Bernadette e António Pinto Santos constituem o segundo casal cujo depoimento assume um carácter intrinsecamente colectivo. O outro é o casal de pastores protestantes Adelaide e Fernando Catanha. Ambos os depoimentos foram realizados em contextos específicos, entre Portugal e Angola. No vídeo, observam-se vários momentos em que a fala de um confirma a do outro; os olhares cúmplices e o entrelaçar de mãos reforçam a veracidade do relato, transmitindo a sensação de estarmos a dialogar com uma única pessoa.
Experiências semelhantes, embora registadas de forma distinta, são os depoimentos dos casais Eunice e Johnny Foreid, e Suzana e Zé Paulo, realizados separadamente. Ainda assim, a memória colectiva é evidente, resultante de vidas em comum com mais de 30, 50 e, no caso de Bernadette e António Pinto Santos, mais de 60 anos.
Bernadette e António conheceram-se num encontro sobre Angola, onde António era o prelector e Bernadette, uma jovem suíça interessada em conhecer melhor África e a Luta de Libertação de Angola. A sua companheira acompanha-o, enfrentando barreiras culturais e raciais, bem como os desafios da adaptação à sociedade suíça.
Convencidos pelo amigo David Aires Machado, aceitaram o apelo de Agostinho Neto e chegaram a Angola meses antes do 27 de Maio. Durante o período do genocídio angolano, Bernadette, a sua mãe e os filhos regressaram à Suíça. António, membro da Operação Angola, decidiu dar continuidade ao trabalho de iluminação dos aeroportos nacionais. Uma aterragem forçada na Namíbia resultou na sua detenção, juntamente com outros funcionários angolanos, cuja libertação contou com a intervenção da Cruz Vermelha. Meses depois, conseguiu o visto de saída e reuniu-se com a família.
A história desta família é representativa de muitos membros da Operação Angola e de outros grupos constituídos por estudantes universitários angolanos das décadas de 1950 e 1960, responsáveis pelas relações internacionais dos movimentos de libertação com países europeus e organizações internacionais. É neste contexto que António recorda, com detalhe, o processo de integração de Angola na OIT.
O depoimento representa também dimensões centrais da diáspora angolana: a experiência do regresso ao país de origem durante o período de 1950 a 1970 e, mais tarde, o regresso definitivo aos países de asilo político, de residência e, posteriormente, de nacionalidade.
Ao recordarem o nacionalismo, apelam a acções concretas da diáspora na transmissão da história e das origens aos seus descendentes, alertando para o risco de a memória sobre Angola se perder nas próximas décadas.
Este é o segundo depoimento de António Pinto Santos. O primeiro, de carácter individual, foi realizado em Lisboa, algumas semanas após a celebração de mais um aniversário dos Estudantes da Escola Industrial de Luanda, também em Lisboa. O depoente foi identificado por Elisa Costa em 2024.
Entrevista
APS: Formamos uma comunidade de esquerda e uma comunidade do progresso para nos afastarmos da ditadura de vários países, sobretudo de Portugal e vivíamos juntos.
11 de Novembro de 1975
Dali chegou o 11 de Novembro foi uma grande festa, estivemos exactamente como a Bernadete disse, em casa de amigos suíços, em companhia do Manuel Zé e de certa forma a festa que fizemos- foi nessa altura em que o mn começou a dar os primeiros passos.
O apoio da Juventude Suíça 60-70
Eu conheci a Bernadette na altura em que grupos de jovens queriam saber sobre Angola, queriam informação e uma amiga colega da Bernardete convidou-me para ir falar sobre Angola e eu fui e ali estava a Bernadette. Foi dali que eu conheci a Bernadette, havia dois olhos que me chamaram atenção. Conhecemo-nos em 1972. naquela altura eu mantive contactos com os países do leste. ia para a Iugoslávia e para a Romênia e lea naquela altura ia para a Escandinávia, convidou-me para eu ir com ela, o bilhete estava pago e eu não fui porque tinha um contacto na Romênia, tinha de resolver a avaria do meu carro. De regresso, começamos a contactar, estarmos juntos.
