Manuel Nelson de Nascimento é uma figura popular do escotismo nacional, memórias sobre este sector e o percurso do depoente são as principais motivações da recolha deste depoimento. Tal como a maioria dos jovens da sua época, descreve aspectos sociais da alimentação destacando a alimentação, nas mudanças sócio econômicas destaca a cooperação e distingue os angolanos cooperantes e os expatriados. Outro facto marcante é a Reconciliação Nacional. Nos concelhos as novas gerações destaca
Memórias captadas em audiovisual e o texto segue a conversa em audiovisual cuja edição pode não seguir a ordem da narrativa.
INTRODUÇÃO
Eu chamo-me Nelson de Jesus Gerson de Nascimento, nasci no dia 14 de Março de 1956 às 13 horas, nas Ingombotas, onde os meus pais moravam, nasci bem perto na maternidade antiga, mas naquela altura era a maternidade Maria do Carmo.
Eu costumo dizer que sou filho de muitas mães. Até 1975, filhos da minha mãe éramos dez, o meu último irmão filho da minha mãe fará agora cinquenta anos, mas em casa também estiveram em casa connosco mais três filhos do meu pai. Do ponto de vista familiar, enquanto irmos não havia problema nenhum.
A minha mãe sempre foi dona de casa e era uma mulher “aquilo que o meu pai não fazia dizia ela’’ não fazia distinção, éramos todos filhos, e naquela altura a ordem era o chicote. Todos nós trabalhávamos. Eu faço todos os trabalhos de casa e os meus irmãos também aprenderam. Havia distinção, e quando a minha mãe toca-se o apito o meu pai apoiava incondicionalmente e vice versa, se houvesse excesso isso eles conversavam entre eles lá no quarto, nós não ouvíamos e nem sabíamos. Depois do 25 de Abril, Voltamos para Luanda, fomos evacuados, e cada um ficou em casa da sua mãe, nós ficamos em nossa casa com a mãe e pai, depois o meu pai separou-se definitivamente, pois já tinha outra, ficamos com outra mãe (mulher em 1969).
A nível familiar iniciam alguns problemas “este é o filho da mãe”, entre irmãos, começou haver separações. Depois, cada um tomou o seu rumo, casaram-se e ainda hoje lamentavelmente há algum as quezílias. mas os meus pais e minha madrasta já morreram, tive o privilégio de viver com o meu pai até aos setenta anos, o meu pai viu-me envelhecer e está viva uma madrasta. No ano 2024 reconciliamo-nos e conseguimos estar juntos, filhos de três mães, os problemas parecem estar resolvidos.
A nível familiar há um outro aspeto, ainda no Uíge na adolescência, estivemos doze filhos, só com o pai a trabalhar, mas o meu pai na polícia foi felizardo porque só com o abono de família ele tinha quase o dobro do vencimento base. no entanto, a polícia pagava entre 23 e 25, então nos primeiros dias do mês tínhamos uma vida razoável, a partir do dia vinte o jantar era sopa, uma banana era dividida para duas ou três pessoas e a maçã divida por dois, tanto que eu depois de me casar fiquei muito tempo sem tomar sopa porque fartei-me da sopa, ai daquele que não queria tomar a sopa! Coisas tristes, mas também engraçadas, hoje conto aos meus filhos.
ENSINO PRIMÁRIO COLONIAL
Eu comecei a estudar aos seis anos de idade, na escola 7, Sousa Coutinho bem de frente ao Governo Provincial de Luanda, a frente da Igreja do Carmo, vivi aqui com os meus pais até 1977. Depois, saí de Luanda e fui viver para Carmona, hoje província do Uíge, aos doze anos e continuei os meus estudos. Primeiro estudei no Colégio Infante Sagres onde concluí a instrução primária e, depois, fui para a Escola Comercial onde fiz o ensino preparatório que naquela altura correspondia ao 1 º e o 2º ano, 5ª e 6ª classe. Depois disso, fiz a admissão aos liceu e fui estudar na Escola Comercial Tomas Berberan e completei o primeiro ciclo que correspondia ao 5º ano. Voltei a Luanda onde continuei a estudar e concluir o ciclo dos liceus. Ao fim desse ciclo, concorri para a auditoria da Polícia Judiciária de Angola em 1974. Tive o privilégio e hoje digo com orgulho em toda a polícia judiciária portuguesa ter sido o mais novo, ter sido o agente da polícia mais nova, aos dezanove anos, foi natural, a juventude engajou-se na revolução, e eu também, nem sabia bem o que lá estava a fazer, acompanhei ao processo até chegar a 1975, estava a chegar aos vinte anos.
