Skip to content Skip to footer

Memórias do Teatro, do Cinema e da Televisão, Orlando Sérgio

O renomado dramaturgo  Orlando Sérgio,  transforma o grupo de teatro da Faculdade de Medicina de Luanda a encenar o pós-independência no Teatro, Elinga, com outros fundadores do teatro nacional, sob a  influência de  José Mena Abrantes  desde o Liceu Paulo Dias de Novais.

A sua memória imaterial descreve concisamente a vida de uma criança e adolescente filho de um funcionário público assimilado no icônico bairro periférico de Luanda, o Bairro Marçal e quando jovem na  Vila Alice. A estrutura arquitectónica destes bairros eram os becos, por onde se encontravam pelas moradias, onde donos e inquilinos partilhavam o mesmo espaço comum, o quintal. E nesta época esta área comum era relativamente extensa, pois sua mãe tinha uma horta, nestas periferias também viviam portugueses comerciantes, inclusive, alguns comerciantes de café e o padeiro que distribuía diariamente pão espanhol pelos miúdos do bairro.

Durante a viagem pela Licença Graciosa dos seus pais, privilégio das famílias de assimilados,  estuda  em Lisboa. De Abril a Setembro  de 1974 vivenciou as mudanças ocorridas  no ambiente estudantil em Lisboa e de regresso a Luanda presencia um ambiente semelhante. Regressa ao seu Marçal em Setembro de 1974 e seus vizinhos  de origem portuguesa estavam de malas arrumadas. Pouco tempo depois, passa a residir na Vila Alice.

Descreve factos do período de transição e do pós independência ocorridos nestes lugares e sítios, situando a oralidade nos lugares onde os factos ocorrem, no local onde vivia mas também onde estuda, pratica teatro, contextualizado no ambiente social da época: Marçal, Vila Alice,  Liceu Paulo dias de Novais, Faculdade de Medicina, Elinga Teatro. 

Ao longo do depoimento descreve mudanças sociais nos vários períodos do conflito armado. No período de transição, socorre feridos, aprende a manejar armas, mas não aparece no dia do teste final. 

Suas memórias o transportam para o Pós Independência, como a detenção na  cadeia de São Paulo e a perda de familiares e amigos, facto impactante em muitos outros jovens da época e afirma a sua geração ter sido particularmente politizada, narrando alguns dos cenários  sociais. 

Intercala a vida profissional entre  a antiga Metrópole e Luanda, Orlando Sérgio tem sido bem sucedido na sua carreira profissional.  E apresenta às novas gerações alguns factores determinantes, como o empenho no desafiante papel de Otelo e reconhece  o seu  êxito no programa televisivo Conversas No Quintal, seu povo o trata carinhosamente por Moisés Adão.

Introdução

Eu chamo-me Orlando Sergio, nasci em  1960 a 23 de Setembro em Malange, vivi em Malange até aos cinco anos  e depois vim para Luanda.

Tenho irmãos, dez irmãos, cinco de cada lado. Espantoso, embora esses irmãos sejam uns de pai, outros de mãe, parecem todos uma família. Aliás, visitam-se mais entre eles do que eu os visito. Nisto tudo, eu sinto-me protegido pelos meus irmãos porque a profissão de actor é uma profissão frágil, quando não há trabalho eles têm sido o meu suporte em muitas dessas situações.

Também tenho filhos. Aos vinte e três anos casei-me, hoje tenho uma filha, a Ana Soraia, é médica, a exercer em  Angola e tive mais tarde, a Xaluma, vive em Lisboa, formou-se em negócios. E agora já tenho duas netas.

Eu não tenho muitas memórias de Malange. Algo ficou sempre na minha memória, ver mugir as cabras para se beber o leite. Eu vivi muito tempo no bairro  chamado Treze onde estavam os meus avós, era  no campo, uma pequena herdade. Também,  me lembro que nessa altura faziam caçadas e  tenho uma vaga memória de em uma delas esquecerem-se de mim no meio do mato e eu ter  ficado horas a gritar até eles voltarem a reencontrar-me. Lembro-me de um jardim ao lado do Palácio da cidade.

Bairro Marçal, Luanda  anos 60

Vim para Luanda com a minha mãe e o meu padrasto que então tinham estado em Malange. Ele  era funcionário público e naquela altura os funcionários faziam deslocações. Viemos em um  Chevrolet verde, um carro antigo, para Luanda e fui morar para o Marçal. Primeiro, em uma casa com um quintal comum, onde morava  um tio do meu padrasto e a irmã deste tio do meu padrasto. Lembro-me de um senhor que tinha um nome muito característico, o Sr. Miminho, chamavam-lhe Miminho porque ele fazia pastéis.

Esta moradia foi transitória, depois mudei para uma outra casa mesmo no Marçal, também com quintal comum. Eram várias casas que davam em um quintal comum. As pessoas que moravam nessa casa eram vizinhos e donos.  Uns proprietários portugueses  do café e portanto era comum vermos os caminhões chegar, o muro não era alto,  chegavam  com café, acho eu para distribuírem por Luanda.

