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O  Último Estudante Guineense Residente no Lar 122, José Paulo Gomes Barbosa

 

José Paulo Gomes Barbosa é  filho de um veterano da Luta de Libertação Nacional da Guiné Bissau, Rafael Barbosa. Residia no Lar da Liga de Acção Missionária e Educacional de Lisboa e com o apoio dos colegas conseguiu uma bolsa de estudos concedida por intervenção do Pastor Salvador. É ajudado por amigos do pai, nacionais e estrangeiros, a refugiar-se em Portugal onde estudou, trabalhou e se casou com uma jovem angolana também residente deste Lar de estudantes africanos, situado na Alameda das Linhas de Torres, também referenciado por “122” ou “Residência 122”.

Esta condição leva-o a solicitar asilo político em Portugal. Os protestantes concedem-lhe uma bolsa para pagar a residência neste Lar,  incluindo roupa lavada e alimentação, de segunda a sexta feira. O Bispo Católico apresentou-o ao magnata da ENI, responsável pela cobertura de outras despesas, e com ajuda deste magnata e da irmã melhorou as condições de vida.

Passou uma grande parte de sua vida em Portugal, tendo residido no “Lar” durante nove anos. Neste período marcante da sua vida concluiu o Liceu e frequentou os Estudos de Engenharia. Neste ambiente criou amizades para toda vida, entre as quais com David Valente e outros portugueses e com angolanos residentes em vários países como o filho da sua comadre Muma, actualmente residente na Suíça, país de origem da amiga e  Pastora Irené Hassis.

Sua mãe, uma microempresária incansável, criou os filhos e outros familiares próximos, chegando a ser o ganha pão de vinte e três familiares, entre os quais muitos menores de idade. Após mais de dez anos reencontra o filho em Lisboa numa fase de debilidade física e emocional.  Sua mãe recebia informações distorcidas, diziam-lhe que o filho  vivia debaixo da ponte e ser operário braçal. Informações fáceis de se acreditar por serem a condição de precariedade da maioria dos emigrantes em Portugal.

Suas memórias são excepcionais por ele ser, até agora, o primeiro contacto com um estudante guineense, por ser filho de um líder político guineense residente na condição de asilado político, mas também pelo facto de ter sido o estudante que reside no “Lar” o período maior. Esta última condição, contribuiu para o estabelecimento de  laços afectivos duradouros, inclusive com funcionários e testemunhar a alteração da paisagem da Alameda da Linha das Torres. Por todos estes factos o seu

O depoimento é rico em referências de funcionários, visitantes, residentes e missionários dessa época. Detalhes do cotidiano dos estudantes e missionários maioritariamente familiares de líderes do protestantismo nas Colônias Portuguesas e no pós independência até à última década,  integram o objecto da historiografia do Lar e a década de 1980 é fundamental para historiografar este lugar de memória da presença de estudantes e pastores africanos em Portugal cuja memória documental  integra fotografias e mobiliário precisam ser descritas com base em testemunhos.

Por fim, a perspectiva complementa e representa o olhar de um residente guineense, em particular o período pós independência do seu país.

Introdução

Eu sou José Paulo Gomes Barbosa, filho de Rafael Gomes Barbosa  e de Francisca Gomes. Sou guineense, nasci em Bissau. Por questões de destino e evolução política da Guiné Bissau e porque eu com catorze anos estive preso pela PIDE, toda essa fase política marcou-me. Meu pai foi um dos fundadores do PAIGC, juntamente com o Amílcar Cabral.

Como qualquer jovem, eu também tinha apaixonadas e eu dizia-lhes “olha cuidado porque eu tenho uma filha”. Eu dizia aos meus colegas na Universidade e a Suzana que tinha uma filha, pensavam ser uma brincadeira. Na altura do meu casamento, a minha irmã que é também minha madrinha veio assistir ao meu casamento e trouxe a minha filha.

Aos dezessete anos, jovens, em África, a promiscuidade, a falta de controle, quase todos os meus colegas tiveram filhos. Eu tive uma filha aos dezessete anos. A minha filha é mais velha do meu filho de quinze anos. Ela está no Luxemburgo a trabalhar. É formada, deu-me cinco netos, mas quando falava disso, pela minha forma de ser as pessoas não acreditavam. Eu dei aulas, casei-me e o meu Davi nasceu dois anos depois.

A Mãe e a Luta de Lilbertação na Guiné

Nós tivemos uma grande dificuldade na vida: como o meu pai esteve sempre na cadeia, a minha mãe abortou várias vezes na cadeia, por atrocidades da PIDE. A minha mãe, como todas as mulheres africanas, gosta de ter muitos filhos e nós só somos quatro porque ela abortou várias vezes na cadeia. Eu sou o único rapaz e três são meninas.

Lembro-me que passei uma infância um pouco complicada… Por vezes, há momentos infelizes de certas brincadeiras de crianças, porque eu só tinha irmãs, mas tinha sempre alguém para me defender. Em África, sobretudo no caso da Guiné, quando se tem um irmão mais velho ninguém nos toca, mas eu não tinha. Mas depois, com o passar do tempo, fui tendo pessoas, que até hoje somos grandes amigos, para me defender. Eu fui sempre uma pessoa que não gosta de conflitos. Inclusive entre colegas da mesma idade, que hoje, por incrível que pareça, são os meus melhores amigos,  até vêm visitar-nos frequentemente.

Para nos sustentar, a minha mãe já vendeu carne de porco, criada em nossa casa. Naquelas casas africanas, o porco entra e sai e por vezes temos de dormir “do outro lado” porque às vezes levamos com o porco. Ela também já vendeu peixe, mesmo sendo mulher de um líder. Não sei explicar como a minha mãe vendia as coisas. Ela conseguiu que todos nós tivéssemos estudado.

A guerra da Guiné foi, de longe, muito mais cruel. Não tem comparação com a das outras ex-províncias ultramarinas. Aquilo era o Vietnam de Portugal, pequeno e cheio de rios. O General Spínola foi lá para apaziguar. O 25 de Abril partiu da Guiné. A maioria dos Capitães de Abril vieram da Guiné. Eu conheci o Otelo Saraiva de Carvalho em minha casa, com o Inspector Halls, etc. Nós conhecemos a PIDE. Os grandes indivíduos da PIDE entravam e saiam de nossa casa. O meu pai foi preso muitas vezes.

A minha mãe vendia tudo, e finalmente, vendia doces. Hoje, a minha filha com vinte anos faz bolos. O meu pequeno almoço por vezes é aquilo a que chamam donuts. Até hoje, quando os encontro, compro e como com um café.

A minha casa tinha cerca de vinte e três pessoas, pois desde há muito que os tios em África são assim: “ aquela tia educa bem os filhos”. Então, levavam os meus primos todos para a minha mãe criar. O meu pai na prisão e a minha mãe a fazer doces e nós a ajudamo-la.

Foi assim que nós crescemos,humildemente, mas é exatamente por isso que as vivências são diferentes. Minha pergunta é: “Como é que nós conseguimos enfrentar isso?” A minha mãe foi uma grande batalhadora!

