação. O mesmo se passava no Uíge e no Zaire que eram o bastião da FNLA. “Ai de ti que fosses do MPLA”. Depois do desportivismo das adesões, o bilhete de identidade passou a ser o cartão do partido da zona. Eu vivi esta situação de uma forma dramática, porque, às tantas, me pediram o cartão de militante da UNITA que eu não tinha, portanto, foi muito complicado. Depois, o MPLA como o governo retoma a província, e começa o meu crescimento dentro do MPLA e retomo os estudos, como já referi, de Direito até me licenciar e, hoje, sou doutorado pela Universidade de Lisboa.

MEMÓRIAS MARCANTES

Tenho algumas relevantes. Na aldeia, sou uma criança como as outras, brincadeiras lindas que hoje arrepiam a saudade que nós temos disso: de ir acompanhar os velhos às lavras; passar pelas lavras a recolher frutos do mato; sair com os colegas, os nossos primos e primas; aquelas brincadeiras muito lindas.

Mas isso foi um período muito pequeno porque eu, depois, vou para os estudos e há um fenómeno que eu vivi e de que me recordo sobre a angústia que ocorre quando se vai para a escola. No caso, você pode ser o único da aldeia que frequenta esses estudos, onde vai aperfeiçoar a língua local? E somos de um país onde isso continua até hoje, onde a língua local não é valorizada.

Tenho amigos que apanharam pancadas por falarem a língua local. Então, eu passei por angústia de vir da escola, no tempo passado na missão, a mais trinta quilómetros, ou do seminário do Huambo, chegar à aldeia e não conseguir estar à vontade com os meus amigos com quem cresci e com quem brinquei.

Depois, eles casavam-se mais cedo e havia tias a criticarem, diziam: esse Moco nunca mais casa! A tal culturalidade da cultura ocidental e a tradicional, isso é muito angustiante porque eu não estava em condições de ir por exemplo à vila e conviver com os meus colegas e visitar a tal aculturação entre a cultura tradicional e a ocidental. Aliás, eles estudavam na sua aldeia e eu apenas na escola. Na sua maioria esmagadora, também havia descendentes de europeus nas nossas aldeias, mas eram muito poucos. Então, era essa a angústia: não podias ir à vila conviver com os amigos brancos e não podias ir à aldeia brincar com os teus amigos e parentes, Nem sequer tinha aquela liberdade, pois já estavas a ser separado da cultura tradicional.

Então é uma lembrança que tenho desta angústia existencial, convivencial, que eu carrego, que eu vivi entre os 13 e os dezasseis anos. Aos dezassete anos, eu comecei a entender, mas esse período foi muito difícil porque sobretudo no período de férias eu vivia muito isolado.

Falando do desporto, muito cedo, comecei a afeiçoar-me pelo futebol tanto na escola como na minha aldeia. Não havia equipas famosas, mas eu era dos melhores, por todas as escolas onde passei, eu era seleccionável e jogava também na minha aldeia onde havia bons executantes de futebol.

EQUACIONAR AS POPULAÇÕES AFRICANAS

Nas instituições religiosas, os nossos professores eram todos africanos (ia dizer angolanos, mas os brancos também eram angolanos). Isso se calhar é uma questão que podemos abordar mais à frente, a questão das raças. O problema do êxodo que houve a quem chamávamos brancos que eram chamados de colonos é que, quando lá chegarmos, irei falar de um dos maiores dramas.

E isso não foi voluntariamente criado para destrinçar-mos as raças. Durante muito tempo, até acossados pelo tal problema da guerra fria, equacionámos, e muito mal, que o problema era entre a raça branca e a raça negra. E hoje estamos a viver este problema de equacionarmos mal, que a África do Sul corrigiu o seu problema depois de nós, muito cedo, após a independência e nós ainda não. Mas eu não tive esse problema, porque o meu primeiro professor foi o meu pai, que era preto; na aldeia, foi o meu primo Isaac, preto como eu; no centro de Secula, foram os meus “tios”: o professor Maurício e outros professores, todos eles pretos; na Missão Católica, os professores e os alunos todos nós éramos pretos, portanto, não tivemos esse problema. No Seminário Maior, os professores eram padres em relação aos quais esses problemas não se colocavam, eram brancos maioritariamente, mas já havia professores pretos.