Esse quintal tinha também algumas características de campo porque dava para ter hortas  e a minha mãe como tinha vivido em Malange em uma herdade tinha esse hábito. Nós tínhamos  hortas onde havia tomate, chá de caxinde, uma série de vegetais. Lembro-me de ter o vício de abrir o tomate, por sal e comê-lo, fiz isso muitas vezes.

A minha mãe era muito protetora, eu tinha pouco contacto com o bairro e havia poucas crianças  Eu  acabei  por durante muito tempo viver somente em um ambiente femenino, era a minha mãe e as empregadas. Antigamente, tinham o hábito de trazer empregadas da província para ajudar, era a minha babá a Conceição, a Emilinha. Depois, nasceu a minha irmã.

A Escola 147, Luanda

Fui  estudar para a Escola 147, era no fim da Avenida dos Combatentes, onde fiz a escola primária. A professora era muito querida, acompanhou-nos até a quarta classe e depois saiu dessa escola, era a professora Maria de Jesus, mulher de um senhor funcionário da FINA. Ela tinha o hábito de fazer um mapa e no fim de semana levava alunos para sua casa.

Ao contrário de outros professores ela não  batia. Era comum  naquele tempo  haver uma régua dentro da sala para castigar os alunos que cometessem faltas. Ela não batia e a primeira vez que ela teve de recorrer a violência foi buscar um outro professor que deu as palmatoadas porque ela não batia mesmo.  Na quarta classe veio uma outra pessoa, era mulher de um capitão português. Essa sim, não só batia como instalou um caos, porque nós entrávamos às oito e meia e saíamos ao meio dia e meia com um intervalo no meio. E ela  entre o meio dia  e o meio dia e meia dava as disciplinas de história e de ciências naturais e punha os alunos  a fazer perguntas aos alunos e quem não respondesse,  alguém  batia no colega que não respondesse.

Claro, na hora da saída havia pancada lá fora. Eu até era uma das vítimas porque eram das disciplinas que eu mais dominava e portanto tinha de bater  nos outros, e se não batesse ela arreava em mim. Durante muito tempo fui vítima de bullying e de pancadaria. Uma vez,  até deram-me um soco e o olho quase saiu da órbita até ao dia em que me enchi de coragem e bati no Pireva que era  o chefe da violência da sala e passaram a respeitar-me a partir daquele dia e a diminuir a violência. Esse período foi marcante porque nós não estávamos habituados a violência  dentro da  sala e as palmatoadas e reguadas.

Escola Dom João II, Luanda Anos 70

Essa escola também tinha uma característica, naquele tempo nós entravámos na escola primária, as turmas tinham  uns trinta alunos, éramos vinte e quatro pretos e o resto eram brancos.

Depois, fui para o Dom João I,   escola anexa ao Liceu Salvador Correia  onde estudei o 4º e 5º ano, hoje equivalente a 5ª e 6ª classe.  Nesta escola a composição social muda, as turmas começam a ter maioritariamente brancos, menos pretos. Os que nunca reprovaram estudavam sempre de manhã e  as turmas da tarde eram sempre repetentes e prolongavam a sua presença na escola.  Tinha  colegas que se tornaram muito conhecidos, o caso do Mi Faria que foi nosso chefe de turma, já falecido e depois tornou-se uma figura muito marcante aqui em Luanda.

Depois, acabei a 6ª classe e fui matricular-me no liceu. Estudei no Liceu Paulo Dias de Novais, mas só estudei um mês e meio, depois fui para Lisboa porque os meus pais tinham Licença Graciosa.

Lisboa, 1974

Claro, nós tínhamos fascínio pela metrópole. No ensino colonial nós estudávamos a história toda de Portugal. Foi uma grande desilusão. O navio atracou no Cais do Sodré. Luanda era uma cidade nova e de repente eu sou confrontado com uma cidade velha, no inverno e com  frio. Lembro-me de ter perguntado à minha mãe: oh mãe, isto aqui é que é a metrópole,  eu não estava habituado ao inverno.

Fomos morar para os Anjos, exactamente por trás da Igreja dos Anjos, na Rua Palmira, 44, 1º D. E fui estudar para o Liceu Dom Pedro V,ao lado do Jardim Zoológico, em Lisboa. De repente, a escola deixou de funcionar, só se falava de política, preferia-se professores que supostamente seriam da PIDE, havia uma delegação da PIDE DGS em frente, muito perto do Liceu e havia sempre manifestações. Era uma festa! Acho que chumbei nesse ano, faltaram professores, era complicado.

25 de Abril, 1974

Nesse ano ocorreu um acontecimento que transformou tudo. Em Abril de 1974 deu-se o 24 de Abril, mudou tudo.

Depois, em Lisboa era mais complicado, no Liceu Dom Pedro V  no periodo da tarde havia cerca de três estudantes negros. Portanto,  éramos raridade no meio daquela gente toda. Depois, em Setembro de 1974 voltamos para Luanda para casa onde moramos no Marçal.

Mas, Luanda também tinha se transformado. Havia havido lutas nos musseques entre taxistas brancos e comerciantes. E o sítio onde nós morávamos era habitado maioritariamente por portugueses, tinham fugido.  Todo aquele ambiente do quintal tinha acabado.

