Na primeira conversa a HSA foi apresentada como um método de os angolanos na primeira pessoa descreverem a sociedade no período colonial e no pós independência. A reacção imediata foi: “há jovens que não conhecem nada sobre Angola, depois de estudarem no exterior, regressam e querem explicar a situação de Angola e eu digo-lhes: vocês não estão a dizer a verdade, foram buscar em livros escritos por pessoas estranhas pretendendo descrever a sociedade angolana, sem profundo conhecimento”. Prosseguiu, dizendo que o seu bisneto uma vez perguntou-lhe: Bibi eu queria saber, estamos a crescer em Portugal e não soubemos nada de Angola, apenas estudamos a história portuguesa. Ela respondeu-lhe que em Angola no período colonial estudava-se a história portuguesa, mas que a nossa verdadeira história de Angola ainda está escrita em muito poucos livros.
Espontaneamente, a depoente começa a descrever episódios marcantes da vida de uma rural. Angolana destemida, ingressa na polícia e na Organização da Mulher Angolana. À semelhança de bons comunicadores, durante a apresentação, Maria de Fátima partilhou factos marcantes do seu carácter. Resumidamente, falou da sua separação conjugal dos seus empregos e do papel da mulher na sociedade angolana., resumiu a sua vida:
“Eu Nasci nasci em 1944 cresci uma miúda muito extrovertida,. eu lutava com os rapazes, mas eles iam sempre para o chão, ninguém me conseguia derrubar. Quando me enquadrei na OMA vivia uma vida marital difícil e sendo casada por igreja, aprendi catequese nos quimbos , segundo a qual a mulher tem de ser submissa, não deve cometer adultério”. Mas, eu não pensava em separação e arranjar um novo marido porque iria para o inferno. Decidi começar a trabalhar na polícia e o emprego piorou a situação, pois começaram os ciúmes. Em 1975, nos separamos após eu travar uma luta em autodefesa”.
Na época, eu andava armada, era coordenadora das relações políticas da OMA na província do Bié. Nas reuniões eu deixava todos falarem, fazia os apanhados, arrebatava a conversa e resolvia os assuntos, defendendo sempre a dignidade da mulher.Por exemplo, há uma senhora casada com um sobrinho do falecido Savimbi e o Governador não percebia as razões de eu a defender. Defendi-a porque a política é diferente do amor. quando eu defendi o nosso soldado , eu disse : Governador Muteka eu respeito-o, mas de assuntos de amor você não entende nada”. Mais tarde, houve comentários, mas o meu argumento foi: “no estatuto do MPLA não consta que um soldado do MPLA ou do Governo não pode casar com um membro de uma família da UNITA”.
Criei e integrei o grupo de quatro senhoras em 1995 que fizeram a formação de professora de costura e regressei a Luanda em 1996. Eu não tinha dinheiro para construir a minha escola, tirei o curso mas não o exercitei plenamente, as escolas de costura móveis devem ter ficado para alguém ligado ao governo. Os projectos de investimento são desviados, por exemplo alguém paga por um projecto de viabilidade económico e outros implementam projectos semelhantes e constituem empresas com base neles próprios.
Quando éramos do partido único as igrejas não tinham relação com o partido, mas se fizermos uma pesquisa, reconhecemos que afinal a maioria dos membros do partido são religiosos, alguns são católicos. Eu tenho familiares que não acreditam na religião.
Na segunda conversa, descreve a fazenda de referência dos anos 70, provavelmente a melhor estruturada, a CADA, cresce neste lugar onde os contratados indígenas foram tratados diferenciadamente.
Conciliou sempre a veia empreendedora com a militância no partido do seu coração e por isso foi uma das mulheres que manteve estabelecimentos em locais de guerra, entre eles em Cuito Canavale e na fronteira com a Namíbia. Ainda hoje, tem a esperança de recorrer à sua experiência para investir na agricultura. É de opinião que os jovens devem empreender na agricultura, para deixarem de ser empregados por conta alheia e se tornarem proprietários e assim contribuírem para a paz e desenvolvimento social de Angola.
Introdução
Eu sou Maria de Fátima Cabral, nasci na fazenda Longa-Nihia da CADA, no Cuanza Sul, onde cresci até aos onze anos. Depois, fui para a fazenda onde era a sede da CADA. Fiz a minha quarta classe na Boa Entrada, sede da Companhia Agrícola de Agricultura (CADA).
Aos dezanove anos conheci um português, um menino que também tinha dezanove anos e era o chefe da estação do caminho de ferro. Namoramos e aos 20 anos tive o meu primeiro filho. Houve traição e desisto do noivado. Criei o bebé até aos dois anos e depois deixei-o com os meus sogros e vim para Luanda.
Em Luanda, conheci o meu marido, casamos e depois do casamento ele passou a disponibilidade militar e fomos para a Chissamba. A Missão da Chissamba era um complexo cujo destaque era o hospital. Eu fui viver com os meus sogros em Cassito. Ele trabalhou no caminho de ferro, era estomatologista e podia ter ganho dinheiro, mas preferiu trabalhar para o caminho de ferro, cobrar bilhetes, chamavam-lhes condutores, mas eu achava que deviam chamá-los cobradores e chamavam condutor e ao motorista.
Nesta localidade, começou a trajectória do meu sofrimento, traições e outras formas de violência, superei algumas, mas mesmo assim não consegui fazer o que queria e por isso tive de me separar da minha irmã, mas as traições continuavam e tive de me separar.
Infância na CADA, 1956
Nasci em Porto Amboim, mas cresci na roça. A CADA[1] era um paraíso. Aquela fazenda pertenceu a vários donos, primeiro foi alemã, não conheço esta parte da história, sei que depois pertenceu a brasileiros e a portugueses, tinha tudo, era um palmar esplendoroso.
Em pequena eu era uma maria-rapaz. Gostava de trepar às árvores, apanhar fruta silvestre e a minha mãe passava-me umas grandes porradas porque eu deixava a panela no fogo e ia catar fruta. A panela queimava e a mãe quando chegava não havia almoço para os miúdos. Eu era a irmã mais velha, antes de eu nascer faleceram o meu irmão e a minha irmã.
Como o meu pai era capataz. O meu pai percorria quilômetros naquele palmar. tínhamos de levar a comida ao campo. No caminho eu corria atrás dos macacos. Um dia apanhei um macaquinho e levei-o para casa., minha mãe pergunta-me:
- vais dar-lhe leite? Amanhã leva-o para a mãe dele, ele precisa de mamar
- mas, oh mamã dou-lhe leite, pois aqui temos cabritos
- amanhã leva-o para o campo!
Em 1957, implementaram uma escola na sede da CADA, na fazenda Longa e Nhia na Capela de São Pedro, foi quando começamos a estudar,: Tínhamos catequese e fomos batizados em 1958.
A vida na CADA era uma vida progressiva, quer dizer é verdade que as pessoas achavam que a vida dos contratados era um sofrimento, mas, eu não via aquilo como sofrimento. Eles tinham o pagamento do trabalho estabelecido no contrato que permitia regressarem com algum dinheiro e na roça tinham comida. Era também essa comida que nós também comiamos, nós que não éramos contratados.
Havia contratado de várias regiões de Angola: tchokwe, umbundos , ganguelas. Falava-se todas essas línguas e o meu pai falava todas essas línguas. Até se falava Nama, a língua dos estalos, muito usada na Namíbia, a dos Bochimanes.
De manhã, os contratados eram organizados para serem enviados para as diversas zonas dos Palmares onde tinham de capinar, limpando tudo. Os trabalhadores iam para o campo e as mulheres iam ao armazém receber os alimentos. Não sei descrever a quantidade que cada família recebia: fubá, açúcar mascavo, óleo alimentar, peixe para a refeição. Diariamente tinham de ir buscar comida, não lhes davam quantidades que permitissem terem reservas em casa. Na nossa escola era também essa comida que nos sustentava. O carapau era tão bom, a fuba fuga que davam era tão boa, e também davam arroz.
Os contratados quando chegassem ao fim do contrato eram trocados, era um ano por cada grupo, pois o período de contrato não chegava a dois anos.
Os Contratados Brancos De São Tomé e Cabo Verde
Houve ainda contratados brancos vindos de São Tomé de Cabo Verde, eles eram pobres, mas eram brancos.
Até que um dia saiu-lhes caro: Levaram-nos para a Longa Nhia, outra fazenda da CADA. eu já era crescida. Eles pegaram no Administrador… Durante a formatura o Administrador explicou-lhes o trabalho, mas os contratados ficaram revoltados Levaram porrada dos nós administradores. “os brancos corriam”. Fizeram tudo por tudo para apanharem o administrador da sede. Deram-lhe uma boa sova, entortaram-lhe o nariz. O Administrador telefonou “alo, aqui… mandem buscar os contratados brancos”, não passou uma semana os camiões vieram buscar os contratados brancos. O administrador Castanheira ficou com o nariz torto.
A Boa Entrada, era uma coisa linda, as mulheres a irem para o cafezal, os cânticos delas, todas cantavam alegres, no final do mês chegava o salário, não posso explicar quanto era. Se forem trezentos ou quatrocentos réis, não sei explicar. Ganhavam pouco dinheiro e também recebiam a ração, trabalhavam muito.
Como viviam os angolanos e contratados?
A companhia construiu casas de construção definitiva, casas de tijolos, as casas ainda existem, eram casas para contratados. Havia uma parte que era para os administradores “brancos” e outra para os contratados, chamada “sanzala”. As casas eram construídas de tijolo e telhas de lusalite, eram casas em condições.
Cada sanzala tinha um jango para actividades recreativas ao fim de semana. Geralmente, tocavam viola e cantavam. O que eu vi com os meus olhos, não posso dizer que maltratavam os contratados. Eu também sou contra pessoas que fazem mal aos outros.
Trabalhavam, por exemplo, saiam para o campo às seis da manhã e por volta das cinco horas estavam de regresso, o meu pai por ser o capataz ia com eles e regressaram juntos.
Comiam no campo?
Sim, quando iam para o campo levavam o farnel, o do meu pai nós levávamos.
O que faziam os filhos e as esposas ?
Não faziam nada, ainda não havia escola, não faziam nada, apenas brincavam na sanzala, nem faziam lavras, não capinavam. Até porque ficavam apenas um ano, sabiam que no final do período iam embora.
Nem todos levavam as mulheres, havia poucas esposas, tenho percepção de serem os mais jovens a levarem mulheres e filhos, os com família mais numerosa não levavam a família, não havia famílias com muitos filhos.
Quando começou a escola, os filhos dos contratados também frequentavam a escola, os filhos dos contratados eram nossos colegas, isto na Longa e Nhia. Na Boa Entrada tínhamos a escola até a quarta classe, lá na roça só se estudava até a terceira classe se quisesse fazer a quarta classe íamos para a Gabela onde se estudava até a sétima classe.
E o angolano trabalhava muito mesmo! As fazendas ocupavam uma extensa área. Em dois meses limpavam a fazenda. Não é como agora que você tem uma fazenda e o trabalhador está sentado ou está a fumar. Palmeiras todos limpos, mas não eram os contratados que subiam a palmeira para limpá-las e cortar o dendê, eram os nativos,.
Havia uma chata para transportar o dendê, tinha o nome do rio, os contratados carregavam o dendê até a beira do rio para quando a chata chegasse a carregarem e também levavam para a fábrica de óleo de palma, era um bom óleo de palma.
Quando saíssemos da escola passávamos pela fábrica para pedirmos dendê cozido, era uma qualidade de dendê sem caroço e o comíamos acompanhado de batata doce assada nas cinzas da fábrica. Era bonito e muito apetitoso!
Pode ser que em outras localidades castigaram contratados, mas ali, não me lembro. Havia racismo. Hoje dizemos “o branco me castigava, o branco me mandava”, mas temos de nos sacrificar para ganhar algo.
Provavelmente pelo nível de desenvolvimento da CADA os contratados recebiam um tratamento diferente das restantes fazendas?
Sim é possível. Havia a fábrica de sabão para os contratados, do óleo de palma faziam sabão. Na Boa Entrada também havia fábrica de sabão.
A única família de capataz mestiça era a nossa. Também havia capatazes negros, nativos, pois os nativos com a quarta classe alcançavam o posto de capataz. O meu pai era o superior dos capatazes, comandava o grupo de capatazes. Havia vários grupos de capatazes, era uma extensa fazenda constituída pelas fazendas Longa Nhia, Cambundo e Boa Entrada e a Boa Aventurança no Sumbe. O Café da Gabela era dos proprietários portugueses, os ricos da Gabela. A CADA não estava relacionada com o café produzido na Gabela.
Havia o hospital na Longa Nhia, com enfermeiros. Todos tinham acesso a esse hospital: os contratados ou e qualquer negro, também eram atendidos sem qualquer restrição.
Ao descer a Longa Nhia encontrávamos a Capolo, era uma paragem do investimento de um português, com lojas.. Era uma localidade comercial.
- A Longa Nhia tinha esse nome devido aos rios Longa e Nhia que se uniam no espaço onde se encontrava a CADA , por isso até hoje assim se escreve.Esse rio deságua no oceano, passando pelo Capolo.
11 de Novembro de 1975, Kuito
Quando o Presidente Neto chegou eu estava no Bié porque as outras coordenadoras da cidade vieram receber o Presidente Agostinho Neto. Eu fiquei no Bié para receber a delegação do MPLA constituída por Lúcio Lara, Mambo Café, e Maria a esposa do Jamba Ya Mina. Era uma delegação vinda do Moxico. Fiquei eu e outros camaradas da OMA a tratar da sua recepção. Agostinho Neto nunca esteve em Kuito. Recebemos a delegação na fronteira entre as províncias do Moxico e Bié.
No dia 11 de Novembro, no Kuito, fizemos comícios,.Houve actividades políticas. Cada uma ia a um kimbo politizar o povo sobre a independência, anunciar que “A independência já chegou, Agostinho Neto já chegou, e foi recebido em Luanda onde proclamou o 11 de Novembro”. E nós estávamos em serviço político, fazendo comícios., Eu fui para Cangalo, a Antónia Junjo foi para Xanhonha, a falecida , a camarada…., Alice Caetano responsavel pela a OMA na GARE fez o comício neste bairro; dividimo-nos em trabalhos políticos.
O propósito foi anunciar a chegada de Neto e a proclamação da independência, não houve festividades?