Em relação ao namoro, era difícil porque o seminarista estava a preparar-se para padre, gostava de umas moças, mas tinha de apagar esse pensamento. Gostava de umas primas naturalmente, mas não me podia manifestar, claro que tinha paixões…

Depois, quando veio essa decepção dos partidos, estou no auge da juventude, tinha vinte anos e tinha um problema principal por que me viam como um comunista pelo bastião da UNITA. Foi difícil, tivemos muitos problemas, mas convivia-se, mas tudo se resolve!

A ORIGEM DOS NOMES ANGOLANOS

Como vos disse, eu sou da geração de transição, da penetração entre a estática tradicional e a penetração da aculturação colonial. Na estática tradicional, não havia apelidos. Cada um nascia com um nome que os pais lhe davam, na maioria dos casos de acordo com o circunstancialismo do seu nascimento, sabe que os gémeos são Jamba e Ngueve, o irmão que se segue aos jovens também tem um nome específico. Há aqueles que nascem em um ano de fome e podem ter um nome especial; há aqueles que nascem depois de muitos falecidos, depois de nados mortos ou falecidos de forma precoce, muitos doentes têm um nome especial. Ou então, o nosso nome resultava do chamado xará, de um antepassado seu ou de um amigo e davam o seu nome completo, igualzinho ao do seu filho, por exemplo, o meu nome veio de um amigo do meu pai. Quando fui baptizado é que se entendeu juntar o nome “José” e o nome do meu pai “Carlos” que era um nome moderno.

Então só hoje é que Moco, que não é nome de família, se torna apelido em relação aos meus descendentes. Hoje, rio-me disso. quando as pessoas pensam que não têm apelido? As pessoas pensam de acordo com o período actual. Esquecem-se dos períodos de transição. Por exemplo, aqui no norte, os apelidos foram adoptados mais cedo. Nós somos todos de famílias bantu, cada pessoa nascia com o seu nome conforme as circunstâncias, portanto, o nome Moco aparece por essa razão. Eu e todos os meus irmãos temos apelidos diferentes por causa dessa circunstância.

E foi bom porque eu cheguei a 1 º Ministro numa altura em que os rebeldes da UNITA chegaram à Província do Huambo. Então, se os meus irmãos usassem o meu apelido seria um desastre. Mesmo assim, houve alguns casos em que, mesmo sem o apelido, as pessoas sabiam que se tratava de meu parente, e havia problemas. Tenho um irmão desaparecido. Mas não se veja isso como um atiçar de achas que já estão apagadas, porque já está tudo apagado. Serve somente para informação.

Há outros Mocos de outras etnias que o significado é diferente. Por exemplo, Moco em umbundu é glicério. Tem vários significados. Um deles é “faca’’. No bullying na escola, os meus colegas na escola usavam muito isso para me irritarem (falado em umbundu), mas Moco também significa poder, capacidade de fazer alguma coisa, ter faculdade de fazer isso ou aquilo. Estava a dizer que há etnias que usam o nome Moco, mas tem outro significado. Tornei-me amigo de kikongos por termos o mesmo nome, mas o nome deles tem outro significado, em kikongo, significa “mão ou mãos”.

RELAÇÃO ENTRE PARENTES E FAMILIARES NA SUA ÉPOCA

Hoje os jovens faltam respeito aos seus pais, na altura, a educação era mais rigorosa?

Acho que vocês que me estão a fazer essas perguntas não têm a noção das diferenças entre a sociedade tradicional e a sociedade em que vocês cresceram nos centros urbanos, onde a sociedade tradicional tem ainda a sua influência. Aqui ainda se fala do feitiço e da tala, mas da boa forma está ocidentalizada e em que o individualismo está a afirmar-se cada vez mais, e a relação de oportunismo entre pais e filhos se exacerba. Na sociedade onde eu nasci, também está a haver esta mudança, o contágio urbano está a chegar a esses locais, volta e meia, vou à minha aldeia e constato isso.