Com o disse estudei na escola 7 e sou da geração dos alunos do Diretor Mário Pereira, era um velho, calvo, já com cabelos brancos, era um professor correto, ríspido e impunha disciplina e respeito. fui aluno do professor Cortes na 1 ª e na 2º e na 3ªclasse fui aluno da Professora Otília.
A minha turma, pode-se perceber facilmente, estudei numa escola da baixa porque morava na baixa, era uma escola para europeus, para brancos e na minha turma era uma turma de 35 a 40 alunos e havia três negritos, de resto a turma era constituída por brancos e dois mestiços, eu, a Antonieta que naquela altura se chamava criada, eram afilhados, mas ela tomava conta da filha do padrinho e o António e ele era criado lá de casa, tratava das lides lá de casa e ia buscar o terno. Tenho uma fotografia bem marcante, eu tenho sensivelmente oito anos, estudava a 3ª classe e naquela escadaria da escola 7, a parte que dá exatamente na parte lateral do Governo Provincial era a Câmara Municipal de Luanda mas lá também funcionava o tribunal, tanto é que quem estiver atento ainda lá está o símbolo da justiça (a virgem, com os olhos vendados, a balança e a espada, felizmente ainda não tiraram). Estamos para uma fotografia da escola, aparecem os três negritos a pintar quadro.
Outra situação que bem me marcou são as árvores Mulembeiras (ainda lá estão) na fachada principal da escola, à entrada da escola, há o portão e nas laterais da fachada da escola havia dois painéis que retratam a Segunda Guerra Mundial , militares europeias e creio eu portugueses a montar a cavalo, um dos painéis ainda lá está.
Estudamos numa escola primária do estado onde a disciplina era o rigor, era o cartão postal da escola. No entanto, apesar de naquela altura, nós os meninos de Portugal Ultramarino, do ponto de vista teórico, éramos todos iguais, éramos todos portugueses, mas o tratamento era francamente desigual. Era evidente se um menino branco nos chama-se negros, a professora, no caso o professor Mário Pereira, o repreendia, mas era tudo para inglês ver, porque havia de facto meninos brancos e meninos negros, havia cidadão europeus e africanos.
ALIMENTAÇÃO, ATÉ 1975
O meu pai na altura , nos moramos aqui nas Ingombotas, ele foi para tropa em 1964, como compelido porque na altura em que devia ir para a tropa não foi, porque se dizia que a guerra colonial era entre negros e branco, então os mestiços estavam isentos. E quando a situação apertou foi chamado e foi para tropa, já tinha vinte e quatro anos e tinha sete filhos e então coincidentemente como o número iconográfico dele terminava com o sete ele ficou conhecido como o Setinha por já ter sete filhos. Hoje, tenho vinte irmãos vivos, éramos vinte e três. E a minha infância e juventude não foi de fartura, mas felizmente nunca nos faltou o pão nosso de cada dia.
O meu avô era cozinheiro e por ser cozinheiro, trabalhava em casa da Dona Emília, então nós tínhamos uma alimentação melhor até a altura em que saí de Luanda. Eu morei aqui onde hoje é conhecida como a Casa do Gás ou a Casa do Maneta, mas no meu tempo era a mercearia do Martins e o meu pai tinha crédito. Comíamos, não diria que comêssemos do bom e do melhor, mas jamais nos faltou uma boa refeição à mesa.
E como os meus pais são descendentes da Ilha, nós também tomamos o caldo muitas vezes, mas um bom caldo de peixe, com mandioca e o pirão que é a farinha misturada com a gordura do caldo, do bom peixe, a qualidade felizmente nunca nos faltou. Também comemos comida europeia.
Nessa altura não havia dificuldades porque antes do meu pai ir para a tropa era eletricista-bobinador e trabalhava numa casa aqui próximo onde está um dispositivo empresarial da SONANGOL o Cajueiro, ali era a oficina do João Branco.
Então, as dificuldades não eram grandes, é verdade que não andávamos vestidos de fato e gravata, não tínhamos quatro pares de tênis, na altura eram os guedes, mas felizmente descalços não andávamos, tínhamos sempre um calção decentes porque as crianças não usavam calças, vestiam calções, não há motivos de grandes lamentações.
COMO ERA O DIA A DIA ENTRE OS BRANCOS E OS NEGROS?
