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Experiência da Música Tradicional Angolana em Portugal, Paulo Pascoal Sebastião

Paulo Pascoal Sebastião viveu, nos últimos vinte anos, entre Angola e Portugal. À semelhança de muitos angolanos, problemas de saúde, pessoais e de familiares, levaram-no a fixar residência em Lisboa. Integrado na diáspora angolana, descreve com clareza as principais diferenças entre viver em Angola e em Portugal. Sente o vazio do convívio familiar e social característico dos angolanos, embora a sua profissão lhe permita manter proximidade com a comunidade angolana e outras comunidades africanas. Valoriza, em particular, a segurança e o respeito pelo ser humano como aspectos centrais da vida no país europeu que o acolheu.

Refere o núcleo familiar alargado em Angola e compara-o com a dimensão reduzida do núcleo familiar em Portugal, identificando o combate ao nepotismo como uma das dificuldades no seu país de origem. Reconhece as diferenças entre os contextos familiares, observando que muitas crianças europeias crescem sem conhecer o afecto de tios ou primos, enquanto na sua terra natal os laços familiares se estendem aos vizinhos e às famílias dos amigos de infância.

O seu conhecimento musical resulta de um carácter introvertido, orientado desde cedo para o estudo de instrumentos musicais. Em criança, fabricava brinquedos de lata e figuras natalícias em barro. Na adolescência, inspirado pelo primo e campeão de basquetebol Cidrak da Conceição, ambos construíram violas artesanais, inspiradas nas utilizadas pelos Jovens do Prenda. O primo era vizinho de Zé Keno, no bairro do Prenda. Na juventude, a sua aptidão para as artes manuais levou-o a confeccionar camisas para os amigos do bairro, o que o motivou a costurar a bandeira de Angola hasteada numa das sedes de bairro da JMPLA, no dia 11 de Novembro de 1975.

Quando teve contacto com o seu primeiro acordeão, levou-o para casa e, movido pela curiosidade musical, tornou-se autodidacta. Para além do acordeão e do órgão, aventurou-se na aprendizagem de instrumentos de percussão tradicionais, como a kissange, os bongós, a marimba e a dikanza. A escassez de instrumentistas destes instrumentos criou oportunidades para aplicar o seu saber em várias comemorações e festividades, privadas, públicas e institucionais.

Esta disponibilidade para colaborar em eventos nacionais transformou-o, sempre que necessário, num verdadeiro filantropo. A História Social de Angola conheceu-o na conferência “Portugal: que futuro para os emigrantes?”. Nesse dia, apesar do cansaço, mostrou-se disponível para contribuir com um momento de música nacional no cocktail e no encerramento do evento. Inesperadamente, o momento contou com a interpretação de clássicos de Sofia Rosa, com a participação do seu sobrinho e de outros músicos presentes, dignificando a reflexão promovida pela LIU África e pela Welwitschia sobre o futuro dos emigrantes em Portugal.

O segundo encontro ocorreu de forma igualmente ocasional. Tivemos oportunidade de o ver tocar vários instrumentos, conversar nos intervalos e, a partir daí, convidámo-lo a partilhar a sua memória com a Plataforma História Social de Angola.

INTRODUÇÃO

Sou o Paulo Pascoal Sebastião, mais conhecido por Paulo Pakas – Pakas diminutivo de Pascoal. Nasci a 3 de Setembro de 1959 no bairro Popular, filho de Pascoal Sebastião – polícia e de Conceição Mateus da Costa – quitandeira. Fui para o bairro da polícia aos três meses de idade, quando foi atribuída uma casa social ao meu pai naquele bairro que fica entre o bairro Calemba, Tourada, Unidade Operativa e o supermercado Jumbo. Fiz o ensino primário na Escola Primária 225 no bairro Popular, o ensino secundário na Escola Secundária João Crisóstomo, o quarto ano no Instituto Industrial de Luanda.

Independência

Recentemente, alguém lembrou-me ter sido eu a confeccionar a bandeira içada na JMPLA da Calema. Lembro-me que o irmão do Paulo Kassoma foi ter comigo, eu confeccionava a minha roupa e as camisas da malta do bairro. Precisava-se da bandeira para ser içada no dia da independência ( já não me lembro na JMPLA,) na Calemba ou na Tourada, costurei a bandeira a máquina. Hoje, olho para a ban­deira e penso como consegui costura-la, deram-me os retalhos e eu consegui, não sei se ficou perfeita, apenas sei que costurei a bandeira de Angola dias antes da independência.

