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Memória Feminina do Complexo Agrícola do Wacu Cungo, Domingas Tchissengue

Domingas Tchissengue é a primeira natural do Wacu Cungo a prestar depoimento à Plataforma História Social de Angola (HSA). Foi sensibilizada pela amiga Mary Daly, cuja amizade teve início no momento do seu parto, quando uma cesariana foi realizada por esta médica estagiária irlandesa, durante a invasão sul-africana ao Wacu Cungo. No período salazarista, a localidade chamou-se Santa Comba Dão, tendo a primeira igreja sido construída como réplica de outra existente na cidade natal de António de Oliveira Salazar.

A HSA assume o desafio de ser inclusiva, partindo do princípio de que a história social é a história de toda a sociedade, com especial atenção às comunidades rurais e mais desfavorecidas. A vida de Domingas retrata a experiência de muitas mulheres que se tornaram o principal sustento da família alargada, em consequência da ausência dos homens, que, voluntariamente ou por recrutamento, se juntaram às partes envolvidas no conflito armado em Angola. Reformada, mantém hábitos ligados à agricultura de subsistência, cultivando a sua lavra, depois de ter conseguido reunir recursos para garantir a formação dos filhos, motivo de orgulho para os seus pais.

Ao falar da infância, descreve as brincadeiras entre filhos de assimilados envolvidos na construção da cidade e relata as dificuldades vividas pela sua mãe na integração nos hábitos e costumes de outro povo, bem como no processo de aprendizagem da língua kimbundu.

Aborda ainda a realidade de adolescentes angolanas que prestavam serviços domésticos a famílias portuguesas, referindo o convite feito por uma família retornada para continuar esse trabalho em Portugal. Afirma ter conhecimento de casos positivos de adolescentes que, com o consentimento das famílias, residem actualmente em Portugal.

Funcionária do Complexo Agrícola do Wacu Cungo nos primeiros anos após a independência de Angola, alugou a sua residência à amiga Odete, esposa de Sá, natural de Cabinda, entretanto falecido na cidade. Actualmente, Domingas reside nessa mesma casa e continua a cultivar as suas terras.

Os angolanos trabalhadores do Colonato de Santa Comba Adão, 1952

Praticamente, o que tenho a dizer da minha vida começa pela minha vida social, pela juventude, por onde andei e por onde passei. A minha vida social foi muito pesada. Cresci no Wacu Cungo, mas sou natural de Lumbi Bali, no caminho para Benguela, vindo do Alto Hama.

O meu pai veio para aqui em 1952 para trabalhar com os colonos. Naquele tempo, quem tinha uma profissão conseguia trabalhar com o colono. O meu pai era ajudante de pedreiro. Foram recrutando pessoas com profissão: pedreiros, enfermeiros e professores. Era necessário construir a cidade de Santa Comba, na Cela. O nome Wacu Cungo só surge depois da revolução. Assim começou a construção deste município. Os que não tinham profissão eram enviados directamente para São Tomé, para as roças de cacau. Graças à profissão do meu pai, crescemos aqui e não em São Tomé.

Alguns anos depois, o meu pai regressou à sua terra para arranjar companheira e voltou ao Wacu. A minha mãe veio, mas não percebia a língua e dizia com medo: “esses vão-me matar”. Dizia que não entendia nada, que falavam “wazekele” — “como estás”, em kimbundu — e que tinha medo. Ficou grávida de mim e pediu para regressar à sua terra. Naquele tempo não havia telefone, comunicava-se por cartas. Foi enviada a carta a informar do meu nascimento e a minha mãe regressou. Os meus irmãos mais novos já nasceram aqui.

Com o tempo, a minha mãe, já com a filha pequena para se distrair, começou a fazer amizades com as senhoras do Wacu. Fui crescendo e, aos sete anos, o meu pai colocou-me na escola, onde estudei até à quarta classe.

Adolescência no Huambo com a família da Professora, 1974

Quando fiz doze anos apareceu um senhor, funcionário agrícola da Junta Provincial do Povoamento da Cela (JPP) que era o colonato, começou a angariar os colonos e foram contratar colonos em Portugal e começaram a trazê-los para fazerem as fazenda médias,  Chiluemba é  um dos aldeamentos. Então, começaram a construir as fábricas como a da ELA, fazia leite, iogurtes e o queijo vermelho e os colonos  nos aldeamentos produziam batata rena, muitas coisas, foram trabalhando assim e foram construindo aldeamentos, coisas bonitas.