Lembro-me de haver um senhor padeiro também morador do quintal, o Sr. Luis, tinha um Land Rover e quando chegava às dez da manhã buzinava e nós íamos ter com ele porque ele fazia pão espanhol com passas, de vários feitos. Isso acabou. Lembro-me de o ter visto ali a Sagrada Família antes de se irem embora.

Mas, eu já não conhecia as pessoas, não ficamos muito tempo e mudamos para a Vila Alice. Eu já tinha um contacto na Vila Alice porque o meu pai já morava na Vila Alice desde 1972.

Há um pormenor, eu sou filho único do mesmo pai e mãe, e depois cada um casou. O meu pai e a minha mãe desentenderam-se e eu só fui registado aos onze anos de idade, só conheci o meu pai por essa altura. Durante esse tempo todo estive registrado como filho ilegítimo. Hoje a lei já não permite. Mas, era muito comum no espaço português,  não era só em Angola, haver filhos ilegítimos.  Agora, não é possível, é obrigatório  registar o filho logo ao nascer. Acabaram com isso.

Voltei para  Luanda, para o Liceu Paulo Dias de Novais,  já estava descaracterizado e  já havia as greves. Houve uma greve  longa que não permitia o funcionamento normal. Aliás, os liceus estiveram fechados durante muito tempo devido a essa greve, politizando-nos a  todos.

Teatro no Liceu Paulo Dias de Novais, Luanda 1974

É o meu primeiro contacto com o teatro. Na época o José Mena Abrantes aparecia no liceu e  fazia um sketch de teatro com notícias do jornal da época. E eu fiz de árbitro, fazíamos coisas simples e didáticas, como o mau e o bom: o mau  era  o da  FNLA,  o bom era o do MPLA e havia o árbitro e resultava sempre na vitória do lutador do MPLA. Quer dizer, havia essas brincadeiras aproveitando  as coisas que eram ditas nos jornais.

Antes, no Liceu Feminino faziam uma cenografia monumental. Depois, o José Mena  Abrantes trabalhava com um outro encenador, o Zeca Teixeira e tinha um grupo o Chingange que fez um espectáculo chamado  Poder Popular. Eu não fiz esse espetáculo, mas fui enquadrado, ainda fiz dois espectáculos . Os últimos foram em Bom Jesus, na Açucareira da Tentativa, em Caxito. Este espetáculo marcou o fim do grupo, quando nós lá fomos  acabou, já havia um processo em ebulição, a greve. A independência criou muitas expectativas nas pessoas. As pessoas pensavam que no dia a seguir à independência sua vida melhoraria, mas, na verdade, não mudava.  Havia um processo de greve em ebulição e a história do espectáculo que nos fazíamos contava uma greve, a peça Poder Popular. Na segunda-feira, a greve foi declarada, usavam as palavras usadas por nós no espectáculo. Angola já era um país marxista. As greves foram proibidas e acabaram por suspender o grupo de teatro. Há um interregno grande no grupo. Antes de 1980, autorizaram outra vez o grupo mas alteraram o nome, passou-se a chamar Xiwenga e eu no primeiro espectáculo não estava.

Nessa altura,  eu tinha-me  envolvido, jovem, nos movimentos políticos e acabei ficando dois anos na cadeia de São Paulo. Há de acrescentar este pormenor porque vai ser constante na minha vida: montei uma  peça de teatro dentro da cadeia, mas essa não deu problemas. Sai da cadeia e volta ao Liceu Paulo Dias, sai em 1977. Voltei a o teatro com o Tchinanga e o José Mena Abrantes,  acabei  o Liceu.

Depois, tive de fazer um curso acelerado  que hoje corresponde ao 12º Ano, para entrar para a universidade, fiz o PUNIV no Mutu ya Kevela.

Faculdade  de Medicina e Teatro, Luanda Anos 80

Entrei para a Faculdade de Medicina  e fiz medicina até ao 4º Ano na Universidade Agostinho Neto. Fundei um grupo de teatro na faculdade e encenei um espetáculo chamado “ O Alfredo Felipe” (enlouqueceu)   e Depois?”. Era a história de um maluco. Na altura,  os malucos começaram a ser postos fora da psiquiatria e andavam pela cidade. Então, contei a história de um jovem que foi para a guerra e acabou por enlouquecer, era uma crítica social.

E depois convidei o Mena Abrantes para vir encenar uma peça connosco. fizemos um espectáculo a “Andjela com a Ironia dos Monstros”. Já não eram apenas os estudantes de medicina, havia estudantes de Direito a começarem a participar, chamamos ao grupo Grupo dos Estudantes Universitário do qual eu era o director.  Nessa altura, nós não tínhamos financiamento da universidade para funcionar. Era a associação dos estudantes quem dirigia.

Então, fundámos outro grupo desligado da Faculdade de Medicina que passou a  denominar-se Elinga Teatro, perdura até hoje. Formamos esse grupo e o Reitor Guerra Marques  passou a tutela do Centro Cultural Universitário para o Elinga Teatro. Fizemos uma Peça de Pepetela com a qual fizemos um torneio pela Itália. Ainda, participei na produção de um outro espetáculo, na peça de um espanhol, “Os Velhos  Não Devem Namorar”.