Mais tarde, uma das coisas que pesaram muito na sua doença foi dizerem-lhe que o filho dormia debaixo da ponte. Eu sempre trabalhei nas obras de Construção Civil. Estive na Residência, sempre tive apoio dos opositores revolucionários, do Pastor Salvador, do Bispo e depois de um empresário.

Quando a minha mãe veio à minha procura ela não estava com incontinência. Um indivíduo da Telecom foi comunicar-lhe que o filho estava lá fora. Então levaram-me para perto dela. Foi tal a emoção que  minha mãe até deixou escapar a urina. Foi a primeira vez que teve uma crise de incontinência urinária aqui em Portugal. Quando minha mãe começou a falar, disse:

– Eu estou doente, eu não vim cá para passear, vim ver o meu filho…

–  mãe, mas primeiro é a saúde

– a mim disseram-me que estavas a dormir por baixo da ponte

Foram pessoas do partido totalitário, o PAIGC …

Eu andava com minha mãe de baixo para cima com apoio da minha esposa. Eu e ela dávamos banho à minha mãe. Não há como pagar aquilo que a minha esposa fez. Eu tinha de ir dar aulas, ainda tinha de ajudar a minha esposa, pois a minha irmã não estava cá. Portanto, para responder à sua pergunta, é difícil ser filho de um resistente.

Prisão Política na Adolescência, 1978

Em 1978, houve uma tentativa de golpe de estado, não quer dizer que o meu pai estava implicado diretamente, mas as pessoas acham que o meu pai por ser um dos fundadores tinha de ter um papel na política guineense. Então, preparam de facto o golpe para colocar meu pai, Raul Barbosa2 na Presidência da República.

Ele viu logo que eu poderia ser alvo, com risco de desaparecer, pois foi assim que muitos dos meus primos desapareceram nessa tentativa do golpe de estado de 1978. Tudo isso marcou-me.

Eu festejei há dias o 25 de Abril. Foi no dia 27 de Abril que eu saí da prisão. Quando vejo o que acontece na Ucrânia e em Gaza, ainda que as pessoas digam que isso não é possível, eu já não me surpreendo.

Na época colonial, aos catorze anos, eu e a minha irmã com onze anos estávamos encerrados numa cadeia. A minha irmã era muito jovem, esteve na Escola Técnica, havia o curso de Formação Feminina, estudante da Escola Técnica e encarou um senhor muito respeitado, o Spínola. Éramos um grupo de jovens estudantes que estiveram na cadeia e foram enfrentar o Spínola, dizendo-lhe: “queremos liberdade, queremos independência”.. Esta minha primeira irmã também enfrentou o General Spínola numa manifestação de estudantes quando éramos todos estudantes na Guiné.

Portanto, tudo isso levou a que o meu pai sentisse que eu deveria sair da Guiné. Porque eu servia de pombo correio, levava documentos à prisão para o meu pai, enviados por aqueles que estavam a preparar o golpe de estado. Não foi o meu pai que de facto tentou esse golpe de estado, mas ele não podia recusar porque havia apoiantes que achavam que ele podia dar o golpe de estado.

Os Amigos do Pai, Lisboa Set 1978

Eu vim para Portugal em Novembro de 1978 e o golpe de estado aconteceu logo a seguir. Todos os prisioneiros morreram, todos os prisioneiros que estavam na cadeia desapareceram. Eu lembro-me, em Setembro de 1978 quando saí de Bissau havia no PAIGC aqueles que achavam que Rafael Barbosa tinha razão e não houve impedimento da minha saída, até os Ministros apoiaram e eu saí.

Eu lembro-me que às seis da manhã ia apanhar o avião e fui para a cadeia despedir o meu pai, era uma via a caminho do aeroporto. Ele estava na cadeia e disse-me: vê os homens que estás a deixar aqui na cadeia, vais para Europa, mas não fiques lá, pensa em voltar porque de facto nunca se sabe, eu estou aqui na cadeia”. Eram centenas que estavam com o meu pai. Quando aconteceu essa tentativa de golpe de estado morreram todos, apenas sobreviveu o meu pai devido a tensão política internacional, até o Papa intercedeu por ele… Meu pai foi líder, até à morte. Ainda bem que pensou na minha saída, porque todas as pessoas que não estavam implicadas no golpe de estado foram presas. Eu cheguei a sair, pois os amigos do meu pai que eram ministros arranjaram todas as artimanhas, declarando que “Eu tinha de vir fazer um tratamento”.

Eu vejo e percebo como está a situação de emigrante, é muito complicada. Eu também fui emigrante, foi em um contexto muito diferente que cheguei aqui como se viesse em tratamento. Quando cheguei fui logo recebido por um senhor impecável, amigo de meu pai chamado Romão, era dirigente do Futebol Clube Belenenses. Tinha uma filha a estudar Medicina e o filho  Economia.

Sendo eu filho do Rafael Barbosa a primeira declaração do Sr Romão foi:

 – Eu sou dirigente do Belenenses. Vou colocar-te no melhor lugar. Vais ganhar dinheiro!

  – Não

  – Mas, não porquê?

 – Eu não sei jogar a bola

 – Um africano não sabe jogar bola? Mas, nem dar toques? eu vou colocar-te…

 – Não sei mesmo, não tenho jeito para isso!.

José Romão Dimas, 27º jogador Internacional “A” do Clube de Futebol “Os Belenenses

José Romão Dimas, 27º jogador Internacional “A” Jantamos com a família dele e mais tarde ligou para um senhor chamado João Vaz. Era um senhor que na época da libertação era amigo do meu pai e que mais tarde levou-me para a casa dele, em Benfica, próximo ao Estádio da Luz. Quando cheguei da Guiné vi essa maravilha, uma coisa é Bissau outra é ver Lisboa. Quem sai de Bissau e chega àquelas ruas ao lado do Estádio da Luz, fica encantado com aquilo. Fiquei lá seis meses, o senhor João Vaz, juntamente com os outros opositores do regime na altura, porque o Luís Cabral ainda estava no poder, deram-me todo tipo de apoio. Fiquei dois meses na casa do João Vaz e a partir de lá comecei a fazer diligências.

Trazia uma carta para um pastor amigo de meu pai e o João Vaz teve de fazer contactos com o Pastor Salvador, da Igreja Presbiteriana, foi impecável:

– Salvador, olha está aqui um filho de um líder que foi um dos fundadores do PAIGC que somando os anos de prisão, há semelhança ao período de prisão de Nelson Mandela, os anos de prisão colonial e os  do PAIGC.

Apresentei-lhe a carta do Pastor José de Almeida, da Guiné , Pastor muito amigo de meu pai e então o Pastor Salvador disse:

– Tudo bem, vamos resolver isso.

A Residência Alameda da Linha das Torres, Nov 1978

Eu lembro-me de ter chegado em Setembro. Sinceramente já não me recordo da data exacta. Julgo ter sido em finais de Novembro que eu fui para a Residência da Liga Evangélica, à Alameda das Linhas de Torres 122. Ainda hoje tirei estas fotografias para mostrar-lhe como era a Liga Evangélica.