A minha professora chamava-se Dona Rosário e o esposo era regente agrícola, tinha uma filha chamada Gisela, um dia ela perguntou-me “Domingas Queres viver comigo?”, eu pensei “viver com uma branca, não me vai fazer mal”, ela diz “tens medo, eu só quero que brinques com a minha bebé”, ela foi ter com os meus pais e eles aceitaram.

Os regentes agrícolas tinham lugares de trabalho móveis, o Sr.  Dário é transferido para o Huambo em 1974, vou com eles e começam estas confusões de 1975, ela diz-me “Domingas Queres vires comigo para Portugal”, pensei “vou perder”. Mas hoje, estou arrependida depois por saber como as outras vivem em Portugal, ela disse “eu vou para Portugal, mas tu não queres”, eles falaram com os meus pais “ eles não aceitaram” e lá fiquei.

A   Igreja  Católica

Não tenho muitas mais recordações sobre a época colonial. Dizem que os angolanos residentes no Wacu Cungo eram semi nómadas, eles sensibilizaram o povo com ajuda da igreja, foram sensibilizando o povo até este acreditar que existe Deus “o nosso criador”. Eles começaram a construir as igrejas, e ainda assistiram a construção e a inauguração da Igreja São Cristóvão.

Inicialmente, os padres não tinham casas definitivas e os primeiros missionários entraram em contacto com os professores, mas não tinham dinheiro e davam os blocos pequenos aos alunos para os transportarem,  era como se estivessemos a pedir esmola para a construção da casa dos padres que  também veio a ser construída com ajuda dos professores.

Brincadeiras rurais

As nossas brincadeiras eram fazer panelinhas de barro, fazer bonecas de pano e cozinharmos. Quando as mães fossem as lavras roubávamos agulhas e linhas para  cosmos as   bonecas de palha,  fazíamos piqueniques a tardinha, juntavámos um bocadinho de fubá e de peixe, íamos as lixeiras apanhar aquelas latinhas de atum e de salsicha onde  fazíamos os nosso funges, apanhavámos rama e ferviámos sem molho, com um bocadinho de peixe, era a nossa alegria, era a nossa felicidade, eram as nossas brincadeiras.

Íamos as pedras e arrecadavámos caixas de papelão e levávamos para as montanhas, onde havia  pedras com rebaixadas e arrastavamo-nos  nas pedra e iamos parar lá abaixo, subíamos, quase passavámos o dia nesta brincadeira, diziamos “como é, vamos brincar aonde, na montanha, vamos fazer o quê  no caxile dembe (pedra que escorrega)”.

A Invasão Sul Africana, 1978

Depois, começaram os conflitos,  que eram mais frequentes entre o MPLA e a UNITA.  Nessa época, meu  noivo viu que iria perder a noiva, “ela está grávida e eu não a quero deixar assim”.  Então, fui viver com o meu marido em Quissanga Pungu, próximo ao hospital, depois muita gente como nós resolveu abandonar o município, fugimos daqui e fomos  até ao Ebo, passamos quase uma semana a caminhar.

Rebenta a guerra forte quando os sul africanos entram em Angola,  Agostinho Neto não se deixou e foi buscar os cubanos, foi a luta que se travou aqui até 1978.  Os cubanos eram mais fortes e conseguiram libertar todos os municípios, foi guerra a sério, canhões, artilharia, aviões.  No dia que abateram as duas avionetas dos sul africanos nós estávamos nas pedras. Os cubanos conseguiram libertar quase  toda Angola, os sul africanos partiram e depois os cubanos .

Depois, regressa a guerra entre angolanos, tivemos de abandonar os municípios, voltamos às matas. Comíamos sem sal, sabão?  qual sabão, aquilo era apanhar umas quisaca, comer e já estava, corriam conosco outra vez, fomos andando assim este tempo todo, até que tivéssemos esta sorte que “Deus operou em nós”, militares vinham todos queimados, outros foram queimados, braços queimados…

Complexo Agrário da Cela e a Bacia Leiteira do Wacu Cungu, 198x-202x

A partir daí, já tinha a minha sexta classe feita e abrem o complexo agrário da Cela, começaram a convocar pessoas com “classe avançada”, faziam testes, quem aprovasse começava a trabalhar, quando o Eng. Castelo veio para o Complexo da Cela, eu já trabalhava. Nós não dependiamos  do Orçamento Geral do Estado, tínhamos leite, batata, etc, os engenheiros agrícolas é que andavam no campo e os técnicos veterinários é que dedicavam aos animais, a produção de leite. 