Não houve actos públicos. A UNITA estava no Bié, em Silva Porto, onde era restringida. Quando eles fizeram o ataque e ocuparam o Bie até 8 de Fevereiro de 1976 , data em que “nós” retomamos Bié até hoje, eles lá tinham quase somente uma delegação da UNITA e da LIMA, com poucos militantes activos.
Eram poucos, não tinham exércitos, a FALA não estava presente. Quem estava era a FAPL . E ambos tinham pouca tropa. Como as FAPLA apareceram? Descalços, podemos dizer que pareciam contratados. A tropa das FAPLA sofreu muito, era pela independência, tiveram de sofrer! Na cidade cada família recebeu o seu partido. “Nós” é que tínhamos de nos associar para dar de comer às nossas tropas porque os partidos não tinham capacidade de alimentar as tropas.
Fizemos um jantar em família, com os seus amigos, cada um dentro da sua casa. Como éramos um grupo unido eu, a Alice Batista, a Antónia Junjo e mais pessoas juntamo-nos. Foi assim que os chefes que estavam presentes juntaram-se a nós.
Mulheres FAPLA
Fui da ODP, treinei na ODP. Quando se dá o dia de 1º de Agosto, nós andamos fardadas, treinamos, incluindo aquele treinamento de passar embaixo das cordas. Ai de ti se não souberes passar por baixo das cordas, quando caí na emboscada já estava treinada.
Antes do 5 de Agosto eu vivia na Gare. Depois, fui viver no bairro dos “brancos”, em casa de uma senhora conhecida que ficava a caminho da fábrica de óleo.
Quando venho para Luanda “rebentou” a guerra, dividiu as pessoas, umas foram para uma cidade, outras para outras. O meu sobrinho Cabral conhece a história toda. Cada um ficava na sua parte e a dada altura acordam tréguas para poderem trocar produtos de necessidade primária, o MPLA tinha sal e a UNITA tinha caporroto, e lá na cidade não havia, então trocavam com o sal e havia tréguas por cerca de vinte e quatro horas. Por exemplo: o MPLA trocava um balde de sal por um garrafão de aguardente (Caporroto) da UNITA . Mas por vezes, as trocas geravam conflito, pois o balde de sal poderia não conter somente sal mas também terra. Recomeçava o tiroteio, ambos queriam avançar e a partir daquela data acabavam as tréguas.
Quando ainda estavam todos sintonizados era possível escapar, se é do MPLA devíamos mudar para a área da cidade ou zonas controladas por este movimento e vice-versa. Tanto o MPLA como a UNITA cometeram traições, Mesmo que as pessoas não tivessem feito nada, podiam ser mortas, por exemplo o meu cunhado foi morto apenas porque um homem da DISA estava interessado na minha cunhada. Mas depois , eu preveni-o, Quando prenderam o Teodoro Sicato eu disse-lhes:
- se matarem este meu cunhado por ser da UNITA eu também vou matar o teu familiar por ser da FNLA.
- Fátima não é bem assim.
- E prenderam o Teodoro Sicato porquê?”
Prenderam-no porque vivia em uma vivenda que foi do Primeiro Secretário do Governo Colonial onde se encontravam aparelhos e rádios de comunicação coloniais e sob este argumento queriam acusar o Teodoro , Eu disse-lhes:
- Vocês são malucos, aonde este pobre professor arranjaria dinheiro para adquirir estes equipamentos?”
Levei-os até à cave e disse-lhes:
- Isso está cheio de poeira, é tão antigo! Experimentem pôr um destes aparelhos a funcionar.
Anuíram e, por fim, disse-lhes: “se vocês tocarem mais na família do meu marido vamos ter guerra de verdade, nós os dois”.
Todos eles matavam, tanto “o MPLA , como a UNITA”. Se um chefe precisar da mulher de alguém, aquele mata o marido, isso era vice versa. São os aspectos sujos da política, típicos de ambientes de guerra. Estou a relatar isso, porque precisamos de dizer a verdade no âmbito da construção da paz.
Clandestinidade, Kuito 1973-1987
Em 1974, os movimentos começaram a “entrar”. Eu já era costureira, não precisava que o marido me sustentasse, mas ajudava-o em todas as despesas de casa, inclusive na compra de mobiliário . Eu era a responsável pelas assinaturas das letras porque o ordenado do caminho de ferro era insignificante.
A partir daquela data, ele começou a trair-me, a fazer filhos fora do lar, tivemos dois filhos, eu tenho três filhos. A dada altura, ele disse-me que não queria ter mais filhos e afinal estava a fazer filhos fora do lar. Quando descobri isso, então pedi que me deixasse ir embora para Luanda. Isto ocorreu em 1976.
Eu enquadrei-me no MPLA em 1973, no bairro Cacrêua, estávamos a trabalhar na clandestinidade. Com a chegada dos movimentos, realizaram-se comícios, o primeiro comício da FNLA e depois o do MPLA, foi na Gare. Os movimentos diziam a todos “ cada um pode escolher o seu movimento. Aqui,ninguém proíbe ninguém”. Eu preferi optar pelo MPLA, as outras pessoas escolheram a UNITA e outras o MPLA.
No bairro Cacrêua tínhamos um núcleo do MPLA, depois as senhoras organizaram-se. O MPLA onde tem um núcleo as mulheres elas têm de organizar o grupo de mulheres para fazer o trabalho das mulheres. Organizámo-nos, fizemos eleições, fui eleita vice- coordenadora da OMA em Cacreua e a esposa do maquinista a Alice foi eleita secretária. A Cacreua era o bairro dos ferroviários.
Começamos a trabalhar na OMA, eu me divertia naquele trabalho, servia para esquecer o que o marido me fazia.
Solidariedade Feminina
Cheguei a ficar muito magra pelos maus tratos, a ponto de ter de tomar Postafen para recuperar o físico. Eu só pensava: “sou casada pela igreja, deixar o meu marido significa cometer adultério”. Com o passar dos tempos, em 1976, juntei todas as suas amantes , as quatro que tinham filhos e levei-as ao tribunal do Bié para elas declararem os maus tratos. Pensaram que lhes faria mal “A Dona Fátima vai querer matar-nos porque é chefe das mulheres”. Disse-lhes: “eu não sou chefe das mulheres, sou chefe de um dos departamentos da OMA, das Relações Políticas que serve para vos enquadrar e aconselhar sobre o comportamento para com os vossos maridos, como se portam em vossas casas”, e elas disseram:
- então está bem.
Levei-as e disse-lhes:
- vocês ficam aqui, fiquem à vontade, não pensem que serão presas, falem à vontade sobre aquilo que vocês estão a passar com o pai dos vossos filhos”
Como até ao meio dia não tinha terminado, regressei ao gabinete do escrivão do tribunal:
- como é senhor escrivão…?
- volte às 14.00, ordenou.
Tinham sido ouvidas até às 12:00, mas não tinham terminado. Levei-as à delegação da OMA, mandei fazer funge, comeram e voltamos ao tribunal.
O meu marido não estava no Kuito, tinha ido ao Lobito buscar mercadoria para a minha loja. No seu regresso apresentaram-lhe o relatório e ele perguntou:
- agora, o que o senhor nos diz?
- são coisas…
- a sua mulher não veio cá para tratar da separação, veio tratar da autorização para levar os filhos”. Quando ela lhe diz “que se vai embora” e você diz-lhe que “os filhos ficam comigo”, ela apenas está consigo pelos filhos. Agora o Senhor tem de escolher.”
O meu marido entrou em casa furioso comigo. Deu-me uma chapada e eu também revoltei-me e fiquei desvairada“dei-lhe com algo na cabeça”. Eu nunca tive o instinto de matar ninguém. Tinha uma pistola, mas jamais a usei para fazer mal a alguém. Os meus sogros disseram: avoyo, omolange va yongola oku u ponda
(Nós já te avisamos para não casar com branca ou com mulata)“Mana yetu, mana yetu éue” .
Por fim, deram-me autorização para levar os filhos. Separei-me em 1987 e vim para Luanda onde comecei a vida “do zero”.
Confecção de Vestuário, Luanda 1987
Quando se é costureira não é difícil começar a vida “do zero”. Rapidamente, chegamos ao ponto de dizer aos clientes “esta semana não posso receber obras”. Fui lutando até conseguir um apartamento onde vivia com os meus filhos.
Um certo dia, recebi a visita de um primo, estava eu na varanda a costurar e ele “oh prima, afinal és uma grande costureira”. Eu não costurava apenas para mulheres, trabalhava também para homens, costurava calças, bubus, ele disse:
- este trabalho não podes fazê-lo aqui em casa
- não tenho possibilidade de encontrar loja
Passada uma semana ele veio entregar-me uma chave:
- prima está aqui uma chave
- chave? compraste carro para mim? i
- não, já te arranjei uma loja.
A loja era em frente ao actual Ministério das Relações Exteriores, pertencia à SOCODEX e era um prédio que tinha dois andares. Ocupei. Aquilo era grande. Mais tarde, o governo recebeu-me a loja e entregou-me uma outra pertencente ao antigo SUBA, localizada na esquina entre a Avenida Brasil e a actual rua do Liceu Mutu Ya Kevela, a loja de esquina onde agora há um balcão do Banco BIC.
Nos anos seguintes, trabalhei muito, mas havia muitos problemas. Cheguei a estabelecer parceria com a MATIMAR, mas havia muitos assaltos, tão logo fosse visível a entrada do material. Inclusivamente, instalei na cave um atelier onde trabalham dez costureiros. Tinha as secções de vestidos baptizados, de vestidos de noiva e de homens. Mas devido ao número de assaltos, tive de me desfazer do negócio.
Serviços Sociais durante a Guerra e Antigos Combatentes
Trabalhei na vida política com o MPLA até vir para Portugal. Acabamos por ser sempre solicitados. Até ao momento, não tive qualquer benefício como antiga combatente. Meti documentos no DOM para obter algum benefício. Por vezes, encontro os mais velhos como a Rodeth Gil e o Dino Matross e questionam se já constituí processo. Meti os papéis, mas nunca obtive nada. Penso e vejo senhoras que não foram da OMA a receber esses benefícios…
Nós no MPLA trabalhamos muito. Cheguei ao ponto de cair em emboscadas. Foram buscar-me:
- camarada Coordenadora da Direcção Política tem de vir connosco
- para onde?
- recuperar os cadáveres. Ontem onde a UNITA atacou uma fazenda, mataram mulheres, a senhora é a que deve vir connosco
Tive de ir. O que eu vi? Vi cadáveres de mães com filhos nas costas caídas de bruços, de todas as formas.
Mas, como antes de termos essa possibilidade de trabalhar, deram-nos cursos políticos, esses cursos davam-me coragem. E os professores eram cubanos, apenas havia um professor angolano, o professor Luíni dizia-me:
“Oye Fátima quando estiveres na frente e o teu filho que está aqui também está na frente, se ele cair, não fiques a chorar, persiga o atirador, não fica a chorar o teu filho porque senão também morrerás”.
Também, dizia “ não chora muito quando alguém morre”, mas, aquilo é que era uma aula! Eu até hoje estou firme, não sou muito sentimentalista, sofro, mas não tenho aquilo de apanhar “embate no coração”, podem me maltratar.
Apanhamos os mortos todos, pusemos em cima do camião, quem estava a conduzir era um cubano. Afinal, a UNITA ainda não tinha deixado o local. Aconteceu no Bié, próximo ao hospital do Vouga, cercaram-nos, caímos na emboscada. Tiroteio “pa-pa-pa”. o cubano que estava comigo ordenou: “Fátima baixa a cabeça, as balas passavam rastejantes à cabeça. O cubano só dizia:
- baixa a cabeça, conho!
- não posso baixar mais
- põe a cabeça assim para o lado…
A emboscada demorou cerca de trinta minutos sob fogo intenso. Como os cubanos são os “caçadores”, eliminaram todos porque eles foram fazer o cerco do lado contrário, e os nossos sintonizaram de onde vinham as balas e depois fizeram o cerco ao contrário e apanhamos um por um. Acabou! Levamos os mortos para a cidade e fez-se o enterro.
A Primeira Guerra no Kuito e Monumentos, 5 de Agosto de 1975
Depois, quando foi a primeira guerra, dia 5 de Agosto de 1975, enterraram a minha colega viva, a Maria Helena. Eu dizia-lhe:
- Maria Helena, fazer política não é faltar respeito aos outros
- Fátima, cala a boca. Você também parece que quer passar para a UNITA
- não é querer passar para a UNITA… estás a cavar o buraco para a tua morte. Na guerra matasse e morresse. Agora, você própria procurar a morte, um dia destes vão bater à tua porta, e vão buscar-te
- ah Fátima, você tem muito medo
- não tenho medo, pois tenho tática.
Então, quando “rebentou a quitota” de 5 de Agosto de 1975, eu estava na Gare, o meu bebé estava à mesa e saiu a correr:
- mamã, mamã, o carro do Comandante Tigre está a queimar. Está ali a UNITA e já incendiou o carro do Comandante Tigre
- incendiaram?
Quando saímos, passado um bocado , a UNITA, lança tiroteio contra nós. A Camarada Rodeth que era nossa chefe na frente de combate tinha ido a Luanda para obter reforços porque em Silva Porto apenas tínhamos trinta e cinco tropas e a UNITA tinha mais porque Cangumbe era próximo, onde havia a sua delegação.
A Quitota nem demorou muito, cerca de quarenta minutos. Tive de me defender. Era um rio, se o capim se mexer, eu tinha de entrar na água, não me mexer, Graças a Deus eles não foram até lá. Quando aquilo acabou, o meu marido foi buscar-me, fui para a casa da minha sogra esconder-me, ela era da LIMA. A UNITA foi à casa dela procurar-me, enquanto a outra já tinha sido enterrada viva. Ainda éramos FAPLA. A alma dela que descanse em paz.
Era cabrita, filha de branco e mulata, era bonita, de olhos azuis, cabelos compridos. Ela refilava muito, em política não se refila. Em qualquer organização onde a gente esteja não é salutar espezinhar os outros. Eu por vezes chamava atenção e como ela não acatava, paramos de chamar a atenção. A Alice Junjo também era do nosso grupo e todas as outras da OMA, todas trabalhamos debaixo daquele martírio.
A Maria Helena era enfermeira no hospital do Bié, ela fugiu e foi esconder-se na banheira da lavandaria do hospital, onde havia roupa. Ela tentou esconder-se, mas alguém a denunciou “ Ela está ali”. O tal Comandante Kaari da UNITA disse: sou eu mesmo que a vou levar, segundo me contaram: pegaram nela e puseram-na por cima dos cadáveres que estão a ser recolhidos e ela a dizer-lhes “me matam já! Vocês cheiram a cocô de galinha”. Ela gritava! disseram que não lhe mataram, despejaram-na na vala comum e o tractor tapou os cadáveres com terra.