Infância

Eu cresci naquele bairro com se tivesse nascido no bairro da Policia,  os nossos mais velhos eram as famílias Cassoma, Lopito, Evaristo Kizuanda que era o enfermeiro do bairro, a família do Cidrack da Conceição, Paulino Fernandes da RNA e mais próximo na Calemba tínhamos o Sampaio e o N`Guxi. Na infância brinquei nestes bairros.

Na adolescência e na juventude frequentei esses bairros e outros como a Vila Alice, Bairro Popular, Rangel, o Cariango onde moravam os meus tios.

Brinquei também próximo à praça do Cajueiro onde a minha tia foi quitandeira, a minha mãe também foi quitandeira, vendia  no mercado de São Paulo e depois no Mercado dos Cajueiros. Mas vive sempre no bairro da polícia com o meu pai.

Governo de Transição

Aos catorze anos de idade quando os movimentos chegaram a Luanda, surgiu o Governo de Transição e naquela época o ASMA, era a empresa principal de material de guerra e outros para militares, era adstrito ao R-20.  Aos catorze anos, o Senhor Paulo Cassoma foi o director do ASMA, quando os colonos estavam a  abandonar tudo. Os jovens todos do meu bairro, através dele  foram colocados no ASMA  para aprenderem uma profissão e eu como ficava isolado no bairro queria fazer alguma coisa, primeiro fui ajudante de mecânico, depois fui trabalhar para os escritórios.

Biblioteca Nacional, 75-78

Em 1975, frequentei o curso de bibliotecário na Biblioteca Nacional depois da independência. O músico Calabeleto também trabalhou na BCR, mas ele já era adulto e nós adolescentes. Adaptei-me ao trabalho da biblioteca nacional  durante o curso  de biblioteconomia e quando terminei o Director por eu me ter adaptado e gostar de mim pediu a minha transferência definitiva e passei a ser funcionário da Biblioteca Nacional,  o Director era o Domingos Van Dúnem e o Ministro da Educação e Cultura era o António Jacinto. O pai do falecido Kueno Aionda também trabalhava lá. Trabalhei até 1978.  Com a categoria  de escriturário  de 2ª, delegaram-me a  reorganização de inventários de bibliotecas, fiz o inventário do Cantinho das Malas para ser entregue a outro órgão.

Depois, resolvi deixar a Biblioteca Nacional para fazer  o curso de Magistério Primário porque gostava muito de ensinar e de dar aulas. Terminei o curso no Instituto Nacional de Educação e dei aulas na Petrangol onde lecionei  cerca de três anos lectivos, era professor noturno, a seguir dei aulas em uma escola  em São Paulo, pertencia a coordenação escolar, como coordenador adjunto, depois  passei por outra escola em Alvalade, coordenação escolar nas escolas  Bom Saber e pela Santa Paz. Mas, tudo isso conciliado com a música.

Realçar que eu fui um dos primeiros músicos a tocar nos hotéis  Trópico, Tivoli, Presidente e restaurante da ESTA. No período 1987 a 2000, a  tocar nos hotéis,  seguiram as minhas pegadas, sem descurar  os experienciados naquela altura,  a banda Welwitchia e a da Clara Monteiro já tocavam em hotéis.

Quando comecei a tocar acordeon,  todos admiravam-se pela minha versatilidade, tocava todo género de música, geralmente quando as pessoas pensam em músicos de acordeon  relacionam a música europeia, não foi assim comigo, consigo adaptar-me a outros gêneros,entre os quais o africano. E no entanto, comecei a tocar com um pianista  no hotel Trópico  e como  o Director também era do Hotel Tivoli passamos a exibir-nos também naquele local e mais tarde, passamos a tocar no Hotel Mundial e na ESTA. A partir do Tivoli surgiu o convite para tocar no Hotel Presidente, era por uma semana e acabamos por  trabalhar naquele espaço quatro anos.

Fundei a Afro band. Também, fui o primeiro a tocar na Jembas no Mussulo, por nossa proposta e acabamos por trabalhar cerca de quatro anos aos domingos, depois passamos a tocar no Zanga, Sonhos Dourados e outros resorts na  Ilha do Mussulo.