Mas depois, rebenta outra vez a guerra e com ela o enterro do Complexo Agrário. Com a extinção do Complexo Agrário,  trabalhei na Bacia Leiteira da Cela trinta e cinco anos até me reformar.Agora, tenho uma lavra  a 25 quilômetros da cidade, em Cassoco.

A Sra. Odete era a responsável do registo civil, fomos colegas, o Sr.  Lutucuta, o Sr. Andrade , Jorge dos Recursos Humanos, o Sr. Ramalhete, também trabalhamos com estrangeiros os búlgaros, trabalhamos com muita gente, muitos já falecidos.

Maternidade e a Dra. Mary Daly

No período do Complexo Agrário surge no Wacu Cungo a Dra. Mary Daly e como viviam no mesmo prédio, gostaram um do outro, legalizaram-se, casaram-se e a Dra. Mary trabalhou muitos anos aqui. Fiquei grávida dos meus gêmeos, uma senhora e a enfermeira Dona Céu esforçaram-se e apenas nasceu um dos gêmeos, chamaram a Dra. Mary porque  o parto estava difícil e não conseguimos superar, perguntaram-lhe como fica e a Dra. disse “agora sem luz, eu não posso fazer nada, eu vou tentar, mas eu nunca fiz uma cesariana!”. No dia seguinte, chegou e enviou-me ao bloco e disse “vou fazer o que puder”, o bebé estava com as mãos cruzadas em cima da cabeça, fez a cesariana e a Dra. ficou feliz por salvar a mãe e o segundo rapaz.

Com o passar do tempo, infelizmente tive uma vida muito triste, separamo-nos, fiquei quase oito anos sozinha. Depois de algum tempo, um técnico veterinário apaixonou-se, tivemos a primeira filha e mais tarde ele vai par a o Seles e o caminho fechou, as férias acabaram e ele entende como se apercebeu que havia uma coluna do Sumbe para o Kuanza Sul, passou pela Gabela e no Ebo a coluna decidiu não avançar porque o inimigo estava no caminho. Afinal de contas, a UNITA tinha o projecto de atacar o Ebo e até hoje não sei se ele morreu ou se está vivo, fiquei grávida de um homem que foi raptado pela UNITA.

Fui vivendo, mas a nossa amizade com este casal foi por ser colega do Eng. Castelo e a boa fé da Dra. Mary Daly, fui ter com eles e tornamo-nos compadres, fizemos uma festa, eles viviam em uma vivenda ao lado de outra que actualmente está toda danificada, convivemos até eles irem viver em Luanda.

A Saúde

A Dra. Mary Daly amou a profissão e ajudou os mais pobres, a fase em que esteve aqui era uma fase crítica, os medicamentos eram difíceis, ela não se importava, ajudava e se sacrificava, com o custo das coisas. Ela trabalhou no hospital em consultas pediátricas, ela e a Irmã Ilda, havia um médico do Uíge, passaram por aqui muitos médicos.

Durante muitos anos  passaram por cá muitas médicas cubanas, havia muitos cooperantes na saúde. Na agricultura eram os bulgaros e na saúde os cubanos, maioritariamente de sexo femenino. 

Nós dependíamos dos aviões para termos os medicamentos e outros apoios, sobretudo nos últimos anos de guerra, para dizer  que a esta hora   (14:30) partia-se para Luanda, dantes para passar na estrada havia medo, os carros eram queimados, as pessoas eram mortas a tiros. Mas a Dra. Mary Daly aguentou bem, assim como os padres e as madres.

Padres e Missionários

O Frei Gil era missionário português, aguentou até a morte, ia a Portugal passar férias e preferia voltar antes das férias acabarem, a família dizia  “mas, oh Gil” e ele dizia “eu vou para Angola”. Está sepultado no Cemitério das 200 Casas. Os missionários são nômadas, mas todos os missionários brancos expressavam o desejo de permanecerem no Wacu Cungo.