B: Fizemos manifestações para o MPLA, fizemos grandes contactos para os suíços conhecerem o partido. Toda a força que nós tínhamos para que as pessoas conhecessem o MPLA, este partido angolano. Foi assim que eu participei na história de Angola. Pensávamos “quando Angola for independente iremos para lá”. Fomos para Angola e levamos tudo que havia em casa, geleira, camas, levamos tudo para Angola
Regresso a Angola, 1977
APS: Foi nessa altura depois da independência em que apareceu o Presidente Dr. António Agostinho Neto acompanhado por David Aires Machado. O Minerva veio praticamente contactar os quadros angolanos residentes na Suíça para regressarem a Angola para ajudar na reconstrução do país. Os portugueses “desapareceram” e precisavam de quadros. Então o Agostinho Neto falou comigo e o Minerva estava ao lado, o Minerva era o Ministro do Trabalho.
Depois, houve uma reunião internacional da OIT e Angola queria entrar nesta organização, o Minerva veio à Suíça e apareceu outra vez em minha casa e disse-me “olha, o Presidente Agostinho Neto conta contigo para a reconstrução de Angola Angola”.
Conversamos e disse a Bernadette que vamos todos para a Angola. Levamos tudo o que tínhamos, veremos algumas e levamos tudo o que podíamos levar. Antes fiz uma viagem a Angola e havia falta de tudo, naquela altura até faltavam fraldas para as crianças. Por isso, levamos montes de fraldas e leite em pó.
B: Nós tínhamos dois filhos. O mano tinha dois anos e a Elvira cinco meses, então, foi no dia 8 de Maio que viajamos. Eu viajei no avião do Presidente que estava em serviço em Paris e veio nos buscar. Levamos umas caixas. A minha mãe acompanhou-me a esta viagem a Angola.
Não sei bem como seria a viagem. O piloto ajudava-me, falava francês, eu ainda não falava portugues. Fizemos uma pausa no deserto e eu não podia sair do avião por ser mulher. Vi o melhor nascer do sol neste avião.
À chegada a Angola, pensei “Eu sou bem vinda a este país”. Mas quando chegamos só ao aeroporto, o mano disse “mãe eu quero uma coca-cola”, eu disse-lhe espera , mas na sala de desembarque não havia coca-cola, não havia nada, era uma confusão.
APS: Eu antes vim para Angola depois do Agostinho Neto falar com o Minerva, eu disse vou primeiro preparar a minha estadia para Angola. Quando cheguei houve uma grande discussão porque o Ministro da Energia queria que eu trabalhasse com ele por ser Engenheiro Electrotécnico e a Aeronáutica Civil também precisava de um engenheiro electrotécnico, de maneira que havia essa discussão, fico na Energia ou na Aeronáutica Civil, acabei por ficar na Aeronáutica Civil porque ele convenceu-me da necessidade de energia em todos os aeroportos de Angola
Naquela altura, eu disse “vou buscar a minha família”. Soube que o avião do Presidente estava em França em reparação e falei com o Ministro dos Transportes para que o avião do Presidente ao invés de vir de Paris diretamente para Luanda passasse por Zurick e trouxesse a minha família.
Eles chegaram no dia 8 de Maio de 1977. Estivemos em Angola. Como eu era responsável pela energia em todos os aeroportos de Angola, fui ao Huambo com um colega, fomos reparar a energia. o meu colega era engenheiro civil trabalhava sobre estradas e pistas.
27 de Maio 1977
APS: Infelizmente regressamos do Huambo no dia 26 de Maio, cansados e de madrugada começou a “rebentar” o 27 de maio. E eu tinha de consolar a minha sogra.
B: eles bateram a porta, estavam cinco soldados na porta,eu nem falava nada de portugues. pediram o passaporte e eu mostrei-lhes o passaporte suiço, pensaram que fosse o passaporte russo. a minha mãe estava a dormir com o meu filho Mandou, tiveram de se levantar. Eles não tinham uniformes. levamos um grande susto!
Outra coisa que vimos foram os carros cheios de pessoas que passavam em frente a nossa casa. Eles foram buscar pessoas às suas casas.
Tínhamos um apartamento muito bonito, com um grande terraço e ela contava para os helicópteros vistos pelo terraço. Não tínhamos qualquer ideia sobre o que se passava e depois percebemos ter sido quase um golpe de estado ou qualquer coisa do gênero.
APS: de princípio as pessoas dizem ter sido um golpe de estado, mas não foi nenhum golpe de estado, simplesmente havia uma revolução dentro do MPLA para que dentro do MPLA houvesse uma determinada democracia. Dentro do MPLA havia uma certa descriminaçao “voce é mais perto, voce é mais burro” e nisso sucede o tal 27 de Maio. Infelizmente esse nosso amigo Minerva , o David Aires Machado que me veio convencer a regressar a Angola,ele foi fuzilado, foi morto. Isso foi muito triste para mim.