Nós participavámos no teatro, mas  não vimos teatro, não tínhamos muitas referências sobre o teatro.

Eu já não estava muito bem na faculdade de medicina  por várias razões, uma delas era ter de ser médico militar que não me agradava nada e decidi ir estudar teatro.

O Conservatório de Lisboa, 1989

Em 1989, fui para o Conservatório de Lisboa. Fiz os testes e  passei, entrei  e a partir do 2º Ano comecei o meu percurso no teatro profissional. Em 2002, fiz o primeiro espectáculo no Teatro da Cornucópia.

E depois, nada fazia prever eu fazer um percurso por William Shakespeare dirigido pelo João Mota. Um director de teatro, na altura muito conhecido, o Benito, ja falecido, tinha um sonho antigo de fazer o Otelo de William Shakespeare com um protagonista negro. Nunca tinha sido feito em Portugal por um negro. A peça poucas vezes tinha sido apresentada e nunca tinha tido sucesso. O João disse-me:

  • olha, o Benito quer falar contigo, quer que tu faças o Otelo

Cá para mim pensei “estes gajos devem estar a brincar comigo, só pode ser brincadeira…”.  Eu não liguei. E o João diz-me:

  • mas já foste lá falar?
  • mas, oh João, como é que eu vou fazer o Otelo com a pouca experiência que eu tenho?
  • vais, o Benito pediu, quer que tu faças.

Outras professoras pressionaram-me: vai lá falar. E fui falar com o Benito,  ele explicou-me o que era e o que queria e eu disse-lhe “você sabe a minha experiência”, ele encorajou-me a fazer “você é capaz”.

 Meti-me numa trabalheira. É uma peça de quatro horas de espetáculo com intervalo ao meio e  com o extenso texto a decorar em portugues, ainda por cima não era  o português  coloquial de agora, mas o português antigo. Foi onde começou o meu percurso como actor profissional, a profissão que eu tenho até hoje. Este percurso como actor em Lisboa inicia com este facto.

Começo  a fazer  uma série de espetáculos nos teatros em Portugal, posso destacar alguns. Por exemplo, fiz o “Alguém Pode Olhar Para Mim” no Teatro Constelação, de João Lourenço com o Jean Peri, um galã mais velho e com o Diogo Infante, o galã da actualidade na altura, uma outra peça que também fez bastante sucesso … esse percurso durou até 2001.

Televisão

Durante este percurso, aos poucos fui chegando à televisão. Não foi fácil a minha adaptação a televisão, a primeira proposta que me fizeram não correu bem. Não foi para o ar, era um programa do Carlos Cruz “Ideias com Histórias”. O programa nunca teve muito sucesso. Ele conversava com as pessoas  e  eu fui convidado a fazer o papel de Martin Luther King .

Eu pensava  que nunca mais ia fazer televisão. Para meu grande espanto, alguns meses depois a mesma produtora com o Carlos Cruz, acabou por me chamar  outra vez para fazer um pequeno papel no “Sozinho em Casa”, eles adoptaram mais câmeras.

Depois, chegou o cinema. O primeiro filme de forte impacto foi o “Corte de Cabelo” de Joaquim Sapinho, na altura foimum sucesso de bilheteira para o que era habitual para os filmes portugueses. e também,  era um filme  que não era para fazer os habituais papeis de negro, era um filme onde o meu perssonagem tinha uma profissão.  Um policia, esses papeis mais simplificados para negros que nós encontrados na dramatologia ocidental.

Nessa altura fiz “Na Prisão” com o Camilo de Oliveira, era um actor muito conhecido em Portugal, falecido. Foi o meu ponto alto na televisão em Portugal.

Depois, vim para  Angola, em 2001 voltei ao espaço do Elinga Teatro. Eu não ia cá ficar. Fui ao Elinga e fiquei desolado, estava cheio de pó, havia buracos no tecto, doeu-me e pensei “Vou tentar”. Começo outro percurso, a dinamizar outra vez o espaço do Elinga.

Dois anos depois, fui convidado para fazer um casting na TPA para um programa chamado “Conversas no Quintal”. Era um casting feito por brasileiros. Aqui em Angola  não me conheciam muito como actor, passaram a conhecer-me por esse programa e valeu-me a popularidade, Até hoje toda a gente me reconhece na rua, trocaram-me o nome por Moisés Adão, era o nome do personagem.

Também, fui fazendo algumas peças de teatro. As duas pessoas importantes feitas em Angola foram o “Quem Me Dera Ser Onda” do Manuel Rui Monteiro dirigida pelo Cândido Ferreira é uma peça dirigida pelo Miguel Hurst chamada “Was the Albert”, uma peça sul africana emblemática, eu e o Miguel tínhamos visto no São Luís em Lisboa encenada por um grande senhor, Peter Group, um dos maiores encenadores do século XX e ficamos fascinados e prometemos a nós próprios que um dia faríamos este espectáculo e fizemo-lo aqui, espectáculo também de bastante sucesso, éramos apenas dois actores, eu e o Raul.

Tenho feito mais espectáculos teatrais. Ultimamente, não faço tanto porque não tenho meios e as salas não têm meios e é cansativo ter de improvisar tudo. Cada vez que vais fazer um espectáculo começa outra vez tudo do zero, não está nada… e isto não me agrada muito.