No meu tempo, a relação era de respeito, quase subordinação do filho em relação ao seu pai. Eu fui privilegiado como filho mais velho. Os meus pais privilegiaram a minha educação porque os recursos não abundavam e então sempre tive uma consideração privilegiada dos meus pais. Mas eu também sempre retribuí. os meus irmãos tiveram maiores dificuldades na formação, eu só vim a Luanda depois da independência, já com vinte e três anos. Desapareceu um irmão meu nos confrontos, mas esse meu irmão veio para Luanda com menos de dezoito anos para remediar a vida.

Inserido naquela comunidade, tinha relações com os meus primos, jogava com eles à bola, apenas com aquela dificuldade do período colonial que já referi e, infelizmente, até hoje, quanto mais estudos tiver, maior é a dificuldade de se relacionar com a sua comunidade tradicional. Em regra, costumo dizer: há países africanos, especialmente os que tiveram a colonização anglo-saxónica, resolveram isso de forma mais acertada, em que se conservavam os elementos naturais tradicionais mesmo quando nós avançávamos na formação do tipo ocidental.

Sabe o que costumo dizer? Não será cedo e, se calhar, nunca acontecerá, não será preciso aparecer um Nelson Mandela, em Moçambique ou em Angola ou na Guiné Bissau, não falo de Cabo Verde por ser outro caso. Na educação luso-colonial e franco-colonial, há esse problema em que as pessoas quanto mais avançam na aculturação ocidental, na educação colonial, mais se separam da sociedade tradicional. E até se cria a tal situação de intolerância que se vê em Angola.

A intolerância terrível que existe, em que as pessoas não suportam as outras de outros partidos e, ainda por cima, os partidos têm conotação etnico regional e sociológica, e isso não se vê por exemplo na África do Sul, onde as pessoas falam e dominam as línguas africanas. Quanto mais estudam, melhor dominam o inglês, melhor falam o africânder. Já referi que eu vivi essa relação com os meus familiares e primos, pois, à medida que eu mais me aculturava, mais me afastava da cultura tradicional.

CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES

Você está a falar em conselhos? Eu, como acadêmico, modéstia à parte, sou cientista, não gosto muito de falar de conselhos porque as pessoas são condicionadas pelo meio em que vivem, por isso é que fiz aquela referência entre as antigas colónias anglosaxonicas e francófonas. Os franceses e os portugueses tendiam em fazer apagar as ou-tras culturas dos territórios que eles colonizavam, como considerava… um dia, o professor Marcelo Caetano, ao dizer algo absurdo: via com muita pena que os missionários estavam a tentar preservar as nossas línguas, sem qualquer valor expressivo. Referia-se a elas como dialectos, as nossas línguas kimbundu, cokwe, etc.

A política era transformar o colonizado em um europeu, por isso, havia o estatuto de assimilado e europeu e isto causou-nos um grande prejuízo e continua a causar-nos grandes prejuízos, porque nem é possível assimilar tudo o que é ocidental como também não é possível abandonar tudo que é tradicional e, por isso, então, eu volto a referir aquela expressão, hoje, muitas pessoas, os mais velhos também, e sobretudo hoje, não são nem carne e nem peixe. Então não é um conselho que vai acabar com isso.

Eu costumo aconselhar a mudarmos de padrão. Aqui, já em uma vertente construtivista como a Europa constitui a União Europeia, aquilo foi uma obra académica, política e cívica. Eu tenho este sonho que em Angola da sociedade civil, do governo e das igrejas possamos erguer um grupo de pessoas que se dediquem a essa construção: construir um país em que tenhamos um estado construído de acordo com a nossa realidade: um Estado que aceita as diferenças. Porque o nosso Estado não aceita as diferenças. Estamos em um Estado unilateral que foi proclamado em 1975 pelo meu partido e que não aceita as diferenças. Mas aqueles que estão no poder (porque eu já não estou) encontraram um mecanismo que mantém tudo na mesma, porque havia uma referência ideológica. Hoje, isso é uma desordem em que se procura continuar com o Partido-estado. Então, a sociedade está condicionada por essa forma unilateral de dirigir o país , não há conselho que altere, por mais que venha de um mais velho “com dentes na boca’’, como eu. Nós temos de alterar o modelo. Temos de alterar este esquema. Temos de eliminar isso pela via pacífica.