A Entrada de Angola na OIT
Ele foi a pessoas que conseguiu com que as potências ocidentais que não queriam a entrada de Angola no OIT em Genebra e foi com a sua presença que Angola entrou na primeira organização internacional , foi nesta reunião em que se discutiu e se decidiu a entrada de Angola, e então isto foi através do Minerva que Angola entrou na Primeira Organização Internacional, foi graças ao Minerva.
Eu estava em Zurich e ele pediu-me para aparecer e disse-lhe:
- então, vê se reservar um quarto perto do seu hotel”
- não há reserva de nenhum quarto
- mas como, então onde eu hei de ficar
- nao sei, aparece
Quando cheguei , ele tinha uma suite, disse-me:
- Não há quarto reservado, tu ficas comigo.
Então , fomos a reunião internacional, todos os países não queriam a entrada de Angola na OIT, havia a participação dos EUA. quando ele acabou de falar, os americanos praticamente não queriam ouvir aquele discurso, saíram da sala. Mas, a maior parte dos países votaram “sim, Angola pode entrar na OIT”. E foi uma ótima festa para todos por Angola.
Luanda, Anos 70
Quando a minha família chegou a Angola a primeira família que me convidou foi o Minerva, fomos almoçar a casa dele. Para entrar na Cidade Alta onde viviam os Ministros era necessário papéis, autorizações. Eu disse que não precisava de nenhum papel e pedi para telefonarem ao Minerva. Foi uma festa, estivemos juntos, foi como se estivesse a entrar em casa de um familiar
B: Eu ainda não falava português, mas fomos muito bem recebidos, foi mulher do Minerva que tratou de nós, tinha um filho doente, foi uma atmosfera… depois, o Minerva desapareceu foi um choque muito grande. Mas também, este tempo depois do 27 de Maio foi muito difícil porque já não se sabia em quem se podia acreditar e uma vez tocaram na porta e disse-me que era um primo, eu disse-lhe “nao, nao podes entrar, o meu marido só regressa às seis horas e você venha a essa hora” e depois veio outra pessoa visitar-nos e como o conhecia deixei-o entrar. E eu perguntei-lhe:
- mas, tu tens uma arma?
- não, não tenho.
- mas, tu tens uma faca.
Era a maior faca e escondê-la no armário. Para mim essa era a maior confusão, mas para mim o maior choque foi um sobrinho do meu marido vir esconder-se em nossa casa. Vi muitas mães à procura dos filhos. Depois desse tempo fiquei muito triste em saber que a situação em Angola era assim.
Mas por outro lado, a família era muito cuidadosa. eu nunca ficava sozinha em casa, os familiares vinham sempre saber como eu estava. Comecei a aprender portugues e no final de um mês já falava. eu encontrei uma grande família, sempre pensava que quando chegasse a Angola; mas, quando os angolanos vem a Angola encontram uma frieza muito grande que os choca.
APS: Na Suíça quando alguém recebe uma visita, dizem”espera aí” e põe -sentado na sala de espera, em angola nao acontece isso, interesse logo na família. Foi isso que a Bernadette viveu em Angola. A recepção de uma pessoa é muito diferente.
27 de Maio, Luanda 1977 (continuação)
Falando do 27 de Maio há muita gente que foi morta inocentemente. Nós perdemos muitos quadros, havia bons quadros, muitos estudantes que estavam a estudar no exterior, sobretudo nos países de leste, estes estudantes quando chegassem a Angola eram mortos, diziam “vocês pertencem ao fraccionismo, ao 27 de Maio”:Infelizmente , estes bons quadros foram mortos, desapareceram todos. Realmente, deveriam ter investigado, terem feito um tribunal, não foi feito. Estudantes vindos da Rússia e da Jugoslávia, foi muito triste, de maneira que o MPLA sofreu muito e continua a sofrer hoje , foi um grande partido, mas começa a morrer, a perder aquele poder, a facilidade que o partido tinha.
Em Angola quando eu estava a estudar formei um grupo clandestino no Bairro Indegena onde eu morava, no Sambizanga era responsável o Lindo Andrade e no Bairro Operário era o Guilherme Tonet e eu no Bairro Indígena. recolhemos informações dos vindos do Congo.