Havia claro uma relação de negros e brancos, entre europeus e africanos, indiscutivelmente havia isso. Mas, a nível das escolas, a medida do possível não havia grandes rixas. No colégio onde estudei para concluir a quarta classe, lembro-me haver uma professora que tinha vindo para a África pela primeira vez, era alentejana e em um momento de frustração ela proferiu impropérios e chamou-nos pretos. Fomos dizer ao Diretor Guerreiro e ela foi admoestada, nós tomamos conhecimento disso.
De resto, era aquela coisa do preto e do branco, os professores eram todos brancos, portugueses, portanto eram todos europeus e tinha uma relação pacífica.
No entanto, eles também nos respeitavam quando éramos bons alunos, quando nós estudávamos. Estudávamos para ter boas notas e para sabermos o que estávamos ali a fazer. Também é importante dizer que nós naquela altura tínhamos metas.
Uma das primeira metas era pelo menos concluirmos o segundo ano do liceu, porque quando fossemos para tropa já não seríamos soldados rasos, seríamos cabos e era uma benesse melhor; concluíndo o quinto ano, estaríamos num patamar melhor, seríamos furriéis que era extraordinário, aliás o quinto ano do Liceu não tem nada haver com a 8ª classe de hoje, , com o sétimo ano já éramos oficiais, eram o alferes.
E eu costumo dizer que o sétimo ano, em termos de conhecimento e de cultura geral, o nosso sétimo ano daquela época sem exagero e não tenho medo de errar, equivale hoje a uma licenciatura. Tanto é que nós estudávamos para saber, tínhamos de competir para que pudéssemos ser valorizados. Quando estávamos para saber, quando estávamos em competição connosco mesmo, tinham também um tratamento diferenciado. basta dizer que a geração que governou Angola logo a seguir a independência tinha entre o quinto e o sétimo ano, porque os quadros foram-se embora que eram maioritariamente portugueses e foram os jovens naquela altura que tinham o quinto e o sétimo ano que seguraram o país, não quer dizer obviamente que entre eles não houvesse quadros superiores também éramos didatas e conseguimos segurar Angola, quando se dá a independência com a fuga massiva dos quadros nós não tínhamos vinte médicos angolanos, nós não tínhamos dez advogados angolanos enfermeiros e veterinários havia muitos, mas de resto nós não tínhamos quadros qualificados que pudessem fazer a cobertura da situação e então houve os descalabros e ainda sentimos hoje lamentavelmente.
25 DE ABRIL
Quando se dá o 25 de Abril tinha quase dezanove anos, embora estivesse a estudar em Luanda estava no Uíge. Todos nós ficamos surpreendidos. Antes dizia-se que a Vitória é Certa! Mas, para quando? Ninguém sabia e assim do nada dá-se o 25 de Abril, é que nem os portugueses contavam com isso. Havia tumultos e revoltas daqui e da cola, mas a verdade é que o 25 de Abril foi uma surpresa para todos.
Eu estou no Uíge, numa zona de influência da FNLA. Estava no Uíge com o meu pai e os meus irmãos, o resto da família estava em Luanda. Começasse a falar em liberdade de expressão, em golpe de estado, da morte de Salazar, de autodeterminação e nós não entendíamos nada daquilo, apesar de que no sétimo ano havia a cadeira chamada OPAN- (Organização Política Administrativa da Nação), mas aquilo era para dizer com o estado estava organizado, mas perceber aquilo ao pormenor, nós não percebíamos, éramos miúdos, estávamos a sair da independência para a idade adulta, salvo raríssimas exceções… Começa a haver não sei se somente liberdade, mas também excesso de liberdade. Começamos a ouvir falar de coisas que nunca tínhamos ouvido antes, começa a surgir as delegações dos movimentos de libertação. E depois começou-se a assumir a hegemonia em relação ao território, por natureza tribal, as comadres zangaram-se e houveram horrores, coisas horríveis.
Lembro-me de estar em uma festa na cave do Futebol Clube do Uíge e começa a disparar a contra-roupa contra nós que não tínhamos haver com nada: éramos estudantes, adolescentes a comemorar o fim do ano lectivo, em junho e começaram a disparar para dentro do salão . houve colegas que morreram, outros ficaram feridos e cada um salvou como se salvou. obviamente a situação começou a ficar complicada nesta cidade e como o meu pai era policial da PSP, fomos socorridos pela polícia, ficamos no comando distrital da polícia onde aguardamos , para depois no final sermos evacuados para Luanda e chegamos a Luanda como refugiados. chegados a Luanda a vida normal, com tiros, era desordens, tudo de mau aconteceu aquela altura!
