Eu já estou um bocado cansado. Já tenho noventa anos. Vamos conversar com todo o gosto. Eu sou um bailundo. Vocês de cá de Luanda dizem “munano” (Os de cima).Eu nasci numa aldeia perto do Bailundo em 1934 e a aldeia era grande naquele tempo, uma aldeia protestante. Uma aldeia linda, com árvores.
Mas, aos seis anos, emigrei para Nova Lisboa porque o meu pai estava lá a trabalhar. Depois, os meus pais separaram-se e o meu pai entregou-me aos cuidados de uma tia chamada Maria Madalena e era católica, batizada pela igreja católica. Foi assim que indo para a casa dela, ela dizia-me “eu não quero aqui um pagão, entra na catequese”.
Frequentei a catequese durante três anos para ser recebido também na Igreja Católica, o que aconteceu em 1944, dia 25 de Janeiro. A partir dali então fiquei católico, comecei a gostar daqueles trabalhos dos meninos do altar.
Estudos Primários para Indígenas
Fiz os meus estudos primários e quando acabei os estudos primários como o meu pai ainda era indigena, nós os filhos dos indígenas não podíamos tirar a quarta classe, porque já era privilégio dos meninos brancos e daqueles que eram assimilados, então fiz a terceira classe elementar e a quarta classe complementar. É uma maneira que encontraram para ficarmos na terceira classe dois anos e ficamos a fazer a quarta classe, não a quarta classe dos outros, mas a quarta classe dos indígenas.
Seminário Menor, Quipeio, 1947
Aos treze anos fui para o Seminário do Quipeio porque eu gostava do serviço do altar, portanto dava indícios e, sinais de vocação, de ter sido chamado para ser padre. foi assim que fizemos um exame. Éramos uns cinco e apuramos dois. E eu fui e o outro não conseguiu porque foi encontrado com uma jovem à noite, a despedirem-se. O professor não gostou de ver um menino aquela hora aos abraços com uma jovem e ficou. E eu fui sozinho para o seminário, mas neste tempo fomos uns quantos e entre eles estava o Álvaro Manuel Boavida Júnior, o pai do actual Noé Boavida Júnior e mais um colega meu que tinha já estado no Seminário do Quipeio, fez lá a quarta classe. E assim comecei a minha caminhada na companhia desses dois colegas, portanto todos mais velhos que eu, o Jorge Calupe já faleceu há uns meses.
Fiz a minha caminhada seminarística com os problemas normais. No primeiro ano não passei na matemática e fiquei como esperado. De maneira que passei para o segundo ano condicionalmente, se pudesse recuperar no primeiro trimestre nesta matéria. Foi um bom professor de matemática que me ajudou a que no segundo ano pudesse fazer a matéria deste ano, mostrando que a matéria do primeiro ano estava também madura, e foi bom.
Também, rendo homenagem ao Superior da Missão, era um padre espiritano chamado José Suter que durante as férias pos-me outra vez a estudar com os meus antigos colegas e ele não gostou que eu tivesse uma negativa nesta disciplina. Mas, tudo depois correu bem, foi da maneira que aprendi a estudar melhor para assimilar as matérias e nunca mais tive alguma reprovação em qualquer matéria.
Seminário Maior, Huambo 1952
Fui para o Seminário Menor em 1946 e depois de seis anos em Quipeio fui para o Seminário Maior em 1952. Entrei no Seminário Maior no Huambo. Estava outra vez em minha terra e nesse sentido os estudos também correram bem Graças a Deus até que fiz a filosofia e a teologia.
Missão de Baviera , 1961
Em 1961, início da luta armada em Angola fui ordenado Padre, em Julho. Fui colocado na Missão de Bavaeira, em Catchiungo. É nessa Missão onde começo a trabalhar como padre e a crescer um pouco mais na visão do mundo real e não só ficar na teoria. Gostei porque essa era uma Missão já com boas estruturas de evangelização. Tínhamos um internato masculino e um femenino. o Internato femenino a cargo das irmãs teresianas e nós os padres também cuidamos do nosso internato, também com ajuda de uma madre também, para as coisas da cozinha e cuidar da higiene dos rapazes, das suas roupas, etc.