Há um monumento no Bié, quando foram ao Bié fazer aquele trabalho de desenterrar as pessoas enterradas dentro das casas, naquela guerra que durou muito, também lhe foi erguido um monumento em sua homenagem, dissemos “ela merece” e fizeram a campa dela no Cemitério Municipal do Kuito.
Houve um cemitério, criado na GARE onde depositaram antigos combatentes e pessoas da UNITA, cujas ossadas estavam enterradas no centro da cidade, porque os parentes abatidos tinham de ser enterrados no jardim de casa. Escavaram , enterraram e fizeram um monumento aos combatentes de guerra. Passei essas peripécias todas, essa é a minha vida.
As casas eram de adobe com telhado de telha de alumínio e lusalite, levantadas com troncos e blocos de terra. Eu permaneci no Cuito Canavale durante o tempo de guerra .
Sabe, faz-se dinheiro no tempo de guerra? Porque se vende e os gatunos não roubam. Actualmente, dentro da cidade de Luanda o gatuno está sempre atrás de si.
Eu não tinha medo de nada e os meus filhos já estavam grandes, pensava “mesmo que eu morra os meus filhos ficam com o pai” e Deus sempre me salvou, já tive grandes problemas.
Empreender no Cuando Cubango, 1990-1992
Quando a Namíbia se tornou independente fomos apresentar os trabalhos da ASSOMEL[2]. Gostei do país e emigrei. Em 1992, tinha lojas no Cuando Cubango e em Luanda, o SUBA e a Darinel na Avenida São Paulo, ao lado da loja da Presidente da ASSOMEL, Dona Maria do Carmo Assis do Nascimento. Fiz sociedade com um português, em que perdi 15.000 dólares americanos.
Quando iniciou a guerra de 1992 perdi todo o meu capital investido naquela província, perdi todo o meu capital. Tinha o armazém onde vendia bens alimentares e criei um instituto de beleza.
Após o Presidente José Eduardo dos Santos ter sido eleito por sufrágio em 1992, visitou o Menongue[3]. O Governador Batalha de Angola pediu-me para preparar uma visita ao único instituto de beleza daquela cidade, enquadrada no Programa da Visita, a Primeira Dama Ana Paula dos Santos acompanhou o Presidente, empenhei-me, eu próprio pintei a loja de branco. O Instituto de Beleza foi inaugurado pela Primeira Dama, acompanhado por Joana Lina. A loja tinha de tudo!
Em 1992, durante o curto período de paz antes das eleições, o meu marido era da Chissamba, do sul de Angola, aquelas pessoas da UNITA conheciam-me e eu já falava umbundu e começaram a dizer: se não conseguirmos ganhar as eleições, aqui vamos pegar nas armas. As eleições eram na quinta feira, uma semana antes chamei a mulher do Vinevala e disse-lhe: Fátima vamos embora porque a UNITA vai nos prender, raptar e levar-nos para a mata e ele perguntou-me porquê, disse-lhe: conto-te em Luanda. Então, fechei a minha casa e o estabelecimento comercial onde deixei armazenada muita mercadoria.
Durante aquele curto período de paz tinha confeccionado vestuário para a representante da LIMA, sobrinha do meu marido, quando ela apareceu “tia faz-me alguns fatos”. Algumas peças seriam terminadas depois das eleições.
Vim para Luanda e depois das eleições começa a guerra (rebenta a quitota). Eu fiquei em Luanda, aqueles que ficaram no Cuando Cubango estiveram lá acantonadas até ao final da guerra.
Nós que viemos para Luanda tivemos de nos juntar: o camarada Boaventura Cardoso, e outros tinham um escritório na Maianga, no edifício da OLIVA. Recolhemos bens e entregamos naquele escritório para serem enviados para eles por avião.
Quando a situação estava a acalmar, um militar do MPLA, arrombou a minha casa, tinha a reserva da mercadoria em um quarto porque o governo quando tinha visitas recorria aos empresários para ajudarem o palácio com logística alimentar. Também, arrombaram a loja. Fiquei desfalcada e tenho testemunhos de tudo quanto aconteceu comigo.
Fui acusada de ser da UNITA. Colocaram uma bomba desactivada para me acusarem de bombista e com base nos retalhos daqueles vestuários acusaram-me. Pensei: “Vão matar-me se eu for ao Cuando Cubango”.
O Governador SKS chamou-me:
- então Fátima….?
- nunca, eu nunca vi uma bomba camarada SKS. Você não vê que a casa estava cheia de mercadoria e a minha roupa toda estava nesta casa. Então, o Piloto iria tirar a mercadoria sem ser chamada de gatuno, tinha de arranjar uma artimanha. E aqueles panos da UNITA são da coordenadora da UNITA que me deu para fazer a roupa dela e eu sou costureira, fiz-lhe a roupa, isto constitui crime no MPLA durante o período de paz?”
- não, não é crime. Nós todos perguntamo-nos como é possível a Camarada Fátima? Tinha roupas da UNITA lá em casa?
- não é roupa, são tecidos. Já fiz a roupa e entreguei à coordenadora da LIMA.
Aquilo passou. Com aquele desgosto apenas regressei em 1994 e recuperei a minha loja. Levei portas e janelas para recuperar o armazém onde eu trabalhava. A vivenda fui eu que pintei. O edifício onde eu tinha o instituto de beleza pertencia à OMA. Tive de fazer muitas manobras e investimentos para recuperar os estabelecimentos.
A dado momento, Dona Maria do Carmo informa-me que tínhamos uma viagem para a Namíbia. A Dona Fátima não quer ir? Fomos representar Angola. Quando voltamos, pensei:“aquele país é organizado, é aqui ao lado, é o país que me vai receber, não vou mais trabalhar nestas condições em Angola”.
Tinha reclamado dos imóveis em 1997, não havia procurador civil e os assuntos civis eram tratados com o auxílio do procurador militar. Ele disse-me: Tia Fátima, você tem toda a razão de recuperar tudo o que é seu, porque você tem todos os documentos. Mas, “minha mãe” eu tenho medo, tenho medo de assinar, assinar isto é assinar a minha sentença de morte, o que a tia acha?
Crenças e Costumes Espirituais
Eu fui confrontada com o Rei Vinongue no Cuando Cubango, era o grande feiticeiro[4], vestia-se de saias, todos os habitantes o temiam. O procurador disse-me “Eu é que vou morrer”. Uma minha amiga pediu-me “Fátima não o desafies, vais morrer”. Disse-lhe: eu não vou morrer e fui para procuradoria e tive de enfrentar o feiticeiro. Já estavam lá todos. O feiticeiro chegou com a mão no bolso e eu a olhar para cima, a repudiar, orando. Fez-me o desafio. Ele também subiu e sentou-se. Eu nunca tinha visto aquilo: ele sentou-se à minha frente e eu sempre ouvi dizer “quando um feiticeiro olhar para ti, não pestanejes”. Ele olhou para mim fixamente , a revirar os olhos e no fim ele baixou a cara. A seguir, fumou cachimbo à minha frente e o fumo voltava-se para ele. Eu sempre orando e clamando a Deus: “Deus viu o meu sofrimento, a arriscar a minha vida nos voos militares, a trazer mercadoria; se realmente eles tem razão, então o Senhor decidirá”. Ele fumava e o fumo voltava para ele.
Chamaram a sobrinha do Soba. O Procurador permitiu. Ela entra e pede desculpa, dirigindo-se ao Soba: “pai, esse assunto é entre nós as duas senhoras”. A questão é que ela queria ficar com a minha loja. No final do interrogatório o Procurador disse-nos: “amanhã venham saber quem fica com a loja.”
Logo a seguir, o Administrador chamou-me aparte e disse: “minha senhora, eu tenho três filhos e não quero morrer…”; outras pessoas vieram aconselhar-me a desistir do processo. Assim fiz e regressei a Luanda.
Empreender na Namíbia, 1998-2008
Preparei-me para emigrar para a Namíbia. Vivi naquele país de 1998 a 2008. Construí a minha casa, costurava para as embaixatrizes e senhoras do corpo diplomático. No final do primeiro ano, regressei a Angola para vender a loja e com o dinheiro da venda comprei a casa e estabeleci-me. Fui para a Namíbia com 450.000 dólares.
Assim que chegou a notícia“o Savimbi morreu” eu e a mulher do Samuconda que vivíamos na Namíbia, fomos as primeiras mulheres que galgamos a estrada da Namíbia para o Cuando Cubango para implementarmos uma fábrica e material de construção, na fronteira de Katuitui.
Aquela mulher conduzia muito bem. As duas passamos o Rundu e chegamos ao Cuando Cubango. Durante a viagem tivemos um furo e eu sabia mudar o pneu. Tirei a chave e quando comecei a desmontar o pneu a falecida diz-me: Comadre, vem aí um carro militar, vamos ficar sossegadas. Ficamos encostadas ao carro. Quando eles se aproximam, dizem-nos “sim senhora, mamães de coragem!aqui no meio da mata! O que vocês estão a fazer?”
Não tínhamos resposta e vimos o comandante sair da cabine, a Miza conhecia-o , era um amigo do Samuconga. Afinal, quando ele viu-nos a viajar sozinhas, mandou este comandante do exército do Cuando Cubango ir ter connosco para nos proteger. O Comandante vira-se para mim e pergunta-me:
- você é irmã do Samuconda?
- sou
- e você é a esposa?
- sou
- meninos, mudem o pneu!
Tínhamos passado a noite no Caiúndo, onde há uma ponte perto da casa do Administrador. Dormimos em um sofá recheado de percevejos que incidiram toda a noite, mesmo dormindo nos sacos de cama. Acordamos às cinco da manhã. A ponte ainda não estava a funcionar, apenas havia jangada. Eu conheço jangadas porque onde nasci e cresci andávamos de jangada. A Niza diz-me:
- oh Fatita, agora como vamos atravessar?
- pela jangada
- não vamos afundar?
- não, anda, coragem!
Os homens a olharem para nós, subimos para a jangada e disse-lhes:
- por favor, nós iremos dar-lhe um matabicho. Puxem a jangada e coloquem as travessas na jangada. A jangada é puxada por umas correntes que ficam de uma margem a outra.
Após, eles colocarem as travessas eu disse a minha amiga:
- “Niza, tu sabes conduzir. Põe o carro na jangada e concentra-te, basta virarmos a roda e caímos. Concentra-te, porque este rio tem jacarés”
E ainda a amedrontá-la!
- Vá, conduza!
Ela conduziu o carro para a jangada e eu a fazer-lhe o sinal, ela também era corajosa, aquela mulher pôs o carro na jangada. Uma vez na na jangada os homens que nos ajudaram puxaram-na até chegar a outra margem do rio. Dosse a Niza Digo-lhe: para retirar o carro da jangada conforme procedimento é igual.
- “já é canja, minha comadre!”
Chegamos a Menongue às 7 horas da manhã, almoçamos com o primo Zé Binda. Conseguimos terrenos no Katuiti e fomos ter com o soba, cumprindo tudo.
Estabeleci contacto com os empresários sul africanos desde aquela visita de trabalho da ASSOMEL. Então, depois de adquirirmos o terreno falei com eles para me contactaram na Namíbia. Ficaram contentes, fizemos uma reunião onde convido a Niza para entrar no ramo empresarial, reunimos com os sul africanos e acertamos montar uma fábrica de material de construção na fronteira, em Katuiti.
E eu como ajudei muito a SWAPO falei com uma pessoa amiga e disse-me “Fátima não há problemas, toma este documento e entrega ao responsável daquela área”.
Foi uma alegria, era pessoa que eu conhecia, já tinha almoçado em minha casa em Angola:
- mamã Fátima, você veio para a Namíbia?
- sim
- para fazer o quê?
- para construir uma fábrica de material de construção
Devido as guerra eu sempre tentava ter o máximo de segurança nos negócios.
- não tem problema Fátima, este terreno próximo à fronteira já é teu
- está bem, primeiro me reunirei com os sul africanos.
Depois da reunião mandaram uma delegação a Angola. Mas, naquele período o Governador era da UNITA e com ele já sabia que eu era do MPLA nao aceitou receber-me, o Governador Chindande. Estivemos sete dias à espera da reunião. No oitavo dia orientou para apresentarmos a proposta por escrito, fizemos rapidamente e entregamos.
Quando voltamos, até hoje dói-me muito, o sul africano filho dos empresários fabricantes de chapas, no Rundu, morreu durante a prospecção do negócio. Enviaram primeiro o filho e fomos ao Cuando Cubango, como não nos receberam, voltamos. Neste regresso tivemos um grande acidente, o rapaz morreu. Ele não estava habituado às estradas de terra batida, não deveríamos autorizar que ele conduzisse. Depois de passarmos a fronteira, fizemos uma paragem em Kuri Kuri para comer. Quando arrancamos depois de um quilômetro, dá-se o acidente, foi um despiste. Ele trava a 120km, as malas voavam, o canope desarticulou, fui a única que não foi cuspida, o carro era a gasolina, caso contrário ficaria carbonizada. A polícia enviou ambulância para nos socorrer, eu chamava “help me please, open the door”, eu não consegui abrir a porta, estava presa.
Quando pergunto, onde está o jimmy, ele estava deitado no chão a agonizar , eram onze horas, o sol já estava alto, tapei-o com o meu casaco e foi levado para o hospital, conseguiram reanimá-lo.
A polícia pediu para eu ficar para traduzir, a polícia pensou que o motorista estivesse bêbedo, disse-lhes que era musulmano, não bebia e perguntaram-me sobre duas garrafas de savanna, eram minhas. depois do interrogatório tive uma crise nervosa e fui levada para o hospital, quando estava melhor, agrafaram uma etiqueta a minha blusa para em caso de necessidade os serviços hospitalares de Angola tomarem conhecimento da medicação administrada pelos serviços de saúde da Namíbia. Em Angola não se faz isso.
Ele foi para a África do Sul, os pais enviaram uma avioneta ambulância que aterrou na pista improvisada depois de afastarmos o gado. Ficou imobilizado, apenas falava e morreu passado quinze dias, os pais disseram-me “Deus que faça o que puder”. Ele estava feliz na viagem a Angola, tirou retratos nos tanques de guerra e morreu após quinze dias, enviei o meu filho ao óbito, a viatura ficou danificada.