Em Angola, ainda estamos a tempo de evitar sequer aquilo que se está a passar em Moçambique e que está a ser comandado por pessoas da vossa geração, das pessoas com cinquenta anos. E as pessoas que estão admiradas chamam aos jovens e ao Venâncio da vossa idade de desordeiros.

Ele não é desordeiro. É desordeiro na interpretação deles, mas são tantos abusos do poder que têm acontecido ao longo desse anos pela minha geração, a geração que está no poder, que agora esta geração de 50 anos está a crescer e a nossa está a desaparecer. E não conseguiremos vergá-los a acompanhar a nossa cartilha. É isto que está a acontecer.

Estamos a defender que nós devíamos adiantar a modificação das coisas, eu chamo a isso “entregar o poder ao povo”, porque desde 75 o poder ficou com o MPLA. Na altura, havia justificação porque o povo ainda não estava organizado, então o MPLA assumiu o poder no meio daquela confusão.

Mas, em 1992, eu considerei que tinha chegado a altura de entregar o poder ao povo. E como se entrega o poder ao povo? É acabar com toda essa opacidade das eleições, porque a CNE, o tribunal e a Comunicação Social Pública são da FRELIMO. É um pouco parecido com o nosso caso em Angola. Como é possível haver eleições nestas condições, e como não haverá eleições problemáticas ?

O exemplo contrário está na África do Sul, as instituições são transparentes, nas últimas eleições, o ANC ganhou, mas sem a maioria absoluta, e eles encontraram uma solução adequada. Outro exemplo é o Botswana. O partido que governou por cerca de 60 anos perdeu as eleições e não houve qualquer problema, porque todos viram os resultados eleitorais, pois, em democracia, perde-se ou ganha-se. Mas, até hoje, em Angola e em Moçambique, a noção que se tem é que “não se pode perder o poder’’. Não há conselho a dar enquanto não chegarmos a esse nível!

A IMPORTÂNCIA DA ORALIDADE NA CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA SOCIAL

A oralidade é um aspecto muito importante na cultura tradicional pré-colonial que não acabou. A cultura tradicional existe antes da presença colonial europeia e ainda persiste, pois, até hoje, falamos de feitiços e de crendices. Nessa altura, ainda não havia escrita. Eu, às vezes, rio-me de algumas pessoas que pensam que isso desvaloriza os africanos, e insistem em dizer que havia escrita. Não havia escrita nenhuma , os bantu não tinham escrita. Essa escrita que temos hoje em kimbundu, umbundu e etc foi obra dos missionários. E isto não deve inferiorizar ninguém. Era assim aqui em África, na África banta. Não havia necessidade de escrita na organização social existente, porque a escrita apareceu naquelas sociedades onde aquela complexidade de actividades de comércio agigantou-se. Foi o que aconteceu na China, ao longo do rio Amarelo, onde havia muita navegação; ao longo do Mediterâneo, onde havia muito comércio e aconteceu também na Índia ao longo do rio Gange. África foi sempre um continente muito isolado.

Havia zonas de África em que havia escrita como no Egipto e na Etiópia. As pessoas confundem o continente com algumas das suas partes. Mas eu entendo. É a azáfama de quererem dizer que não era assim, de tentarem explicar a não inferioridade. A minha avó, por exemplo, não estudou na escola, mas eu conheci-a até aos meus dez anos, quando ela faleceu, mas eu considero aquela senhora que nunca andou na escola formal uma filósofa, uma sábia na sociedade em que ela vivia, embora na fase de transição . E é curioso ter sido ela que aconselhou o meu pai a ir para a escola, ela dizia “os tempos agora são outros, vocês que vão viver adiante devem ir para a escola. Carlos, vai para a escola’’ (falado em umbundu). Entre todos os irmãos, ele era o mais novo e ela seleccionou-o para frequentar a escola missionária do tipo ocidental. Eu, hoje, vejo pessoas a atribuírem a pessoas como a minha avó ”essa pessoa era analfabeta”, mas, com esta conotação pejorativa a estas pessoas, isso não é ajuizado, é ignorância!