Tenho dedicado mais tempo a televisão e ao cinema e agora também a coordenar uma residência artística também ligada ao cinema, já é o terceiro ano consecutivo que abrimos  esta residência. No fundo, nós recrutamos três jovens de áreas artísticas diferentes e são motivados a fazerem uma curta metragem. Este ano, essas curtas  metragens  serão apresentadas esse mês.  Tem ganho prémios e andando pelo mundo, pela minha grande surpresa. Afinal, uma curta metragem não tem de ser um produto acabado, que tenha tanta aprovação, se calhar é porque há pouco.

Brincadeiras e Tempos Livres

Eu estava pressionado a ficar mais tempo em casa, a rotina escolar-explicação, a socialização era neste âmbito. O contacto com o bairro foi aos poucos.  Portanto, o futebol era uma brincadeira.  Depois, na 5ª Classe tinhas educação física e aprendias todas as disciplinas desportivas. Depois, fixei-me no basquete, ainda fui para o Benfica, hoje  Petro, joguei nos juvenis, treinados pelo Mário Palma, um treinador famoso. O Marçal tinha o Futebol Clube de Luanda onde hoje é a Cidadela.

Na Vila Alice o basquete era muito popular. Era habitual fugir de casa para ir aos  jogos de basquetebol seniores à noite no Clube  Vila Clotilde, saltar o muro de casa para vir ao jogo. Uma vez, custou-me caro, na altura já começavam a por gradeamentos nas casas, fiquei preso no gradeamento quando ia pular, tenho uma cicatriz até hoje (risos), traquinices. Foi um primo meu que me puxou e depois o Domingos Van Dúnem levou-me ao Hospital do prenda, por sorte ele conduzia com duas mudanças como nós, fui suturado. Como íamos muito à praia e arranjaram-me uma ligadura impermeável, mas eu fiquei com uma cicatriz feia.

Nós íamos regularmente à praia porque era fácil chegar a praia, a praia da Rotunda, descia-se a pé pelas Barrocas do Miramar, ou íamos a Praia da Chicala onde habitualmente íamos ao sábado porque ali ficávamos a saber onde havia as festas de sábado.

Convidados ou não, senão íamos mesmo “a pato”, como chamávamos na altura. As festas também eram um divertimento que nós tínhamos aos fins de semana, onde começamos a consumir álcool. Com a mudança do regime, as coisas ficaram bem rígidas, começamos a ter o nosso primeiro contacto com o álcool nestas festas.

O namoro naturalmente começava entre colegas. Quando entramos para o liceu, passou a ser misto. Começou a ser um frenesim, começamos a estudar com raparigas , algo que nunca tinha acontecido, era a primeira vez. Para o Liceu Feminino, hoje Ginga M`Bandi foram estudar os primeiros rapazes, os mais atrevidos. Antigamente, tínhamos um espelho colado no sapato e andávamos a ver as cuecas das raparigas, daí deixamos, elas usavam umas batas curtas, já tínhamos as colegas ao lado. Foi a  época das primeiras masturbações e ….  Eu particularmente, era tímido, era o dar a mão e um beijinho. Eu só comecei a namorar a sério aos dezenove anos quando saí da cadeia, porque  a mim foi-me interrompido o ciclo. Mas, foi logo também namoro, fomos viver.

Factos Marcantes

Há algo impactante, Angola era um país colonial e facista. Depois do 25 de Abril houve a ruptura dessa mentalidade.  Começaram as influências dos hippies, embora em Angola fosse um folclore porque o movimento hippie nasceu com a história do Vietnam, pacifistas. Mas aqui,  boa parte dos hippies eram filhos dos colonos.  Portanto, não havia essa conexão política tão acentuada. Isto misturou-se  com um outro tipo de leitura, com William Reich, a revolução sexual  e nesse grupo há uma libertação sexual como se  Maio de 1968 tivesse chegado a Angola. Nessa altura, ocorrem mudanças,  uns começaram a viver juntos, uma espécie de libertinagem que depois vai marcar as nossas vidas.

A Geração Politizada do Pós Independência, 1976

Há essa “coisa” com a política.  Essa geração a que eu pertenço, foi muito politizada, com a independência.  E eu já vinha um bocado influenciado de Lisboa por ter visto o 25 de Abril, os estudantes angolanos que lá estavam ao sábado muitos iam comer a nossa casa e só falavam política. Tornei-me um entusiasta da política e meti-me com uns movimentos de extrema esquerda. Aqui em Angola eram os Comités Amílcar Cabral  (CAC) e depois fizeram a Organização Comunista de Angola (OCA). Essa deriva acabou tudo na cadeia. Uma cadeia politica com tudo que lhe é inerente: interrogatórios com tortura, não há julgamentos, ninguém sabe quando é que vai sair da cadeia, com mortos a mistura, um periodo muito negro. Mas, mesmo assim  sobrevivemos.