E quando o grupo vai a Bruxelas, vim a Portugal fazer contactos para a gravação do nosso disco. O meu primo Lanterna apresentou-me ao proprietário do estúdio Energia da Cor, simpatizou comigo e  fez-me a proposta de ser o produtor de semba, o estilo musical não dominado por este estúdio, havia  dificuldade de encontrar e comecei a produzir semba. Encontrei o Paulo Flores ainda participei em uma das suas músicas, fui produzindo outros artistas, produzi uma do moçambicano Guilherme Silva, Rei Helder, o Helvio. Começaram o trabalho com os produtores com  o Ciro cruz, graças a ele conheço  a produção.

Música Tradicional Angolana na Diáspora, Lisboa

Para além da produção musical, quando Portugal estava em crise,  o movimento de músicos angolanos para Portugal reduziu e a dado momento se transferiu o estúdio para Luanda, onde trabalhei alguns anos. O Siro depois preferiu optar por um novo trabalho. Continuei e fiquei por Lisboa acidentalmente, não por decisão mas por doença e continuo aqui até agora

Aqui na diáspora também produzi  o disco do António Paulino, do Chico Poyo, estive a produzir músicas  do Calabeto e do Robertinho, terminados em Angola, produzi um disco do Jivago apesar de duas das músicas  terem sido produzidas por outros músicos, outras versões das famosas canções Ramiro e Avó Tété.

Terminei músicas da Lourdes Van Dunem, iniciadas em Luanda  no estúdio do Eduardo Paim e terminadas em Lisboa no estúdio do Matias Damasio, contei com o seu apoio. Tive a sorte dela ter  as duas  músicas promocionais feitas, foi no período  em que adoeceu antes do seu falecimento. Essas músicas ficaram perdidas e  há dois anos lembrei-me delas e pedi ajuda ao Adido cultural, Dr. Luandino Carvalho e ele pediu apoio ao Damásio para eu conseguir terminar estas músicas.

Outros artistas, como o Nónó Magumba, há muitas  músicas produzidas  em Lisboa e que nunca foram tocadas em Angola, porque esses artistas levaram as músicas para outros países, principalmente  para França.Também, tive a experiência de trabalhar com a Nilsa para a qual produzi um disco e outros.

Com o mestre Capitão realizamos workshops, é um grande  percussionista angolano, trabalhou para o Ballet  Kilandukilo. Também participei em workshops a falar sobre o semba e a rebita. Estive várias vezes na Itália, em França e na Suíça em workshops e com convidado a tocar em escolas de musicas, porque  as escolas de músicas europeias, por vezes  estão interessadas em ouvir os sons da rebita e do semba ao vivo., e como conheciam  a minha aptidão nestes gêneros musicais , era convidado.

Novatos da Ilha e a Rebita, 2006

Falando da Rebita,  ainda me considero membro dos Novatos da Ilha, o único grupo sobrevivente. Entrei no Novato da Ilha em 2006 aquando da homenagem ao Minguito, neste acto  convidaram-me  para ser o acordeonista. Tive um AVC em 2012 e acabei por ficar ausente e o Tolinha e o Horácio da  Mesquita substituíram-me. Passado alguns anos,  regressei e ainda participei em algumas actividades. Quando foi atribuído o Prêmio Nacional da Cultura estava presente, senti também fazer parte deste prêmio. Gosto mais da Rebita.

Nas várias digressões pelo estrangeiro a Rebita sempre teve mais aderência e admiração. Lembro-me da participação em um Festival, o Mestre Capitão, eu e o bailarino Adelino , no festival de Barcelona em 2018, foi a Rebita que conquistou a maior audiência do público. Um dos estilos musicais desprezado em Angola, mas nos outros países é um dos estilos com muita aderência. No festival de Barcelona em 2018 , a tocar apenas com o percussionista Capitão e o bailarino Adelino a orientar o público, quando  demos conta, o público está a dar a sembas e em outros sítios, a Rebita e a Cabecinha, em restaurantes e festas tem muita aderência.

Alguns, confundem a Cabecinha ao Funaná, o estilo do Baló Januário, do Tunjila Kajukota, estilos malanjinos  tem aderência na Europa. O bom de tudo seria se houvesse maior divulgação destes estilos.