Periodo Colonial
A Bolsa do IASA e a Ajuda de Dom Moisés Alves de Pinho, 1960
Eu era praticamente o melhor aluno na Escola Industrial de Luanda e podia conseguir uma bolsa de estudos, mas infelizmente os portugueses não queriam que o preto fosse estudar, ou ele tinha de ter dinheiro ou então não tinha possibilidade. A bolsa de estudo que era para mim foi dada a um portugues que era muito inferior nos estudos e como eu fui o melhor aluno da escola os professores ficaram admirados por não me terem dado a bolsa de estudo.
Eu era escoteiro e lidava com a Igreja Católica, consegui uma bolsa de estudo dada pelo IASA- Instituto de Assistência Social de Angola. O valor da bolsa de estudo era praticamente metade da bolsa de estudo da Escola Industrial, consegui essa bolsa de estudo também pela pressão do escotismo, eles foram ter com o Arcebispo de Luanda, Dom Moisés Alves de Pinho e ele conseguiu que me concedesse a bolsa de estudo. Não foi a igreja que me deu a bolsa mas foi por influência de Dom Moisés Alves de Pinho.
O Senhor que não quis que eu fosse para Portugal, era um mestiço cabo verdiano. naquela altura, não havia cursos superiores nas colónias, Salazar não quis que os angolanos, que as pessoas das colônias tivessem um curso superior e por isso esse mestiço bloqueou a minha saída.
Invés de eu chegar em Outubro no início do Ano Acadêmico cheguei em Dezembro de 1960. Fiz uma viagem de barco a Lisboa que durou onze dias. Fui para o Porto estudar.
E nós não podíamos ficar juntos, três africanos não podiam estar juntos porque a PIDE pensava que estávamos a organizar algo. Era difícil estudar, tínhamos de estudar em um restaurante, nesses lugares eles tinham toda a vigia, foi muito difícil.
Quando rebentou o 4 de Fevereiro a PIDE torturou, eram interrogatórios, a IDE perguntava-nos o “você pertence a isso”, quando chegamos a casa estava tudo “de patas para o ar”.
A Operação Angola
Depois lá para Abril de 1961 aparece um colega meu e diz-me:
- Olha, a organização internacional está a organizar uma fuga. Você também quer fugir?
- está bem
Começamos a organizar e no princípio de Maio de 1961 abandonamos Portugal. éramos dezanove, angolanos e santomenses. O primeiro grupo eram dezenove e o segundo quarenta e cinco. e muitos outros também fugiram por outros meios. No total, cento e vinte estudantes fugiram de Portugal em 1961. Quer dizer, eu só fiquei quatro meses em Portugal, primeiro a recuperar a matéria de Outubro a Dezembro. Chegamos a Paris, passando pela Espanha. Quando chegamos a Paris os franceses disseram: vocês não podem ficar aqui porque a organização quer que ainda venham outras pessoas e nós temos problemas com a Nigéria, naquela altura em 1961 a França e a Nigéria estavam em conflito. Então, nós tivemos de pedir a muitos países da Europa o asilo político. Nenhum país quis dar, nem mesmo a Suiça.

António Santos Pinto; José Ferreira; Jorge Valentim; Mateus Neto; Maria Amorim
A CIMADE
A Suíça abriu uma exceção: se houver uma organização suíça que se responsabilize por vocês. Foi aceite. Uma organização internacional suíça responsabilizou-se e nós entramos na Suíça, foi a CIMADE que nos deixou entrar.
A maior parte do nosso grupo quis vir para a Suíça francesa. Eu tinha sempre a isenção, havia uma escola de engenharia muito conhecida e eu quis estudar em Zurich. Naquela altura o MPLA… não existia. Eu fiquei na região Alemã e ou outro colega que pertencia à UPA, a União Popular de Angola.
Naquela altura, não existia a FNLA e nem o MPLA e a UNITA. E nós já tínhamos aquela confusão “eles não queriam falar conosco” e então esse colega também não queria falar comigo. Mais tarde, chegamos a conclusão que era um primo meu (risos). mas mesmo assim como ele pertencia a UPA, uma organização que foi muito apoiada pelo Congo.
A UPA dividiu-se entre FNLA e a UNITA. Praticamente, o Savimbi saiu e pediu ajuda ao MPLA. Ele queria ser chefe dentro do MPLA, ele sempre quis ser chefe. O MPLA disse-lhe: se você quer ser chefe primeiro vai estudar na China e depois é que nós vamos estudar a tua situação. Ele zangou-se e com a ajuda dos portugueses da direita e com os chineses ele fundou a UNITA.