Somando, sou o quarto guineense a residir naquela residência. Primeiro foi Filinto Vaz Martins3, engenheiro, esteve na Suíça durante a luta de libertação. Depois, esteve juntamente com Amílcar Cabral e os outros na Guiné Conacri. Depois da independência ainda foi Ministro e colega do nosso “irmão” médico, o Foreid, estiveram no Lar nessa altura. Depois, estiveram mais dois indivíduos que eu não conheço, um foi para a Rússia depois da independência. Eu penso ser o quarto guineense a residir na residência da Alameda das Linhas das Torres.

Encontrei dois colegas, nomeadamente o Ruben Sicato e o Aniceto Hamucuaya, que chegaram antes de mim. A Kika, médica, depois casou com o Adelino, irmão de um grande amigo meu, a Maria Alice, a Elizete, a Isabel e o Paulo Silva, são esses que eu encontrei.

E também passei a ser um dos mais velhos da Liga porque entretanto acabei por estar lá mais de sete anos. Fiquei para concluir o Liceu. Quando sai de Bissau não tinha concluído o Curso Complementar, equivalente ao décimo primeiro ano, conclui-o aqui no Liceu Pedro Nunes, próximo da Estrela. Fiz a conclusão do Ensino Liceal e saindo do estrangeiro era quase impossível entrar para a Universidade, tinha de fazer o Ano Propedêutico.

Refugiado Político

Mas antes disso, por ser estrangeiro e por algumas dificuldades que eu tive, recorri ao Estatuto de Refugiado. Aceitaram-me logo. Tive de tentar, primeiro por ser estrangeiro tentei recorrer por via da Embaixada, está reportou que eu não tinha qualquer direito porque o meu pai ainda estava na prisão. Então, fiquei três anos sem estudar, foi isto que me levou a recorrer ao Estatuto de Refugiado.

Depois, fiz o Ano Propedêutico e não eram aulas do 12º ano, eram dadas pela Televisão. Fui tendo essas aulas. Depois, as Nações Unidas decidiram dar-me um apoio. Mas, esse apoio durou pouco tempo. Os elementos das Nações Unidas disseram ser a primeira vez que encontram um indivíduo como eu, perguntaram-me:

– Onde reside?

– Estou na Liga Evangélica.

– Como…?

– Temos a refeição… 

Tínhamos refeição de segunda a sexta. No sábado tínhamos uma refeição deixada no dia anterior. Domingo não tínhamos refeição. Tinha de usufruir desse tipo de apoio.

Eu não tinha bolsa quando estava na Liga Evangélica. A minha irmã fazia esquemas para encontrar ajuda. Os opositores guineenses ajudaram em alguma coisa, pois eu não tinha nada.

Estudante Universitário e Servente 

Então, comecei a trabalhar na obra. Comecei em Algés, na estação de autocarros, já não me lembro o nome, eu estive lá como servente, e também no Liceu Luís de Camões e na Escola Secundária de Loures, a trabalhar como servente.

Era servente na construção civil porque quando tinha seis anos o meu pai foi mestre de obra. Para além de ser político trabalhou na construção civil na Guiné e eu acompanhei o meu pai aos seis anos de idade. Mesmo aos quinze anos já trabalhava. Fui estudante de electricista, trabalhei em um armazém de construção civil, portanto há algo que me toca da construção civil, algo vindo do meu pai.

Então, quando cheguei a Portugal com aquelas dificuldades, fui logo trabalhar para a área da construção civil em Algés e Miraflores no centro de funcionamento de autocarro , quer dizer ajudei a construí-lo como servente. Estive a trabalhar em vários sítios, também trabalhei no Lumiar.

O Apoio do Bispo Ferrazetta

E logo depois a minha irmã conseguiu a bolsa em Bissau. Nós somos evangélicos, mas o Bispo Ferrazzetta[1], italiano e o Pastor Salvador acharam ser justa para com um homem que ajudou a libertar a Guiné, ter sido acusado injustamente e a quem, por razões de guerra, entenderam colocar na prisão. Esse Bispo achou por bem apoiar a família de Rafael Barbosa.

Dois Irmãos Guineenses em Lisboa

Primeiro deram bolsa à minha irmã que esteve cá a fazer Sociologia e Administração Hospitalar no Hospital Ricardo Jorge. E a minha irmã quando chegou encontrou-me naquele estado e disse: não é possível! Como é esta política?! Já estavas no Instituto Superior Técnico e agora fazes esse curso?… Ela conversa com as amigas que tinha no ISCTE e fazia alguns trabalhos como estudante. Desse dinheiro ofereceu-me uma parte para eu tentar concluir o curso e foi assim que comecei a ter mais liberdade e mais apoio.

Mais tarde, houve alguns estudantes no Lar da Liga Evangélica, mais conhecida por Lar122, ou apenas 122nomeadamente, o João, muito meu amigo (deixam de nos ver há mais de trinta e cinco anos), o Pastor Paulo Silva,  Pastor em Campo de Ourique e professor, foi quase rebeldia ao falarem com o Pastor Salvador “não é possível, Pastor! Há aqui angolanos a usufruir até de duas bolsas. Este que veio da Guiné não tem bolsa nenhuma?” Eles ficaram mesmo revoltados com a situação. No mês seguinte o Pastor Salvador disse-me: agora passas a não pagar a Residência e o passe social. Era essa a minha bolsa. Estava muito satisfeito, Graças a Deus era uma alegria.

Fiquei na Residência esse tempo todo. A minha irmã acabou por ser um exemplo no ISCTE. Conseguiu ter grandes amigas, uma das quais foi Assessora da Câmara Municipal de Lisboa, a Sra. Da Kruz Abecassis. A minha irmã disse-me: não pode ser, eu vou falar com o Presidente da Câmara para ter uma audiência. Teve a audiência com Nuno Krus Abecassis. Então, deu-me um apartamento com dois quartos e uma sala, nas primeiras casas sociais em Chelas. Impecável, eram poucos a ter casas sociais. A minha irmã esteve lá e eu também vivia nessa casa.

Concluindo o curso de sociologia, ela fez o mestrado em Administração Hospitalar e esteve a estagiar no Barreiro. Mas logo depois, regressou à Guiné para dar o seu contributo. Chamou-me e disse: NKruman eu vou para a Guiné. Sou conhecido por NKruman na Guiné, devido ao facto de ter nascido na época da independência. A PIDE, polícia política, não me deixou ficar com este nome, mas na Guiné inteira sou conhecido por este nome. apenas aqui os colegas me tratam por José Paula. Então minha irmã disse-me “Olha, eu vou para a Guiné, vou ter de alugar a casa, saís da Residência e passas a fazer uma vida mais independente”.

A Socialização na Residência Alameda da Linha das Torres 122

A Maria Alice e os outros iam de férias e eu ficava na Residência, davam-me apoio. Passei a ser um modelo porque muitos pensavam que os guineenses eram muito atrasados. Eu lembro-me perfeitamente quando cheguei à Residência, em pleno Inverno a senhora que lá estava, a Fátima disse-me:

– oh menino traga as suas roupas para lavar

E eu levei os lençóis e ela pergunta-me:

–  e a roupa?

– eu trato das minhas roupas.