Tenho Rebitas infantis dirigidas a crianças, apenas me faltam apoio para gravar as músicas e vídeos para criança.  A Rebita está a desaparecer porque os adultos não usam, pouco ligam , se não fosse a rebita da Banda Maravilha, anteriormente dos Merengues, se não fosse essa rebita, não se falaria mais deste estilo musical, pois dificilmente outras bandas fazem Rebita.

O Novatos da Ilha tem muitas Rebitas compostas. tenho algumas gravações iniciais , não terminadas porque fiquei sem condições físicas e acabei por perder  uma grande parte destas gravações. Uma das minhas crianças, desgravou  sem querer e perdi arquivos importantes. a minha intenção e pedir apoio para gravar a rebite incentivar o seu uso e o do acordeon, por ser um instrumento pouco usado no país. a juventude tem uma visão errada sobre   o acordeon,  pensam ser útil para música para velhos ou para a música europeia, este pensamento é errado. Comecei a tocar acordeão aos dezasseis anos  e tocava música das antilhas, havia festas  onde os convidados preferiram ouvir a música ao vivo, a tocar Luis kalaff e outras músicas latinas e no entanto, não  era velho e conseguia tocar  estas variedades musicais. 

Nesse momento,  consigo tocar com o acordeon  músicas para mais velloso como  a rumba, tanto para os mais novos como os do Tiago kadafi, Matias damásio e outros cantores da nova geração, toco-as nas festas para os mais jovens.

Factos Marcantes

Brincadeiras e Brinquedos

Cresci a falar muito pouco, fruto da minha timidez, dizem que falava pouco, a minha mãe chegou a levar-me a uma consulta por ficar  três dias sem falar, mas depois concluíram que era fechado, eu não era muito de brincar, ficava fechado a ler. Lembro-me de algumas brincadeiras, como catar alumínio para vender a uma senhora, o Cidrac incentivava-me a irmos apanhar o dilolo. Dilolo é ferro velho, apanhamos pratos, marcamos e íamos vender.

Junto a Casa 70 morava um caçador de pássaros, diariamente ele tinha de três a seis caixas de pássaros e nós  pensávamos os pássaros para ele vendê-los.

Brinquei e fabriquei trotinetes, também tive algumas novas porque o meu pai trazia da 2ª esquadra onde trabalhava, no Bairro Operário.  A polícia apreendeu as  trotinetas e bicicletas aos miúdos que andavam de  trotinetes na rua e eram guardadas na esquadra.  Quando  houvesse excedente,  diziam a ele que poderia levá-las para os seus filhos. Tive trotinetes exclusivas e também bolas. Por vezes,  jogava bola, era bom guarda-redes e a jogar a defesa.

Em criança era bom a  fazer brinquedos de lata e de barro (lodo). Acabo de me lembrar de ter ganho um prémio de natal  na escola onde estudei a primária,  a 205, no Bairro Popular. Houve um ano em que a escola primária 205 venceu o concurso de Melhor Presépio de Luanda, porque  os bonecos feitos por mim eram os mais perfeitos, consegui fazer a Virgem Maria e São José, e o meu colega era bom na pintura, conseguiu  pintá-los como se fosse pintura de fábrica,  tanto foi assim que a equipa responsável pela inspecção partiu alguns bonecos para testar a originalidade, para acreditarem terem sido feitos por nós. Lembro-me que a professora ofereceu-me  rebuçados e anunciou que a atribuição do prêmio foi graças aqueles bonecos.

Também, fabricava carros de chapa, lembro-me ter feito um trator que eu encontrei um mecanismo de  a pá do trator funcionar, recolhia e dispersava areia. Tinha os meus 6-8 anos e depois aos nove anos comecei a fazer as violas.

Deixei de jogar a bola devido ao acidente de  trotinete, uma vez  apanhei uma queda tão grande que os joelhos ficaram defeituosos,  por medo da fricção não contei à minha mãe e prejudiquei-me. Cheguei a ter uma lesão  e precisar de tratamento.

Alimentação

Era miúdo quando iniciou a construção do supermercado Jumbo, em Luanda, íamos para lá brincar  nos montes de areia e ver os tratores. o bairro da madeira, por trás do Jumbo ainda não existia, era onde íamos caçar passarinhos. O Jumbo foi o primeiro espaço comercial em Angola, foi uma admiração!Por volta de 1977, à volta da Tourada foi organizada a primeira praça informal, chamavam-na Tourada e mais tarde Calemba onde se começou a fazer e a vender refeições.