De maneira que quando as pessoas combinam a fazer um trabalho em comum, o trabalho de facto vai correr. Depois, nessa Missão também esteve o Magistério para os Professores de Posto. Foi o primeiro e foi fundado pela nossa Missão. Já havia o Magistério do Cuima e os dois Magistérios se complementaram, isto é também as raparigas iam ser preparadas também para serem professoras e nessa Missão prepararam-se muitas professoras, umas ainda vivem.As plataformas que estão interessadas em conhecer o passado é interrogá-las para elas também entregarem os seus contributos de professoras que foram em Angola a partir de 1965.
Foi assim que na Missão da Baviera fiquei oito anos e o meu Bispo mandou-me para o Seminário, para fazer parte do Seminário Maior de Cristo Rei. Assentei e a preparação que tive foi aquela que continuei porque os outros professores tinham passado pelas universidades e eu não tinha passado por nenhuma universidade, só tive mesmo a minha universidade aqui, “a do povo” e também nunca abandonei a leitura.
E perto da nossa Missão da Baviera havia um Convento de Monges Trapistas e esses monges tinham uma livraria muito bem apetrechada e ali podíamos adquirir livros de todos os calibres, sobretudo em matéria de teologia e de filosofia. É assim que não tendo abandonado a autoformação fui para o Seminário com a vontade de ajudar naquilo que pudesse e creio que ajudei (risos). Ajudei porque tanto algumas formações que fiz, fui fazendo com a própria vontade de superar as minhas dificuldades, E tudo isso ajudou a que pudesse ser professor e muitos dos meus alunos andam por aí, espalhados, como o Dr. Jerônimo, o General José Maria e outros que trabalharam ou ainda trabalham na esfera jurídica ou na esfera política.
25 de Abril, 1974
Em 1974, foi também um ano de transição, um ano de facto de muitas tensões, porque o 25 de abril não caiu assim de repente sobre Angola. O 25 de Abril se foi preparando, a PIDE alertada por muitas situações, mais apertava o cerco sobre os intelectuais, entre os intelectuais estavam os padres. É assim que o próprio seminário, é claro, não escapou à vigilância da PIDE DGS.
Então, em 1974, eu fui Vigário Geral e um ano depois o Papa Paulo VI disse que deveria ser Bispo Auxiliar de Luanda, dia 26 de Agosto foi a nomeação pública e a 23 de Novembro de 1974 ordenado Bispo, para vir a Luanda no dia 01 de Dezembro onde tomei posse de Bispo Auxiliar. É assim que no ano passado, em 2024 foram celebrados os cinquenta anos de Bispo.
50 Anos de Bispo
E os cinquenta anos de Bispo é onde tenho muita história para contar-vos, mas preciso do vosso guião. Em 1974 cheguei aqui. Aquela confusão de Luanda, em Dezembro, as mortes de taxistas e de policiais. A gente não sabia quem é que matava, quem é que não amava.
ENTRADA DOS MOVIMENTOS EM LUANDA, JAN 1975
E quando em Janeiro de 1975, entram os movimentos, Agostinho Neto, o Savimbi, entra o Holden Roberto, cada um com as suas equipes de guerra e de políticos, então a tensão em Luanda começa a ser maior.
E como sabem o Bispado está junto ao Palácio do Governo da Província de Angola, hoje o Presidente mora lado a lado com o Bispado.
De princípio, bem queriam separar as coisas, o Governo já constituído, ainda no tempo do Governo de Transição eles já ofereceram-nos a possibilidade do Bispado ir para outro lugar e deixar aquilo só para o Governo.
Dom Eduardo Muaca foi o Primeiro Bispo do Governo, até então ainda era Bispo de Malanje e quando chegou recusaram, quando ele chegou a Roma, entre histórico e não histórico, alguns acham ser melhor deixar as coisas assim, tem o seu significado.
As casas construídas nessa altura, ali era também o Colégio dos Jesuítas que já estiveram cá, os Jesuítas muito antes de se falar da independência, e assim as coisas ficaram até hoje, e as consequências são essas que temos visto. Muitas vezes para irmos ao Bispado temos de ser sujeitos a controles ou a dar voltas para poder entrar.
Dom Manuel Nunes Gabriel, Bispo de Malanje e de Luanda, 1957-1975
Em 1975, fiquei nesse Palácio com Dom Manuel Nunes Gabriel[1], o meu Arcebispo a quem estava a ajudar. Bem, trabalhei como Bispo Auxiliar, mas como Bispo Auxiliar angolano, praticamente os assuntos vinham mais para o Bispo Auxiliar do que para o Bispo Titular.