Naquele momento, perdi a vontade, a partir daquela data comecei a ter uma vida monótona, pedindo a Deus para me guiar. Verifiquei que a fazenda não funcionava e decidi vir para Lisboa para tentar viver sossegada porque em Luanda se tentasse fazer negócio é possível ser morto devido ao dinheiro, ou somos roubados.
Em 2004, voltei à Namíbia para vender a minha casa, demorou um ano a vender a casa, consegui vendê-la em cerca de um milhão de dólares namibianos. Enquanto estava à espera de clientes, o banco aconselhou-me a propor o meu preço. O banco namibiano tem confiança, vendi a casa, paguei o que devia ao banco.
Durante a residência na Namíbia fui a Angola algumas vezes em negócio. A propriedade do estabelecimento foi passada em nome do comprador em 2005. Ele pediu-me para ser eu a vender a loja visto não estar ainda em seu nome. Fui honesta, a advogada admirou-se. Prosseguindo com a minha vida, abri outra loja, tive outro desfalque “caí na rodela”. Foi nesta época que investi no negócio de compra e venda de bebidas alcoólicas e não obtive lucro nenhum.
Investir em Luanda, Período de Paz 2002
Investindo o capital remanescente na agricultura em Angola, comprei terrenos e as despesas do direito de superfície obtido somente em 2011. Cultivei cerca de 300 pés de limoeiro, depois de dois anos poderia colher toneladas de limão. Acabei por ficar apenas com setenta pés, o povo roubava no viveiro, outros foram destruídos pelos macacos e os poucos que deram frutos o povo roubava e vendia no mercado. Depois, continuei a fazer alguns serviços que foram aparecendo porque perdi o capital.
Adoeci e penso ser de desgosto, perder todo o capital e por ter chegado ao ponto de depender de outras pessoas, não andava, perdi a força de trabalhar a partir de 2017. Até hoje, os limoeiros dão fruto e o povo faz colheita.
Portugal, 2023
Vim a Portugal tratar-me. Brevemente regressarei a Angola. Tenciono vender a fazenda e investir na agricultura em Portugal ou em Malange. Recebi uma proposta para trabalhar em Malange em agricultura. Investirei em capital e trabalho, em contrapartida, repartirei os rendimentos com a proprietária. A proposta vem de alguém iniciante no negócio, negociaremos o período de graça. Parece-me uma boa ideia e como sou comerciante estou outra vez motivada. Provavelmente, iremos adquirir chocadeiras e ovos em Portugal para criarmos frangos para abate e venda de pintos. Vou orar e tomar a decisão final. Caso não consiga, apenas me resta regressar a Portugal e comprar uma casinha em Lisboa e criar galinhas e patos.
Conselhos as Novas gerações
As pessoas já não gostam de si próprias. Em Luanda nota-se que as pessoas não tem paz, não se vê a paz na cara das pessoas, as pessoas estão a procurar a paz. Vejo no rosto de muitas pessoas a procura de conflitos, há quem só queira conflitos. Onde é que uma criança de dez anos agarra em uma faca e corta mortalmente o irmão por estar com o seu telefone, esse menino quer paz, quer estudar?
O que se passa em Luanda “é só Deus!” O Senhor provavelmente anda muito triste connosco. Homem enfia a mulher em uma fossa. Em Luanda há mortes de pasmar. Filhos matam os pais, vemos pela televisão, o programa televisivo Fala Angola não esconde nada. Aqui em Portugal ocorrem situações idênticas.
A sociedade angolana não quer paz. Os jovens deviam segurar a haste da paz. Em cada mil jovens apenas cem parecem querer paz, porque há jovens que querem conflitos e não são os jovens que saíram dos bunkers da guerra, são os jovens nascidos desde o dia da notícia da morte do Dr. Savimbi, da data dos balões brancos.
A juventude deveria pensar na paz e não na aquisição de bens. Porque sem paz ninguém vai adquirir nada. Quando o Presidente João Lourenço reuniu com a Juventude, chamou todos jovens e um jovem respondeu ao Presidente “eu vou aguentar ser Presidente pelo menos cinco dias”.
Temos tantos campos para capinar, temos tantos sítios para comermos e viver bem, não é preciso o dinheiro do governo. Porque eu vou a Cacuaco onde há jovens a alugar terrenos para cultivar e também vão à escola. Será que estes jovens não são angolanos?
Há jovens que se limitam a fazer o seu negócio nas estradas, há os que fazem as “lifes” a ofender o Presidente, Pergunto ”esses jovens trabalham? “Pensam que chegar à presidência é fácil? Posso até concordar com a substituição, mas devemos ter em conta que as famílias angolanas são maioritariamente pobres e corre-se o risco do próximo Presidente não fazer o melhor. Pode não fazer melhor porque quando chegar ao Poder vai amparar os seus familiares, poderá fazer o mesmo que os antecessores. Não será fácil, não são fáceis as múltiplas tarefas do actual Presidente.
A nossa esperança seria a juventude acabar com isso, como? Fazerem programas e apresentá-los ao Presidente, projectos progressistas, não projectos a solicitar casas ou emprego. Acham mesmo que governar Angola é apenas criar emprego? Por exemplo, se alguém tiver dois hectares de abacateiros ou de milho, ao final de um ano colherá toneladas e assim ganhará seu dinheiro. Não precisa ser empregado de outrem.
O Angolano quer ser empregado, e toda a pessoa que quer ou prefere ser empregado, nunca tem o alcance da evolução de um país. Evoluir prevê fazer. E fazer o quê? Temos tanta terra, fico com pena quando vejo a extensão do nosso país, se todos nós direcionarmos a agricultura, uns criando fazendas de produtos agrícolas diferenciados….
Naquela porção de terra o objectivo não é obter dinheiro para consumo e para investir em equipamento. Não precisamos de importar óleo alimentar porque é feito de ginguba, girassol, gergelim e no nosso país temos tanto terreno para estes cultivos.
Mas, pensam ao contrário “queremos emprego,” que gênero de emprego se você não tem habilitações literárias para tais empregos? Por exemplo, Mendes de Carvalho disse “o povo fala na nomeação de mais um ministro analfabeto”, na ocasião pensei: ainda bem que reconhece, pois um enfermeiro, não apresenta competências para desempenhar função de Ministro da Saúde….
Saíram do maqui e depois do MPLA tomar Luanda, muitos dos nomeados não eram pessoas capacitadas para governar Angola. Angola tinha de ter assinado um tratado cuja vigência incluísse a manutenção de quadros coloniais até alcançar um certo patamar de desenvolvimento suficiente
Não se deveria expulsar os portugueses como se expulsou. Agora há muitos roubos. Aguardam pelas mamãs à sua saída da lavra para as assaltar. Que juventude é essa? Respondem: o Presidente não arranja emprego e eu pergunto aos angolanos, que empregos? Ao invés disso, deveriam prepararem-se e dizerem: cheguei, fiz este curso, estou preparado para exercer esta profissão. Quase ninguém aparece, quem vai lá? Costumo ver essas expressões nos “tik toks. “
Tem de haver desenvolvimento técnico, tem de haver engenheiros para agricultura, engenheiros de verdade, não frequentadores de seminários, haver regentes agrícolas conhecedores dos solos nacionais. Vemos a fazerem mistura de plantações, por não haver técnicos para realizarem essas análise, por vezes perdemos as colheitas, por não haver analistas, ninguém aparece, todos querem sentar-se nos gabinetes. É a esta paz que me refiro.
Alegam o consumo excessivo de álcool por falta de emprego. Oh meu Deus, você é oriundo de províncias agrícolas, vem para Luanda aguardar pelo emprego prometido pelo Presidente.
No meu caso, não voltei para a minha terra onde tenho muitos terrenos, o meu avô era português, deixou muitos terrenos. Ele foi comido por antropofagos, por canibais. A nossa fazenda chamasse Dundi, no mapa agrícola do Kuanza Sul encontrará as terras de Fernando Cabral Pereira.
Ainda não reabilitamos a fazenda por falta de acessos, a entrada é ao longo do rio, preciso de barcos. Sou mulher, precisaria de um barco rebocador. e penso”sou ainda encontrar aqueles patrícios”.
O que fizeram com a CADA? O angolano, destruiu o palmar que dava óleo de palma, as palmeiras foram todas cortadas para extração do maruvo. Aquela juventude que permanece analfabeta, deveria pensar: vamos falar com o governo para “pormos a máquina a funcionar de novo”, não foi o que fizeram. Saem destes locais outrora chave do desenvolvimento agrícola e vem para Luanda pedir emprego. Estão essas as pessoas preparadas para preservar a paz?
O gado dá-se bem no Kwanza sul, o caprino e o suiço, não pensam nisso. enquanto a juventude apenas pensar em trabalho de escritório e no poder, não haverá paz em Angola. Neste sentido, posso dizer que ninguém quer a paz porque ninguém mostra interesse no desenvolvimento do país.
No Bailundo há muito terreno, a maior riqueza que Deus ofereceu aos angolanos foram terrenos e são terrenos férteis, terrenos onde se planta uma bananeira e ela cresce. Até porque as bananeiras nascem, crescem e elas florescem , por vezes sem a intervenção humana.
Os nossos pais faziam casas de pau a pique, o meu pai não tinha casa de tijolo nem de bloco e não eram cimentadas. Éramos pequenos quando se construiu o quarto da meninas , nós próprias rebocamos a nova dependência: fazia-se um buraco na lama, amassavamos e se alisava com as tábuas. e quando o telhado é de capim, a palha é posta de forma a criar um toldo. Hoje em dia, o povo só quer morar no Kilamba.
Quando passo no Kilamba, vejo jovens que ficam na rua até tarde e a fumarem. Quem fuma, como vai trabalhar?, ou será que pensa em roubar os que estão a descansar para irem trabalhar no dia seguinte?
A Esperança na Paz Social
Perdi a esperança na paz social em Angola. Apenas quero um sítio para morar onde possa criar galinhas, patos e coelhos, os meus filhos perguntam-me: queres residir em Portugal e criar galinhas? Digo-lhes sim quero, para alimentar-me bem, de alimentos sem agrotóxicos. Em Angola os chineses produzem estrume composto por fezes humanas, a população não compreende e o programa de televisão Fala Angola partilha esta informação e por vezes o público fica agitado quando não existe razão.
Pela mídia recebemos informações de destruição das redes de saneamento básico, por isso interrogo que paz a juventude está a construir?
Decidi procurar a minha paz, sozinha, apenas acompanhada pelos meus familiares mais próximos. Tenciono viver em Portugal ou na Namíbia. Aquilo magoa o coração.
Eu sou do MPLA, mas gostaria que a UNITA também ganhasse as eleições, mas como ganhar, se eles chocam entre eles. Houve umas eleições que desfizeram o Presidente Adalberto. Acredito que vamos ter paz, eu não defendo o MPLA, estou a defender o meu País e permaneço no MPLA porque julgo que todo aquele político que muda de partido, não é político, não sabe o que é a política. Durante a formação política nos primórdios da independência o Dr. Luini disse: o político tem que lutar até vencer. O político que não lute até vencer, não é político, é um atrapalhado, não sabe o que quer. Por isso, Fátima quando você for boa Coordenadora da OMA não desista. Foram eles que nos aconselhavam.
Resumindo, qual a principal recomendação para a juventude alcançar o desenvolvimento?
Verem como vai o mundo nesta época, verem a riqueza que têm na mão que é a Agricultura, porque sem agricultura não há comida e sem agricultura não há emprego. E da agricultura partir para a indústria, produzindo óleo, tecidos, etc. Importamos fibras sintéticas para fabricar tecido.
Quando fiz o curso de costura industrial em Portugal havia aulas sobre os tecidos, fabricados a partir de produtos: naturais, sintéticos e misturados. Havia o teste da queima dos tecidos e pelo cheiro se confirmava a composição da fibra. Na minha adolescência, a primeira vez que passei pela estrada do Dondo a Luanda apreciei que os campos brancos, via-se as mulheres a colherem o algodão. Porque não fazemos isso? O período de cultivo e oleira do milho é semelhante, é de rápida colheita. Temos muitos terrenos, estou a falar, mas não tenho muito mais forças. Se eu fosse jovem experimentaria. Como ninguém rouba o algodão por ser matéria prima, (não é um produto acabado,) a sua produção é mais segura, da mesma forma ninguém roubará gergelim, ou seja a estratégia é plantar algo que os amigos do alheio não possam vender de imediato.
Enquanto estivermos na era da exportação não teremos paz porque o nosso dinheiro sumirá. Há necessidade de produzir internamente para manter a riqueza no país e quando isto for alcançado chegará a paz definitiva!
Cheguei a dar comissões, hoje os custos de empréstimos são elevados, os períodos de assistência na carência são curtos, já tive oportunidade de créditos agrícolas mas não eram rentáveis.
A sua motivação vem da sua experiência juvenil, a juventude actual vive neste ambiente produtivo ?
Vivem todos encafuados em Luanda, saíram do campo e a maioria ainda é filha de camponeses. Os filhos não são agricultores porque preferiram ir abanar uma camisola na rua, ao invés de permanecerem com os pais no cultivo das terras, para prosperarem.
Vi na televisão um malanjino que semeou algodão no terreno dos avós, mas não recebe incentivos, por isso não consegue prosseguir. Esse rapaz deveria ser segurado com duas mãos, a debulhadora de algodão não deve custar muito dinheiro. Seria uma debulhadora pequena adequada a sua capacidade. O coração dói, por ver o mundo dessa forma.
Este depoimento foi realizado Póvoa de Santo Adrião, em Lisboa, em Outubro 2024.
Entrevista e Transcrição: Marinela Cerqueira
Revisão e Ediçao: Judite Luvumba
Palavras Chaves: CADA|Empreendedorismo|ASSOMEL|SWAPO|Kuito|Namíbia|
[3] Conselho de Ministros em Kuando Kubango. A primeira sessão extraordinária da Comissão Permanente do Conselho de Ministros realizada fora de Luanda teve lugar esta quinta-feira. Realizada em Menongue, na sede do Governo provincial de Kuando Kubango, foi presidida pelo presidente do país, José Eduardo dos Santos.https://www.rfi.fr/br/africa/20110616-conselho-de-ministros-em-kuando-kubango
Na primeira conversa a HSA foi apresentada como um método de os angolanos na primeira pessoa descreverem a sociedade no período colonial e no pós independência. A reacção imediata foi: “há jovens que não conhecem nada sobre Angola, depois de estudarem no exterior, regressam e querem explicar a situação de Angola e eu digo-lhes: vocês não estão a dizer a verdade, foram buscar em livros escritos por pessoas estranhas pretendendo descrever a sociedade angolana, sem profundo conhecimento”. Prosseguiu, dizendo que o seu bisneto uma vez perguntou-lhe: Bibi eu queria saber, estamos a crescer em Portugal e não soubemos nada de Angola, apenas estudamos a história portuguesa. Ela respondeu-lhe que em Angola no período colonial estudava-se a história portuguesa, mas que a nossa verdadeira história de Angola ainda está escrita em muito poucos livros.