Foram os portugueses que também ajudaram a fundar a UNITA. O Holden Roberto se zangou com o Savimbi e formou a FNLA. E foi daí que apareceram os três movimentos e isso com a influência das potências internacionais. O MPLA ajudado pelos países do Leste, países de esquerda daquela altura e a UNITA era ajudada pelos países ocidentais e a América ajudava a FNLA As potenciais seguiram os portugueses “dividiram para melhor reinar”.
Ficamos divididos e até hoje praticamente Angola continua a ser influenciada por uns e outros países.
Luanda , Anos 1970 (Continuação)
APS: Como o regresso a Angola não funcionou tivemos de deixar tudo. Felizmente, as empresas suíças como me conheciam disseram-me que podia continuar a trabalhar como engenheiro.
B: Quando estávamos em Angola eu também queria trabalhar. Mas , disseram-me “não, não, nós temos os nossos camaradas da Alemanha de Leste, vocês são capitalistas. Eu pensei em dar aulas de francês. Então, disseram-me “você tem que trabalhar quarenta horas por semana, uma parte deste tempo você vai ter uma instrução política”. Mas, tinha dois filhos em casa e acabei por não fazer nada (trabalhar).
Tínhamos um bom amigo a quem chamávamos São Paulo, padrinho da minha filha.
Ele vinha todos os dias para ver onde havia mantimentos para comprar. Quando cheguei ao mercado do Kinaxixe, havia folhas verdes e não havia mais nada e quando chegava batata rena tinha de se fazer esquemas para conseguir. Mas, com o São Paulo eu ia comprar peixe e carne onde havia. Eu conheci melhor Luanda daquele tempo que o meu marido porque ía a todos os cantos onde houvesse alimentação.
Ainda me lembro quando as padarias foram nacionalizadas os padeiros queimaram o equipamento. foi uma das coisas que me ficou na memória
A Luta de Libertação, Suíça anos 60
APS: Um facto importante da minha vida política, como eu era o “único” na Suíça alemã e tinha contacto com algumas pessoas e com os italianos, fui eu que fui o primeiro disco de Angola cantado pela Ana Wilson[i], fui eu que mandei fabricar este disco e graças ao apoio dos países de esquerda. Eu ainda era estudante, eles pagavam as minhas viagens. Eu era o responsável na Suíça e na Alemanha, tivemos um grande discurso em Frankfurt, fui eu que lá fui falar sobre Angola. E ajudava muito os estudantes que estavam na Jugoslávia e na Romênia, outros colegas eram responsáveis pela parte francesa. Esses são os pormenores dos contactos com essas pessoas.
B: Quando eu conheci o António já fazia parte de dois grupos relacionados a Angola. Eram grupos de esquerda que estavam a ajudar os países africanos. Eu não fiz muita coisa porque não conhecia, estava a apoiar. Mas eu sei que a Suíça estava dando apoio ao Savimbi. Ele estudou em Lausanne e havia grupos de esquerda a apoiá-lo, mas a Dinamarca e a Suécia estavam a ajudar o MPLA.
ASP: Era um grupo que apoiava os países da África (já não sabemos o nome) com roupas e alimentos. Há um museu na Suíça que fala sobre a participação da Suíça no colonialismo. A Suíça nunca teve colônias, mas ajudava os colonialistas a explorarem, os países africanos. Houve uma exposição sobre isso em Zurick. Muitos suíços presentes nessa exposição disseram que não sabiam que a Suíça era.
B: sim, isso é verdade! Eu também cresci com essa realidade. Eu era professora e foi assim que eu aprendi. Mas, com a minha filha estudou história pós-colonial, foi ela que descobriu a primeira dama de origem africana em Neuchâtel e com ela fui abrindo os olhos sobre essas pessoas que participavam na venda de escravos, e uma grande parte desses abusos. Nós enquanto crianças nunca soubemos. E depois no fim da minha carreira de professora, pensei que se tivesse no início da carreira de professora eu iria falar de outra maneira. Temos de dizer a verdade às pessoas e essa exposição foi muito boa. Nós nunca iriamos pensar que os suíços fizeram tanto mal.
Factos Marcantes
A Diáspora e o Racismo na Suiça
Houve missionários que participaram na formação de missões protestantes em África e alguns também estiveram em Angola. Conhecem este facto, isto é comentado na Suíça com as novas gerações, os vossos filhos conhecem essa realidade?