E ele também estava um tanto quanto traumatizado, um tanto quanto cansado porque tinha vindo de Malange, onde já era Bispo, foi o segundo Bispo de Malanje. Sofreu com o Governo português, ele a defender os seus padres e havia aquela caça aos intelectuais como fomentadores do terrorismos, diziam eles. de maneira que Dom Gabriel ficou um tanto ao quanto cansado e traumatizado. a sorte foi que nessa confusão aqui de Luanda de 197 5, quase tudo empurrava a mim: para ir responder, para ir explicar e para estar presente.
Foi assim que quando Agostinho Neto e os outros fizeram visitas às primeiras instituições, fui eu quem os recebeu no Bispado.
Conversamos e, portanto, ele queria cumprimentar a autoridade eclesiástica do tempo que era o Dom Gabriel que era o Bispo Cosmopolita e eu Bispo Auxiliar. Eu o recebi e depois também tive de retribuir a visita. Eles viviam naquelas casas do protocolo que estão por detrás do Bispado.
E então nesse tempo de facto era o tempo em que não se sabia bem como e onde caminhamos naquela luta de políticos, a luta da sociedade civil e a luta de quem mais ganha, ganha popularidade.
Se falava também de eleições que depois não se realizaram porque de facto há confusão era demais, porque eu me lembro que muitas vezes fui chamado para o hospital Maria Pia onde havia cadáveres, assim, de pessoas assassinadas.
E por duas vezes eu falei com Rosa Coutinho que era o então Comissário de Angola e nestes entrementes não sabia a quem pedir responsabilidades. e Rosa Coutinho dizia “não sei, isso é com eles”.
E eles quem eram? Agostinho Neto era um homem pacifico, mas também… Havia já aquela luta pelo poder, mas um tanto ainda surda, acusações mútuas. E depois, até que se chegou à expulsão, a sexta feira sangrenta dos bacongos.
Os da UNITA também sabiam que não tinham espaço aqui em Luanda, os da UNITA saíram para o sul e os da FNLA ficaram.
Muitos da FNLA ficaram no Bispado, viviam lá, algumas crianças até nasceram lá até que arrancassem para as suas terras, e assim caminhamos até aos Acordos de Alvor.
E aos Acordos de Alvor, os três foram, a potência colonizadora e marcou-se então a data da independência e marcou-se o Governo de Transição.
Governo de Transição
E no Governo de Transição estavam os três movimentos, mas como não tinham chegado mesmo a um acordo mais interno, mais angolanamente organizado, mesmo o Governo de Transição fez pouco, fez alguma coisa na medida em que o MPLA tinha mais autoridade. Era praticamente o dono da terra.
E também a potência colonizadora, sabíamos que naquele tempo estava no poder o Partido Comunista Português, para dizermos as coisas como são, o Partido Comunista Portugues praticamente é que tinha assumido o poder , tanto lá como nas colônias.
Até que também souberam reagir para que não continuasse. Não continuou. Nós sabemos as lutas diplomáticas que houve. E também as morte que houve, que aconteceram e assim fomos caminhando.
11 DE NOVEMBRO DE 1975
E nessa caminhada marcou-se a data da independência e soubemos como foi o 11 de Novembro de 1975. Eu já estava no Sumbe para onde o Papa Paulo VI me tinha enviado para ser o Bispo do Sumbe.
Cheguei a 31 de Agosto. Em Novembro foi a independência, eu ainda pensava “Já que aqui no Sumbe estávamos praticamente, alguns missionários já tinham saído, estamos sob pressão do exército sul africano que passou connosco lá o Natal. E de sorte que eu vi”, mas como é, vou passar o 11 aqui nesse deserto? Fui passar ao interior.
Cheguei a Quibala e quem me adverte é o meu antigo aluno, o general José Maria:
– o Senhor não pode ir para lado nenhum porque aqui estamos mesmo em guerra
– aí sim?