Então, estive a lavar a minha roupa. Ainda tenho fotografias para você ver o anexo onde se lavava a roupa. Todos vinham ver um rapaz a lavar a sua roupa. Eu não deixo esse hábito. Até este momento trato de toda a minha roupa. Minha esposa talvez apenas por quinze vezes tenha passado minha roupa. Fui educado a tratar disso.

Então, mudou a imagem que tinham dos guineenses: bem comportado, falava bem com as pessoas e assim consegui mudar a imagem que algumas pessoas tinham de nós, e foi assim até eu sair da Residência. Acho que até esse momento eu não brincava. Muitos me conhecem e sabem que quando eu tenho de dizer alguma coisa, digo. Como guineense mostrei que, de facto, nem todos somos iguais. Fico satisfeito por isso.

Eu já estava lá havia oito anos, era o mais antigo. Depois, vieram outras pessoas, nomeadamente a minha esposa, a Suzana, a Muma, nossa comadre, madrinha dos nossos filhos, a Dra. Júlia Hamucuaya, filha do Pastor Etaungo e a irmã dela, Emília, esposa do Dr Sicato.

Então, a minha irmã foi para a Guiné e eu saí da Residência e fui morar em Chelas onde fiquei até me casar e concluir o curso. Lembro-me de ter sido uma surpresa, pois, todos tinham aquela ideia de eu ser quase um coitadinho”.

Por fim notavam que aos sábados já não comia na Residência e já não aceitava ajuda de ninguém. Ate hoje, há pessoas que dizem que eu sou muito esquisito, mas como a minha irma ja estava cá, no fim de semana ela trazia bolos e outras comidas. Eu apenas aceitava comida da minha namorada. Ela pedia-me explicações da Matemática e como estávamos sempre juntos, acabamos por criar uma relação muito forte. Ela tinha uma bolsa, penso ser da Gulbenkian e dizia-me: “ acompanhas-me ao supermercado?”. Íamos comprar e depois cozinhava. Foi dela a comida que tive a oportunidade de provar. Acabou assim, por ela ser minha esposa. Começamos a namorar em 1986.

Sinceramente, fiquei com boas recordações da Residência, vi tanta coisa, ouvi tantas histórias sobre os que por lá passavam. Não quero citar apenas os que tenham vivido na Residência, o caso de Jonas Savimbi, de Agostinho Neto, até de Samuel Abrigada…

Samuel Abrigada foi acusado de ter desviado fundos do País na altura da independência, vivendo ele na Suíça. Aquilo foi um susto, quando ele apareceu. Os angolanos tinham aquela ideia dele,  até havia uma música sobre ele. Eu o conheci e, afinal, era uma pessoa muito simples. Aquilo foi uma história construída por pessoas opostas a ele. Eram pessoas diferentes.

Ainda estive com a Dra. Kika, é mais velha que nós. Fez Administração Hospitalar, estagiou no Barreiro e acabou por casar com um guineense.

Factos Marcantes

A Visita de Graça Machel ao Lar 122

Lembro-me perfeitamente de quando esteve aqui a Graça Machel, ela também esteve na Residência. Durante o mandato do Presidente Ramalho Eanes, Graça Machel visitou o Lar com a Primeira Dama de Portugal. Eu estive lá e ela disse “não é possível, como a Residência continua com as mesmas camas, beliches como os dos quartéis”.

São coisas belíssimas a recordar. Eu dou Graças a Deus, por ser crente, e por tudo aquilo que se passou. Não estou arrependido de nada. Eu costumo falar sobre isso como os meus filhos, sobre como se constrói um homem, sobre como se constrói a vida.

A Residência 122

Fico triste. A Residência foi dada, não sei qual foi a negociação. Admito e, até certo ponto, oiço falar de coisas que não deveriam ser feitas. A imagem da residência desapareceu. Chegaram a um acordo com uma empresa, sobre fazer dois edifícios e uma parte ficar para a Liga Evangélica. Mas, a Liga deixou de ter aquela imagem, a Liga era como se fosse uma moradia multifamiliar. Por acaso, nunca cheguei a ir a essa nova Residência e a parte da frente passou para essa empresa. Mas, fico apenas com essa imagem, quanto a mudança, eu assisti: tirei fotografias quando a Alameda das Linha de Torres estava a ser redimensionada, havia as linhas do elétrico. Eu sabia que ia ter saudades. Foi exatamente isso que aconteceu.

Desconheço redondamente sobre o estado dos arquivos. Sei da existência de um livro, quase de presenças, no qual as pessoas que passaram pela Residência deixavam sua assinatura. Não sei onde está esse livro nem as outras coisas mais. De facto aquilo tinha muita documentação. Mas, o Pastor Salvador, nesse momento já tem uma certa idade. É meu descuido de nunca fazer-lhe uma visita e nem à Maria Alice. Os meus filhos foram batizados pelo Pastor Salvador.

Quando eu cheguei frequentava a igreja dele, mas depois que saí da Residência e fui viver em Chelas e depois para Santo António dos Cavaleiros já não tive o cuidado de visitar as pessoas que me apoiaram em momentos complicados. Peço a Deus mais anos de vida e com benção. Temos de o reconhecer quando falamos, são circunstâncias da vida e, tendo os filhos a crescer, há algumas coisas da sociedade desenvolvida como essa europeia, que nos fazem esquecer nossos bons costumes para com os outros.

A Missionária Irénée Haniss

Outro pormenor, conhecemos uma senhora impecável como a Irénée Haniss. Tal como no meu caso, por ser guineense, a Irénée tinha dificuldades. Mais tarde, tomamos conhecimento de ela ter sido uma filha adoptiva e com a guerra, foi parar à Suíça, mas tinha pais biológicos alemães. Ela gostava de ajudar africanos. Tomei conhecimento de ela ter participado na ajuda da independência da Namíbia, ainda nova já era uma missionária a ajudar a causa da independência da Namíbia. Mais tarde, veio para Portugal e encontrou os africanos na Liga Evangélica. Começou a saber dos casos de cada um e teve uma simpatia especial pela minha esposa, a Suzana. A Irénée depois voltou para a Suíça, escreveu-lhe cartas, a Suzana nunca respondeu. Mas, continuamos muito amigos.

Ela depois tomou conhecimento da minha situação e disse-me: pelo menos durante um ano eu posso te ajudar. Mandava chocolates, já não me lembro do montante de dinheiro, mas creio ser oito mil escudos. Até hoje continuamos a ter essa ligação com essa missionária, excelente pessoa.

Ela também tem uma ligação especial com a Muma, muito amiga da Suzana. Somos padrinhos uns dos filhos dos outros. Recentemente, estivemos na Suíça para assistirmos ao casamento do filho da Muma. Também esteve a missionária Irénée Hannis que deu todo apoio ao filho da Muma. Ele estudou Medicina, trabalhou na Suíça e casou-se com uma Suíça.

É toda essa a  convivência produzida pelo Lar. Houve a preocupação de cada um em trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Mas de facto ultimamente, com a idade, (a maioria de nós estamos entre os 60-70 anos) o contacto com alguns colegas reduziu-se. Uma das residentes mais novas, a Zita, faz questão de estarmos no aniversário dos seus 60 anos. Ela é como se fosse a nossa irmã mais nova.