B: Não, os nossos filhos conhecem a realidade de uma forma geral, mas sobre as missões creio que eles não sabem muito e eu própria também não. Apenas me lembro que na nossa igreja havia um santinho que tínhamos de dar uma moeda e simboliza “em África todos eram pobres e todos moravam em casas de palhas”, coisas assim….Eu depois comecei a contar na escola factos de África, a mostrar que em África havia cidades que eram maiores que cidades na Suíça.
APS: Como a Bernadete disse e é verdade, eles põem um boneco preto, porque é o preto que precisa de esmola. E tudo o que se dava, como se dizia era para os pretos de África, para os pobrezinhos, tudo que é pobre é preto. São histórias!
B: Isto é algo muito importante porque nós fomos socializados assim. E isso está muito dentro de cada pessoa. Mesmo que nós pensemos que nós já não somos racistas, conhecemos cada pessoa, mas às vezes você pensa “quando vê duas pessoas” para não ter de pensar nisso, você tem de fazer um esforço, e quem é que nos ensina a pensar isso? A religião por exemplo não ensinou. Talvez possa haver agora melhores padres. Sei que graças aos missionários o Antônio (marido) conseguiu frequentar a escola, aprender e a escrever.
Mas quando fomos falar sobre Angola e mostramos os padres e outros, vimos material de guerra a ir para África, pensamos que a religião é muito complicada.
O MPLA, o movimento de libertação precisava e ao mesmo tempo as armas eram abençoadas pelos padres. Mas, na Suíça há movimentos a falar disso, já se fala. Por exemplo, a Jovita (filha) aproveita para falar nas igrejas sobre isso. Eles pedem e ela vai falar para informar as pessoas.
Mas , mesmo agora ainda é difícil (pausa). Espero que para os nossos filhos e netos isto irá acabar. Pelo menos, espero que eles tenham sempre pessoas ao seu lado que compreendam.
Regresso a Suiça, 1979
EC: Qual foi o momento em que perceberam que Angola ainda não oferecia condições para o vosso regresso?
B: Antes de irmos para Angola reunimos material para formar uma escola de electricista e material escolar. Sabíamos que não havia melhores possibilidades porque as pessoas que lideraram estavam na guerra mas eles não sabiam.
E depois esse poder popular que também metia medo porque você nunca sabia com quem estava falar “nem do tempo se podia falar” e isto metia muito medo.
Outra razão foi que as crianças estavam muito doentes com paludismo. O Mano teve paludismo cerebral. Foi muito difícil, ainda bem que foi consultado com o pediatra Nimi Ambrósio e a minha filha teve uma paralisia e pneumonia. Ele foi connosco ao hospital e ela ficou internada e depois fomos ver onde estavam internadas as crianças. Quando vi as condições do hospital disse “a minha filha vai morrer em casa, mas não aqui”. Depois, conseguimos uma enfermeira alemã.
Mas, era o tempo do recolher obrigatório. Porque ela fazia tratamento de seis em seis horas e havia meia noite. Nós tínhamos o Livre de Trânsito. os soldados ficavam escondidos e se vissem o carro tiravam… eu tinha tanto medo e depois não tinha mais vontade, eu pensei, “eu não estou aqui a fazer nada”.
Eu queria matricular as minhas crianças na escola pública porque sempre fui professora na escola pública, mas depois matriculamos o Mando na Alliance Française porque não havia outras escolas Eu não via o futuro, não havia meios de vivermos.
E mesmo assim, demorei muito tempo para sair de Angola, para ter o visto de saída. Tantas vezes lá fomos e a resposta era: ainda não está pronto. Eu tive muita pena das pessoas.
Quando voltamos para a Suíça as crianças diziam “ aqui ninguém vem nos visitar e aqui onde é que está o sol?”, era vésperas do Natal, nós ficamos tristes. Nós saímos em 1979 e o Antonio em 1980. Mas depois recebendo muitas visitas de angolanos em casa. O Antonio foi preso na época do Agostinho Neto, no sul de Angola.
Prisão em Angola, 1979-80
APS: Eu fui fazer um trabalho em Menongue, na cidade não havia iluminação nas pistas de aviação. preparei todo o material e fomos para lá. durante a viagem falhou o combustível. era uma zona controlada pela UNITA e os voos eram muito altos e a falha de combustível forçou a aterragem na Namíbia. Foi um problema porque a África do Sul apoiava a UNITA. Dois soldados sul africanos disseram-nos “vocês tiveram sorte por ter aterrado nesta pista porque se fosse na pista controlada pela UNITA seriam crucificados. Felizmente, o avião aterrou naquela pista e ficamos presos até haver um acordo entre os dois países, Angola e a África do Sul. Foi terrível, foi mesmo difícil.