O primeiro Presidente da República disse que “cada cidadão deveria sentir-se necessariamente um soldado,” eu como bom cidadão e já tinha interesse em desempenhar este papel de bom cidadão, no entretanto, os factos se precipitaram porque eu fui requisitado, já tinha feito a recruta, estive dois meses, cumpri essa aventura e depois voltei ao serviço . Naquela altura, já não havia muita ordem e disciplina, já não havia tanto rigor, voltei e continuei a trabalhar, depois fui requisitado exatamente no dia do meu aniversário. Fiquei chocado por uma lado mas por outro lado fiquei feliz ao mesmo tempo porque queria participar na revolução e fiquei enquadrado e fui para a Comissão Eleitoral da Justiça porque Era um órgão novo das FAPLA e era o momento de criação do órgão de justiça para as FAPLA e fui transferido para o Huambo.
A INDEPENDÊNCIA
No dia 11 de Novembro de 1975, eu estava em Luanda e tive a honra e o privilégio de ver a nova bandeira de Angola a ser içada, duas vezes, primeiro no Largo 1 º de Maio, também Largo da Independência, que foi o ponto mais alto da proclamação da independência e no dia seguinte estive no Palácio e finalmente na então hoje Câmara Provincial de Luanda, foi uma situação indescritível, foi uma sensação que eu senti naquele dia e acho que jamais viverei esta emoção.
Depois do dia 12 de Novembro de 1975, era uma euforia extraordinária, cheirava à independência por tudo que era canto, a independência saia-nos pelos poros. Em dezembro não houve bacalhau, aquela consoada aquela a que estavam habituados.
A nível dos bairros de Luanda havia muitas destruições, as lojas do Sr. Manel, do Martins, do António (deste e daquele) estava tudo destruído e porquê? Porque os portugueses vieram para aqui para se instalarem de corpo e alma, para ficarem aqui com as raízes da mulembeira, eles jamais pensaram que um dia iriam sair daqui, Angola será sempre Portugal, tanto era assim que havia um ano que dizia “enquanto houver uma terra portuguesa, Angola será Portugal” e era assim como eles pensavam, era assim conforme eles estavam, era assim conforme eles agiam.
Antes do 25 de Abril havia restaurantes com reserva de admissão. A Bica na Baixa de Luanda, a frente ao Jornal de Angola, a cervejaria do Bastos não era para pretos, à Portugália não era para pretos, a Paris Versailles que era uma grande pastelaria, não era para pretos, ficava onde agora é o Centro Aníbal de Melo, e outros sítios mais, a Palladium na esquina dos Combatentes, era de admissão reservada, preto não entra, não é admitido e se entrar era necessário ou ir acompanhado, ou reclamarmos. No entanto, se falasse demais, estaria sujeito a ser preso. Portanto, a vida não era um mar de rosas, estavam lá os restaurantes e estes estabelecimentos todos, mas não eram para pretos.
MUDANÇAS SÓCIO ECONÔMICAS PÓS INDEPENDÊNCIA, 1976
A partir de janeiro de 1976, três meses depois da independência, nós começamos a sentir a falta de muita coisa. Não havia lojas, não havia o que comprar, não havia nada, estava tudo partido.
No entanto, estávamos naquela euforia da ressaca da independência. A independência foi uma coisa boa? Claro em termos de acto político, mas também foi mau. Porquanto, tudo quanto havia passou a faltar o mínimo, não havia gelado, não havia uma pastelaria, não havia nada!
Então surgiram as lojas do povo e surgiu a nova moeda, o Kwanza. No princípio era bom, mas não havia produção, não havia rigorosamente nada as empresas faliram ou foram sabotadas, a zona industrial de Viana foi definhando até que morreu, a zona industrial da Mulemba, na Petrangol foi definhando até morrer, em Viana fábricas de motorizadas na Petrangol, tínhamos fábricas de motorizadas, de mobílias, a indústria estava em peso em Angola, foram falindo por falta de matéria prima. Os trabalhadores sabotaram, então ao invés de continuarem a obra deixada pelo colono, mataram-na. Surgiram reivindicações, os sindicatos, reivindicações daqui e da cola, foi o caos.
Depois, surgiram as EMPA que era uma versão melhorada das Lojas do povo, com base no cartão de abastecimento umas vezes havia, outras não e ficamos assim muito tempo.