A Emília Etaungo, como gosto de a chamar, é professora universitária e gosta de escrever. Escreve sobretudo sobre assuntos do passado. Às vezes pelas cinco da manhã está a falar com a Suzana, e eu estou deitado ao lado. Essa ligação é muito importante. Há dias, ela queria saber sobre os guineenses que estiveram em prisões em Angola e eu disse-lhe terem morrido quase todos. Ela queria escrever algo porque o pai[2] dela estava lá e parece que teriam crescido juntos nesses campos de concentração, no Namibe, em Bentiaba, etc. Infelizmente, teriam passado por esses tempos de muita ainda ser mantida opressão.

Mas, nessa amizade, nas festas de casamentos ou nas cerimônias quando há óbitos, sobretudo com os angolanos, começamos a recordar cenas vividas no Lar da Liga Evangélica. Posso me esquecer de uma pessoa ou de outra, mas a recordação mantida na minha memória é espectacular.

Descendentes de Escravos

O papel dos Missionários na educação dos africanos é relevante desde o tempo da escravatura. Eu sou descendente de escravos e digo isso com todo orgulho. Os meus trisavós foram levados da Guiné para Cabo Verde como escravos. Na altura da escravatura evidentemente os europeus escravizaram e foram dando nomes, o meu apelido Barbosa não é tradicional.

Depois da libertação as pessoas queriam voltar aos seus países. O bisavô da minha esposa também foi escravo em São Tomé e depois houve a libertação e voltaram para Angola. No meu caso, o meu antepassado entendeu que tinha de voltar. Alguns dos filhos preferiram voltar, dois irmãos, um rapaz e uma menina decidiram acompanhar meu pai. Essa divisão aconteceu. Nós sabemos que somos família, mas o apelido deles é De Palma Barbosa e o nosso é Palma Barbosa.

O Humanismo dos Missionários e a  Educação dos Africanos

E desde aquela altura os missionários sempre tiveram um papel preponderante em defesa e de certa forma de liberdade. Por curiosidade para saber como os missionários trabalhavam, estive na Missão de Dondi para ver a espetacularidade daquilo. Há um cemitério abandonado no Bailundo. Está a fazer-se pouco, mesmo pela Missão do Dôndi.

Para a Guiné foram missionários sobretudo ingleses e americanos. Eu ainda me lembro, quando era criança, da forma como me tratavam. A Dona Ruth, dava-nos apoio. Eles queriam a nossa identidade. Quando hoje vejo a América de Trump fico triste. Penso no americano daquele tempo de Washington tinham noção da necessidade da libertação de escravos. Lembro-me perfeitamente das situações financeiras das pessoas que trabalhavam para os missionários, quando a PIDE começou a prosseguir o missionário xxxxx, ele dividiu os seus bens por todos.

E essas pessoas são as mais bem sucedidas até hoje. Têm várias casas em Bissau, e os filhos estudaram bem.

Foi positivo até certo ponto, pois fizeram algo pelo nacionalismo, e trabalharam para a nossa independência. Se compararmos com os acontecimentos na África do Sul, relativamente à atitude dos afrikaners, concluímos que havia missionários com a noção de que mais cedo ou mais tarde chegaria a independência. Acredito que na Guiné e na África do Sul os missionários fizeram o máximo possível, mas considero que possa existir alguma falha de um missionário evangélico ou de um padre, mas com o tempo não deixaram de ser corrigidas.

Vários católicos incluindo padres foram enganar as pessoas  usando a bíblia. Foi o contexto de uma certa época, mas, com o tempo, começaram a mudar. Não podemos pensar só no negativo, mas temos de nos lembrar daquilo que os missionários e os padres fizeram. No caso de Bissau fizeram fortalezas: a fortaleza de Luanda é idêntica à de Bissau; Compraram chefes tribais para conseguirem dominar. E ainda hoje há os chamados capelães, que trabalhavam no seio dos militares e nas prisões.

Hoje, o contexto é diferente, não se trata do velho chavão “os militares vão para a guerra e nós fazemos orações”. Eles também estão envolvidos em áreas sociais. Um exemplo concreto é o dos missionários evangélicos que, no início criaram as missões. Eles iam para as tabancas (aldeias) buscar crianças, filhos de pessoas com lepra, uma doença contagiosa. Muitas dessas crianças depois, não tiveram conhecimento de quem eram filhos e algumas foram meus colegas, estudaram impecavelmente, alguns tornaram-se pastores. Os missionários adotaram crianças, um deles é meu amigo. Eu ia à missão ver os meus colegas.

Depois da independência, o partido principal, o libertador, entendeu que a religião não tinha qualquer fundamento, até quiseram acabar com o Natal com base no Marxismo-leninismo. Na interpretação deles queriam acabar com o Natal. Os miúdos da Missão começaram a revoltar-se. Eu vi, felizmente os miúdos depois voltaram atrás, mas já era tarde, os missionários foram-se embora. A Missão Evangélica neste momento é um escombro. Eu frequentava a igreja quando era criança, por vezes lembramo-nos dos versos do Natal, isso faz parte da educação.

O Apoio do Bispo Ferrazzetta

Quero dizer que, em certa época, podem os Padres ter colaborado com o colonialismo. O que acontece quando o meu pai estava na prisão? Quando o meu pai estava na prisão, somando todos os anos, são vinte e três, nove dos quais na prisão da PIDE. Ele esteve mais tempo preso no País independente do que no período colonial, por causa das guerras políticas fratricidas.

Porque é que um Bispo Católico decidiu dar a mão a uma família evangélica? O mundo mudou! Hoje é uma emoção, João Paulo II foi a mesma coisa, e o Papa Francisco, eu evangélico fico emocionado pelas ações que agora praticam. Mas, vale a pena relevar o muito que as igrejas fizeram. O Padre Italiano Ferrazzetta apoiou a minha família no período pós independência. Ele foi à prisão visitar o meu pai. Primeiro, o Luís Cabral e depois o Nino Vieira. Ele ia falar com os responsáveis e dizia “o Rafael Barbosa não merece estar aqui, pois ele ajudou a libertar este povo”.

Deu bolsa a minha irmã e ajudou a financiar os meus últimos anos no liceu. Ele esteve aqui e mandou-me chamar e, contou-me haver muitas críticas na igreja por estar a ajudar os evangélicos, sendo eu católico. E prosseguiu, dizendo “eu vou ajudar-te”, foi no Colégio Militar. Um dia, chamaram-me, por ter recebido uma carta. Estava escrito:“Menino José Paula vou passar em Portugal e quero te ver”. E calhou vir também um empresário da ENI, empresa petrolífera da Itália. Encontraram-se, na residência dos Bispos em Campo de Ourique, ao pé do Liceu Pedro Nunes e disse “vai ter comigo no dia x” , vou estar em Portugal”, fui lá. Eu tinha limitações de todas espécies. Quando fui ter com o Bispo, estava o empresário, a humildade dos homens, o homem mais importante dos petróleos em Itália. O Bispo disse-lhe:

– está aqui o miúdo, filho de um político guineense que está a sofrer na prisão

– Tudo bem, vou tratar do assunto.