Música

Comecei a praticar música aos nove anos de idade, fazia violas de lata. O meu primo Cidrack da Conceição vivia com a mãe na Prenda onde vivia o Zé Keno e outros que iniciaram com essas violas. Este meu primo também frequentava a casa do pai no Bairro da Polícia, foi ele que me influenciou a fazermos violas de lata e começarmos a tocar.

No início de 74, comecei a tocar em um conjunto musical que se formou no bairro Cassequel de Lourenço, era o grupo do Manuel Duarte, vindo de Moçambique, quando comprou equipamento, o viola baixo era o Raique que também foi baixista do Afro Sound Star. Como eles viam-me sempre a tocar viola a porta de casa, perceberam que eu tocava bem, eu nunca quis estar metido na vida artística e diziam-me: tu tocas bem. Então, surgiu essa brecha do Manecas, fui chamado para fazer parte do grupo. O vocalista era o Toly Bamba, recém chegado do Congo, tocava viola e percussão. Naquele tempo, usava-se bongôs, ainda não havia baterias, quando o Neves aparece comprou-se uma bateria para ele.

Em 1974, a primeira actividade em público foi em um domingo, o MPLA organizou no Campo da Revolução, no espaço onde mais tarde foi o mercado Roque Santeiro. Foi nesta actividade que o Kissanguela se exibiu em público pela primeira vez.

O Beto Pederneira era o nosso trompetista. A partir daquela data começaram a surgir convites para tocarmos em casamentos, sempre sem deixar o meu emprego. Voltando à 1974, pertenci a JMPLA da Calemba, havia muitos jovens, recordo de um dos mentores ser o mais velho Kundi Paihama, davam-nos treinos para militares.

Assisti à independência na praça da independência, fui assistir o içar da bandeira, o discurso de Agostinho Neto e depois fomos para o palácio também assisti ao içar da bandeira no palácio.

Em 1984, eu resolvi deixar a educação e me manter apenas na música, também naquela época a música dava mais dinheiro.Dediquei a parte principal da minha vida à música, quase cinquenta anos dedicados à música.

Em 1976, fiz parte do conjunto ANANGOLA, com o Vando, Cady Cazeca, Paulito, Hilário. Lembro-me que naquela altura, em 1976, os únicos conjuntos activos eram o ANANGOLA, os Anjos e os Kiews foram os que sobreviveram de 1976 a 1980. Tocava viola, conciliando o solo ao ritmo, por vezes tocando bongô, ainda não era época da bateria. Em 1980, estive para integrar-me nos Jovens do Prenda.

Aprender a tocar Acordeon

Em 1976, encontrei o acordeon em casa do Rosário e eu nem sabia o que era, estava a pensar que fosse um piano pequeno, um brinquedo, ele disse-me que era um acorde­on. Segurei naquilo, fiquei tão apaixonado, apenas sei que já não o larguei mais, levei-o para casa e eu mesmo fui descobrindo as notas, a minha maneira, e ouvindo algumas das músicas do Minguito, mas também estava na moda a música das Antilhas, do Les Eglon, Experience 7 e os primeiros toques que comecei a fazer eram destas músicas, apenas sei que álbuns meses depois já tocava acordeon, desenrascar-me, e as pessoas que me ouviam a tocar também ficavam admiradas como era capaz de tocar daquela forma.

Em 1978, o meu primo chega de Malanje para o óbito do meu pai, não nos conhecíamos. Por coincidência, quando ele vê o acordeon lá em casa espanta-se. E eu não sabia que ele e o pai tocavam acordeon nem sequer os conhecia. Ele já tocava bem o acordeon, eu ainda não. ao vê-lo a tocar com o abaixo achei que teria de me empenhar, aprender a tocar com o baixo. Passados dois anos, em 1980 ele foi trabalhar no Namibe, encontrei-o, tocava órgão, era o organista mais famoso do Namibe.

Nesse dia, também resolvi que tinha de aprender a tocar órgão e fui aprendendo. Até esta altura, eu só tocava acordeon e o órgão fazia-me confusão devido a posição horizontal do teclado, os Jovens do Prenda apenas queriam alguém experiente. Eu  disse-lhes que seria uma adaptação ao instrumento, não me proporcionaram este tempo de adaptação, penso que me daria bem.