Espontaneamente, a depoente começa a descrever episódios marcantes da vida de uma rural. Angolana destemida, ingressa na polícia e na Organização da Mulher Angolana. À semelhança de bons comunicadores, durante a apresentação, Maria de Fátima partilhou factos marcantes do seu carácter. Resumidamente, falou da sua separação conjugal dos seus empregos e do papel da mulher na sociedade angolana., resumiu a sua vida:
“Eu Nasci nasci em 1944 cresci uma miúda muito extrovertida,. eu lutava com os rapazes, mas eles iam sempre para o chão, ninguém me conseguia derrubar. Quando me enquadrei na OMA vivia uma vida marital difícil e sendo casada por igreja, aprendi catequese nos quimbos , segundo a qual a mulher tem de ser submissa, não deve cometer adultério”. Mas, eu não pensava em separação e arranjar um novo marido porque iria para o inferno. Decidi começar a trabalhar na polícia e o emprego piorou a situação, pois começaram os ciúmes. Em 1975, nos separamos após eu travar uma luta em autodefesa”.
Na época, eu andava armada, era coordenadora das relações políticas da OMA na província do Bié. Nas reuniões eu deixava todos falarem, fazia os apanhados, arrebatava a conversa e resolvia os assuntos, defendendo sempre a dignidade da mulher.Por exemplo, há uma senhora casada com um sobrinho do falecido Savimbi e o Governador não percebia as razões de eu a defender. Defendi-a porque a política é diferente do amor. quando eu defendi o nosso soldado , eu disse : Governador Muteka eu respeito-o, mas de assuntos de amor você não entende nada”. Mais tarde, houve comentários, mas o meu argumento foi: “no estatuto do MPLA não consta que um soldado do MPLA ou do Governo não pode casar com um membro de uma família da UNITA”.
Criei e integrei o grupo de quatro senhoras em 1995 que fizeram a formação de professora de costura e regressei a Luanda em 1996. Eu não tinha dinheiro para construir a minha escola, tirei o curso mas não o exercitei plenamente, as escolas de costura móveis devem ter ficado para alguém ligado ao governo. Os projectos de investimento são desviados, por exemplo alguém paga por um projecto de viabilidade económico e outros implementam projectos semelhantes e constituem empresas com base neles próprios.
Quando éramos do partido único as igrejas não tinham relação com o partido, mas se fizermos uma pesquisa, reconhecemos que afinal a maioria dos membros do partido são religiosos, alguns são católicos. Eu tenho familiares que não acreditam na religião.
Na segunda conversa, descreve a fazenda de referência dos anos 70, provavelmente a melhor estruturada, a CADA, cresce neste lugar onde os contratados indígenas foram tratados diferenciadamente.
Conciliou sempre a veia empreendedora com a militância no partido do seu coração e por isso foi uma das mulheres que manteve estabelecimentos em locais de guerra, entre eles em Cuito Canavale e na fronteira com a Namíbia. Ainda hoje, tem a esperança de recorrer à sua experiência para investir na agricultura. É de opinião que os jovens devem empreender na agricultura, para deixarem de ser empregados por conta alheia e se tornarem proprietários e assim contribuírem para a paz e desenvolvimento social de Angola.
Introdução
Eu sou Maria de Fátima Cabral, nasci na fazenda Longa-Nihia da CADA, no Cuanza Sul, onde cresci até aos onze anos. Depois, fui para a fazenda onde era a sede da CADA. Fiz a minha quarta classe na Boa Entrada, sede da Companhia Agrícola de Agricultura (CADA).
Aos dezanove anos conheci um português, um menino que também tinha dezanove anos e era o chefe da estação do caminho de ferro. Namoramos e aos 20 anos tive o meu primeiro filho. Houve traição e desisto do noivado. Criei o bebé até aos dois anos e depois deixei-o com os meus sogros e vim para Luanda.
Em Luanda, conheci o meu marido, casamos e depois do casamento ele passou a disponibilidade militar e fomos para a Chissamba. A Missão da Chissamba era um complexo cujo destaque era o hospital. Eu fui viver com os meus sogros em Cassito. Ele trabalhou no caminho de ferro, era estomatologista e podia ter ganho dinheiro, mas preferiu trabalhar para o caminho de ferro, cobrar bilhetes, chamavam-lhes condutores, mas eu achava que deviam chamá-los cobradores e chamavam condutor e ao motorista.
Nesta localidade, começou a trajectória do meu sofrimento, traições e outras formas de violência, superei algumas, mas mesmo assim não consegui fazer o que queria e por isso tive de me separar da minha irmã, mas as traições continuavam e tive de me separar.
Infância na CADA, 1956
Nasci em Porto Amboim, mas cresci na roça. A CADA[1] era um paraíso. Aquela fazenda pertenceu a vários donos, primeiro foi alemã, não conheço esta parte da história, sei que depois pertenceu a brasileiros e a portugueses, tinha tudo, era um palmar esplendoroso.
Em pequena eu era uma maria-rapaz. Gostava de trepar às árvores, apanhar fruta silvestre e a minha mãe passava-me umas grandes porradas porque eu deixava a panela no fogo e ia catar fruta. A panela queimava e a mãe quando chegava não havia almoço para os miúdos. Eu era a irmã mais velha, antes de eu nascer faleceram o meu irmão e a minha irmã.
Como o meu pai era capataz. O meu pai percorria quilômetros naquele palmar. tínhamos de levar a comida ao campo. No caminho eu corria atrás dos macacos. Um dia apanhei um macaquinho e levei-o para casa., minha mãe pergunta-me:
- vais dar-lhe leite? Amanhã leva-o para a mãe dele, ele precisa de mamar
- mas, oh mamã dou-lhe leite, pois aqui temos cabritos
- amanhã leva-o para o campo!
Em 1957, implementaram uma escola na sede da CADA, na fazenda Longa e Nhia na Capela de São Pedro, foi quando começamos a estudar,: Tínhamos catequese e fomos batizados em 1958.
A vida na CADA era uma vida progressiva, quer dizer é verdade que as pessoas achavam que a vida dos contratados era um sofrimento, mas, eu não via aquilo como sofrimento. Eles tinham o pagamento do trabalho estabelecido no contrato que permitia regressarem com algum dinheiro e na roça tinham comida. Era também essa comida que nós também comiamos, nós que não éramos contratados.
Havia contratado de várias regiões de Angola: tchokwe, umbundos , ganguelas. Falava-se todas essas línguas e o meu pai falava todas essas línguas. Até se falava Nama, a língua dos estalos, muito usada na Namíbia, a dos Bochimanes.
De manhã, os contratados eram organizados para serem enviados para as diversas zonas dos Palmares onde tinham de capinar, limpando tudo. Os trabalhadores iam para o campo e as mulheres iam ao armazém receber os alimentos. Não sei descrever a quantidade que cada família recebia: fubá, açúcar mascavo, óleo alimentar, peixe para a refeição. Diariamente tinham de ir buscar comida, não lhes davam quantidades que permitissem terem reservas em casa. Na nossa escola era também essa comida que nos sustentava. O carapau era tão bom, a fuba fuga que davam era tão boa, e também davam arroz.
Os contratados quando chegassem ao fim do contrato eram trocados, era um ano por cada grupo, pois o período de contrato não chegava a dois anos.
Os Contratados Brancos De São Tomé e Cabo Verde
Houve ainda contratados brancos vindos de São Tomé de Cabo Verde, eles eram pobres, mas eram brancos.
Até que um dia saiu-lhes caro: Levaram-nos para a Longa Nhia, outra fazenda da CADA. eu já era crescida. Eles pegaram no Administrador… Durante a formatura o Administrador explicou-lhes o trabalho, mas os contratados ficaram revoltados Levaram porrada dos nós administradores. “os brancos corriam”. Fizeram tudo por tudo para apanharem o administrador da sede. Deram-lhe uma boa sova, entortaram-lhe o nariz. O Administrador telefonou “alo, aqui… mandem buscar os contratados brancos”, não passou uma semana os camiões vieram buscar os contratados brancos. O administrador Castanheira ficou com o nariz torto.
A Boa Entrada, era uma coisa linda, as mulheres a irem para o cafezal, os cânticos delas, todas cantavam alegres, no final do mês chegava o salário, não posso explicar quanto era. Se forem trezentos ou quatrocentos réis, não sei explicar. Ganhavam pouco dinheiro e também recebiam a ração, trabalhavam muito.
Como viviam os angolanos e contratados?
A companhia construiu casas de construção definitiva, casas de tijolos, as casas ainda existem, eram casas para contratados. Havia uma parte que era para os administradores “brancos” e outra para os contratados, chamada “sanzala”. As casas eram construídas de tijolo e telhas de lusalite, eram casas em condições.
Cada sanzala tinha um jango para actividades recreativas ao fim de semana. Geralmente, tocavam viola e cantavam. O que eu vi com os meus olhos, não posso dizer que maltratavam os contratados. Eu também sou contra pessoas que fazem mal aos outros.
Trabalhavam, por exemplo, saiam para o campo às seis da manhã e por volta das cinco horas estavam de regresso, o meu pai por ser o capataz ia com eles e regressaram juntos.
Comiam no campo?
Sim, quando iam para o campo levavam o farnel, o do meu pai nós levávamos.
O que faziam os filhos e as esposas ?
Não faziam nada, ainda não havia escola, não faziam nada, apenas brincavam na sanzala, nem faziam lavras, não capinavam. Até porque ficavam apenas um ano, sabiam que no final do período iam embora.
Nem todos levavam as mulheres, havia poucas esposas, tenho percepção de serem os mais jovens a levarem mulheres e filhos, os com família mais numerosa não levavam a família, não havia famílias com muitos filhos.
Quando começou a escola, os filhos dos contratados também frequentavam a escola, os filhos dos contratados eram nossos colegas, isto na Longa e Nhia. Na Boa Entrada tínhamos a escola até a quarta classe, lá na roça só se estudava até a terceira classe se quisesse fazer a quarta classe íamos para a Gabela onde se estudava até a sétima classe.
E o angolano trabalhava muito mesmo! As fazendas ocupavam uma extensa área. Em dois meses limpavam a fazenda. Não é como agora que você tem uma fazenda e o trabalhador está sentado ou está a fumar. Palmeiras todos limpos, mas não eram os contratados que subiam a palmeira para limpá-las e cortar o dendê, eram os nativos,.
Havia uma chata para transportar o dendê, tinha o nome do rio, os contratados carregavam o dendê até a beira do rio para quando a chata chegasse a carregarem e também levavam para a fábrica de óleo de palma, era um bom óleo de palma.
Quando saíssemos da escola passávamos pela fábrica para pedirmos dendê cozido, era uma qualidade de dendê sem caroço e o comíamos acompanhado de batata doce assada nas cinzas da fábrica. Era bonito e muito apetitoso!
Pode ser que em outras localidades castigaram contratados, mas ali, não me lembro. Havia racismo. Hoje dizemos “o branco me castigava, o branco me mandava”, mas temos de nos sacrificar para ganhar algo.
Provavelmente pelo nível de desenvolvimento da CADA os contratados recebiam um tratamento diferente das restantes fazendas?
Sim é possível. Havia a fábrica de sabão para os contratados, do óleo de palma faziam sabão. Na Boa Entrada também havia fábrica de sabão.
A única família de capataz mestiça era a nossa. Também havia capatazes negros, nativos, pois os nativos com a quarta classe alcançavam o posto de capataz. O meu pai era o superior dos capatazes, comandava o grupo de capatazes. Havia vários grupos de capatazes, era uma extensa fazenda constituída pelas fazendas Longa Nhia, Cambundo e Boa Entrada e a Boa Aventurança no Sumbe. O Café da Gabela era dos proprietários portugueses, os ricos da Gabela. A CADA não estava relacionada com o café produzido na Gabela.
Havia o hospital na Longa Nhia, com enfermeiros. Todos tinham acesso a esse hospital: os contratados ou e qualquer negro, também eram atendidos sem qualquer restrição.
Ao descer a Longa Nhia encontrávamos a Capolo, era uma paragem do investimento de um português, com lojas.. Era uma localidade comercial.
- A Longa Nhia tinha esse nome devido aos rios Longa e Nhia que se uniam no espaço onde se encontrava a CADA , por isso até hoje assim se escreve.Esse rio deságua no oceano, passando pelo Capolo.
11 de Novembro de 1975, Kuito
Quando o Presidente Neto chegou eu estava no Bié porque as outras coordenadoras da cidade vieram receber o Presidente Agostinho Neto. Eu fiquei no Bié para receber a delegação do MPLA constituída por Lúcio Lara, Mambo Café, e Maria a esposa do Jamba Ya Mina. Era uma delegação vinda do Moxico. Fiquei eu e outros camaradas da OMA a tratar da sua recepção. Agostinho Neto nunca esteve em Kuito. Recebemos a delegação na fronteira entre as províncias do Moxico e Bié.
No dia 11 de Novembro, no Kuito, fizemos comícios,.Houve actividades políticas. Cada uma ia a um kimbo politizar o povo sobre a independência, anunciar que “A independência já chegou, Agostinho Neto já chegou, e foi recebido em Luanda onde proclamou o 11 de Novembro”. E nós estávamos em serviço político, fazendo comícios., Eu fui para Cangalo, a Antónia Junjo foi para Xanhonha, a falecida , a camarada…., Alice Caetano responsavel pela a OMA na GARE fez o comício neste bairro; dividimo-nos em trabalhos políticos.
O propósito foi anunciar a chegada de Neto e a proclamação da independência, não houve festividades?
Não houve actos públicos. A UNITA estava no Bié, em Silva Porto, onde era restringida. Quando eles fizeram o ataque e ocuparam o Bie até 8 de Fevereiro de 1976 , data em que “nós” retomamos Bié até hoje, eles lá tinham quase somente uma delegação da UNITA e da LIMA, com poucos militantes activos.