O homem meteu a mão no bolso e deu-me trezentos dólares, nunca tinha visto aquele dinheiro. Imagine! Na altura era muito dinheiro, isto nos anos 80, era muito dinheiro. Eu parecia estar a voar, estar na lua. Não tinha nada no bolso e de repente tinha trezentos dólares. O Bispo disse-me: pronto, o teu assunto já está resolvido! A partir daquela data todos os meses o senhor mandava-me apoio financeiro.

Então, respondendo a essa pergunta sobre os missionários, eles acabaram por fazer alguma coisa, quer missionários quer padres católicos..

Naquela altura, eu pedi a uma amiga, a filha do velho Chipenda, chamada Selma, para me ensinar Inglês, pois ela viveu sempre entre os Estados Unidos e a Suíça. Ela engraçou-se comigo. Dávamo-nos bem. Eu disse à Selma “vamos ao Apolo 70”, fica no Campo Pequeno, ainda existe, é um pequeno Centro Comercial. Comemos gelados, não sei se comi dois pratos daqueles gelados, nunca tinha tido essa possibilidade, tinha aqueles trezentos dólares no bolso.

Quer dizer, durante aquele tempo estava bem. De três em três meses ele mandava o dinheiro a partir de uma igreja, que fica ao pé da Praça Luís de Camões, havia lá um padre. Era por lá que aquele empresário me mandava o dinheiro. Conclui o curso e mandei-lhe dizer.

Fiquei aqui a trabalhar e a nossa correspondência era durante as festas do Natal. Eu já não precisava. escrevi-lhe a dizer: “já não preciso de apoio, já estou a trabalhar.” Quando fui para Angola enviei-lhe mensagens no Natal. Houve um Natal em que ele não me respondeu, mas recebi uma carta a comunicar o seu falecimento. Ele teve uma fundação em Milão.

A Amiga Selma Chipenda

Quando cheguei à Residência, o velho Chipenda já tinha estado no exterior, na Suíça e no Kenya. Ele foi do Conselho Mundial das Igrejas, nos Estados Unidos. O pai da Selma Chipenda é falecido. Viveram em vários países e havia problemas, mas a filha depois entendeu que o funeral do pai devia ser no Canadá. Eu concordo, ele sempre viveu no exterior. Selma é a única filha, pois o irmão já tinha morrido havia uns quarenta anos.

Há uma história contada nos Estados Unidos ou no Canadá, que os filhos daqueles missionários de lá diziam “ chegou outro Chipenda”, sempre que chegasse mais um angolano, por ele ser o primeiro Missionário angolano chegado aquele país.

Veja a rigorosidade da Suiça, o bebe nasceu, os pais estavam legais e o recém nascido tinha de ser extraditado?!

Eu já ouvia falar do Chipenda porque o irmão mais novo foi jogador do Sporting em Portugal e depois foi Embaixador do MPLA.

Sempre que o pai da Selma passava aqui ia sempre à Residência visitar as pessoas, conheci-o, um senhor muito educado, muito afável, tentava falar com todo mundo: “o que está a fazer, o que está a estudar”.

Os Colegas Portugueses

Os meus amigos portugueses são o João Pereira, o Paulo Silva e mais tarde o David Valente com quem vivi cinco anos. Actualmente, é jurista e participa em causas sociais. Eu lembro-me sempre de ele ser de Moura e quase todos os fins de semana ia a casa dos pais e tinha sempre a atenção de trazer queijo e chouriço, mas ele comia muito pouco e eu estava sempre satisfeito porque o David trazia sempre alguma coisa.

Por vezes, tínhamos choques, por ele ser mais novo, fraquinho, e indisciplinado em termos de arrumações, mas mais disciplinado em termos de livros. Tem os livros sempre arrumados, tem cuidado de colocar os livros no seu lugar. Mas, em termos de arrumações, ele tinha dificuldades porque não estava habituado, e eu ameaçava-o: – “oh puto, essa semana tens de arrumar isso, senão vamos ter problemas sérios”. Quando me lembro destes episódios, todos…

Sinto-me feliz! Foram momentos da vida que até hoje não me posso esquecer. Até hoje tenho uma relação muito forte com o Davi. Às vezes, tenho um assunto jurídico em tribunal e evito os serviços do Davi porque ele não me cobra.

 Engenheiro Africano em Portugal

As pessoas não valorizam um engenheiro, se eu soubesse continuava a dar aulas, porque o salário é muito superior, tive de concorrer à Câmara Municipal de Lisboa. Já trabalhava em um gabinete de engenharia em Queluz e depois em Odivelas. Quando concorri à Câmera de Lourinhã o Presidente da Câmara não me queria receber e disse-me:

– mas, você está aqui para fazer o quê?

–  eu vim paraa  entrevista

– mas, que entrevista? Você não sabe que esta entrevista não é para qualquer um?

– sim, eu sei.

– e então, você está aqui a fazer o quê se a entrevista é de engenheiros?

Eu nem sequer sabia que estava a falar com o Presidente da Câmara e disse-lhe:

  • desculpe senhor, eu sou engenheiro.”

–  você é engenheiro?

Quando entrei as perguntas eram: – “onde é que estudou? …Quer dizer, um indivíduo licencia-se em Estudos Técnicos…e isto não faz parte da minha vida? Da outra vez fui à Amadora e disse :

– eu sou engenheiro técnico

– épa eu te aconselho Cabo Verde, lá há vagas”

– mas, você está a falar-me em Cabo Verde porquê? Eu nem sou caboverdiano, sou guineense…

O Problema número dois é que eu tenho nacionalidade portuguesa Quer dizer, é por puro preconceito que nós vivemos isso, e até hoje ele existe. Ainda digo aos meus filhos: “vós sois europeus, mas há um certo preconceito, vocês têm de estar preparados. Eu sei que vocês estão mais preparados”. Mas eu na Europa, também tenho o meu preconceito: sei que sou africano, mas não ando aí em certas discussões sobre raças, pois sou mais velho. Eu sou mais guineense, embora tenha vivido mais de quarenta anos com os portugueses, tenho sessenta e três anos.

Então, daí outras histórias, mas nunca desisti de andar, de ter sempre na pasta o meu currículo. Um dia destes, passei em Saldanha e vi uma fila enorme e perguntei:

 – Mas o que é isso?

 – Épa, é um concurso de engenheiros

 – Aí é? um concurso de engenheiros, mas qualquer pessoa pode?

–  Pode, se você é engenheiro, pode

Fui lá perguntar. O segurança e as pessoas que lá estavam eram todas impecáveis. Era o último dia de candidatura, era incrível aparecer mais de duzentos vagas, disseram-me: “se quer candidatar-se preenche aqui porque hoje é o último dia”. Voltei no dia seguinte e como já estava preparado para essas coisas, para mim era tudo banal, candidatei-me e fui para casa. Passado cerca de um ano, estava em um gabinete a trabalhar lá na Liga, a minha esposa (à época ainda era namorada) chega e diz-me:estão a ligar da Câmara, pois precisam de falar contigo”. Chamaram-me para uma entrevista. Fui, falei á vontade com um senhor mais velho e ele disse-me:

– você é brincalhão, você com essa nota, você nem catorze têm de média!