O  Conjunto Fenomenal

No Namibe fui aprendendo, quando regressei tocava no Fenomenal, nessa altura já tocava bem órgão e fazia algo espantoso, o conjunto Fenomenal foi fundado por Brando e Dulce Trindade, grandes músicos da praça musical angola­na. A dado momento, o Brando fez uma viagem e naquela semana havia uma actividade, como não havia o solista ao nível do Brando, eu disse ao grupo que podia fazer no órgão aquilo que ele fazia com a viola, riram-se, duvidaram, mas o Jivago disse “se ele diz que pode fazer, vamos experimentar uma música’’ e viram que eu consegui e foi dali que me destaco como organista, onde eu tocasse as pessoas admiravam-se com esta minha habilidade. As pessoas rodeavam-me, alguns pensavam que eu era estrangeiro. principalmente nos centros recreativos.

Produção Musical

Quando vim para Portugal, adaptei-me e desenvolvi a produção musical. Comecei a produzir discos e músicas de várias artista, produzi um dos discos de Teta Lágrimas, as pessoas desconhecem, fiz músicas da Lourdes Van Dúnem, produzi grande parte das músicas de Betinho Feijó, toquei acordeon na música desses artistas e também, da Toya Alexandre, Margarete do Rosário, Carlos Burity, entre outros musicas internacionais angolanos.

Senti-me mais realizado, foi o meu melhor momento da minha vida artística, representar o Minguito no Caldo de Poeira , organizado pela Rádio Nacional, durante o qual toquei todas as músicas do Minguito e de outros músicos.

Fizemos uma viagem à Bélgica a convite de um angolano, e fomos tocar no casamento da sua filha e disseram-nos termos sido os primeiros angolanos a exibir se naquele local. Apenas o OK Jazz teria feito tal proeza. Dirigia a Afro Band, tocávamos no hotel Presidente, em Luanda.

Conselhos Às Novas Gerações

Deixarem o imediatismo que é o maior erro da juventude, pois ignoram que Angola de hoje custou dezenas de anos a ser erguida. Primar ou empenhar-se nos estudos, na formação técnica e intelectual, porque só assim Angola pode prosperar na sua plenitude científica, social e económica.

Outro aspecto, é a cultura do perdão que deve ser muito incentivada e praticada não só pela juventude, assim como pela Nação angolana . Enquanto não tivermos o conceito de perdoar, iremos perpetuar os grandes males e conflitos que já se passaram com os nossos antepassados, ao invés de nos concentrarmos em construir um presente e futuro harmonioso que é o nosso tempo de vida. Peço-lhes também, que oiçam bem as palavras do Papa Francisco sobre o perdão.

Reconciliação Nacional

Sou de opinião que, a verdadeira reconciliação nacional em Angola que vai apaziguar e acalmar a ira dos espíritos de toda a gente que lutou e morreu pela sua independência e está zangada com o MPLA, por ter sido excluída da lista dos que lutaram pela independência, seria ver nesta celebração dos 50 anos de independência, falar-se de todos os protagonistas da independência de Angola, constando também a FNLA, a UNITA e os seus líderes. Esta será a única atitude que levará Angola a uma verdadeira reconciliação nacional, porque todos os angolanos se sentirão representados pelos seus partidos e seus líderes do coração. A par disto, a alegria de se sentirem reconhecidos e mencionados os feitos históricos dos seus antepassados, a moral de toda gente estará muito mais alta para participar activamente em todos os desafios pelo desenvolvimento de Angola.

Ao MPLA, ninguém tira o protagonismo de ter içado a bandeira da independência assim como ninguém tirará o protagonismo do Dr. Agostinho Neto como Fundador da Nação.

Este depoimento foi realizado na Gulbenkian, em Lisboa no verão de 2025.

Entrevista e transcrição: Marinela Cerqueira

Preservação de Elefante: Os elefantes continuam a estar à mercê da caça furtiva, cada vez mais activa na região do Cuando Cubango, Moxico e Bié por causa do marfim, muito procurado por traficantes asiáticos. Angola é um dos países com maior biodiversidade da África, abrigando 6.650 espécies de plantas, 227 espécies de répteis, 275 espécies de mamíferos, incluindo a Palanca Negra gigante e o Mabeco (cão selvagem), 78 espécies de anfíbios e 915 espécies de aves. https://www.voaportugues. com/a/mil­hares-de-elefantes-v%C3%A3o-chegar-a-angola-mas-teme-se-pela-sua-seguran%C3%A7a/71956l2.htm1