Então nós vivemos numa sociedade de transição onde a oralidade ainda tem muita importância, mas vai perdendo. Por exemplo, hoje, ninguém conseguirá ser escritor como o Pepetela e outros se se condicionar à oralidade, porém, na aldeia, há pessoas que não escrevem, mas que poderiam ser equiparadas a escritores. Então, é preciso ter este pensamento evolutivo e adaptado às circunstâncias que nós vamos tendo, para não tomar nada por absoluto. Não vamos relativizar, mas a oralidade ainda é muito importante, como a fome que hoje é absoluta. A forma como o Pepetela escreve, ele parte do princípio que vai ser lido por pessoas tradicionais e todos os grandes escritores como em Moçambique tem o Mia Couto também escrevem para pessoas menos ocidentalizadas.

INTERPRETAÇÃO DO PERCURSO DA NOSSA INDEPENDÊNCIA ATÉ 2024

Eu tenho uma forma de abordar esta questão de forma politicamente incorrecta porque eu sou acadêmico, cientista, fui político e mesmo que tenha deixado de ser político ainda sou visto desta forma. Mas eu, hoje, analiso as coisas do ponto de vista mais estudioso. Eu, hoje, despi o casaco daquilo que eu fui político. Da forma como me defendi desde a década de 1940 até à década de 80, alguém dirá que, até àquela década, nunca ouvimos o Doutor Moco a expressar-se desta forma. É claro que eu não iria exprimir outras ideias naquela altura. Era proibido. Mas de lá para cá as pessoas interessadas em acompanhar o meu percurso sabem que eu tenho uma orientação e condições diferenciadas, mesmo em termos políticos.

CORRIGIR A NARRATIVA HISTÓRICA

Mas, como acadêmico e estudioso, o que posso sublinhar, digo-vos: a primeira coisa que eu costumo sublinhar nos meus livros (pouca gente os lê) é que nós teríamos de começar por corrigir a narrativa histórica. O primeiro erro da narrativa histórica orquestrada pela necessidade da tal libertação e pela independência nacional é que Angola foi colonizada durante cinco séculos pelos portugueses. Isso é o que está politicamente incorrecto. É o que eu digo e está escrito já há muitos anos. É mentira! Os portugueses não colonizaram Angola durante cinco séculos, os portugueses contribuíram para a criação de Angola durante cinco séculos. Parece pequena coisa, mas isso é muito importante.

Isso é muito importante porque foi esse erro que, em 1975, nos levou a concluir que os brancos podiam ir embora porque somos angolanos há cinco séculos, quando eles faziam parte da estruturação de Angola – aliás, quem estruturou Angola foi o próprio Europeu e não o Africano, para o bem ou para o mal. Então, o grande erro foi pensarem assim, Jonas Savimbi e Agostinho Neto, mas também não tiveram culpa. Foram as circunstâncias que os empurraram para isso, pois o objectivo era fazer tudo por tudo para que Angola obtivesse aquele êxodo de brancos, pois só ficaram aqueles fanáticos pelo MPLA ou pela UNITA, e para Angola não ter aquele exército de angolanos de origem europeia porque só ficaram os mestiços. E até os mestiços eles queriam que se fossem embora. Brincava-se, brincávamos “os brancos que fiquem na terra deles e os mestiços que fiquem no mar’’, havia desses erros.

Então, o descalabro de Angola que vivemos até hoje parte desse erro de narrativa histórica e, como já vos disse, isso na Namíbia e na África do Sul foi corrigido. Devia ter sido corrigido no Zimbabwe, mas este país quis imitar Angola e vive os mesmo problemas que nós, e até pior do que nós, pois, até hoje, na Namíbia, há pessoas que ainda não tomaram consciência daquilo que vos estou a dizer. Agora, os nossos países africanos modernos são obra de brancos, mestiços, pretos e de outras raças.