      – há indivíduos com dezasseis valores”

– tudo bem!

No entretanto, fez-me umas perguntas e disse-me:

– sinceramente, foi uma surpresa para mim, você quer mesmo trabalhar na Câmera?

A entrevista foi espectacular, mas aqui o problema é o parâmetro nota, apenas são dez vagas… Pode ir pá. Eu vou deixar isto aqui de lado. Passou-se mais de um ano. Estava eu nesse gabinete de Odivelas e a minha esposa ligou-me: “Zé estão a ligar da Câmara ”. Eu não liguei . Já tinha um bom emprego e boa camaradagem, á hora do almoço, quando íamos almoçar àqueles restaurantes em Odivelas. Eu disse-lhe:

  • não me incomodem com mais uma entrevista, porque eu já estou bem!
  • estão a insistir, já ligaram três vezes.”

– ok, dá-lhes o meu número.

Passaram dois dias, vi o papel no bolso da calça e decido ligar:

– oh senhor engenheiro, já estávamos preocupados!

– mas preocupados com o quê

– p senhor engenheiro tem de fazer uma carta, mas se não quer a colocação…

– mas que colocação?

– o senhor engenheiro foi selecionado para trabalhar na Câmara Municipal de Lisboa e entrar como efectivo.

Começo a ver o caso de outra forma.

– queremos ouvi-lo agora, venha cá ter connosco, o lugar é seu. 

Imagine aquilo que aconteceu comigo nesta minha entrada para a Câmara Municipal de Lisboa.

Quando pensei no mais velho que me tinha feito a entrevista, de quem não sabia o nome e ele já estava na reforma, fiquei um pouco angustiado, e queria dar-lhe um abraço. Eu sabia que ele já tinha idade avançada, e eu não tinha qualquer contacto.

E quando entrei foram novos desafios, foram complexidades, mais cenas preconceituosas, até que o tal Gabinete do Vereador que quase me rejeitou, mandou-me para um outro departamento. Depois, quando houve recomendação a esse departamento, através de um ofício ao Gabinete do Vereador, ele nem me queria ouvir. Se eu fizesse um projecto, tinha de submetê-lo ao Gabinete do Director, e o Vereador dizia: “ nós confiamos nele”. Então, passei a ter uma posição mais regular e equilibrada na Câmara.

Fazia os meus trabalhos particulares e os da Câmara. Já tinham confiança em mim. Eu estive no Gabinete de Tráfego da Câmara. Eu fazia todos os projectos de circulação de toda essa zona do Lumiar até Galinheiras, Campo Grande inclusive. Éramos cinco técnicos para toda Lisboa. Passei a ter crédito.

Daí que eu vejo que preconceito não é só de um lado, é de um lado e do outro também. No nosso caso como africanos, temos de tentar mostrar aquilo que nós somos e aquilo que podemos fazer.

Uma vez estava com oito pessoas no carro quando o policial mandou-me parar eu identifiquei-me e ele disse-me: senhor Engenheiro pode prosseguir. Eu andava de autocarro e mostrava o passe aos condutores e eles gostavam de mim, pois trabalha também nestas linhas de circulação. Eu ainda conheço os locais do Saneamento Básico.

Passei uma vida espectacular, coloquei os meus filhos nos melhores colégios, mas com a crise em Portugal já não ganho projectos. Então, tive de fazer outra aventura, como o meu filho costuma dizer “ o pai nasceu para sobreviver” e mesmo na Residência eu dizia sempre “ olhem cuidado, eu já tive uma filha “

Professor Universitário em Angola, 2011-2020

A minha mulher é angolana. Trabalhar em Angola foi uma oportunidade, não somente para ganhar dinheiro, mas também para dar um contributo. Por isso abandonei a Câmara. Muitos dos meus conterrâneos guineenses sabiam que eu trabalhava na Câmara e quanto estou ligado à política. Todos se interrogam porque deixar a Câmara Municipal de Lisboa para ir trabalhar em Angola? Porque um compadre incentivou-me a ir dar aulas em Angola por haver falta de professores de engenharia.

Dei aulas em três universidades. Por último dei aulas na Universidade Metodista. Evidentemente, eu não saí do Técnico como acadêmico, mas fui para Angola e tive a ideia de ter de ajudar. Eu estudei em um instituto de renome, mas nunca tinha estudado na vida como em Angola. Dei aulas e ganhei uma reputação. Fiquei feliz porque consegui ensinar em Angola a metodologia de estudo aprendida no Instituto Superior Técnico.

No início a paridade Dólar /Kwanza era a mesma. Cheguei a Angola em 2011. Quando a crise se instalou a paridade deixou de ser rentável. Fazia projectos, fiscalização e dava aulas. Em 2020 o mercado de trabalho estava complicado, e tive de o abandonar.

Não estou arrependido de ter deixado a Câmara mas não tive segurança social durante o período em que dei aulas na Universidade Metodista em Angola. Os estrangeiros são considerados colaboradores. Este quesito desfavoreceu a minha reforma. Perdi onze anos, pois contou o ter dado aulas e os anos de serviço na Câmara Municipal de Lisboa. Não estou arrependido, mas é lamentável. Com a minha idade decidi não regressar à Câmara. Estive onze anos de licença sem vencimento. Ao meu regresso os meus colegas já não estavam lá.

Amigos Angolanos de Rafael Barbosa

Ser filho de um resistente não é fácil, e cada caso é um caso. À semelhança disso o caso do Bloco Democrático dos irmãos Pinto de Andrade, Roberto de Almeida, Justino Pinto de Andrade e Rui Mingas estiveram presos com o meu pai na Guiné.

O Rui Mingas  esteve na Guiné Conacri, ele comia em minha casa. Quando estive em Angola fui visitá-lo, ele quase chorava, disse-me “Estás este tempo todo em Angola e não vieste ter comigo aqui? Vocês me deram todo tipo de apoio. Se quiseres dar aulas na Lusíadas venha para cá”. Eu disse-lhe que não queria e respondeu-me: a porta está aberta, este foi o contexto.

Em 2013, fiz uma carta para relançar o partido do meu pai a Eduardo dos Santos, em uma semana mandou-me chamar para ir ter com o vice Presidente Roberto de Almeida e ele disse-me:- “continuamos a dar-nos bem com o Partido PAIGC, mas tenho muito respeito pelo teu pai. Digam-me o que vocês precisam”.

Portanto, não é fácil ser filho de resistentes, porque podemos ser vistos de uma maneira de um lado e de forma diferente pelo outro lado. Particularmente, quando a pessoa cai em desgraça, como nós caímos.

Na altura, não havia televisão, ouvimos pela rádio “o Rafael Barbosa é criminoso e que falara com a PIDE.” Como falaria com a PIDE, se estava preso pela PIDE?. Há dois meses lançaram um livro sobre Cabo Verde. Quando o livro está a ser lançado disseram-lhe “os filhos estão cá?” e o advogado do meu pai disse-lhes “os filhos de Rafael Barbosa estão em Angola”. Eu sei que é angolana e não tem qualquer interesse nisso, mas de facto eu vivo isso, escrito pelo advogado do meu pai. Todas querem conhecer-me , saí da Guiné em 1978.