Acabamos por sobreviver: a comida era horrível, tínhamos de nos organizar por forma a comermos comida de casa. Ter um cuidado grande com o corpo, muita ginástica se fez ali. Também, muita leitura para perder o tempo. Para dar-vos um exemplo, um livro entrava novo na cadeia e saia velho, isto em uma semana porque o livro era lido por horário, um lia das cinco às seis, outro das seis às sete, o livro de tão manuseado quando saia de de lá estava complectamente desgraçado (risos). Também, com recurso aos jogos, graças a isso, aprendi a jogar quase todos os jogos de cartas, aprendi xadrez. E também, como havia uma predominância de intelectuais  apesar de tudo nas nossas celas, eram celas para sessenta pessoas, numa cela para vinte, lembro-me que na minha cela estávamos sessenta pessoas. Eu lembro-me que na minha célula havia três médicos, estudantes de medicina, três ou quatro engenheiros, advogados. Fomos organizando uma forma de transmissão de conhecimento vários e também de brincadeiras, chegamos a simular uma televisão.

Grandes produtores de bebidas fermentadas, nas primeiras vezes fomos apanhados porque as bebidas fermentadas cheiram. Fermentavam com tudo, com compotas, com batata doce,  com o que desse para fermentar. Mas, de tanto sermos apanhados aprendemos que o arroz não cheirava, a medida era: cinco de água, duas de açúcar e duas de arroz, durante uma semana e resultava em um líquido aquoso já alcoólico, depois daquele líquido  adiciona-se outra vez açucar e a terceira parecia um vinho branco, aquilo embebedava. Eles só nos viam todos bêbados a cantar. Quando morre o  Agostinho Neto, fazem uma tremenda revista às celas e apanharam-nos. O alambique foi apanhado e engraçado, eles próprios, os guardas da cadeia é que nos forneceram o arroz.  Acho que foi o Areias que lhes disse precisar de tomar um banho tradicional de arroz e eles deram-lhe uns sacos com arroz. Então, logo a primeira vez deram-nos meio saco de arroz. Não nos apanharam antes devido a uma resistência eléctrica que criamos na cadeia: juntam-se duas colheres, põe-se aqui uma madeira para elas não se tocarem e a passagem da corrente faz resistência com essa água.

Isto era muito útil porque nos fins de semana não havia visita e tínhamos de comer. Este sistema de energia dava para fazermos peixe frito, farinha, tínhamos o peixe na água quente e fazíamos caldo. Isto não apanharam, era arriscado porque tínhamos de descarnar o fio elétrico e podíamos apanhar um choque, para prender a resistência.

Eu sou o mais velho de Angola como país e um traço muito grande ao longo da minha existência foi a violência. No tempo colonial, a colonização era óbvia: via-se quem tinha as melhores oportunidades, quem tinha as melhores casas na cidade. Aliás, eu fui pontuando como era a presença negra na escola que vai diminuindo consoante vai subindo o degrau, propositadamente! Essa incidência, por exemplo em Malange, não posso afirmar (são memórias que me contaram mais do que eu propriamente tenha vivido). Mas, aqui em Luanda,  por exemplo, o policiamento era feito no bairro periférico Marçal, lembro-me de rusgas porque andavam à procura de gente que fugia da guerra, mandavam os militares a fazerem rusgas. Lembro-me da exibição de polícia montada,  e   com cães.   Tudo isso às vezes era rotineiro.

A organização dos musseques principais, o Bairro Operário, é um bairro que quase não tem becos, mas o Marçal já tem becos e eles queriam sempre evitar a existência de becos porque havia sempre policiamentos. Lembro-me de haver um policial , era o Macaco Cão de quem toda a gente tinha medo.

Lembro-me também que cresci com uma coisa escrita em grande “MPLA” em uma parede  e aquilo ficou lá sempre, nunca apagaram e das  pessoas ouvirem programas de rádio.

Lembro-me de ter ido ao Uíge, a Damba e de ver pessoas acorrentadas, os pés acorrentados,  a andar pela rua.

Veio o 25 de abril e a guerra voltou a cidade, já cá tinha estado em 1961, mas essa eu não vi. Lembro-me quando cheguei de Lisboa os comerciantes estavam armados, as pessoas nos bairros também estavam armadas. Pequenos tiroteios começaram a fazer parte da nossa vida.

Depois, aqui na Vila Alice,  a FNLA estava na Avenida Brasil em um ponto alto e a Vila Alice é um bairro de moradias. Havia troca de tiros, frequentes, mortes. E eu lembro-me de um episódio: ao lado da casa do meu pai havia uma casa onde funcionavam os serviços médicos do MPLA e nós íamos ajudar os feridos que vinham das escaramuças dos musseques que haviam na altura. Eu lembro-me da primeira vez em que vi uma pessoa a morrer ao lado de mim… Eu fiquei muito desconfiado com a guerra a partir dali, nunca me saiu aquela imagem e nunca me mobilizei para a guerra.

Ainda tive aulas no bairro Operário. Naquela altura, eles não se importavam muito com a idade de quem ia aprender, aprender a montar e desmontar armas.  Mas quando foi a altura dos tiros faltei, não fui, quando havia a prova de fogo não fui.  E acho que aí eu  desisti, na minha cabeça meteu-se algo “ esquece a guerra”. Não faz parte do meu eu.

Mas, essa violência foi galopando com coisas muito tristes, muitas mortes, muitas ausências. De repente, havia pessoas, muitos amigos começaram a morrer, a desaparecer, começou a ser constante.