Regressei para o Sumbe e assim que passamos o 11, praticamente sem festa porque aqui a FNLA com ajuda de um partido liderado pelos portugueses (não me lembro o nome) estavam a entrar em defesa, aqui em Luanda. E lá no Huambo a UNITA também estava a proclamar a independência, portanto, ficamos independentes! O 11 de Novembro foi uma festa dolorosa. E eu voltei para o Sumbe e lá estávamos a aguardar pelo que os dias iam ditar. Até que os da FNLA e os sul africanos também foram rechaçados até que o governo retomou o controle do Cuanza Sul.
O Início do Conflito Armado
E daí adiante foi a guerra que tivemos. E desses tempos perdemos alguns missionários, uma religiosa que ia de Seles para Benguela para buscar alguma coisa, foram atacados na Canjala, ela morreu. O padre depois foi levado pelos soldados da UNITA para Jamba e foi lá. Nós tínhamos monjas na Quibala que também foram levadas para as matas e chegaram até as matas e chegaram até a Jamba. Outro, missionário que morreu na Conda, também em um tiroteio entre as forças da tanto as da guerrilha como as governamentais e o irmão Artur lá ficou, porque por enquanto havia tiroteio quando o tiroteio pareceu amainar quis sair para o quarto do esconderijo, o padre que estava com ele disse-lhe:
– olha ainda nao vamos sair, por enquanto vamos esperar
– oh não, eu quero ir buscar…
Olha, pelo caminho a bala levou-o.
Portanto, esta guerra que tivemos no Kwanza Sul foi como que o tampão para Luanda e nós de facto fomos um bocado massacrados, fomos um bocado o capim a sofrer pelos dois elefantes que lutaram entre si, cada um com armas cada vez mais poderosas. Fomos aguardando.
A Sagrada Esperança
Eu disse ontem a alguém o que representa o livro A Sagrada Esperança de Agostinho Neto. Devíamos dar muito valor a esse pensamento ali escondido. Agostinho Neto, amigo pessoal, era de facto, tinha um fundo muito religioso e creio que esse fundo religioso é que lhe mereceu o Perdão de Deus e mereceu estar junto de Deus.
Eu creio, eu sei que ele está! Porque na Sagrada Esperança, naqueles poemas todos, nós lemos uma caminhada que Agostinho queria, ele como visionário, como religioso, como humanista, como cristão, também filho de pastores, um cristão que imprimiu o que os Lusíadas, Luís de Camões quis fazer ao povo português, ficou gravado. E se formos à literatura antiga vemos que a Ira dos gregos é legítima E quando o Agostinho Neto diz naqueles versos que eu posso repetir:
Eu já não espero
Eu sou aquele por quem se espera
Estava a falar mesmo para todos os angolanos. O angolano devia ser o esperado para uma nação nova, para uma nação independente, para uma nação, nação. E infelizmente, as nossas guerras adiaram esse sonho. Infelizmente, até hoje não vejo que haja esforços por parte do MPLA para uma reconciliação nacional. Este é o meu desabafo.
É o meu conselho para ver se vocês os novos ganham com as nossas narrações um pouco mais daquilo que é o espírito que o Líder da Revolução, chamado Pai da Nação quis imprimir a nossa Angola.
A angolanidade deveria ser esta inclusão de todos os angolanos sentirem-se responsáveis pelo crescimento, pelo sofrimento dos outros, sentirem-se responsáveis por tudo e dizerem: vamos trabalhar, vamos avançar. E não se avançou infelizmente.
2017
Em 2017, o Presidente João Lourenço deu-nos uma esperança bonita, forte: “Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, batemos palmas. Mas, daqui há pouco temos 2027 não vemos que se tenha corrigido o que está mal e melhoramos o que está bem. Não se vê.
De maneiras que assim com toda a liberdade de espírito e de liberdade de coração e essa liberdade que sempre mostrei e que valeu para Angola, não me valeu a mim, o Prémio Sakharov, o prêmio de liberdade, fez com que de facto eu tenho como fundamentos…
Sim, fundamentalmente para dizer a quem fala da história social de Angola que o trabalho a fazer tem de ser feito por todos os angolanos. E que ao fim ao cabo tudo isso que nós temos estado a viver, tudo isso mostra que a história ficou partidarizada e neste partidarismo (perdemos o som dos últimos 17 minutos)
Se não formos nós, os que fazem com que o Criador seja de facto, movimente o dinheiro, movimenta a riqueza e os bens.