Eram poucos, não tinham exércitos, a FALA não estava presente. Quem estava era a FAPL . E ambos tinham pouca tropa. Como as FAPLA apareceram? Descalços, podemos dizer que pareciam contratados. A tropa das FAPLA sofreu muito, era pela independência, tiveram de sofrer! Na cidade cada família recebeu o seu partido. “Nós” é que tínhamos de nos associar para dar de comer às nossas tropas porque os partidos não tinham capacidade de alimentar as tropas.
Fizemos um jantar em família, com os seus amigos, cada um dentro da sua casa. Como éramos um grupo unido eu, a Alice Batista, a Antónia Junjo e mais pessoas juntamo-nos. Foi assim que os chefes que estavam presentes juntaram-se a nós.
Mulheres FAPLA
Fui da ODP, treinei na ODP. Quando se dá o dia de 1º de Agosto, nós andamos fardadas, treinamos, incluindo aquele treinamento de passar embaixo das cordas. Ai de ti se não souberes passar por baixo das cordas, quando caí na emboscada já estava treinada.
Antes do 5 de Agosto eu vivia na Gare. Depois, fui viver no bairro dos “brancos”, em casa de uma senhora conhecida que ficava a caminho da fábrica de óleo.
Quando venho para Luanda “rebentou” a guerra, dividiu as pessoas, umas foram para uma cidade, outras para outras. O meu sobrinho Cabral conhece a história toda. Cada um ficava na sua parte e a dada altura acordam tréguas para poderem trocar produtos de necessidade primária, o MPLA tinha sal e a UNITA tinha caporroto, e lá na cidade não havia, então trocavam com o sal e havia tréguas por cerca de vinte e quatro horas. Por exemplo: o MPLA trocava um balde de sal por um garrafão de aguardente (Caporroto) da UNITA . Mas por vezes, as trocas geravam conflito, pois o balde de sal poderia não conter somente sal mas também terra. Recomeçava o tiroteio, ambos queriam avançar e a partir daquela data acabavam as tréguas.
Quando ainda estavam todos sintonizados era possível escapar, se é do MPLA devíamos mudar para a área da cidade ou zonas controladas por este movimento e vice-versa. Tanto o MPLA como a UNITA cometeram traições, Mesmo que as pessoas não tivessem feito nada, podiam ser mortas, por exemplo o meu cunhado foi morto apenas porque um homem da DISA estava interessado na minha cunhada. Mas depois , eu preveni-o, Quando prenderam o Teodoro Sicato eu disse-lhes:
- se matarem este meu cunhado por ser da UNITA eu também vou matar o teu familiar por ser da FNLA.
- Fátima não é bem assim.
- E prenderam o Teodoro Sicato porquê?”
Prenderam-no porque vivia em uma vivenda que foi do Primeiro Secretário do Governo Colonial onde se encontravam aparelhos e rádios de comunicação coloniais e sob este argumento queriam acusar o Teodoro , Eu disse-lhes:
- Vocês são malucos, aonde este pobre professor arranjaria dinheiro para adquirir estes equipamentos?”
Levei-os até à cave e disse-lhes:
- Isso está cheio de poeira, é tão antigo! Experimentem pôr um destes aparelhos a funcionar.
Anuíram e, por fim, disse-lhes: “se vocês tocarem mais na família do meu marido vamos ter guerra de verdade, nós os dois”.
Todos eles matavam, tanto “o MPLA , como a UNITA”. Se um chefe precisar da mulher de alguém, aquele mata o marido, isso era vice versa. São os aspectos sujos da política, típicos de ambientes de guerra. Estou a relatar isso, porque precisamos de dizer a verdade no âmbito da construção da paz.
Clandestinidade, Kuito 1973-1987
Em 1974, os movimentos começaram a “entrar”. Eu já era costureira, não precisava que o marido me sustentasse, mas ajudava-o em todas as despesas de casa, inclusive na compra de mobiliário . Eu era a responsável pelas assinaturas das letras porque o ordenado do caminho de ferro era insignificante.
A partir daquela data, ele começou a trair-me, a fazer filhos fora do lar, tivemos dois filhos, eu tenho três filhos. A dada altura, ele disse-me que não queria ter mais filhos e afinal estava a fazer filhos fora do lar. Quando descobri isso, então pedi que me deixasse ir embora para Luanda. Isto ocorreu em 1976.
Eu enquadrei-me no MPLA em 1973, no bairro Cacrêua, estávamos a trabalhar na clandestinidade. Com a chegada dos movimentos, realizaram-se comícios, o primeiro comício da FNLA e depois o do MPLA, foi na Gare. Os movimentos diziam a todos “ cada um pode escolher o seu movimento. Aqui,ninguém proíbe ninguém”. Eu preferi optar pelo MPLA, as outras pessoas escolheram a UNITA e outras o MPLA.
No bairro Cacrêua tínhamos um núcleo do MPLA, depois as senhoras organizaram-se. O MPLA onde tem um núcleo as mulheres elas têm de organizar o grupo de mulheres para fazer o trabalho das mulheres. Organizámo-nos, fizemos eleições, fui eleita vice- coordenadora da OMA em Cacreua e a esposa do maquinista a Alice foi eleita secretária. A Cacreua era o bairro dos ferroviários.
Começamos a trabalhar na OMA, eu me divertia naquele trabalho, servia para esquecer o que o marido me fazia.
Solidariedade Feminina
Cheguei a ficar muito magra pelos maus tratos, a ponto de ter de tomar Postafen para recuperar o físico. Eu só pensava: “sou casada pela igreja, deixar o meu marido significa cometer adultério”. Com o passar dos tempos, em 1976, juntei todas as suas amantes , as quatro que tinham filhos e levei-as ao tribunal do Bié para elas declararem os maus tratos. Pensaram que lhes faria mal “A Dona Fátima vai querer matar-nos porque é chefe das mulheres”. Disse-lhes: “eu não sou chefe das mulheres, sou chefe de um dos departamentos da OMA, das Relações Políticas que serve para vos enquadrar e aconselhar sobre o comportamento para com os vossos maridos, como se portam em vossas casas”, e elas disseram:
- então está bem.
Levei-as e disse-lhes:
- vocês ficam aqui, fiquem à vontade, não pensem que serão presas, falem à vontade sobre aquilo que vocês estão a passar com o pai dos vossos filhos”
Como até ao meio dia não tinha terminado, regressei ao gabinete do escrivão do tribunal:
- como é senhor escrivão…?
- volte às 14.00, ordenou.
Tinham sido ouvidas até às 12:00, mas não tinham terminado. Levei-as à delegação da OMA, mandei fazer funge, comeram e voltamos ao tribunal.
O meu marido não estava no Kuito, tinha ido ao Lobito buscar mercadoria para a minha loja. No seu regresso apresentaram-lhe o relatório e ele perguntou:
- agora, o que o senhor nos diz?
- são coisas…
- a sua mulher não veio cá para tratar da separação, veio tratar da autorização para levar os filhos”. Quando ela lhe diz “que se vai embora” e você diz-lhe que “os filhos ficam comigo”, ela apenas está consigo pelos filhos. Agora o Senhor tem de escolher.”
O meu marido entrou em casa furioso comigo. Deu-me uma chapada e eu também revoltei-me e fiquei desvairada“dei-lhe com algo na cabeça”. Eu nunca tive o instinto de matar ninguém. Tinha uma pistola, mas jamais a usei para fazer mal a alguém. Os meus sogros disseram: avoyo, omolange va yongola oku u ponda
(Nós já te avisamos para não casar com branca ou com mulata)“Mana yetu, mana yetu éue” .
Por fim, deram-me autorização para levar os filhos. Separei-me em 1987 e vim para Luanda onde comecei a vida “do zero”.
Confecção de Vestuário, Luanda 1987
Quando se é costureira não é difícil começar a vida “do zero”. Rapidamente, chegamos ao ponto de dizer aos clientes “esta semana não posso receber obras”. Fui lutando até conseguir um apartamento onde vivia com os meus filhos.
Um certo dia, recebi a visita de um primo, estava eu na varanda a costurar e ele “oh prima, afinal és uma grande costureira”. Eu não costurava apenas para mulheres, trabalhava também para homens, costurava calças, bubus, ele disse:
- este trabalho não podes fazê-lo aqui em casa
- não tenho possibilidade de encontrar loja
Passada uma semana ele veio entregar-me uma chave:
- prima está aqui uma chave
- chave? compraste carro para mim? i
- não, já te arranjei uma loja.
A loja era em frente ao actual Ministério das Relações Exteriores, pertencia à SOCODEX e era um prédio que tinha dois andares. Ocupei. Aquilo era grande. Mais tarde, o governo recebeu-me a loja e entregou-me uma outra pertencente ao antigo SUBA, localizada na esquina entre a Avenida Brasil e a actual rua do Liceu Mutu Ya Kevela, a loja de esquina onde agora há um balcão do Banco BIC.
Nos anos seguintes, trabalhei muito, mas havia muitos problemas. Cheguei a estabelecer parceria com a MATIMAR, mas havia muitos assaltos, tão logo fosse visível a entrada do material. Inclusivamente, instalei na cave um atelier onde trabalham dez costureiros. Tinha as secções de vestidos baptizados, de vestidos de noiva e de homens. Mas devido ao número de assaltos, tive de me desfazer do negócio.
Serviços Sociais durante a Guerra e Antigos Combatentes
Trabalhei na vida política com o MPLA até vir para Portugal. Acabamos por ser sempre solicitados. Até ao momento, não tive qualquer benefício como antiga combatente. Meti documentos no DOM para obter algum benefício. Por vezes, encontro os mais velhos como a Rodeth Gil e o Dino Matross e questionam se já constituí processo. Meti os papéis, mas nunca obtive nada. Penso e vejo senhoras que não foram da OMA a receber esses benefícios…
Nós no MPLA trabalhamos muito. Cheguei ao ponto de cair em emboscadas. Foram buscar-me:
- camarada Coordenadora da Direcção Política tem de vir connosco
- para onde?
- recuperar os cadáveres. Ontem onde a UNITA atacou uma fazenda, mataram mulheres, a senhora é a que deve vir connosco
Tive de ir. O que eu vi? Vi cadáveres de mães com filhos nas costas caídas de bruços, de todas as formas.
Mas, como antes de termos essa possibilidade de trabalhar, deram-nos cursos políticos, esses cursos davam-me coragem. E os professores eram cubanos, apenas havia um professor angolano, o professor Luíni dizia-me:
“Oye Fátima quando estiveres na frente e o teu filho que está aqui também está na frente, se ele cair, não fiques a chorar, persiga o atirador, não fica a chorar o teu filho porque senão também morrerás”.
Também, dizia “ não chora muito quando alguém morre”, mas, aquilo é que era uma aula! Eu até hoje estou firme, não sou muito sentimentalista, sofro, mas não tenho aquilo de apanhar “embate no coração”, podem me maltratar.
Apanhamos os mortos todos, pusemos em cima do camião, quem estava a conduzir era um cubano. Afinal, a UNITA ainda não tinha deixado o local. Aconteceu no Bié, próximo ao hospital do Vouga, cercaram-nos, caímos na emboscada. Tiroteio “pa-pa-pa”. o cubano que estava comigo ordenou: “Fátima baixa a cabeça, as balas passavam rastejantes à cabeça. O cubano só dizia:
- baixa a cabeça, conho!
- não posso baixar mais
- põe a cabeça assim para o lado…
A emboscada demorou cerca de trinta minutos sob fogo intenso. Como os cubanos são os “caçadores”, eliminaram todos porque eles foram fazer o cerco do lado contrário, e os nossos sintonizaram de onde vinham as balas e depois fizeram o cerco ao contrário e apanhamos um por um. Acabou! Levamos os mortos para a cidade e fez-se o enterro.
A Primeira Guerra no Kuito e Monumentos, 5 de Agosto de 1975
Depois, quando foi a primeira guerra, dia 5 de Agosto de 1975, enterraram a minha colega viva, a Maria Helena. Eu dizia-lhe:
- Maria Helena, fazer política não é faltar respeito aos outros
- Fátima, cala a boca. Você também parece que quer passar para a UNITA
- não é querer passar para a UNITA… estás a cavar o buraco para a tua morte. Na guerra matasse e morresse. Agora, você própria procurar a morte, um dia destes vão bater à tua porta, e vão buscar-te
- ah Fátima, você tem muito medo
- não tenho medo, pois tenho tática.
Então, quando “rebentou a quitota” de 5 de Agosto de 1975, eu estava na Gare, o meu bebé estava à mesa e saiu a correr:
- mamã, mamã, o carro do Comandante Tigre está a queimar. Está ali a UNITA e já incendiou o carro do Comandante Tigre
- incendiaram?
Quando saímos, passado um bocado , a UNITA, lança tiroteio contra nós. A Camarada Rodeth que era nossa chefe na frente de combate tinha ido a Luanda para obter reforços porque em Silva Porto apenas tínhamos trinta e cinco tropas e a UNITA tinha mais porque Cangumbe era próximo, onde havia a sua delegação.
A Quitota nem demorou muito, cerca de quarenta minutos. Tive de me defender. Era um rio, se o capim se mexer, eu tinha de entrar na água, não me mexer, Graças a Deus eles não foram até lá. Quando aquilo acabou, o meu marido foi buscar-me, fui para a casa da minha sogra esconder-me, ela era da LIMA. A UNITA foi à casa dela procurar-me, enquanto a outra já tinha sido enterrada viva. Ainda éramos FAPLA. A alma dela que descanse em paz.
Era cabrita, filha de branco e mulata, era bonita, de olhos azuis, cabelos compridos. Ela refilava muito, em política não se refila. Em qualquer organização onde a gente esteja não é salutar espezinhar os outros. Eu por vezes chamava atenção e como ela não acatava, paramos de chamar a atenção. A Alice Junjo também era do nosso grupo e todas as outras da OMA, todas trabalhamos debaixo daquele martírio.
A Maria Helena era enfermeira no hospital do Bié, ela fugiu e foi esconder-se na banheira da lavandaria do hospital, onde havia roupa. Ela tentou esconder-se, mas alguém a denunciou “ Ela está ali”. O tal Comandante Kaari da UNITA disse: sou eu mesmo que a vou levar, segundo me contaram: pegaram nela e puseram-na por cima dos cadáveres que estão a ser recolhidos e ela a dizer-lhes “me matam já! Vocês cheiram a cocô de galinha”. Ela gritava! disseram que não lhe mataram, despejaram-na na vala comum e o tractor tapou os cadáveres com terra.