A guerra enquanto não chegava  aqui a Luanda, nós ficávamos quarenta e cinco dias sem luz, com todas as dificuldades que isso criava.

Lembro-me que o senhor que me fez a circuncisão foi morto como bombista, o enfermeiro, punha bombas aqui em Luanda.

O Último Conflito Armado, 1992

A única  coisa que eu decidi não assistir foi 92 e fiz bem porque   se calhar não estaria aqui se tivesse visto, porque tinha percebido o que ia acontecer e fui-me embora.  Eu já estava a estudar e a trabalhar em Lisboa. Eu vim a Luanda fazer um programa para um Partido Político do Filomeno Vieira Lopes, a FPD, um programa de rádio e então  tinha acesso a muita informação e percebi que iria haver confusão, iam matar-se e fui-me embora.

Lembro-me de ter de fazer o exame para o Conservatório de História de Arte e o professor era o Duarte Cruz, Secretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e não houve exame nenhum, ele queria saber coisas de Angola e eu disse-lhe:

  • professor vai haver guerra em Angola
  • tu és maluco

Eles estavam empenhados como mediadores. Deu-me um catorze e ele só dava dezoito para cima e espalhou pela escola toda: O Orlando diz que vai haver guerra em Angola e durante uns quinze dias fui mal visto.  Houve mesmo a guerra. Eu voltei seis meses depois a Luanda e a cidade cheirava a corpos incinerados por todo o lado, a morte tinha feito uma visita a Luanda.

A Paz, 2002

Em 2002,  o fim da guerra  foi muito engraçado. Nós estávamos a  gravar o Quem me Dera Ser Onda para a televisão, no Elinga Teatro e entrou o Mena Abrantes e disse-nos que o Savimbi tinha sido morto. Primeiro, não ligamos. passado um tempo, sai o comunicado, começaram os tiros na cidade. Parou a gravação, ninguém falou mais, arrumamos tudo. Quando descemos olhamos para o lado e estava um filho do Savimbi, o Sakaita. Na altura ele morava em um hotel próximo ao Elinga. Olhamos para ele e pensamos “está tudo a comemorar e mataram o pai dele”. Olhamos uns para os outros (caralho!). Era uma situação muito estranha, esse episódio marcou muito para o fim da guerra.

Faculdade de Medicina

Isto foi uma coisa, o que nos aconteceu aqui? Angola era adminstrada por brancos maioritariamente, havia poucos negros  com grandes cargos na administração. De um dia para o outro a administração colonial desapareceu. Não havia muitos negros a saber conduzir carros, andava-se os carros a entrar nos quintais das pessoas. A Carta de Condução tirava-se no Ministério da Defesa. A cidade ficou complectamente vazia. E tiveram de recomeçar um país ainda por cima com guerra, com todas as incongruências.

Eu estou a dizer isso porque na Faculdade de Medicina, uma faculdade com meios mais ou menos aceitáveis, nós estudávamos medicina com poucos exames de diagnóstico. Quer dizer, estudávamos,  compreendemos, mas não havia exames, a ecografia tinha apenas uma pessoa a trabalhar  e era fechado quase como se fosse  sagrado, fechado.  Houve pessoas que não alargaram, aguentaram, imagine quantos médicos devem ter ficado na cidade era muito pequena, mas havia muito poucos médicos, foi um esforço para manter a saúde, essa faculdade com poucos meios. A faculdade de Medicina já tinha um microscópico eletrônico, um instrumento enorme deixou de funcionar.

Felizmente, tivemos uns professores que na altura  agarraram, eles não tinham títulos universitários, eram os melhores alunos e mais alguns professores que tinham ficado, agarraram naquilo e conseguiram manter, por a  faculdade a funcionar e a produzir médicos, que nós sabemos não eram maus porque depois  foram para  Portugal  e muitos foram fazer a especialidade e conseguiram fazê-las.

E só depois começaram a vir os internacionalistas cubanos e soviéticos, houve mesmo ali um grupo que se aguentou. Houve coisas heróicas nesse sentido  e depois diluíram-se.  Enfim, caminhos e políticas erradas dificultam tudo, mas conseguiu-se.  Houve surtos de doenças que foram estudados e  doenças foram controladas apesar dessas carências.

Angola tem essa parte heróica, essa parte de esforço de pessoas que ficaram aqui,  apostaram e conseguiram fazer com que o país se mantivesse até hoje.

Gostaríamos que fosse muito melhor, na minha opinião poderia ser muito melhor. Mas também, sei que os pressupostos eram tão frágeis que às vezes tenho de dizer que isto é um milagre de existir assim conforme está.

Conselhos às Novas Gerações

Eu sempre fui partilhado, sou uma pessoa com características agregadoras, sempre fui agregando pessoas à minha volta. Para fazeres grupos de teatro tens de agregar, tens de conquistar público e  sempre dei o que não tinha permanentemente aos outros. Sempre tive pessoas  porque ao lado de mim sempre tive muitas pessoas que se motivaram para o teatro e para outras disciplinas artísticas. E eu já mencionei que hoje estou a fazer uma coisa estruturada, essa residência artística. Mesmo ao longo do meu percurso em Lisboa, eu reparava que os actores mais novos entravam nas companhias normalmente ficavam ligados a mim e até me davam parte da responsabilidade de dar-lhes as dicas e isso continua até hoje, embora eu não goste muito da função professor, do ensino estruturado que é o estar a repetir.