Depois, voltamos ao comércio primitivo, ao sistema de trocas, trocávamos roupa, essa roupa que já não tinha utilidade em minha casa ou no seio das famílias. Íamos trocar com os produtos do campo, eu para comer uma galinha, porque o dinheiro não servia porque não tinha valor , trocava de roupa.
Depois, começam a surgir as lojas especiais, as tais ANGODIPLO, ANGOSHIP, JUMBO que eram lojas especiais para atender determinado tipo de clientes. A ANGODIPLO atendia diplomatas, expatriados e os chamados cooperantes e as outras atendiam indivíduos ligados ao aparelho de estado Ministros, havia lojas para ministros, para chefe de departamento, para diplomatas, uma situação bem discriminatória. Enquanto se dizia que não havia separação de classes, não havia descriminação de classes para se comer havia descriminação. Também eram para indivíduos as empresas que permitiam saídas permanentes ou habituais para o estrangeiro, esses é que eram os indivíduos ricos cá do sítio., vinham com bacalhau, azeite, carne. depois continuou entre nós, com o nosso sistema.
OS COOPERANTES E OS EXPATRIADOS, ANOS 1980
Sim de acordo com o estatuto. havia os carolas, aquele indivíduos que cegamente amavam a terra, filhos de portugueses já nascidos em Angola, havia e continua a existir, morrem aqui:
– vieram os indivíduos que nunca saíram de Portugal, vieram para aqui, beberam a água do Bengo e, casaram e ficaram, casaram e estão por aqui.
Mas, aqueles brancos filhos de portugueses que nasceram aqui ou cujos pais nasceram aqui voltaram, mas com estatuto diferente, o de cooperante, alguns nasceram aqui, estudaram aqui.
Porque lá a vida não era muito famosa voltaram, mas como? Com o estatuto de cooperantes. Em 1980, cinco anos depois da independência, andavam aí como cooperantes e arrogam-se o direito de serem angolanos, trataram de adquirir o bilhete de identidade passaporte e começa a história da dupla nacionalidade, deles em relação a Angola é nossa em relação a Portugal. Eu, felizmente, não tenho dupla nacionalidade, não tenho nada contra ninguém. Tenho tido o visto de Portugal porque eu não fico lá de certeza absoluta.
Eles permanecem por cá e como as coisas se começam a desenrolar? Eu era militar, Procurador e também na ausência ou impedimento do Procurador Provincial eu assumiria, aliás continua a ser assim o Procurador Militar substituiu o procurador.
Eu venho de Cabinda e, nessa altura, eu chego a Luanda completamente deslocado porque desde 1976 não vivia em Luanda. Então, tive de me readaptar à vida de Luanda. Eu em Cabinda eu ganhava 16.000 kz e eu governava-me, não de subsistência, vivia bem, posto cá em Luanda 16.000kz não valia nada. Já tinha a minha primeira filha e outro estava para nascer, a minha adaptação a Luanda foi dolorosa. E eu era oficial e em razão da minha posição de Procurador e Oficial das Forças Armadas, tinha alguns complementos de alimentação e isso equilibrava a situação familiar. Mas, eu já não estava acostumado a viver em Luanda. E nessa altura, há uma música sobre cooperantes “Nova Cooperação”: angolanos negros que foram para Portugal angolanos, deram-se mal e voltaram e os filhos de portugueses, voltaram na condição de cooperantes.
Havia muito mais respeito do que há agora socialmente daquilo do que é a convivência entre as pessoas era mais pacífica do que é agora.
RECONCILIAÇÃO NACIONAL, ANOS 1990
Nessa altura, as igrejas começaram a dar passos, nomeadamente a igreja católica que sempre esteve por aqui. e já havia focos de paz, os políticos sabiam que ela iria acontecer, havia negociações sobre o território de Cabinda, ainda que velada, havia autoridades credíveis a tratarem do assunto com a parte de cabina , conseguiram amenizar a situação conflituosa que existia e também aqui deste lado havia contacto entre as autoridades e os irmãos desavindos, só que a política é como o carvão, quando não queima suja. A situação ia caminhando.
Nessa altura, começa a falar-se em liberdade de circulação de pessoas e bens, começou-se a arranjar a estradas, de uma maneira muito tímida a estender a administração do estado, mas uns tempos depois partiu-se tudo outra vez.
Quando a situação começa a evoluir? Começa nos anos 1990, houve a Emenda Clark (é política e disso não entendo nada), mas foi um momento que nos encheu a todos de esperança porque estávamos todos nós fartos da situação que se vivia.