Eu enviei uma carta a Bernardete para ela ir ter com a Cruz Vermelha e eles trataram da nossa Fuga.
B: A Cruz Vermelha ajudou muito. Nós conhecemos uma pessoas que trabalhavam para a Cruz Vermelha, a Corina. Alguém da Cruz Vermelha foi visitá-lo e eu disse-lhe “ o meu marido está preso”.
APS: Quando chegaram ao acordo, nós não podíamos viajar em voo directo por não haver comunicação. Então viajamos da namíbia para uma cidade Sul africana para fazermos o trânsito pelo Zaire. Fomos acompanhados por sul africanos e o Embaixador de Angola no Zaire recebeu-nos bem. Esperamos uns dias em Kinshasa pelo voo. Quando chegamos a Luanda ficamos presos. os angolanos prenderam-nos porque disseram-nos que éramos espiões. E então, o Ciel da Conceição “Gato” disse-me que eu queria fugir. Se eu quisesse fugir não seria para a África do Sul seria para o norte, não fugiria para um país inimigo de Angola. houve muita confusão. A Cruz Vermelha interferiu outra vez em Angola. E eu fiquei em sítio separado. Finalmente consegui sair e disse “Não quero mais fazer nada em Angola”.
Para sair de Angola tinha de ter visto. Não tive mais contacto com a minha família. Mas, foi muito difícil, não queriam me dar o visto de saída, até fui ter com o psiquiatra africano Neto, pedi-lhe para emitir um certificado em que eu estava maluco.
Consegui o visto. Deixamos ficar tudo. Apenas levamos a máquina de costura da Bernardete e uns aparelhos. Daí fiquei um certo tempo sem voltar a Angola.
Fiquei um certo tempo sem trabalhar até que uma grande empresa contrate-me. Muitas vezes, quando conto essa história quase choro. Era a época da revolução, o conflito armado,
Quando eu estava na prisão os generais sul africanos diziam “o vosso presidente bebe muito”, jogavamos cartas e conversamos.
Tentei encontrar uma outra solução para voltarmos a Angola. Eu aguentei mais um ano.
B: Ele disse que ainda não tinha se despedido! Angola é um grande país. fomos a sítios muito bonitos, a Barra do dande, onde apanhamos um barco e fomos a uma ilha.
APS: Eu era escoteiro, era mais para brancos, mas no escotismo de Sao paulo havia mais negros. Praticamente fui eu que ensinei o Ambrósio de Lemos, ele aprendeu muito comigo, mais tarde ele foi Comandante NAcional da Polícia, é uma boa pessoa e carinhosa. Recentemente, quando estive em Angola, ajudou-nos. Fomos a Benguela passear.
Conselhos às Novas Gerações
O que gostariam de ver no futuro próximo para Angola e na comunidade angolana na Suíça?
APS: O que eu gostaria de ver e aquilo que se está a perder muito em Angola é a comunicação entre os mais velhos e os mais novos. saberem como Angola é, o que o país sofreu. Daqui há mais duas gerações ninguém saberá o que é Angola. e sobretudo aquilo que mais me dói é realmente o apoio aos pobres. Por exemplo, as pessoas vão ao restaurante, não, deitam os restos fora, deam aos pobres, pelo menos isso! até podem por em um saco e por no lixo, seria um passo à frente. e as crianças que não tem nada para comer vão ao lixo, encontram comida no meio do lixo. foi isso que eu vi na última vez em que fui a Angola.
Angola piorou nestes 50 anos. Gostaria que nesses 50 anos tivessem ajudado essas crianças.
B: Devia haver a solidariedade que eu vi a primeira vez em que estive em Angola. Pensava que neste país nunca vai haver crianças na rua. Porque quando alguém estivesse doente os vizinhos ajudavam, era uma ajuda grande. Quando voltamos em 2003, já havia a guerra, as crianças estavam na rua.
Eu penso que fora de Angola a solidariedade entre os angolanos deveria ser maior para participar nesses projectos. os angolanos só querem ser melhor que os outros. pelo que eu vejo não conseguem se unir para ajudar, são mais estrangeiros a tentar ajudar. Não há forças para ajudar essa mentalidade, esta forma de pensar, a seguir outros caminhos, encontrarem mais humanidade. Mesmo assim, as crianças em Angola sabem ler e escrever, mas quem lhes dá trabalho? No futuro, como vou ganhar dinheiro? não apenas trabalhar para terem livros. esta mentalidade tem de acabar, mas eu nao sei como se faz isso e quem podia fazer isso…
Conhece alguma experiência ou modelo bem sucedido no período colonial para resolver esta condição das crianças?