Então, com esse erro de análise que na altura não era possível evitar, tivemos esses problemas todos: as guerras de libertação e início da destruição de muitos aspectos positivos que tínhamos entre 73 e 75.

A partir de 1974, até o bacalhau que estava armazenado comemos todo de uma vez; levámos geleiras para as aldeias onde não havia electricidade. Às cidades, foram nossas populações que comiam bem ao seu nível: folhas saudáveis, batata-doce, etc, corrigimos, ensinando-lhes a comer arroz, muita carne e a beber Coca-cola, destruímos os bons valores nutricionais e agora estamos como estamos.

Em 1992, tentámos corrigir o MPLA aceitando “que não pode, então, só nós é que temos cabeça para dirigir o país, os outros têm de ficar com armas na mão, isto não pode ser, temos de aceitar os outros”. Mas como ainda não havia este entendimento que era preciso desarmar, que era preciso despartidarizar o Estado, estamos nessa situação.

Em 2002, matámo-nos uns aos outros protagonistas. Matámos o Dr. Jonas Savimbi, mas continuamos com o mesmo raciocínio, continuamos com essa teoria que se chama teoria realista: “nós quando temos o poder não o devemos largar, o outro que o quer que lute também “. “Então, se o MPLA derrotou o Savimbi não pode entregar o poder ao povo?”. Construir mecanismos transparentes para que as eleições sejam ganhas por quem ganhou por sermos democratas. A contagem é limitada; é tudo intransparente e, depois, tudo descompassado entre o local do voto e o das províncias; entra a segurança de Estado e controla tudo e é quem transporta os votos; tudo para nós, o MPLA, continuarmos a mandar.

No âmbito da tal “teoria realista’’, no Ocidente, há cultores dessa política, como Henry Kissinger, mas esta teoria está no fim ou, então, estamos novamente nesse ciclo que já tinha desaparecido. Hoje, estamos a voltar a este tipo de realismo, de onde resulta a guerra da Ucrânia e o regresso a estas guerras, sem sentido, no Médio Oriente. Na África Austral, felizmente estamos bem, mas em Angola e em Moçambique continuamos com esta teoria do realismo de quem não quer entregar o poder de graça. A expressão própria é: “o poder não se entrega de bandeja’’. Assim, nunca sairemos disto para pensarmos “vamos viver de acordo com as nossas

riquezas”. Vamos tornar as instituições transparentes: ganhe o MPLA, ganhe a UNITA, ganhem novos partidos que apareçam. Eu não quero criar um partido, pois já sou mais velho, ganhe quem ganhar.

A perpetuação do medo “se agora ganhar a UNITA, vai nos tirar as nossas coisas, as casas”. Não! Façamos um pacto junto da sociedade civil, junto das igrejas, e eu até proponha junto da União Africana! Embora nesta organização figure o realismo porque a maioria dos líderes são os mesmos que perpetuam na liderança dos países, em Angola, Zimbabwe e Moçambique, presidentes que foram inseridos em outros contextos, como o Cyril Ramaphosa da África do Sul, por terem boas relações, para não parecerem mal-educados com os outros presidentes, não podem reagir a esta horrível filosofia.

Angola, por exemplo, depois de tantas lutas, o povo está a passar mal. Há pessoas a comer no contentor de lixo, o povo está a passar mal em um país com as riquezas que tem. Se prevalecerem neste tipo de teorias, então, se nós prevalecemos neste tipo de teorias, serão vocês e os vossos filhos a passar por isso também, e isto não é racional. Não é humano. Por isso, resumi a minha evolução analítica da situação, quanto às causas de como chegamos a uma ideia destas e como podemos sair disto.

Este depoimento foi realizado em Luanda, no dia 22 de Dezembro de 2024. 

Entrevista e Audiovisual: Muki Produções  

Transcrição: Marinela Cerqueira  

 Palavras chaves: O realismo| O Construtivismo | Origem de Nomes| Narrativa Histórica| Oralidade| Programa Angola Combatente|