Nos anos 90 começa a falar-se em reconciliação nacional, uns a favor, outros contra, encontros daqui, encontros da cola os políticos estavam engajados, eu era expectador, a “voz dos burros não chegam os céus”, ninguém nos ouviu, a nossa opinião não era válida, mas entre colegas comentamos sobre o futuro do país, até porque havia focos de guerra, na verdade o país ficou dividido, as cidades ficaram sitiadas, não se circulava. E quando se começa a falar em reconciliação racional, houve uma euforia, estamos nós fartos de nós caçamos uns aos outros.
Eu estava em Luanda, era militar e observava à minha maneira os factos, as ações, os discursos, como podia e como entendia, então os políticos decidiram acabar com a guerra em 1991. Em 1992 houve as primeiras eleições , mas até lá politicamente houve revezes.
A minha função de jurista não me permitiu porque eu estava em um escalão que não tinha a ver com o resto, era anónimo, não estava enquadrado politicamente, não estava enquadrado politicamente, nesta altura já era Major. Apesar de ser integrado no exército… mentiras daqui, verdades de lá, mentiras de lá, observadores daqui e de lá, observador uns mais íntegros que outros. O povo está dividido em razão da região em que nasceu, da região ética. Hoje é divertido porque estamos a reportar à história, ao passado, e o passado é a história, até que surgem as eleições, situação governativa, uma euforia. A sociedade, o país iria-se transformar.
Lamentavelmente, essa expectativa, ficou murada, tanto é que depois das eleições houve uma convulsão que parou o país e nomeadamente a cidade de Luanda, mais sangue derramado, mais sangue derramado, mais desconfianças, tudo que é mau lamentavelmente.
CONSELHOS ÀS NOVAS GERAÇÕES
A minha geração tinha metas. A primeira meta era ter uma profissão, pelo menos para a classe média baixa, tanto é que nós tínhamos alfaiates, enfermeiros, artesão, não quis estudar , então vai aprender uma profissão, ser mecânico , bate chapa , etc. Para que pudesse mais estudava pelo menos para ser professor e no professorado havia vários níveis como os há hoje: um indivíduo com a quarta classe era professor rural e valia, ia trabalhar nas aldeias. Com o segundo ano dava para ser professor de posto e quando se fosse para a tropa, entrava se para atropa aos vinte anos, ele pelo menos já era Cabo. Os outros com mais posses) chegavam ao quinta ano e quando fosse para a tropa era furriel ou tinha uma profissão, porque ele podia fazer o 5º ano do liceu ou o 5º ano se da escola técnica podia ser eletricista montador, era em Luanda na Escola Industrial e em todos os distritos havia uma escola técnica e um liceu. O 7º ano tinha alinhas, por exemplo a alínea A era para engenheiras, H para germânicas, porque na altura não havia Universidade. Nos anos 72-73 a Universidade com o nome de Estudos Gerais, apenas leciona Medicina e no Huambo estavam bem servidos porque também havia o curso de engenharia.
E nós tínhamos metas porque estávamos ávidos de ser alguém, ávidos de sermos melhores daquilo que os nossos pais foram e os nossos pais passavam-nos essa mensagem permanentemente, de alguma maneira conversavam conosco, nós líamos, nos estudávamos, ainda conheço as fórmulas químicas.
Transportando isso para os dias de hoje, os jovens têm de se preparar para enfrentarem os desafios de hoje (simulando um diálogo):
– nós não podemos ser todos engenheiros informáticos
– mas, a informática está em todos os sectores da vida
– a máquina é que faz tudo? e quando fores trabalhar na Bela Vista onde não há acesso à informática?
– não podemos ser todos informáticos, engenheiros de petróleos, de computação.
Percebe o que quero dizer? temos de ser mais diversos, mais universais para aquilo que queremos fazer para o nosso país. O nosso país tem rios, tem uma das maiores bacias hidrográficas de África, temos terras férteis, temos um povo generoso, um povo trabalhador, temos sol, temos chuva, temos de aproveitar aquilo que Deus nos deu de mão beijada, quem dera muitos países europeus terem aquilo que nós temos.
A minha geração fez o que tinha de fazer, fizemos a independência, o que sabíamos fazer, e se fizemos mal, pedimos desculpa, e se não fizermos melhor era porque não o sabíamos fazer. E os jovens estão a fazer o que? Nós já não temos força para determinados esforços. Então, eles que façam, porque o país é deles, e quando o fizerem façam bem, não se emocionam “eu agora cheguei aqui para ganhar dinheiro”. Não é nada disso! Nós temos figuras célebres desta terra muito modestas, porém com inteligência.