Há um monumento no Bié, quando foram ao Bié fazer aquele trabalho de desenterrar as pessoas enterradas dentro das casas, naquela guerra que durou muito, também lhe foi erguido um monumento em sua homenagem, dissemos “ela merece” e fizeram a campa dela no Cemitério Municipal do Kuito.
Houve um cemitério, criado na GARE onde depositaram antigos combatentes e pessoas da UNITA, cujas ossadas estavam enterradas no centro da cidade, porque os parentes abatidos tinham de ser enterrados no jardim de casa. Escavaram , enterraram e fizeram um monumento aos combatentes de guerra. Passei essas peripécias todas, essa é a minha vida.
As casas eram de adobe com telhado de telha de alumínio e lusalite, levantadas com troncos e blocos de terra. Eu permaneci no Cuito Canavale durante o tempo de guerra .
Sabe, faz-se dinheiro no tempo de guerra? Porque se vende e os gatunos não roubam. Actualmente, dentro da cidade de Luanda o gatuno está sempre atrás de si.
Eu não tinha medo de nada e os meus filhos já estavam grandes, pensava “mesmo que eu morra os meus filhos ficam com o pai” e Deus sempre me salvou, já tive grandes problemas.
Empreender no Cuando Cubango, 1990-1992
Quando a Namíbia se tornou independente fomos apresentar os trabalhos da ASSOMEL[2]. Gostei do país e emigrei. Em 1992, tinha lojas no Cuando Cubango e em Luanda, o SUBA e a Darinel na Avenida São Paulo, ao lado da loja da Presidente da ASSOMEL, Dona Maria do Carmo Assis do Nascimento. Fiz sociedade com um português, em que perdi 15.000 dólares americanos.
Quando iniciou a guerra de 1992 perdi todo o meu capital investido naquela província, perdi todo o meu capital. Tinha o armazém onde vendia bens alimentares e criei um instituto de beleza.
Após o Presidente José Eduardo dos Santos ter sido eleito por sufrágio em 1992, visitou o Menongue[3]. O Governador Batalha de Angola pediu-me para preparar uma visita ao único instituto de beleza daquela cidade, enquadrada no Programa da Visita, a Primeira Dama Ana Paula dos Santos acompanhou o Presidente, empenhei-me, eu próprio pintei a loja de branco. O Instituto de Beleza foi inaugurado pela Primeira Dama, acompanhado por Joana Lina. A loja tinha de tudo!
Em 1992, durante o curto período de paz antes das eleições, o meu marido era da Chissamba, do sul de Angola, aquelas pessoas da UNITA conheciam-me e eu já falava umbundu e começaram a dizer: se não conseguirmos ganhar as eleições, aqui vamos pegar nas armas. As eleições eram na quinta feira, uma semana antes chamei a mulher do Vinevala e disse-lhe: Fátima vamos embora porque a UNITA vai nos prender, raptar e levar-nos para a mata e ele perguntou-me porquê, disse-lhe: conto-te em Luanda. Então, fechei a minha casa e o estabelecimento comercial onde deixei armazenada muita mercadoria.
Durante aquele curto período de paz tinha confeccionado vestuário para a representante da LIMA, sobrinha do meu marido, quando ela apareceu “tia faz-me alguns fatos”. Algumas peças seriam terminadas depois das eleições.
Vim para Luanda e depois das eleições começa a guerra (rebenta a quitota). Eu fiquei em Luanda, aqueles que ficaram no Cuando Cubango estiveram lá acantonadas até ao final da guerra.
Nós que viemos para Luanda tivemos de nos juntar: o camarada Boaventura Cardoso, e outros tinham um escritório na Maianga, no edifício da OLIVA. Recolhemos bens e entregamos naquele escritório para serem enviados para eles por avião.
Quando a situação estava a acalmar, um militar do MPLA, arrombou a minha casa, tinha a reserva da mercadoria em um quarto porque o governo quando tinha visitas recorria aos empresários para ajudarem o palácio com logística alimentar. Também, arrombaram a loja. Fiquei desfalcada e tenho testemunhos de tudo quanto aconteceu comigo.
Fui acusada de ser da UNITA. Colocaram uma bomba desactivada para me acusarem de bombista e com base nos retalhos daqueles vestuários acusaram-me. Pensei: “Vão matar-me se eu for ao Cuando Cubango”.
O Governador SKS chamou-me:
- então Fátima….?
- nunca, eu nunca vi uma bomba camarada SKS. Você não vê que a casa estava cheia de mercadoria e a minha roupa toda estava nesta casa. Então, o Piloto iria tirar a mercadoria sem ser chamada de gatuno, tinha de arranjar uma artimanha. E aqueles panos da UNITA são da coordenadora da UNITA que me deu para fazer a roupa dela e eu sou costureira, fiz-lhe a roupa, isto constitui crime no MPLA durante o período de paz?”
- não, não é crime. Nós todos perguntamo-nos como é possível a Camarada Fátima? Tinha roupas da UNITA lá em casa?
- não é roupa, são tecidos. Já fiz a roupa e entreguei à coordenadora da LIMA.
Aquilo passou. Com aquele desgosto apenas regressei em 1994 e recuperei a minha loja. Levei portas e janelas para recuperar o armazém onde eu trabalhava. A vivenda fui eu que pintei. O edifício onde eu tinha o instituto de beleza pertencia à OMA. Tive de fazer muitas manobras e investimentos para recuperar os estabelecimentos.
A dado momento, Dona Maria do Carmo informa-me que tínhamos uma viagem para a Namíbia. A Dona Fátima não quer ir? Fomos representar Angola. Quando voltamos, pensei:“aquele país é organizado, é aqui ao lado, é o país que me vai receber, não vou mais trabalhar nestas condições em Angola”.
Tinha reclamado dos imóveis em 1997, não havia procurador civil e os assuntos civis eram tratados com o auxílio do procurador militar. Ele disse-me: Tia Fátima, você tem toda a razão de recuperar tudo o que é seu, porque você tem todos os documentos. Mas, “minha mãe” eu tenho medo, tenho medo de assinar, assinar isto é assinar a minha sentença de morte, o que a tia acha?
Crenças e Costumes Espirituais
Eu fui confrontada com o Rei Vinongue no Cuando Cubango, era o grande feiticeiro[4], vestia-se de saias, todos os habitantes o temiam. O procurador disse-me “Eu é que vou morrer”. Uma minha amiga pediu-me “Fátima não o desafies, vais morrer”. Disse-lhe: eu não vou morrer e fui para procuradoria e tive de enfrentar o feiticeiro. Já estavam lá todos. O feiticeiro chegou com a mão no bolso e eu a olhar para cima, a repudiar, orando. Fez-me o desafio. Ele também subiu e sentou-se. Eu nunca tinha visto aquilo: ele sentou-se à minha frente e eu sempre ouvi dizer “quando um feiticeiro olhar para ti, não pestanejes”. Ele olhou para mim fixamente , a revirar os olhos e no fim ele baixou a cara. A seguir, fumou cachimbo à minha frente e o fumo voltava-se para ele. Eu sempre orando e clamando a Deus: “Deus viu o meu sofrimento, a arriscar a minha vida nos voos militares, a trazer mercadoria; se realmente eles tem razão, então o Senhor decidirá”. Ele fumava e o fumo voltava para ele.
Chamaram a sobrinha do Soba. O Procurador permitiu. Ela entra e pede desculpa, dirigindo-se ao Soba: “pai, esse assunto é entre nós as duas senhoras”. A questão é que ela queria ficar com a minha loja. No final do interrogatório o Procurador disse-nos: “amanhã venham saber quem fica com a loja.”
Logo a seguir, o Administrador chamou-me aparte e disse: “minha senhora, eu tenho três filhos e não quero morrer…”; outras pessoas vieram aconselhar-me a desistir do processo. Assim fiz e regressei a Luanda.
Empreender na Namíbia, 1998-2008
Preparei-me para emigrar para a Namíbia. Vivi naquele país de 1998 a 2008. Construí a minha casa, costurava para as embaixatrizes e senhoras do corpo diplomático. No final do primeiro ano, regressei a Angola para vender a loja e com o dinheiro da venda comprei a casa e estabeleci-me. Fui para a Namíbia com 450.000 dólares.
Assim que chegou a notícia“o Savimbi morreu” eu e a mulher do Samuconda que vivíamos na Namíbia, fomos as primeiras mulheres que galgamos a estrada da Namíbia para o Cuando Cubango para implementarmos uma fábrica e material de construção, na fronteira de Katuitui.
Aquela mulher conduzia muito bem. As duas passamos o Rundu e chegamos ao Cuando Cubango. Durante a viagem tivemos um furo e eu sabia mudar o pneu. Tirei a chave e quando comecei a desmontar o pneu a falecida diz-me: Comadre, vem aí um carro militar, vamos ficar sossegadas. Ficamos encostadas ao carro. Quando eles se aproximam, dizem-nos “sim senhora, mamães de coragem!aqui no meio da mata! O que vocês estão a fazer?”
Não tínhamos resposta e vimos o comandante sair da cabine, a Miza conhecia-o , era um amigo do Samuconga. Afinal, quando ele viu-nos a viajar sozinhas, mandou este comandante do exército do Cuando Cubango ir ter connosco para nos proteger. O Comandante vira-se para mim e pergunta-me:
- você é irmã do Samuconda?
- sou
- e você é a esposa?
- sou
- meninos, mudem o pneu!
Tínhamos passado a noite no Caiúndo, onde há uma ponte perto da casa do Administrador. Dormimos em um sofá recheado de percevejos que incidiram toda a noite, mesmo dormindo nos sacos de cama. Acordamos às cinco da manhã. A ponte ainda não estava a funcionar, apenas havia jangada. Eu conheço jangadas porque onde nasci e cresci andávamos de jangada. A Niza diz-me:
- oh Fatita, agora como vamos atravessar?
- pela jangada
- não vamos afundar?
- não, anda, coragem!
Os homens a olharem para nós, subimos para a jangada e disse-lhes:
- por favor, nós iremos dar-lhe um matabicho. Puxem a jangada e coloquem as travessas na jangada. A jangada é puxada por umas correntes que ficam de uma margem a outra.
Após, eles colocarem as travessas eu disse a minha amiga:
- “Niza, tu sabes conduzir. Põe o carro na jangada e concentra-te, basta virarmos a roda e caímos. Concentra-te, porque este rio tem jacarés”
E ainda a amedrontá-la!
- Vá, conduza!
Ela conduziu o carro para a jangada e eu a fazer-lhe o sinal, ela também era corajosa, aquela mulher pôs o carro na jangada. Uma vez na na jangada os homens que nos ajudaram puxaram-na até chegar a outra margem do rio. Dosse a Niza Digo-lhe: para retirar o carro da jangada conforme procedimento é igual.
- “já é canja, minha comadre!”
Chegamos a Menongue às 7 horas da manhã, almoçamos com o primo Zé Binda. Conseguimos terrenos no Katuiti e fomos ter com o soba, cumprindo tudo.
Estabeleci contacto com os empresários sul africanos desde aquela visita de trabalho da ASSOMEL. Então, depois de adquirirmos o terreno falei com eles para me contactaram na Namíbia. Ficaram contentes, fizemos uma reunião onde convido a Niza para entrar no ramo empresarial, reunimos com os sul africanos e acertamos montar uma fábrica de material de construção na fronteira, em Katuiti.
E eu como ajudei muito a SWAPO falei com uma pessoa amiga e disse-me “Fátima não há problemas, toma este documento e entrega ao responsável daquela área”.
Foi uma alegria, era pessoa que eu conhecia, já tinha almoçado em minha casa em Angola:
- mamã Fátima, você veio para a Namíbia?
- sim
- para fazer o quê?
- para construir uma fábrica de material de construção
Devido as guerra eu sempre tentava ter o máximo de segurança nos negócios.
- não tem problema Fátima, este terreno próximo à fronteira já é teu
- está bem, primeiro me reunirei com os sul africanos.
Depois da reunião mandaram uma delegação a Angola. Mas, naquele período o Governador era da UNITA e com ele já sabia que eu era do MPLA nao aceitou receber-me, o Governador Chindande. Estivemos sete dias à espera da reunião. No oitavo dia orientou para apresentarmos a proposta por escrito, fizemos rapidamente e entregamos.
Quando voltamos, até hoje dói-me muito, o sul africano filho dos empresários fabricantes de chapas, no Rundu, morreu durante a prospecção do negócio. Enviaram primeiro o filho e fomos ao Cuando Cubango, como não nos receberam, voltamos. Neste regresso tivemos um grande acidente, o rapaz morreu. Ele não estava habituado às estradas de terra batida, não deveríamos autorizar que ele conduzisse. Depois de passarmos a fronteira, fizemos uma paragem em Kuri Kuri para comer. Quando arrancamos depois de um quilômetro, dá-se o acidente, foi um despiste. Ele trava a 120km, as malas voavam, o canope desarticulou, fui a única que não foi cuspida, o carro era a gasolina, caso contrário ficaria carbonizada. A polícia enviou ambulância para nos socorrer, eu chamava “help me please, open the door”, eu não consegui abrir a porta, estava presa.
Quando pergunto, onde está o jimmy, ele estava deitado no chão a agonizar , eram onze horas, o sol já estava alto, tapei-o com o meu casaco e foi levado para o hospital, conseguiram reanimá-lo.
A polícia pediu para eu ficar para traduzir, a polícia pensou que o motorista estivesse bêbedo, disse-lhes que era musulmano, não bebia e perguntaram-me sobre duas garrafas de savanna, eram minhas. depois do interrogatório tive uma crise nervosa e fui levada para o hospital, quando estava melhor, agrafaram uma etiqueta a minha blusa para em caso de necessidade os serviços hospitalares de Angola tomarem conhecimento da medicação administrada pelos serviços de saúde da Namíbia. Em Angola não se faz isso.
Ele foi para a África do Sul, os pais enviaram uma avioneta ambulância que aterrou na pista improvisada depois de afastarmos o gado. Ficou imobilizado, apenas falava e morreu passado quinze dias, os pais disseram-me “Deus que faça o que puder”. Ele estava feliz na viagem a Angola, tirou retratos nos tanques de guerra e morreu após quinze dias, enviei o meu filho ao óbito, a viatura ficou danificada.