APS: Nós temos apoiado uma organização organizada pelos suíços para apoiar as crianças deficientes. Mas , estas crianças apenas podem estar nesse lar até aos dezoito anos. depois dessa idade elas não arranjam trabalho não sabem onde viver. o que eu gostaria é ver a diáspora angolana a organizar a ajuda para ajudar essas pessoas. não dar aos ricos para fazerem algo porque eles não o farão. A segunda, é dar a possibilidade da união pela comunicação. Antigamente,quando nos encontrávamos, juntamo-nos e falávamos dos nossos problemas, demos formações aos jovens. Hoje, repito, os jovens têm de saber, conhecer o país.
Quando eu saí de Angola os portugueses proibiram-nos de falar a nossa língua. se falássemos quimbundos deixávamos de ser assimilados. o colonialismo portugues foi duro. E nós continuamos com aquela coisa, praticamente não ensinamos a nossa língua, os nossos costumes, muito está a desaparecer.
Uma vez estive em casa de uma prima, eu disse-lhe vamos comer funge ela disse-me “ nao gosto de comida de pretos”, dito por uma preta, só isso é… é a educação recebida dos portugueses, mas nós estamos a piorar a situação. por isso eu digo o que devemos fazer. é reunir, conversar entre angolanos, pelo menos uma vez por mês chamarmos os jovens e falarmos com eles para saberem a nossa história. não no sentido de escola, mas pelo menos saber sobre quem é o seu país, muitos não sabem quem foram os seus avós, a sua origem. isso é muito triste. aquilo que acabei de dizer, os filhos fizeram essa reclamação. em Zurich há organizações que procuram fazer algo pelas suas comunidades e nos os angolanos devemos tentar fazer algo para o nosso país, não era somente que alguém faça,ajudemos a pessoas,procurá-las. Se ninguém fizer nada, ninguém irá procurar por esses serviços
B: Eu desejo a Angola um belo e feliz, nós sabemos fazer, nós já não somos mais dependentes. depois de tantos anos a África sobrevive porque os outros estão a ajudar, eles ainda não tomaram a responsabilidade dos países deles. mas eles devem começar por dentro e não pensar “eu só sou alguém se….” é esse governo que eu gostaria de ver, a pensar “Nós somos um povo e não devemos depender dos outros”. esse é o meu desejo profundo que eu quero ver a acontecer em Angola.
APS: mas, as pessoas tem esse sentimento, nós próprios temos de obrigar o governo a fazer alguma coisa. nós próprios temos de o fazer, não nos custa nada fazermos isso. Praticamente, obriga-los a fazer alguma coisa para o país, não digo uma revolução armada, mas consciente.
A Importância da HSA
Achas que pequenas iniciativas como a da Africana e a HSA de passar a informação sobre a história de Angola?
ASP: É importante, acho que isso deve ser não só historicamente.
B: Penso que isto pode ajudar a identidade. Eles sabem “nós somos assim, não tem apoio, mas se eles sentirem , aprenderem o que é o seu país, é uma ajuda para se sentirem responsáveis pelo próximo.
Este depoimento foi realizado emPortimão, no dia 4 de Julho 2025.
Entrevistadoras: Elisa da Costa e Marinela Cerqueira
Revisão: Judite Chimuma
Palavras Chaves: Operação Angola| David Aires Machado|Dom Moises Alves de Pinho| 27 de Maio
[i] O Conjunto Nzaji, que fez enorme sucesso na Europa, mas também tocando nas transmissões da Rádio Angola Combatente, era composto por Pedro Van-Dúnem Loy, Mário Santiago, Maria Mambo Café, José Eduardo dos Santos, Amélia Mingas, Brito Sozinho, Ana Wilson, entre outros.[14] Algumas canções como Deba, MPLA Invuluzi, Monangambé, Etu Tua Anangola e Dituminu eram muito famosas entre a juventude angolana no exílio e nos países vizinhos a Angola.[14] O grupo ainda compôs e cantou a muito aclamada canção Caputu Mwangole, uma música de intervenção de denúncia da colonização que despertou críticas muito positivas internacionalmente.[14] O grupo chegou a gravar um disco em 1972 na Finlândia pelo selo Eteepäin.[17] https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%BAsica_de_Angola