O Frei Gil adoeceu foi para Portugal, mas a irmã e o sobrinho vieram ao seu funeral, foram esperar o corpo do Frei Gil a entrada da cidade, velamos o corpo, os familiares filmaram tudo e a irmã ao despedir-se disse “eu não sei o que vocês fizeram pelo meu irmão, mas eu vi a vossa união, o que vocês fizeram por ele, agora compreendo porque ele dizia que  queria morrer em Angola”. Ainda no domingo passado, disse-me “eu não consigo agradecer o que vocês fizeram pelo meu irmão, esta terra me marcou muito e tenho muito a contar deste povo, desta terra”.

Muitos padres e muitas madres já faleceram, a irmã Hilda faleceu em Portugal. Os missionários que estão cá actualmente são dominicanos e na Quibala há também Capuchinhos. 

Habitação

As aldeias dos colonos agricultores  eram fora da cidade e os aldeamentos pertenciam aos colonos  agricultores que produziam milho, feijão, abacaxi, trigo, arroz e outras hortícolas, estas casas foram construídas pela Junta Provincial de Povoamento, fizeram estas casas de passagens para os regentes agrícolas, a cada um que viesse transferido para o município da Cela era cedida uma casa.

Quando rebentou a guerra tudo isto ficou abandonado, organizou-se a Junta de Habitação e toda a pessoa que quisesse viver na cidade ia a Secretaria de Habitação legalizar a casa. Mas, eu não ocupei directamente, esta casa era do falecido canalizador, o Sr. Tonecas do Complexo Agrário e o seu  salário era curto. Na ocasião, ele cedeu-me os anexos, eram dois quartos, ele diz-me:

  • ó colega Domingas,
  • sim Sr. Tonecas, “não queres viver aqui em minha casa”?
  • como?
  •  eu vou viver no bairro[1], já não quero viver nesta casa.

Então, em 1982 comecei a viver aqui.

Instituições de Ensino, 1982

Em 1982,  os meus filhos começaram a avançar nos estudos e um deles aprovou para a nona classe e disse “mãe eu quero continuar a estudar e quero fazer direito”.  Na altura,  eu ganhava 2.595,00 kz, isto no período 87-89 eu estava com este salário do complexo agrário, na altura tínhamos o apoio do abastecimento do Comércio Interno, porque mesmo com aquele salário, “não se dava conta” deste curto salário.

Eu disse “oh filho estudar direito terá que ser no Huambo, mas a mãe já lá viveu”, então fomos ao Huambo fazer a inscrição, ele foi fazer o teste sozinho, aprovou e no regresso disse-me “mãe graças a Deus, aquele sofrimento que tivemos, aprovei”. E vi “o diabo a assar sardinhas”. Aparece uma amiga que vivia em Luanda e regressa a Cela com o marido, o Sr. Sá e querem viver cá. Então, ela pergunta-me se eu não queria alugar a minha casa, aluguei a casa, passei para os anexos aqui no quintal. Com este dinheiro  arranjei-lhe um quartito no Huambo, fui aguentando até ao terceiro ano e depois concluiu o curso em Luanda.Concorreu e  aprovou ao concurso público e agora trabalha em Luanda.

Tive uma vida dura, tendo fé “Deus te dá tudo, o que você quer, quando te assustares, acontece” e fui vivendo estas surpresas de Deus. O segundo defendeu o trabalho de curso em Luanda e concluiu. A menina está na faculdade, há uns anos vieram do Huambo, o moço é do Bié, o pedido foi feito e estão casados pela igreja.

Agora, vivo tranquila ja nao tenho filho que chora, que chama pelo pai, mas ainda assim abri a minha lavra, cultivo abacateiros, limoeiros e milho que já estou a colher e vou vivendo assim.

Educação e Costumes

Há muita diferença entre viver no Wacu Cungu e em outras cidades, por exemplo, na educação, suponhamos o seguinte, aqui no Wacu Cungo nós  podemos levar uma criança daqui para Luanda? já há diferença, a educação da criança de Luanda é muito diferente. Também, há diferença entre a criança de cá  e uma criança do Huambo.