Naquele momento, perdi a vontade, a partir daquela data comecei a ter uma vida monótona, pedindo a Deus para me guiar. Verifiquei que a fazenda não funcionava e decidi vir para Lisboa para tentar viver sossegada porque em Luanda se tentasse fazer negócio é possível ser morto devido ao dinheiro, ou somos roubados.
Em 2004, voltei à Namíbia para vender a minha casa, demorou um ano a vender a casa, consegui vendê-la em cerca de um milhão de dólares namibianos. Enquanto estava à espera de clientes, o banco aconselhou-me a propor o meu preço. O banco namibiano tem confiança, vendi a casa, paguei o que devia ao banco.
Durante a residência na Namíbia fui a Angola algumas vezes em negócio. A propriedade do estabelecimento foi passada em nome do comprador em 2005. Ele pediu-me para ser eu a vender a loja visto não estar ainda em seu nome. Fui honesta, a advogada admirou-se. Prosseguindo com a minha vida, abri outra loja, tive outro desfalque “caí na rodela”. Foi nesta época que investi no negócio de compra e venda de bebidas alcoólicas e não obtive lucro nenhum.
Investir em Luanda, Período de Paz 2002
Investindo o capital remanescente na agricultura em Angola, comprei terrenos e as despesas do direito de superfície obtido somente em 2011. Cultivei cerca de 300 pés de limoeiro, depois de dois anos poderia colher toneladas de limão. Acabei por ficar apenas com setenta pés, o povo roubava no viveiro, outros foram destruídos pelos macacos e os poucos que deram frutos o povo roubava e vendia no mercado. Depois, continuei a fazer alguns serviços que foram aparecendo porque perdi o capital.
Adoeci e penso ser de desgosto, perder todo o capital e por ter chegado ao ponto de depender de outras pessoas, não andava, perdi a força de trabalhar a partir de 2017. Até hoje, os limoeiros dão fruto e o povo faz colheita.
Portugal, 2023
Vim a Portugal tratar-me. Brevemente regressarei a Angola. Tenciono vender a fazenda e investir na agricultura em Portugal ou em Malange. Recebi uma proposta para trabalhar em Malange em agricultura. Investirei em capital e trabalho, em contrapartida, repartirei os rendimentos com a proprietária. A proposta vem de alguém iniciante no negócio, negociaremos o período de graça. Parece-me uma boa ideia e como sou comerciante estou outra vez motivada. Provavelmente, iremos adquirir chocadeiras e ovos em Portugal para criarmos frangos para abate e venda de pintos. Vou orar e tomar a decisão final. Caso não consiga, apenas me resta regressar a Portugal e comprar uma casinha em Lisboa e criar galinhas e patos.
Conselhos as Novas gerações
As pessoas já não gostam de si próprias. Em Luanda nota-se que as pessoas não tem paz, não se vê a paz na cara das pessoas, as pessoas estão a procurar a paz. Vejo no rosto de muitas pessoas a procura de conflitos, há quem só queira conflitos. Onde é que uma criança de dez anos agarra em uma faca e corta mortalmente o irmão por estar com o seu telefone, esse menino quer paz, quer estudar?
O que se passa em Luanda “é só Deus!” O Senhor provavelmente anda muito triste connosco. Homem enfia a mulher em uma fossa. Em Luanda há mortes de pasmar. Filhos matam os pais, vemos pela televisão, o programa televisivo Fala Angola não esconde nada. Aqui em Portugal ocorrem situações idênticas.
A sociedade angolana não quer paz. Os jovens deviam segurar a haste da paz. Em cada mil jovens apenas cem parecem querer paz, porque há jovens que querem conflitos e não são os jovens que saíram dos bunkers da guerra, são os jovens nascidos desde o dia da notícia da morte do Dr. Savimbi, da data dos balões brancos.
A juventude deveria pensar na paz e não na aquisição de bens. Porque sem paz ninguém vai adquirir nada. Quando o Presidente João Lourenço reuniu com a Juventude, chamou todos jovens e um jovem respondeu ao Presidente “eu vou aguentar ser Presidente pelo menos cinco dias”.
Temos tantos campos para capinar, temos tantos sítios para comermos e viver bem, não é preciso o dinheiro do governo. Porque eu vou a Cacuaco onde há jovens a alugar terrenos para cultivar e também vão à escola. Será que estes jovens não são angolanos?
Há jovens que se limitam a fazer o seu negócio nas estradas, há os que fazem as “lifes” a ofender o Presidente, Pergunto ”esses jovens trabalham? “Pensam que chegar à presidência é fácil? Posso até concordar com a substituição, mas devemos ter em conta que as famílias angolanas são maioritariamente pobres e corre-se o risco do próximo Presidente não fazer o melhor. Pode não fazer melhor porque quando chegar ao Poder vai amparar os seus familiares, poderá fazer o mesmo que os antecessores. Não será fácil, não são fáceis as múltiplas tarefas do actual Presidente.
A nossa esperança seria a juventude acabar com isso, como? Fazerem programas e apresentá-los ao Presidente, projectos progressistas, não projectos a solicitar casas ou emprego. Acham mesmo que governar Angola é apenas criar emprego? Por exemplo, se alguém tiver dois hectares de abacateiros ou de milho, ao final de um ano colherá toneladas e assim ganhará seu dinheiro. Não precisa ser empregado de outrem.
O Angolano quer ser empregado, e toda a pessoa que quer ou prefere ser empregado, nunca tem o alcance da evolução de um país. Evoluir prevê fazer. E fazer o quê? Temos tanta terra, fico com pena quando vejo a extensão do nosso país, se todos nós direcionarmos a agricultura, uns criando fazendas de produtos agrícolas diferenciados….
Naquela porção de terra o objectivo não é obter dinheiro para consumo e para investir em equipamento. Não precisamos de importar óleo alimentar porque é feito de ginguba, girassol, gergelim e no nosso país temos tanto terreno para estes cultivos.
Mas, pensam ao contrário “queremos emprego,” que gênero de emprego se você não tem habilitações literárias para tais empregos? Por exemplo, Mendes de Carvalho disse “o povo fala na nomeação de mais um ministro analfabeto”, na ocasião pensei: ainda bem que reconhece, pois um enfermeiro, não apresenta competências para desempenhar função de Ministro da Saúde….
Saíram do maqui e depois do MPLA tomar Luanda, muitos dos nomeados não eram pessoas capacitadas para governar Angola. Angola tinha de ter assinado um tratado cuja vigência incluísse a manutenção de quadros coloniais até alcançar um certo patamar de desenvolvimento suficiente
Não se deveria expulsar os portugueses como se expulsou. Agora há muitos roubos. Aguardam pelas mamãs à sua saída da lavra para as assaltar. Que juventude é essa? Respondem: o Presidente não arranja emprego e eu pergunto aos angolanos, que empregos? Ao invés disso, deveriam prepararem-se e dizerem: cheguei, fiz este curso, estou preparado para exercer esta profissão. Quase ninguém aparece, quem vai lá? Costumo ver essas expressões nos “tik toks. “
Tem de haver desenvolvimento técnico, tem de haver engenheiros para agricultura, engenheiros de verdade, não frequentadores de seminários, haver regentes agrícolas conhecedores dos solos nacionais. Vemos a fazerem mistura de plantações, por não haver técnicos para realizarem essas análise, por vezes perdemos as colheitas, por não haver analistas, ninguém aparece, todos querem sentar-se nos gabinetes. É a esta paz que me refiro.
Alegam o consumo excessivo de álcool por falta de emprego. Oh meu Deus, você é oriundo de províncias agrícolas, vem para Luanda aguardar pelo emprego prometido pelo Presidente.
No meu caso, não voltei para a minha terra onde tenho muitos terrenos, o meu avô era português, deixou muitos terrenos. Ele foi comido por antropofagos, por canibais. A nossa fazenda chamasse Dundi, no mapa agrícola do Kuanza Sul encontrará as terras de Fernando Cabral Pereira.
Ainda não reabilitamos a fazenda por falta de acessos, a entrada é ao longo do rio, preciso de barcos. Sou mulher, precisaria de um barco rebocador. e penso”sou ainda encontrar aqueles patrícios”.
O que fizeram com a CADA? O angolano, destruiu o palmar que dava óleo de palma, as palmeiras foram todas cortadas para extração do maruvo. Aquela juventude que permanece analfabeta, deveria pensar: vamos falar com o governo para “pormos a máquina a funcionar de novo”, não foi o que fizeram. Saem destes locais outrora chave do desenvolvimento agrícola e vem para Luanda pedir emprego. Estão essas as pessoas preparadas para preservar a paz?
O gado dá-se bem no Kwanza sul, o caprino e o suiço, não pensam nisso. enquanto a juventude apenas pensar em trabalho de escritório e no poder, não haverá paz em Angola. Neste sentido, posso dizer que ninguém quer a paz porque ninguém mostra interesse no desenvolvimento do país.
No Bailundo há muito terreno, a maior riqueza que Deus ofereceu aos angolanos foram terrenos e são terrenos férteis, terrenos onde se planta uma bananeira e ela cresce. Até porque as bananeiras nascem, crescem e elas florescem , por vezes sem a intervenção humana.
Os nossos pais faziam casas de pau a pique, o meu pai não tinha casa de tijolo nem de bloco e não eram cimentadas. Éramos pequenos quando se construiu o quarto da meninas , nós próprias rebocamos a nova dependência: fazia-se um buraco na lama, amassavamos e se alisava com as tábuas. e quando o telhado é de capim, a palha é posta de forma a criar um toldo. Hoje em dia, o povo só quer morar no Kilamba.
Quando passo no Kilamba, vejo jovens que ficam na rua até tarde e a fumarem. Quem fuma, como vai trabalhar?, ou será que pensa em roubar os que estão a descansar para irem trabalhar no dia seguinte?
A Esperança na Paz Social
Perdi a esperança na paz social em Angola. Apenas quero um sítio para morar onde possa criar galinhas, patos e coelhos, os meus filhos perguntam-me: queres residir em Portugal e criar galinhas? Digo-lhes sim quero, para alimentar-me bem, de alimentos sem agrotóxicos. Em Angola os chineses produzem estrume composto por fezes humanas, a população não compreende e o programa de televisão Fala Angola partilha esta informação e por vezes o público fica agitado quando não existe razão.
Pela mídia recebemos informações de destruição das redes de saneamento básico, por isso interrogo que paz a juventude está a construir?
Decidi procurar a minha paz, sozinha, apenas acompanhada pelos meus familiares mais próximos. Tenciono viver em Portugal ou na Namíbia. Aquilo magoa o coração.
Eu sou do MPLA, mas gostaria que a UNITA também ganhasse as eleições, mas como ganhar, se eles chocam entre eles. Houve umas eleições que desfizeram o Presidente Adalberto. Acredito que vamos ter paz, eu não defendo o MPLA, estou a defender o meu País e permaneço no MPLA porque julgo que todo aquele político que muda de partido, não é político, não sabe o que é a política. Durante a formação política nos primórdios da independência o Dr. Luini disse: o político tem que lutar até vencer. O político que não lute até vencer, não é político, é um atrapalhado, não sabe o que quer. Por isso, Fátima quando você for boa Coordenadora da OMA não desista. Foram eles que nos aconselhavam.
Resumindo, qual a principal recomendação para a juventude alcançar o desenvolvimento?
Verem como vai o mundo nesta época, verem a riqueza que têm na mão que é a Agricultura, porque sem agricultura não há comida e sem agricultura não há emprego. E da agricultura partir para a indústria, produzindo óleo, tecidos, etc. Importamos fibras sintéticas para fabricar tecido.
Quando fiz o curso de costura industrial em Portugal havia aulas sobre os tecidos, fabricados a partir de produtos: naturais, sintéticos e misturados. Havia o teste da queima dos tecidos e pelo cheiro se confirmava a composição da fibra. Na minha adolescência, a primeira vez que passei pela estrada do Dondo a Luanda apreciei que os campos brancos, via-se as mulheres a colherem o algodão. Porque não fazemos isso? O período de cultivo e oleira do milho é semelhante, é de rápida colheita. Temos muitos terrenos, estou a falar, mas não tenho muito mais forças. Se eu fosse jovem experimentaria. Como ninguém rouba o algodão por ser matéria prima, (não é um produto acabado,) a sua produção é mais segura, da mesma forma ninguém roubará gergelim, ou seja a estratégia é plantar algo que os amigos do alheio não possam vender de imediato.
Enquanto estivermos na era da exportação não teremos paz porque o nosso dinheiro sumirá. Há necessidade de produzir internamente para manter a riqueza no país e quando isto for alcançado chegará a paz definitiva!
Cheguei a dar comissões, hoje os custos de empréstimos são elevados, os períodos de assistência na carência são curtos, já tive oportunidade de créditos agrícolas mas não eram rentáveis.
A sua motivação vem da sua experiência juvenil, a juventude actual vive neste ambiente produtivo ?
Vivem todos encafuados em Luanda, saíram do campo e a maioria ainda é filha de camponeses. Os filhos não são agricultores porque preferiram ir abanar uma camisola na rua, ao invés de permanecerem com os pais no cultivo das terras, para prosperarem.
Vi na televisão um malanjino que semeou algodão no terreno dos avós, mas não recebe incentivos, por isso não consegue prosseguir. Esse rapaz deveria ser segurado com duas mãos, a debulhadora de algodão não deve custar muito dinheiro. Seria uma debulhadora pequena adequada a sua capacidade. O coração dói, por ver o mundo dessa forma.
Este depoimento foi realizado na Póvoa de Santo Adrião, em Lisboa, em Outubro 2024.
Entrevista e Transcrição: Marinela Cerqueira
Revisão e Ediçao: Judite Luvumba
Palavras Chaves: CADA|Empreendedorismo|ASSOMEL|SWAPO|Kuito|Namíbia|
[3] Conselho de Ministros em Kuando Kubango. A primeira sessão extraordinária da Comissão Permanente do Conselho de Ministros realizada fora de Luanda teve lugar esta quinta-feira. Realizada em Menongue, na sede do Governo provincial de Kuando Kubango, foi presidida pelo presidente do país, José Eduardo dos Santos.https://www.rfi.fr/br/africa/20110616-conselho-de-ministros-em-kuando-kubango
[4] Em Angola por vezes atribui-se poderes ancestrais de cura, adivinhação e outros e esta concentração de poder é acompanhada de mitos que por vezes levam a ser também apelidados de curandeiros ou feiticeiros, ou seja a distinção