IMPORTÂNCIA DE CONTAR A HISTÓRIA AS NOVAS GERAÇÕES
É necessário que os jovens sejam patriotas e lamentavelmente a maior parte dos jovens não são patriotas e também a culpa é dos pais que não estão a fazer bem o trabalho de casa. porque um pai que tem agora 50 anos ele não conversa com os filhos, o pai que na altura da independência tinha 60 anos e viu a independência, mas ele também não teve a vivência que eu tive, mas ele também não se informou junto ao pai.
Eu sou daqueles que se sentava à mesa com o meu pai porque enquanto eu estivesse sentado à mesa com o meu pai eu ia aprendendo. Como eu disse a pouco o meu pai viu-me a envelhecer, e eu sendo avô jamais me recusei a sentar-me porque não tinha pressa. O meu pai sempre me disse “sabes lá o que estás a dizer? és um garoto!”, eu já tinha 40, 50, 60 anos e ele explicava a razão porque me chamava garoto.
Os jovens têm de começar a sentar-se com os pais, não tem pai, então sente-se com o tio, não tem tio, sente-se com um mais velho, há sempre um mais velho, estudaram até a quarta classe, é necessário que os jovens estudem é só eles aprimorarem a sede do conhecimento é disso que os pais esperam dos jovens! E trouxemos o barco para os dias de hoje. E só eles aprimorarem a sede de conhecimento e vão chegar a bom porto e assim vão conseguir reerguer esse país é disso que o país espera dos jovens classe do tempo dele, isso já está ultrapassado, deixem-nos de nos nivelar como “os da 4ª classe”, nem todos estudaram somente até a quarta classe e trouxemos o barco ao dia de hoje, uns fizeram-no bem, outros nem por isso.
IMPORTÂNCIA DO CONHECER A HISTÓRIA SOCIAL DE ANGOLA
Eu às vezes pergunto aos jovens:
– gostas de história?
– não tem muitas datas.
– a história começa no seio familiar, se tu perguntares aos teus pais de onde são os teus avós, como é que eles se conheceram, como eles estudaram, quando começaram a namorar, quando eles se casaram, e isso tem datas ou não?
– tem
– e o teu pai nasceu em que ano?
– no ano x
– e isso não tem datas? são as datas da história da sua família, se tu não conheceres essas datas obviamente não conhecerás a história
– a história não se apaga. então, as gerações vindouras tem de conhecer a história que não começa em 1975
– mas não quero recuar muito
– então conheçam a história a partir do nascimento dos avós.
De lá para cá ele vai conhecer a história deste país quem tiver avós por perto de ir a fonte para conhecer a historia deste pais porque , quem não pergunta não aprende. é necessário que as gerações vindouras tenham a sede do conhecimento, tem de se interessar em saber, tem de ler, tem de perguntar para que possam fazer uma comparação do tempo dos avós, dos pais com o tempo deles, analisarem e poderem melhorar. por exemplo, eu tenho uma história que relata a minha família e leio, quando eu nasci os pais dos meus pais já tinham nascido, mas conheci-os por fotografia.
O segundo aspecto, é ter em conta que o país foi dos avós, dos pais, portanto dos mais velhos, dos jovens de hoje é deles que serão o amanhã. nessas etapas se cada um deles fizer o papel de cidadão, o papel patriótico do desenvolvimento, obviamente o país será melhor daqui há 50 anos o país estará melhor! eu não estarei cá, mas os nossos bisnetos serão os adolescentes. é necessário que eles se informem, que eles leiam e sejam ambiciosos no sentido de fazerem deste país um bom país. Por vezes, fico admirado, como os mais velhos como eu, alguns deles viajados, com poder capacidade de poderem melhorar, não o fazem, alguns dizem isso não depende de mim falta de vontade política, é falta de patriotismo, é falta de leitura, e falta de patriotismo e a maior parte deles viveram urbanamente.
Finalmente, há outro aspeto muito importante, a que me quero referir: se hoje eu não estiver bem, o meu filho não estará bem, e o meu neto pior ainda, porque uns vão adaptando o exemplo dos pais, e o meu bisneto vai acabar por partir o país. Cada um de nós pode e tem a obrigação de fazer o melhor pelo país.