O Desenvolvimento e o Corredor do Lobito
E ouvimos passado dois meses daquele aparato os nossos três presidentes junto , vemos que afinal a União Europeia é, depois os EUA também, e pronto vamos outra vez “ver o comboio a passar” porque em cinquenta anos não preparamos afinal ninguém, em cinquenta anos de bolsas para os jovens estudarem lá fora, eram direcionadas partidarizadamente. E então, os nossos jovens que estudaram muito estão lá no exterior, estudaram economia, estudaram engenharia, estudaram administração e nós vamos no sujeitar aos técnicos que vieram para fazer com que o Corredor do Lobito seja fonte de riqueza para Angola, para Zâmbia e para República Democrática do Congo.
É para dizer com toda a liberdade é isso que cinquenta anos depois. Quando eu morrer, eu vou de facto com essa mágoa porque durante cinquenta anos andamos a escamotear.
E depois o partido no poder a excluir aqueles que Agostinho Neto queria que também fossem autores da revolução e da evolução do nosso país. E aqui estamos. Falei só do coração.
Importância da Sua Geração Partilhar Memórias
Olha, para mim é tudo quanto eu disse, aqueles que foram os fundadores da nação. E a Agostinho Neto não podemos tirar esse mérito de ser de facto um fundador carismático, não lhe podemos tirar esse mérito, por isso eu disse: para um português que vai ao espírito do Lusíadas, para um grego tirando o espirito da Iria é mutilá-lo , também deveria ser para um angolano tirar-lhe o espírito da Sagrada Esperança é matá-lo, é matar o angolano.
E a situação tal como está hoje, 14 de Março de 2025. Como estão esses julgamentos aqui em Luanda? Eu, Zacarias kamuenho que em 1984 me encontrei duas vezes com Rosa Coutinho para saber como é? Também vejo de facto que é uma encenação vergonhosa “ele não saber”. Esses dois julgamentos deveriam chamar atenção a quem governa hoje, ao partido que governa hoje e dizer-lhe “ é essa Angola depois de cinquenta anos que queríamos?”.
E esses escândalos financeiros, a AGT, o Ministério do Interior, esses Ministérios que são sensíveis e que vemos que a quem se aproveita por ser do partido, por ser do governo, se aproveita para si mesmo. É este angolano que Agostinho Neto esperava quando escreveu para todos a Sagrada Esperança? Não.
De sorte que se me pedissem o que dizer aos jovens hoje, é isso mesmo que eu dizia: Se a um português tirar-lhe os Lusíadas é tirarem-lhe a alma, é dizer-lhe que não é português e a nós também tirarem a Sagrada Esperança que Agostinho Neto visualizou é tirarem a nossa cultura bantu, a nossa cultura mas angolana, também é matar-nos.
De maneira que oxalá que com a reflexão dos cinquenta anos, das festas que se preparam para celebrar os cinquenta anos nos levem a tomar consciência da nossa angolanidade. E a nossa angolanidade não virá: não será imposta por lei, não será imposta por um decreto. Não será imposta por forças exteriores. Assim como as forças militares tanto da UNITA e do MPLA chegaram a conclusão que devíamos conversar e conversaram e se deu o 4 de Abril, conversando. Mas depois, as conversas ficaram por ali. A reconciliação não aconteceu efectivamente.
Importância da Sua Geração Partilhar Memórias
Olha, para mim é tudo quanto eu disse, aqueles que foram os fundadores da nação. E a Agostinho Neto não podemos tirar esse mérito de ser de facto um fundador carismático, não lhe podemos tirar esse mérito, por isso eu disse: para um português que vai ao espírito do Lusíadas, para um grego tirando o espírita de Iria é mutilá-lo, também deveria ser para um angolano tirar-lhe o espírito da Sagrada Esperança é matá-lo, é matar o angolano.
De sorte que se me pedissem o que dizer aos jovens hoje, é isso mesmo que eu dizia: Se a um português tirar-lhe os Lusíadas é tirarem-lhe a alma, é dizer-lhe que não é português e a nós também tirarem a Sagrada Esperança que Agostinho Neto visualizou é tirarem a nossa cultura bantu, a nossa cultura mas angolana, também é matar-nos.