Eu gosto de encontrar, de descobrir o núcleo de criação de uma pessoa e se eu souber estimular para ele continuar. Mas, de um modo que ele não crie dependência porque quero que ele vá a sua vida rápido. Criar autonomia e independência de um modo rápido é fundamental nestas disciplinas é fundamental uma pessoa ter de raciocinar por si, pela sua cabeça.

Quer dizer, há coisas que nós não podemos fazer mais por serem competência do estado. Podia empenhar-me na construção de um teatro,  lamento muito o nosso estado nunca ter uma política social estruturada. Muitos dos primeiros dirigentes de Angola foram escritores, mas isto foi uma das coisas que  depois foi-se perdendo, eles foram sendo substituídos por tecnocratas com pouca contacto com a cultura.

Recordar que embora na faculdade de medicina, numa das mais duras e mais difíceis durante um tempo houve um núcleo cultural.  Quer dizer, a universidade para além do currículo deve ter actividades extra curriculares e complementam o ensino e dão essa dimensão universal às pessoas  que de lá saem. Aliás, uma das nossas debilidades das pessoas  que de lá saem é essa.  Eu mais rápido sou convidado para falar em uma universidade fora de Angola, nunca me convidaram porque aqui não privilegiam isso.

Então, o que aconteceu foi que não temos uma política cultural bem estruturada há muitos anos, um orçamento ínfimo, muito pequenino, que não permite mudanças, por exemplo um museu é capaz de ficar anos com a mesma colecção.

E isto vai levar a algo, eu vejo que se não se puser a mão vamos ter um homem angolano triste.  Aliás, já o temos,  com a cabeça pouco aberta, pouco formatada e isso nos fragiliza, há uma parte do conhecimento humano que nos vai escapar. E é difícil sensibilizar o poder político para essa realidade. De tempos a tempos lembram-se reconstituem ou fazem uma sala, mas não há orçamento (de funcionamento), não há manutenção.  Passado uns anos (10) passa-se por lá e está tudo destruído. Ainda agora vi isso no Bié. Uma sala renovada , passado quinze anos é um escombro.

Queremos fazer turismo, uma coisa que faz mover o turismo é a cultura. É só olhar para cidades como Paris, ou olhar para o Museu de Guggenheim , passaram mais de cem mil pessoas depois da construção do museu. Quer dizer , há uma equação a fazer, até para justificar grandes estruturas em curso como Aeroporto. quem cá vem tem de vir de vários sítios, há procura de várias  coisas, é uma pena.

Eu desejo que as futuras gerações sejam mais atrevidas, mas há humildade para isso.  É preciso questionar. Por exemplo, essa coisa do mais velho “ser o sabichão das dúzias”, ser o dono da sabedoria, tem de contestar. Porque é que é o mais velho? Os jovens têm as suas ideias, é preciso inovar.

Outra questão é a afirmação de ser nossa tradição porque o poeta disse a Nossa Tradição… A nossa tradição não é estática , ela também vai se modificando, é preciso estar atento, desconstruir. É preciso desconstruir uma série de pequenos tabús que se criaram que por  vezes são falsos ou são inventados por pessoas…. é preciso estar atento!

Outro conselho é fugir um pouco das questões identitárias, para fazer cultura não é sempre necessário.

Esses pressupostos não podem ser eternos , é esse o único conselho.

Importância da Memória Oral

Quem conta aumenta um ponto. A oralidade tem problemas porque quem conta nunca conta da mesma maneira. Quem deseja avaliar algum documento com base na oralidade tem de ter em conta algumas limitações que esse tipo de comunicação tem e não lhe atribuir um estatuto de verdade absoluta que vem dali.

Tem de estar muito atento pelo conhecimento pela via oral. isso é uma comunicação que por vezes vejo as pessoas a valorizarem excessivamente. É preciso estar atento. Um exemplo,  visitei o Reino do Bailundo e nas visitas ao Reino a certa altura contam o seu mito de fundação.  Ora, a história real do reino duraria umas cinco horas e ninguém está disponível, tem de ser resumido. Ele tinha um tradutor de umbundu ao lado. Quero dizer,  foi a melhor representação  de teatro que eu vi o ano passado: havia  monólogo, solenidade e entretenimento ao mesmo tempo. Aquilo é o recurso que aquela solenidade tem para se manter viva, é aquilo que irá perpetuar e manter aquela comunidade viva. Agora ainda tem uma função, quando perde a função é outro problema. E tenho dito.

Este depoimento foi realizado, no Doce Recanto, Luanda, em Março de 2025.

Audiovisual: Muki Produções

Transcrição: Marinela Cerqueira

Revisão: Judite Luvumba

Palavras Chaves: Elinga Teatro|Novelas|Filmes|José Mena Abrantes|25 de Abril|Faculdade de Medicina|Conservatório de Lisboa|A PAz|Vila Clotilde|Faculdade de Medicina de Luanda