A Importância da Guiné na Independência dos PALOPs

Na Residência Alameda das Linhas de Torres 122, às vezes contava estes factos históricos da vida do meu api e da minha família e gozavam comigo. De certa forma, até algumas pessoas com quem já não tenho ligações nos menosprezam. As pessoas se esquecem de ter sido graças à Guiné que houve o 25 de Abril. Morreram milhares de pessoas, pois a guerra não é fácil. Marcelino da Mata, Torres Espada, foram da maior elevação das Forças Armadas. Os países – Moçambique e Angola- têm de respeitar. Eles sabem, falamos com angolanos, os moçambicanos são muito pacíficos, nós sofremos, foi usado NAPALM na Guiné, as Nações Unidas proibiram, pois, essa bomba queima tudo.

O meu pai fez aquele País revolucionar, eu tinha catorze anos, quando vejo na televisão Gaza e Ucrânia, lembro-me logo daquilo que se passou comigo.

Quando estive em Luanda encontrei famílias belíssimas em Angola, deram-me apoio, até hoje não conheço a casa dessas pessoas, uns chamavam-me Engenheiro Barbosa, outros tio e outros pai, professor Barbosa, convidaram-me para casamentos, enviava presentes e se eu não fosse ficavam tristes, diferentes daqueles com quem convivi em Portugal. Aqueles, achavam que eu não teria sucesso, eles não sabiam que eu sou resiliente. Eu estudei em uma boa universidade, só se eu fosse preguiçoso. Eu sou filho de um resistente.

Aquilo que o PAIGC não fez em 50 anos está a ser feito agora. Há uma autoestrada; está a ser construído um aeroporto com quatro mangas. É um país pequeno, e em princípio

há petróleo. Estamos a sobreviver e aproveito falar do meu país em qualquer oportunidade.

Estudantes Angolanos

Em Angola os alunos tinham um carinho especial por mim, eu valorizo aquilo que os jovens angolanos fizeram por mim. Comentamos os países e eles disseram-me: – “o pior país que nós temos (provavelmente referindo-se aos PALOPs) é a Guiné Bissau, são todos burros… e mais todo tipo de insulto. Eu fiquei a ouvir, aconselhá-los não valeria a pena, pois temos de ter cuidado com a comunicação social. 

– professor, aquele país é para sair dos PALOPs, não é um país a considerar

– mas, vocês acham mesmo isso?”

Então, tirei do meu bolso o cartão de residência e dei-lhes para ver a nacionalidade escrita

– o professor é guineense, Não é possível

–  você tem de ter muito cuidado com a comunicação social.

Foi um “balde de água fria”, muitos deles até hoje ligam-me de Angola quando vêm notícias da Guiné Bissau.

Há jornalistas angolanos a desconsiderar a Guiné Bissau. Eu já deixei de dar aulas para que os alunos ouvissem programas da Rádio Ecclesia onde os oradores eram o Justino Pinto de Andrade e um padre. Como dizem ser a Guiné Bissau um país falhado, se educou tanta gente? Eu hoje vou ao Hospital Maria e encontro médicos da Guiné. Isto deve-se ao país não ter conseguido criar condições para os seus filhos viverem na Guiné. No meu caso, por ser filho de um resistente, ficou muito complicado eu sobreviver lá.

Eu acho que a Liga Evangélica teve um papel preponderante no momento da Luta de Libertação e para apoiar os missionários que iam e vinham e para aprender Portugues. Houve uma ligação muito importante. Para concluir, os missionários evangélicos e católicos fizeram bem aos povos africanos, em determinada época e em determinado contexto. Não me refiro há cem anos, pois o mundo está a mudar, o que para mim foi bastante positivo. nao tenho qualquer preconceito, ser evangélico, catolico ou mesmo musulmano, há uma onda de radicalismo, mas não são todos musulmanos, nós temos de perceber eu não tenho qualquer preconceito.

Este depoimento foi realizado em Santo António dos Cavaleiros, no dia 2 de Maio de 2025.

Entrevista e transcrição: Marinela Cerqueira

Revisão: Judite Chimuma

Palavras Chaves: Residencia 122, David Valente| Bispo Ferrazzetta| Rafael Barbosa| Selma Chipenda|Pastor Salvador| João Vaz|José Romão Simas|Rafael Gomes Barbosa| Francisca Gomes.


[1] 4 Dom Settimio Ferrazzetta e Amílcar Cabral deixaram um rico legado de valores à Guiné-Bissau que é urgente redescobrir para recolocar o país no caminho da pacífica convivência e do desenvolvimento humano e espiritual, considera Dom José Camnate Na Bissign, Bispo emérito de Bissau. Ele participou, em Verona, este fim de semana, num evento por ocasião do centenário de nascimento dos dois líderes.https://www.vaticannews.va/pt/africa/news/2024-06/redescobriros-valores-deixados-por-dom-settimio-e-po r-a-cabral.html

[2] o Faces de Angola’s post- Morreu autor do dicionário Português-Umbundu. O autor do dicionário Português-Umbundu, reverendo Henrique Etaungo Daniel, faleceu quinta-feira (24), no hospital geral da cidade do Huambo. Em nota, o Ministério da Cultura refere que ao investigar e publicar obras como Dicionário Umbundu – Português – Umbundu, Adivinhas e Provérbios em Umbundu – Português, entre outras, contribuiu para o enriquecimento científico e conhecimento das línguas nacionais e a sua inserção na vida no sistema de ensino e na vida social.

O reverendo é natural de Chissamba, Catabola, província do Bié, onde fez os seus estudos primários na Missão Evangélica do Chilesso, Andulo, e secundários no Instituto Curie do Dondi – Bela-Vista, [Huambo] Wambu.

Formado em Teologia, foi pastor, desde 1963 até 1982, da Igreja Congregacional em Angola, de que viria a ser Secretário-Geral entre 1977 a 1982. Foi também professor primário na Missão Evangélica do Chilesso e secundário, no  ensino oficial entre 1975 e 1977.

Tendo-se envolvido na luta clandestina contra a dominação colonial portuguesa, fora preso político pela PIDE DGS, tendo cumprido prisão em São Nicolau, actualmente Bentiaba, província do Namibe, de 1967 a 1972.

Obras: Concordância Bíblica em Umbundu, Edições Naho, 1.ª Edição, 1996; Dicionário Umbundu – Português – Umbundu, Edições Naho, 1.ª edição, 1999; Adivinhas e Provérbios em Umbundu – Português, Edições Naho, 1.ª Edição, 1999 e Hinário Evangélico Ungomba em Umbundo – Português, Edições Naho, 1.ª edição 2004.https://www.facebook.com/FacesdeAngola/posts/morreu-autor-do-dicion%C3%A1rio-portugu%C3%AAs-umbun duo-autor-do-dicion%C3%A1rio-portugu%C3%AAs-umbu/2650689751632686/