De maneira que oxalá que com a reflexão dos cinquenta anos, das festas que se preparam para celebrar os cinquenta anos nos levem a tomar consciência da nossa angolanidade. E a nossa angolanidade não virá: não será imposta por lei, não será imposta por um decreto. Não será imposta por forças exteriores. Assim como as forças militares tanto da UNITA e do MPLA chegaram a conclusão que devíamos conversar e conversaram e se deu o 4 de Abril, conversando. Mas depois, as conversas ficaram por ali. A reconciliação não aconteceu efetivamente.
A CIVICOP
Inventou-se a CIVICOP, pensamos “bom, a CIVICOP vai…”. Mas, a CIVICOP o que é que tem feito? A CIVICOP é para diabolizar os crimes do Savimbi, é para diabolizar os crimes da UNITA. Mas, os crimes do MPLA, estes são tratados com delicadeza e com sensibilidade. Aqui em Luanda sabíamos dos lugares onde os do Poder Popular faziam os seus cemitérios. Algumas das ossadas já foram retiradas . Mas isso, ficou como que branqueado.
Nós não falamos do 27 de Maio em que muitos e nós perdemos entes queridos , mas tudo isso fica branqueado. E o nosso Presidente José Eduardo já pediu perdão público às vítimas. Mas a CIVICOP vêm fazer com que se diabolize as mortes feitas em nome da UNITA ou por soldados da UNITA, para dizer que: as mortes feitas pelo MPLA ou em nome do MPLA e depois… Savimbi também era um bocado bruto na medida em que também ia assistir àquelas mortes públicas.
Agostinho Neto nunca fez isso. Quando havia, também morte pública ele não aparecia. Ele como chefe deixava que os carrascos fizessem os seus trabalhos. Eu próprio assisti aquelas mortes públicas ali no campo de futebol em que as pessoas (…) É claro que eu não ia, eu não tinha coração para ir, mas é claro todos eram comprados e as crianças assim (gestos) depois vinham contar.
Depoimento foi realizado na CEAST, em Luanda 14 de Março de 2025.
Audiovisual: Leo
Entrevistadora e Transcrição: Marinela Cerqueira
Revisão: Judite Luvumba
Palavras Chaves: Missão de Baviera| Seminário Menor|Seminário Maior Cristo Rei| Bispado de Luanda| CIVICOP|Sagrada Esperança|Liberdade|Paz|Prémio Sakharov|Sagrada Esperança
[1] O núncio apostólico de Portugal, Fernando Cento, concedeu-lhe a ordenação episcopal em 21 de dezembro de 1957 na Catedral de Luanda, tendo como co-sagrantes a Moisés Alves de Pinho, C.S.Sp., arcebispo de Luanda, e Daniel Gomes Junqueira, C.S.Sp., bispo de Nova Lisboa.[2][3] Em 13 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII o nomeou como arcebispo-coadjutor de Luanda, com a sé titular de Metímna.[2] Entre 1962 e 1965 participou da primeira e da última sessão do Concílio Vaticano II.[2]
Após a renúncia por idade de Moisés Alves de Pinho, em 17 de novembro de 1966, Nunes Gabriel o sucedeu como arcebispo no mesmo dia.[2][3] Foi, também, administrador apostólico da Diocese de São Tomé desde 1966 até 1980. Durante a sua prelazia, alcançou-se o clímax dos esforços de independência de Angola contra o domínio colonial português.[4] A Igreja Católica se opôs ao movimento de independência comunista MPLA, que se tornaria o partido mais importante do país após a independência.
Em 19 de dezembro de 1975, um mês após a independência de Angola, Manuel Nunes Gabriel renunciou ao cargo.[1][2][3] Após alguns anos de trabalho na Diocese de Portalegre e Castelo Branco, em que se dedicou também à elaboração e publicação de obras de índole histórica sobre a Igreja em Angola. Regressou como simples missionário, desembarcando em Luanda em 1986 e servindo como capelão num dos hospitais da cidade.[1]
Após alguns anos de trabalho em Luanda, especialmente com os doentes do hospital central, regressou a Portugal muito doente. Passou os últimos anos no Seminário de Portalegre e faleceu, em Portalegre, em 20 de outubro de 1996.[1] Em 30 de novembro de 2013, seus restos transladados foram sepultados na Catedral de Malanje, com missa celebrada pelo Arcebispo do Saurimo, José Manuel Imbamba e contando com a presença popular e de diversas autoride. https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Nunes_Gabriel