PERSPECTIVA DO FUTURO DESTE PAÍS
Eu perspectivo para este país, não sei se quem me governa, não sei se vai assentar os pés no chão e dizer: eu nasci em Angola, eu sempre vivi em Angola, eu estudei em Angola, tudo que sei e tenho ganhei em Angola: a cultura, a formação, moral e acadêmica, tudo isso que tenho, são os valores primários da minha vida, eu adquiri nesse solo pátrio. então a minha melhor maneira de agradecer será fazer o bem a esta terra, eu devo esta terra, o meu Huambo, o meu Bié, o meu Cuanza Sul eu devo ver a minha terra, a minha Angola, o meu Huambo, o meu Cuanza Sul, a minha terra, tudo que adquiri, tenho para dar de presente aos meus filhos, aos meus netos. Se eu visse isso agora eu já morreria feliz! Oxalá que eu esteja enganado, mas parece que isso não irá acontecer, porque é preciso que a gente tenha mais amor ao próximo e depois apregoam “ao próximo como, se você abocanha tudo e nem os ossos deixe para mim e nem para o gato” e oxalá eu não esteja a pedir demais e não esteja com uma febre tão alta que delire até esse ponto.
IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA ORAL
Quanto a memória oral obviamente é importante. como é que eu sei coisas do tempo do meu avô, aprendi com o meu avô, se ele não sabia ler, porque ele contou-me a história. Eu tenho no bolso bilhas, os portugueses chamados berlindes, para mostrar aos meninos de hoje para ensinar-lhes a jogar.
Naquele tempo nós jogávamos a bilha, uma esfera que aparece o olho de um gato e essa bilha que é de vidro tinha poder, chamava-se a bilha abafadora e quem estivesse em posse essa bilha apoderava-se da bilha dos outros, temos de passar isso para os nossos filhos, para os nossos netos. É necessário termos em conta que aquilo que não está escrito em lado nenhum, mas nós e soubemos, foi porque alguém nos contou, temos de voltar à questão de nos sentarmos à volta da fogueira, as conversas entre as gerações.
Os escuteiros, por exemplo, fazem isso, em acampamentos há uma fogueira chamada a fogueira dos conselhos e os jovens acompanhados pelos mais velhos ficam à volta desta fogueira, ficam a contar história e a contar isso na música do Rui Mingas, da poesia do Manuel Rui “Os Meninos Volta da Fogueira’’ falar desse assunto. É necessário que os jovens recebam dos mais velhos o testemunho da vida, das realizações. Os testemunhos dos desejos, os testemunhos dos sonhos para criarmos referências. Ora bem se não houver referências porque os mais velhos não conversam com os mais novos e os mais novos não vão ter com os mais velhos, então estaremos perdidos. Porque o testemunho da memória oral vai morrer. digamos que é necessário porque os mais velhos dizem “não tenho tempo para aturar essa miudagem” e que os mais jovens digam” não tenho tempo para aturar esses velhos”, mas nessa caducidade há alguma coisa a transmitir. É necessário que se estimule isso, aonde? Nas famílias, na parte que me toca eu tenho estado a fazer isso, no escotismo lida-se desde a criança ao adulto, o mais novo o dito inicia aos cinco anos e o mais velho até. Eu quando levei as bilhas ao meu acampamento os miúdos ficaram encantadíssimos. E quando lhes ensinei a jogar, cada um deles queria dez berlindes e eu disse não vos posso dar porque senão fica sem nenhum. É necessário que se estimule as conversas entre gerações, é indispensável se quisermos construir um mundo melhor, se queremos construir uma sociedade melhor, se queremos construir um bairro melhor, se queremos construir um país melhor.
As suas origens remontam à construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição na vila de Muxima, fundada em 1599. Muxima significa “coração” na língua quimbunda [2} O santuário popular foi destruído e incendiado pelos holandeses em 1641, quando cercaram Muxima durante a invasão holandesa de Angola. Mais tarde, foi modificado com a reconquista portuguesa. [3}0 santuário logo se converteu num importante centro de cristianização na África e até hoje é o principal centro de peregrinação no pais. A Romaria de Nossa Senhora da Conceição da Muxima, ocorre desde o ano de 1833, atraindo milhares de peregrinos todos os anos, em fins de agosto e inicio de setembro.[4} https://pt.wikipedia.org/wiki/Santu%C3%Alrio_de_Nos-sa_Senhora_da_Concei%C3%A7%C3%A3o_da_Muxima
Palavras Chaves: Escotismo| Cooperantes|EMPA|
Este depoimento foi realizado em Luanda, em Março de 2025.
Audiovisual: Muki Produções
Transcrição: Marinela Cerqueira