O que posso dizer é que o respeito é diferente, notamos que uma criança é daqui! O mesmo acontece com os mais velhos, por exemplo, eu estou habituada ao encontrar-me com alguém a saúdo “boa tarde, tio” e por vezes, levo este hábito para Luanda onde eu saúdo e as pessoas  não respondem , a minha filha diz-me “mãe pensas que aqui é como no Wacu”. Uma vez a minha neta foi a Luanda e disse “oh avó eu fui a uma casa e assim que cheguei eu saudei uma tia, a tia olhou para mim, respondeu, mas ela não me respondeu bem” e eu disse-lhe porquê? ela respondeu “oh avo nao sei, ela não respondeu como as mães aqui do Wacu”.

Por isso,  a educação de um município e de uma província é diferente. Por exemplo, no Huambo a tia cumprimenta “boa tarde menino”, respondem, mas o sotaque, a entoação e as palavras são diferentes, no Huambo você saúda “menino estás bom?”, responde “sim, obrigada tia”,  mas aqui, apenas respondem “sim, obrigada”, não dizem “obrigada tia ou avó” e vão embora. Há diferença entre a educação no município, no Huambo (cidade)  e entre estes e os de Luanda. Outro dia, uma criança estava sentada em um autocarro e um senhor dizia “oh menina você não consegue dar o acento à mais velha que está de pé” e ela respondeu “se ela queria se sentar que chegasse mais cedo”.  Mesmo, nas igrejas, mas no nosso tempo, uma criança está sentada, mas sem você dar conta a criança dizia “o tio sente-se”, a cadeira estava vaga, mas hoje eles dizem “queria sentar-se, que chegasse cedo”.

Conselhos as Novas Gerações

Por vezes, sento-me com as minhas crianças e começo a dizer-lhes “vocês tem que perguntar como é que nós vivemos, como nos comportamos com os nossos pais, como vivemos com as famílias das outras casas”, e eles começam a dizer “isto hoje já não existe”, a minha sobrinha disse esse  nosso tempo é muito evoluído, o vossa era muito atrasado, seguiam os conselhos dos vossos avós, dos vossos antepassados” e eu digo-lhes: valeu a pena, e o vosso futuro, está complicado, nós não crescemos assim, tínhamos ditadura nas casas, o pai dizia “vocês as oito horas tens de estar em casa”, ao pensar nesta orientação, nós chegavamos a casa cedo e no dia em que nos esquecemos havia porrada. E agora, as jovens vão para casa dos namorados dizendo que os nossos pais  puseram-nos fora de casa, Eu só consigo explicar os hábitos do bairro onde nasci.

Tem memórias de tradições africanas?  No tempo colonial os angolanos viviam de forma diferente aos colonizadores, tem memórias de líderes locais?

Para bem dizer,  o colono tinha uma vida mais avançada, nós africanos dependíamos daquilo que o branco nos ensinava, não podíamos demonstrar aquilo que as pessoas queriam, porque praticamente estávamos a aprender com o colono.

Vestuário

Por exemplo, na parte do vestuário os nosso vestido eram feitos pelos alfaiates, usávamos vestidos franzidos com um cordão a atacar atrás, usávamos as roupas do meio rural, as nossas saias eram de franzidos, coziamos, fazíamos a bainha e metíamos uma corda por dentro para atar as saias.Nós não tínhamos dinheiro para vestir, os brancos tinham roupinhas de crianças, nós não tínhamos aquela possibilidade.

Naquele tempo,  não havia dinheiro em abundância como agora, arrancavamos o feijão, as mulheres punham nas kindas, fora da cidade e os homens punham o feijão no saco, era levado a distância de uns dez quilômetros até encontrarem uma loja, com o teu feijão o branco dizia “o que queres com este teu feijão”. E nós dizíamos “quero aquele pano ali, o pano camutanga”.

As mais velhas faziam quimonos e vestiam-se com os panos, não haviam saias, usava-se mais vestidos, os vestuários dos bairros, das pessoas mais atrasadas, “éramos atrasados porque dependíamos da educação do branco”.

As escolas abriram muito tarde, no tempo colonial uma menina só estudava até a segunda ou terceira classe, ficava no campo, os pais diziam “uma menina não precisa de estudar muito, tem que se dedicar mais ao campo”.

Depois da independência, começamos a estudar mais e fomos vendo que éramos atrasados. Antigamente, o teu pai trazia uma roupa e uns chinelos e vestíamos isso. Agora, para comprar alguma coisa o filho diz “mãe foi isso que compraste”, se deres o dinheiro “pensas que ele vai trazer uma boa quantidade de roupa” , afinal só compra uma peça e diz, “mãe isto agora é  que está a bater”.

