Introdução
Acesso livreChamo-me João Ângelo Stattmiller de Saldanha Alburquerque Neves, nasci em 1972 em Luanda e cresci na Praia do Bispo, o bairro dos meus avós.
Este estar entre mundos de certa forma foi algo que marcou minha infância e a minha adolescência. Acho que seria bom falar um pouco do que é ser angolano numa circunstância dessas, percebendo que no tempo colonial as coisas funcionavam muito de acordo com a cor da pele. Acham que eu sou branco, mas na realidade sou mestiço, filho de pai angolano e de mãe portuguesa branca. E de certa maneira eu tenho um tom de pele bem claro. O que sou a esse nível deixo ao vosso critério.
Posso dizer-vos em criança cresci na Praia do Bispo em casa dos meus avós paternos do meu lado africano e a minha avó era a “mãe Ana” como as pessoas lhe chamavam. A Ana Castelo Branco Neves de seu nome era filha de uma bessangana da ilha e de um português que vivia no Cuanza Sul. Quando vinha de viagem a Luanda conheceu essa bessangana. Dessa ligação resultou uma das suas filhas. Vim a saber, depois da morte da minha avó, que essa menina tinha sido registada como filha de pai incógnito. Nunca foi registrada pelo pai. Apesar de tudo isso, a minha avó era uma das pessoas mais racistas que eu já conheci. Durante muitos anos questionei-me, tentei perceber o porquê, e portanto o estudo e o olhar para a história no seu contexto, ajudou-me a perceber como ela cresceu e as razões que a levaram a isso.