A importância da Memória Oral

Quem não conheceu a vida colonial e para quem não conhece, nós  temos de começar a contar o que se passou para eles saberem que aquele tempo era muito difícil para os africanos. A nossa música era o tango, como a juventude diz que era uma dança “junta areia”, aquelas músicas suaves porque agora estão habituados a saltitar.

Vale a pena, explicarmos as coisas para eles terem noção de como se vivia e que a vida actual é muito diferente. Eu quase que cresci com os brancos não acompanhei directamente a vida rural.

 Antes nos bairros a noitinha os próprios sobas se reuniam com as crianças, tinham o seus Zangos onde faziam as fogueiras e serões com os jovens, explicavam como tinham crescido, agora um mais velho não consegue convocar a juventude num bairro. Os sobas as vezes tem a ideia, mas  tem medo de chamar a juventude.  Agora o divertimento da juventude é bebida, é droga. Antigamente, faziam-se torrados em frigideiras grandes, na fogueira e ficavam sentados a conversar, agora dizem “tenho mais o que fazer, vou à discoteca”.

Conselhos às Novas Gerações

Conforme nós crescemos está muito distante, antes você vê um mais velho a vir, você deixava o caminho para ele passar, agora ele não se desvia, isto é se não te der um encontrão.

Eu digo o que está a estragar a juventude actual são as novelas, antes tínhamos matinée e cinema, matinée era para as crianças com idade entre os cinco e os catorze anos, íamos a ver filmes de crianças e as crianças não podiam ver filmes para os 18. O nosso divertimento aos domingos à tarde era cinema, como não tínhamos dinheiro para pagar, esperávamos. Primeiro as melhores coisas passavam para aqueles que pagavam, os brancos e os filhos dos brancos, deixavam-nos a assistir a última parte, contávamos as nossas mães bem felizes.

E agora com os telefones tudo piorou. Quando crescemos brincavamos com os rapazes, à noite, às escondidas, as nossas brincadeiras eram naqueles lugares, escondíamos-nos brincavam-nos ao lado menino e rapaz.

O Namoro e a Gravidez Precoce

Mas, ninguém ficava grávida se alguém ficasse, ficávamos todas desgastadas, os pais perguntavam  você quem te engravidou, perguntas feitas em quarto fechado. Os pais iam a casa dos rapazes, perguntavam “o que aconteceu”, os outros pais explicavam, chamavam o rapaz e diziam “você… como aconteceu” e as coisas se acertavam, até porque no regulamento da igreja o rapaz tinha de ter  vinte anos e a menina dezoito anos, só assim se podia organizar um casamento, o tradicional ou o da igreja. Antigamente, o nosso divertimento era a escola, agora o divertimento é sexo, crianças com catorze anos ja estão gravidas, eu fico desesperada, com esta idade como vai criar um filho, educar este bébé? Às vezes, o rapaz tem quinze anos, não trabalha, mas quer assumir a mulher; outras vezes, depois de três anos aquela menina já não presta, ele quer assumir outra. Assim, nós os pais é que vamos criar os netos?   Os dois não se percebem, a menina segura nas coisas e traz os filhos para a casa dos pais, você às vezes é obrigada a criar aqueles netos, o pai naquela casa já não passa. 

Eu não sei como nós vamos fazer, não sei como é que o governo vai resolver, qual o sistema que ele vai aplicar para a nossa juventude actual.

Outra situação difícil é a roubalheira, é matar, és morto, conforme está a acontecer em Luanda e agora nos municípios também estão  a ser assolados por este males sociais , os assaltos e os assaltantes são os jovens, até as meninas também são assaltantes se dedicam a bebedeira.

Por vezes o pai e mãe querem que o seu filho avance, mas chega da escola com estas novidades,  gravidezes, estamos mal, estamos mesmo mal com a juventude, querem assumir, depois juntam-se depois de um ano já ninguém aguenta o outro, porque já não há possibilidades, já não há comida…

Este depoimento foi realizado no Wacu Cungu, em Fevereiro 2023.

Entrevista e Transcrição: Marinela Cerqueira

Palavras Chaves: Complexo Agrário da Cela|Junta de Povoamento|Invasão Sul Africana|Medicas Cubanas|Dra. Mary Daly


[1] Bairro é utilizado para designar os bairros periféricos.